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sábado, 28 de março de 2026

Berthasaura leopoldinae: A Joia Sem Dentes do Cretáceo Brasileiro

 

Berthasaura
Intervalo temporal: Cretáceo Inferior
121,4–100,5 MaPossível registro no Cretáceo Superior
Classificação científicae
Reino:Animalia
Filo:Chordata
Classe:Reptilia
Clado:Dinosauria
Clado:Saurischia
Clado:Theropoda
Clado:Berthasauridae
Gênero:Berthasaura
de Souza et al., 2021
Espécie-tipo
Berthasaura leopoldinae
de Souza et al., 2021
A imagem mostra uma reconstrução 3D do esqueleto da Berthasaura leopoldinae, um pequeno dinossauro terópode. O modelo destaca seu corpo leve, postura bípede, membros anteriores curtos e cauda longa, típico de animais corredores.
Reconstrução 3D do esqueleto da Berthasaura leopoldinae

Berthasaura é um gênero de dinossauros terópodes da família Noasauridae, nativo da formação Goio-Erê, do Cretáceo Inferior, entre o Aptiano e o Albiano. Até o momento, somente uma espécie foi nomeada, Berthasaura leopoldinae. O gênero faz alusão a Bertha Maria Júlia Lutz, em honra a suas contribuições e atividades sociais em relação aos direitos das mulheres no Brasil.[1]

Descoberta e Nomeação

O holótipo do gênero, MN 7821-V, consiste em um esqueleto praticamente completo e desarticulado, incluindo crânio incompleto, mandíbula incompleta, escapulocoracoides, membros anteriores, vértebras cervicais, dorsais, região sacral praticamente completa, fêmures e tibias quase completas e seções da cauda. Esses elementos provém da localidade Cemitério dos Pterossauros, na cidade de Cruzeiro do Oeste, no estato brasileiro do Paraná, e foram escavados entre os anos de 2011 a 2015.[1] Essa localidade é um afloramento da formação Goio-Erê, do Grupo Caiuá e Bacia Bauru, que data das idades Aptiana e Albiana do Cretáceo Inferior. Recentemente a correspondência do Cemitério dos Pterossauros a formação Goio-Erê foi contestada, onde um grupo de pesquisadores afirma que esta localidade é da formação Rio Paraná,[2] também do grupo Caiuá. Na descrição de Berthasaura, o sítio paleontológico foi atribuído a formação Goio-Erê. A datação também é questionada, já que antigas pesquisas apresentavam um datação do Turoniano ao Campaniano, enquanto outras defendiam uma idade mais anterior, do Coniaciano. As pesquisas mais recentes tem tratado essas formações com pertencentes as idades Aptiana e Albiana do Cretáceo Inferior.[3] Atualmente, o holótipo se encontra armazenado na Coleção de Paleovertebrados do Museu Nacional.

O nome Berthasaura faz referência a pesquisadora Bertha Maria Júlia Lutz, em honra a sua ativa participação política e social principalmente nas questões em relação aos direitos das mulheres. O sufixo saura é o feminino do palavra grega para lagarto. Já o epíteto específico B.leopoldinae homenageia Maria Leopoldina, a primeira imperadora brasileira, que teve grande atuação na independência do Brasil em 1822.[1]

Descrição e Paleobiologia

Crânio e Dieta

Diferentemente da maioria dos noassaurídeos, Berthasaura leopoldinae apresentava características que favoreciam herbivoria, como crânio frágil, potencial rhamphothecae (bico queratinoso), dentário com bordas cortantes, ausência de dentes e superfície de mordedura simplificada. Essas características são convergentes com outros grupos de dinossauros provavelmente herbívoros, como OrnitomimossaurosOviraptorossaurosTherizinossaurosOrnitísquiosAvianos basais e o noassaurídeo chinês Limusaurus, além de pseudosúquios popossauróideos e tartarugas. Contudo, não é parcimonioso atribuir uma dieta herbívora a esse táxon baseada apenas em carácteres morfológicos, já que presença de gastrolitos e análises isotópicas foram utilzadas para inferir com maior confiança uma dieta herbívora aos grupos citados anteriormente. Nenhum gastrolito foi encontrado associado ao holótipo de Berthasaura, e nenhuma análise isotópica foi publicada até o momento. Desse modo, os descritores preferiram por atribuir um dieta onívora e potencialmente herbívora para o táxon.[1]

