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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Damião Barbosa de Araújo: O Mestre da Música Baiana e Figura Central da Arte Luso-Brasileira

 

Capa da parte de violoncelo da Novena para o Senhor Bom Jesus dos Navegantes.

Damião Barbosa de Araújo (Ilha de Itaparica, 27 de setembro de 1778 — Salvador, 20 de abril de 1856) foi um violinista, professor, maestro e compositor brasileiro.

Filho do sapateiro e músico amador Francisco Barbosa de Araújo, fez seu primeiro aprendizado musical com o pai e depois estudou com Alexandre Gonçalves da Fonseca. Tornou-se talentoso violinista, e tocou no antigo Teatro Guadalupe de Salvador, em apresentações de comédias de Antônio José da Silva, o Judeu. Com 18 anos ingressou no 1º Regimento de Linha de Salvador como soldado músico. Apresentou-se várias vezes diante de D. João quando o príncipe regente chegou à cidade em 1808 fugindo da invasão de Portugal.[1]

Transferiu-se para o Rio de Janeiro acompanhando a família real, na posição de chefe e compositor da banda da Brigada Real da Marinha, além de apresentar-se junto com corpo musical da Real Capela e também da Real Câmara, grupo sediado no Palácio da Quinta da Boa Vista e ocupado com a música para entretenimento privado do príncipe, mas é provável que essas apresentações fossem esporádicas e não contratos estáveis e remunerados, pois na década de 1810 fez requerimentos para obtenção de empregos ou uma pensão a fim de aliviar "a indigência e desgraça em que vive e para assistir sua pobre família", e em 1817 declarou ter-se apresentado "quer na Capela quer na Real Câmara sem outra obrigação, que a obediência de vassalo, e o amor de cidadão". Em 1818 foi nomeado sucessor do seu antigo mestre Alexandre da Fonseca no mestrado da capela da Catedral de Salvador quando ele falecesse, ficando isento da obrigação de ser sacerdote para a ocupação do cargo. Em 1821 outra petição evidencia que ainda estava uma situação difícil, dizendo que sua esposa era uma doente crônica e sua arte lhe provia escassos meios de vida, pedindo para ser nomeado para algum posto na Alfândega da Bahia, para onde tencionava se mudar.[2] No Rio também tornou-se membro da Irmandade de Santa Cecília, entrou em contato com os destacados compositores José Maurício Nunes Garcia e o Marcos Portugal, e teve uma missa de sua autoria apresentada na Quinta em 1817.[1]

Memento Baiano - 1a página (Partitura disponível em Portal Musica Brasilis

Em 1828 é encontrado novamente em Salvador, onde compôs um Te Deum e passou a atuar como mestre de capela da Catedral. Entre 1833 e 1835 tocou nas festas de Santa Isabel promovidas pela Ordem Terceira de São Francisco, em 1835 um jornal do Rio noticiou a apresentação de "uma nova sinfonia do hábil professor Damião, bem conhecido nesta capital por suas admiráveis composições", e em 1848 ofereceu um Te Deum a D. Pedro II.[1]

A maior parte da sua obra é sacra com uso da voz, mas dedicou-se também à música instrumental em quartetos e aberturas, compôs árias e duetos, coros para peças teatrais, marchas militares e peças em gêneros mais populares como a modinha, o lundu e a valsa.[3] Muitas das suas obras foram perdidas, incluindo cinco das suas sete aberturas e uma ópera bufa, A Intriga Amorosa, que parece não ter sido nunca encenada, restando cerca de vinte. Sua composição mais conhecida é o Memento Baiano para coro e orquestra. Também merecem destaque o Requiem para quatro vozes e orquestra, os dois Te Deums (um para quatro vozes e órgão e outro para coro e orquestra), e a 4ª Missa para quatro vozes e orquestra. Sua obra circulou por várias cidades brasileiras em sua época e era muito apreciada. A crítica contemporânea o coloca como o principal mestre baiano da sua geração. Segundo o musicólogo Jaime Diniz, foi "sem dúvida uma das figuras mais completas da história musical da Bahia". Foi casado com Silvéria Maria da Conceição, com quem teve vários filhos.[1]

Referências

  1.  Cardoso, André. A Música na Corte de D. João VI. Martins Fontes, 2008, pp. 56-63
  2. Blanco, Pablo Sotuyo. "Damião Barbosa de Araújo: de músico militar a mestre de capela". In: Anais do XV Congresso da ANPPOM, 2005
  3. "Damião Barbosa de Araújo". In: Enciclopédia Itaú Cultural, online.

