segunda-feira, 25 de maio de 2026

Nesta foto: O barco de cabotagem, base de operações da pesquisa.

 Nesta foto: O barco de cabotagem, base de operações da pesquisa.




Publicado em 31 de agosto de 1963:

PARANAGUÁ 1963 - UM PIRATA RETORNA À FLOR DAS ÀGUAS (Parte 1).

Reportagem de ETIENNE ARREGUY & fotos de HÉLIO PASSOS.

Em 9 de março de 1718, vindo de Valparaíso, no Chile, entra na baía de Paranaguá, onde estivera no ano anterior, um galeão francês. Um corsário, também francês — por uma simples coincidência, porque um pirata não tem bandeira, a não ser aquela preta com uma caveira e duas tíbias cruzadas, que levanta ao alto do mastro quando em ação pirata — conhecendo muito bem o que ia no coração dos homens e nos porões no galeão, veio no seu encalço, ávido das pratas que transportava. E, entrando pela barra adentro, pelo largo da baía, fundeou na parte de fora da ilha da Cotinga.

O pesado galeão, percebendo a entrada do pirata que o perseguia, levantou ferros às pressas e procurou refúgio no porto de Nossa Senhora. A tentativa do pirata em persegui-lo foi frustrada pela escassez do vento, que o obrigou a permanecer fundeado na ponta da ilha da Cotinga.

Vila de Paranaguá. O ambiente é de alvoroço, os moradores medrosos de um ataque dos piratas, logo após abordagem e assalto ao galeão. O pavor, que desde o início era intenso, ganhou proporções à medida que as deficiências de defesa saltavam à vista do povo da vila. Inerme (sem armas), volta-se para a prece, pedindo a proteção suprema de Deus. Dirigiram-se especialmente à padroeira da vila, Maria Santíssima Nossa Senhora do Rosário.

(Registra um historiador da época: “Ou fosse acaso da natureza ou pela Divina Providência, o certo é que, estando o dia sereno, principiou a enuviar-se, formando uma tempestade, que nem tempo deu aos piratas a evitar o iminente perigo de seu corsário. Sendo este impelido pela fúria dos ventos e correnteza da maré vazante, foi bater sobre a ponta de uma pedra que se acha oculta debaixo da água, naquele local. Arrombando-se o costado do corsário, foi ele a pique, em 9 de março de 1718”.)

Quase 15 anos depois, entre 1730 e 1733, atendendo à provisão real, procurou-se fazer o salvamento dos restos do navio. Dois escravos, trazidos de Minas Gerais especialmente para a tarefa, mergulharam no folego em busca sofrida. O resultado das pesquisas arrolam, na parte de perdas, a morte de um dos escravos nas operações. Quanto aos valores, objetos e pertences de ouro e prata de diversos países, oito canhões, inúmeros pequenos objetos, munição, sinos... O navio, porém, era armado com 22 peças de artilharia e, como somente oito foram recuperadas, devem estar no fundo da baía os restantes 14 canhões e todo o carregamento existente nos porões. É dos documentos, também, que o navio transportava um grande cofre com 200 mil cruzados em ouro e prata amoedados, em barra ou em peças, “que haviam sido roubados pela costa de Índias de Castela e nesta do Brasil”. (Fim do 1.º plano.)

O segundo plano conta outra história. Início de 1963. Um advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Sociedade Geográfica Brasileira, que desde os 20 anos se dedica à procura de tesouros antigos, decide, empolgado, varejar o fundo da baía de Paranaguá, a fim de descobrir e resgatar o galeão. Seu nome: Fernando Bittencourt. Sua obra: pesquisas nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e publicação do livro “Roteiros e Tesouros”, em 1961. Assessorado por Roberto Lordy, também da Sociedade Geográfica Brasileira, Fernando Bittencourt localizou o maior número possível de documentos sobre o afundamento do corsário. Seguindo o seu faro de pesquisador, recorreu ao Arquivo do Estado de São Paulo, onde se encontra a maior parte das notícias da história do Paraná. Logo depois aos arquivos históricos oficiais do Brasil. E também, numa viagem de volta pelo Atlântico, ao Conselho Ultramarino de Lisboa.

De posse dos documentos, esquematizou o seu plano de trabalho. A pesquisa seria dividida em três fases. 1 — Circunscrever a área em que o barco afundou, o que foi feito em 10 dias (20 a 30 de abril). 2 — Localização do barco e seus restos (20 a 30 de julho). 3 e última — Recuperar as partes e pertences naufragados.

Dominado pela tarefa, Fernando Bittencourt seguiu de São Paulo, onde reside, para Paranaguá, com a família e com Roberto Lordy e a esposa. Embora tenha deitado excelentes laços e amarras na cidade, poucos, é de justiça dizer, acreditavam no sucesso do empreendimento. O aventureiro, entretanto, não esmoreceu e equipou-se com segurança, reunindo a uma pequena embarcação uma tripulação tranquila e decidida. Seus homens se alinham pelos nomes: Juan Rodríguez Miralles, espanhol de Noya, La Coruña, escafandrista, experiência no serviço de salvatagem do “Príncipe Astúrias”, afundado no farol da Ponta do Boi. Além de Miralles, foi contratada em Paranaguá uma tripulação composta de Nelson Inácio, Eulálio Rodrigues, Natanael Coral, Deonal Mendonça e o Tenente Acir João Bezerra.

E o serviço começou com um pequeno escaler utilizado para jogar a garatéia ao fundo do mar. Como, porém, todo o fundo da baía é coalhado de pedras, muito atrasou a busca porque a garatéia se prendia frequentemente. É quando entram Janguito e Magafá: o primeiro, pescador que conhece o mar e a ponta da ilha da Cotinga melhor do que a sua rude mão; o segundo, funcionário do porto de Paranaguá, uma espécie de enciclopédia histórica da cidade. Seguindo as instruções desses dois homens, Miralles conseguiu, após nove dias de luta, localizar o barco e retirar um pedaço de corrente, já completamente oxidada. Isso se deu a 30 de julho passado. Na tarde do dia seguinte, em nova investida, retiraram se pedaços de madeira da proa do corsário (Último plano.) Inicia-se, para Fernando Bittencourt, a fase de levantamento de recursos técnicos para retirar o velho navio afundado do poço de lodo em que se encontra. Um detalhe: o navio corsário acha-se numa profundidade de 15 metros, num poço. Ao seu redor, para maior dor de cabeça de Fernando Bittencourt, o terreno está a 6, 7, 10 metros abaixo da superfície.

Fonte: O Cruzeiro - Rio de Janeiro/RJ, 31 de agosto de 1963, ed. 47 ,páginas 113 à 114.

#ilhadomel #ilhadomelpr #pirata #piratas #paranagua #paranaguapr #corsario #corsarios #tesouro #escafandro #escafandrista 

Nenhum comentário:

Postar um comentário