O único outro noassaurídeo que apresenta uma condição edêntula é Limusaurus, do Jurássico Superior Chinês, que mesmo sendo mais antigo que Berthasaura, é mais derivado, integrante da subfamília Elaphrosaurinae. Análises filogenéticas e anatômicas demonstram que esses gêneros desenvolveram anatomias cranianas independentemente e que a falta de dentes não é distribuída na família Noasauridae. Diferentemente de Limusaurus, que perdia os dentes durante seu crescimento, Berthasaura aparenta não ter dentes em nenhum estágio de desenvolvimento ontogênico ou os perdia muito cedo, ainda em um estágio juvenil.[1]

Tamanho e Idade

O holótipo do gênero é um dinossauro de porte diminuto, com menos de 1 metro de comprimento. O animal adulto não seria muito maior, já que o espécime provavelmente era um jovem subadulto, comparável aos estágios 3 ou 4 de Limusaurus inextricabilis.[1]

Ecologia

formação Goio-Erê é composta de estratos aeólicos, fato que demonstra as condições áridas desse paleoambiente. Durante o Cretáceo inferior, essa região era um deserto lar de outros répteis, como os pterossauros Caiuajara[4] e Keresdrakon,[5] o lagarto Gueragama[6] e o noassaurídeo Vespersaurus paranaensis,[2] da formação contemporânea Rio Paraná.

Classificação

Na sua descrição, Berthasaura é atribuída a Noasauridae, representando o táxon mais basal conhecido. Nenhuma das filogenias testadas nesse artigo encontraram Berthasaura e Vespersaurus formando um clado, demonstrando que esses gêneros, mesmo sendo contemporâneos, são distintos.

Filogenia por de Sousa et al(2021)[1]:

Ceratosauria

Berberosaurus

Ceratosauridae

Genyodectes

Ceratosaurus

Abelisauridae

Noasauridae

Berthasaura

Deltadromeus

Afromimus

Masiakasaurus

Noasaurus

Velocisaurus

Vespersaurus

MNN tig6 (cf. Spinostropheus)