Damião Barbosa de Araújo: O Mestre da Música Baiana e Figura Central da Arte Luso-Brasileira

Damião Barbosa de Araújo (Ilha de Itaparica, Bahia, 27 de setembro de 1778 — Salvador, 20 de abril de 1856) foi um violinista, professor, maestro e compositor brasileiro, reconhecido como o principal mestre baiano de sua geração e uma das figuras mais completas da história da música na Bahia, conforme destacou o musicólogo Jaime Diniz. Sua trajetória atravessou profundas transformações no Brasil — da vinda da Família Real à Independência e à consolidação do Império — e deixou uma marca indelével na música sacra, instrumental e popular do país.

Origem e formação inicial

Filho de Francisco Barbosa de Araújo, sapateiro e músico amador, Damião deu seus primeiros passos na arte musical ao lado do pai. Depois, aperfeiçoou-se com o renomado mestre Alexandre Gonçalves da Fonseca, que viria a ser uma referência central em sua carreira.
Ainda jovem, demonstrou talento excepcional como violinista: tocou no antigo Teatro Guadalupe, em Salvador, em apresentações de comédias de Antônio José da Silva, o Judeu. Com apenas 18 anos, ingressou no 1º Regimento de Linha de Salvador como soldado músico. Em 1808, quando o Príncipe Regente D. João chegou à Bahia fugindo das invasões napoleônicas em Portugal, Damião se apresentou diversas vezes diante da Família Real, chamando a atenção para sua habilidade.

Na Corte do Rio de Janeiro

Acompanhou a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, assumindo o cargo de chefe e compositor da banda da Brigada Real da Marinha. Também se apresentou com os corpos musicais da Real Capela e da Real Câmara — grupo responsável pelo entretenimento privado do Príncipe Regente no Palácio da Quinta da Boa Vista.
Apesar do prestígio, essas apresentações parecem ter sido esporádicas e sem vínculo empregatício estável ou remuneração fixa. Na década de 1810, seus pedidos de ajuda revelam uma realidade difícil: ele solicitou empregos ou pensões para aliviar “a indigência e desgraça em que vive e para assistir sua pobre família”. Em 1817, declarou ter se apresentado “quer na Capela quer na Real Câmara sem outra obrigação, que a obediência de vassalo, e o amor de cidadão”.
Ainda assim, o período no Rio foi fundamental para seu desenvolvimento: tornou-se membro da Irmandade de Santa Cecília, conviveu com grandes nomes da música luso-brasileira como José Maurício Nunes Garcia e Marcos Portugal, e em 1817 teve uma missa de sua autoria executada na Quinta da Boa Vista. Em 1818, recebeu uma importante garantia: foi nomeado sucessor de seu mestre Alexandre Gonçalves da Fonseca no cargo de mestre de capela da Catedral de Salvador, com uma exceção especial — ficava isento da obrigação de se ordenar sacerdote para exercer a função. Mesmo em 1821, ainda enfrentava dificuldades: em uma petição, relatou que sua esposa sofria de doença crônica e que a arte lhe rendia parcos recursos, pedindo um posto na Alfândega da Bahia, para onde planejava retornar.

Retorno à Bahia e consagração

Em 1828, já de volta a Salvador, assumiu de fato o posto de mestre de capela da Catedral e compôs um Te Deum para solenidades religiosas. Sua presença foi constante nas principais celebrações da região: entre 1833 e 1835, tocou nas festas de Santa Isabel promovidas pela Ordem Terceira de São Francisco; em 1835, um jornal do Rio de Janeiro noticiou com destaque a execução de “uma nova sinfonia do hábil professor Damião, bem conhecido nesta capital por suas admiráveis composições”; e em 1848, ofereceu pessoalmente um Te Deum ao jovem Imperador D. Pedro II.

Obra e legado artístico

Sua produção é vasta e diversificada, transitando com maestria entre gêneros e estilos:
  • Música sacra: o cerne de sua obra, com destaque para o célebre Memento Baiano (para coro e orquestra), o Réquiem para quatro vozes e orquestra, dois Te Deums (um para quatro vozes e órgão, outro para coro e orquestra) e a 4ª Missa para quatro vozes e orquestra;
  • Música instrumental: quartetos, aberturas, sinfonias;
  • Música vocal e cênica: árias, duetos, coros para peças teatrais e a ópera bufa A Intriga Amorosa (que nunca chegou a ser encenada);
  • Gêneros populares: marchas militares, modinhas, lundus e valsas.
Muitas de suas obras se perderam ao longo do tempo — entre elas cinco das sete aberturas que compôs —, restando cerca de vinte títulos preservados. Em sua época, sua música circulou por diversas capitais brasileiras e era amplamente elogiada por críticos e público.
Casou-se com Silvéria Maria da Conceição, com quem teve vários filhos. Faleceu em Salvador, em 20 de abril de 1856, deixando um legado que o consolida como uma das referências maiores da música brasileira do século XIX.