Elaphrosaurus

CCG 20011

Limusaurus

Referências

  1.  de Souza, Geovane Alves; Soares, Marina Bento; Weinschütz, Luiz Carlos; Wilner, Everton; Lopes, Ricardo Tadeu; de Araújo, Olga Maria Oliveira; Kellner, Alexander Wilhelm Armin (18 de novembro de 2021). «The first edentulous ceratosaur from South America»Scientific Reports (em inglês) (1). 22281 páginas. ISSN 2045-2322doi:10.1038/s41598-021-01312-4. Consultado em 18 de novembro de 2021
  2.  Langer, Max Cardoso; Martins, Neurides de Oliveira; Manzig, Paulo César; Ferreira, Gabriel de Souza; Marsola, Júlio César de Almeida; Fortes, Edison; Lima, Rosana; Sant’ana, Lucas Cesar Frediani; Vidal, Luciano da Silva (26 de junho de 2019). «A new desert-dwelling dinosaur (Theropoda, Noasaurinae) from the Cretaceous of south Brazil»Scientific Reports. 9379 páginas. ISSN 2045-2322PMC 6594977Acessível livrementePMID 31243312doi:10.1038/s41598-019-45306-9. Consultado em 18 de novembro de 2021
  3. Batezelli, Alessandro (2017). «Continental systems tracts of the Brazilian Cretaceous Bauru Basin and their relationship with the tectonic and climatic evolution of South America»Basin Research (em inglês) (S1): 1–25. ISSN 1365-2117doi:10.1111/bre.12128. Consultado em 18 de novembro de 2021
  4. Manzig, Paulo C.; Kellner, Alexander W. A.; Weinschütz, Luiz C.; Fragoso, Carlos E.; Vega, Cristina S.; Guimarães, Gilson B.; Godoy, Luiz C.; Liccardo, Antonio; Ricetti, João H. Z. (13 de agosto de 2014). «Discovery of a Rare Pterosaur Bone Bed in a Cretaceous Desert with Insights on Ontogeny and Behavior of Flying Reptiles»PLoS ONE (8): e100005. ISSN 1932-6203PMC 4131874Acessível livrementePMID 25118592doi:10.1371/journal.pone.0100005. Consultado em 18 de novembro de 2021
  5. Kellner, Alexander W. A.; Weinschütz, Luiz C.; Holgado, Borja; Bantim, Renan a. M.; Sayão, Juliana M. (19 de agosto de 2019). «A new toothless pterosaur (Pterodactyloidea) from Southern Brazil with insights into the paleoecology of a Cretaceous desert»Anais da Academia Brasileira de Ciências (em inglês). ISSN 0001-3765doi:10.1590/0001-3765201920190768. Consultado em 18 de novembro de 2021
  6. Simões, Tiago R.; Wilner, Everton; Caldwell, Michael W.; Weinschütz, Luiz C.; Kellner, Alexander W. A. (26 de agosto de 2015). «A stem acrodontan lizard in the Cretaceous of Brazil revises early lizard evolution in Gondwana»Nature Communications. 8149 páginas. ISSN 2041-1723PMC 4560825Acessível livrementePMID 26306778doi:10.1038/ncomms9149. Consultado em 18 de novembro de 2021

Berthasaura leopoldinae: A Joia Sem Dentes do Cretáceo Brasileiro

No vasto panorama da paleontologia mundial, o Brasil tem se destacado como um celeiro de descobertas extraordinárias. Entre essas joias escondidas nas rochas do interior do país, surge o Berthasaura, um dinossauro terópode que desafia as expectativas convencionais sobre a dieta e a evolução dos predadores ancestrais. Nativo da Formação Goio-Erê, no Cretáceo Inferior, este pequeno réptil não é apenas uma peça fundamental para entender a biodiversidade antiga do Gondwana, mas também um tributo vivo à história das mulheres no Brasil.

Descoberta e Nomeação: Um Tributo Duplo

A história do Berthasaura começa nas areias antigas do estado do Paraná. O holótipo, catalogado como MN 7821-V, foi recuperado na famosa localidade conhecida como "Cemitério dos Pterossauros", situada no município de Cruzeiro do Oeste. As escavações, realizadas entre 2011 e 2015, revelaram um esqueleto praticamente completo, embora desarticulado, que inclui desde partes do crânio e mandíbula até vértebras, membros e seções da cauda. Atualmente, esse tesouro paleontológico está sob a guarda da Coleção de Paleovertebrados do Museu Nacional.
A nomenclatura deste dinossauro carrega um peso histórico e social significativo. O nome do gênero, Berthasaura, é uma homenagem direta à bióloga e ativista Bertha Maria Júlia Lutz, reconhecida por suas incansáveis lutas pelos direitos das mulheres e pelo sufrágio feminino no Brasil. O sufixo "saura" deriva do grego para lagarto, no feminino. Já o epíteto específico, leopoldinae, homenageia Maria Leopoldina, a primeira imperadora do Brasil, figura central na processo de independência nacional em 1822. Assim, o dinossauro eterniza duas das mulheres mais influentes da história brasileira.

Descrição Física e Paleobiologia: O Predador que Não Mordia

O que torna o Berthasaura leopoldinae verdadeiramente único entre seus parentes é a sua anatomia craniana. Diferentemente da maioria dos terópodes, que eram carnívoros equipados com dentes afiados, o Berthasaura apresentava uma condição edêntula, ou seja, não possuía dentes.

Crânio e Dieta

As características do crânio sugerem fortemente uma adaptação para a herbivoria ou onivoria. O animal possuía um crânio frágil, bordas cortantes no dentário e uma superfície de mordedura simplificada, indicando a presença potencial de uma rhamphothecae, um bico queratinoso semelhante ao das aves modernas e tartarugas.
Essas características representam um caso fascinante de evolução convergente. Traços similares são encontrados em grupos diversos como Ornithomimossauros, Oviraptorossauros, Therizinossauros e até em outro noassaurídeo chinês, o Limusaurus. No entanto, é importante notar que a certeza absoluta sobre a dieta herbívora geralmente requer evidências como gastrolitos (pedras estomacais) ou análises isotópicas, que ainda não foram publicadas para este espécime. Por cautela científica, os paleontólogos classificam sua dieta como onívora com potencial herbívoro.
Uma diferença crucial existe entre o Berthasaura e seu "primo" chinês Limusaurus. Enquanto o Limusaurus perdia os dentes durante o crescimento, passando de carnívoro para herbívoro, o Berthasaura parece não ter desenvolvido dentes em nenhum estágio, ou os perdeu muito cedo, ainda na fase juvenil.

Tamanho e Desenvolvimento

O Berthasaura era um dinossauro de porte diminuto. O espécime encontrado media menos de 1 metro de comprimento. Analisando os ossos, os pesquisadores concluíram que se tratava de um jovem subadulto, comparável aos estágios intermediários de crescimento do Limusaurus. Mesmo quando adulto, estima-se que não seria muito maior, consolidando-o como um dos pequenos terópodes do Cretáceo.

Ecologia: Vida no Deserto do Gondwana

O ambiente onde o Berthasaura viveu era drasticamente diferente do sul do Brasil atual. A Formação Goio-Erê é composta por estratos eólicos, evidenciando que a região era um deserto árido durante o Cretáceo Inferior (entre as idades Aptiana e Albiana).
Nesse ecossistema hostil, o Berthasaura não estava sozinho. Ele compartilhava o habitat com uma fauna diversificada de répteis adaptados à seca, incluindo:
  • Pterossauros: Como o Caiuajara e o Keresdrakon, que dominavam os céus.
  • Lagartos: Representados pelo Gueragama.
  • Outros Dinossauros: Como o Vespersaurus paranaensis, outro noassaurídeo contemporâneo.
Apesar de viverem na mesma época e região, estudos filogenéticos confirmam que Berthasaura e Vespersaurus são gêneros distintos e não formam um clado exclusivo, mostrando uma riqueza evolutiva surpreendente na família Noasauridae naquela localidade.

Classificação e Importância Científica

O Berthasaura é classificado dentro da família Noasauridae, um grupo de ceratossauros. Na sua descrição oficial, ele foi identificado como o táxon mais basal conhecido dentro deste grupo. Isso significa que ele representa uma linhagem antiga e fundamental para entendermos como esses dinossauros se diversificaram.
A existência de um noassaurídeo sem dentes na América do Sul expande nosso conhecimento sobre a plasticidade evolutiva desses animais. Enquanto na Ásia o Limusaurus mostrava essa adaptação, o Berthasaura prova que essa estratégia ecológica surgiu independentemente em diferentes continentes.
A descoberta reforça a importância da preservação do patrimônio paleontológico brasileiro e destaca como a ciência pode ser uma ferramenta de inclusão, celebrando figuras históricas femininas através da nomeação de espécies antigas. O Berthasaura leopoldinae não é apenas um fóssil; é um símbolo de resistência, adaptação e reconhecimento histórico esculpido na rocha.
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