domingo, 4 de janeiro de 2026

Xale

 

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sábado, 3 de janeiro de 2026

HISTORIANDO A IGREJA SENHOR DO BOM JESUS DO PORTÃO

 HISTORIANDO A IGREJA SENHOR DO BOM JESUS DO PORTÃO

Históricas fotos obtidas pelo fotógrafo Arthur Wischral, em 1952, uma contempla a Avenida República Argentina e a Praça hoje nominada Padre João Bagozzi, tendo projetada nela a sombra da fachada da Igreja Senhor do Bom Jesus do Portão.
A outra foto mostra a grandeza da Igreja e a singularidade da Avenida República Argentina, à época.
Em 1916, foi erguida no local uma Capela em tijolos e barro e se tornou um ponto tradicional de devoção para os moradores e fieis do bairro Portão, de Curitiba, na época.
Em 1928, no local foi edificada outra igreja com o nome Igreja Senhor do Bom Jesus do Portão que, oito anos após, passou à condição de Paróquia.
Os quatro sinos existentes na Igreja, instalados em 1959, vieram diretamente da Alemanha.
Em 1986, em comemoração aos 50 anos de história o local recebeu uma ampla reforma interna.
O contexto da Paróquia Senhor Bom Jesus do Portão também auxiliou no desenvolvimento do bairro. Vendo a necessidade de uma melhor formação educacional para a região, o Padre João Bagozzi, pároco da Igreja Senhor Bom Jesus do Portão, decidiu inaugurar uma pequena escola ao lado da igreja, batizada como Imaculada Conceição.
As primeiras aulas foram em fevereiro de 1955 e já no ano seguinte o espaço foi ampliado. Em 1960, na fase em que a escola continuava seu crescimento, o Padre Bagozzi faleceu, vítima de um acidente de trânsito.
Seu substituto, o Padre Dario Zampier, manteve a ampliação da Escola, que foi concluída em 1963. Naquele ano, era inaugurado o Ginásio Padre João Bagozzi.
Em 1973, o ginásio e a Escola Imaculada Conceição são unidos, fundando o Colégio Bagozzi.
Fonte: curitibaspace.com.br / Fotos: internet)
Paulo Grani




A história de Maria Bueno me pareceu um pedido de desculpas escrito às pressas. Um pedido coletivo, tardio, feito por uma cidade inteira que falhou em proteger uma mulher viva e, por isso, precisou transformá-la em santa depois de morta...

 A história de Maria Bueno me pareceu um pedido de desculpas escrito às pressas. Um pedido coletivo, tardio, feito por uma cidade inteira que falhou em proteger uma mulher viva e, por isso, precisou transformá-la em santa depois de morta...


Desculpe a aridez de minhas palavras, mesmo porque eu tenho que definir uma narrativa e não tive outra ideia a não ser esta.

Maria da Conceição Bueno nasceu em Morretes, em 8 de dezembro de 1854, embora alguns documentos insistam em empurrá-la dez anos adiante, como se até a data de nascimento precisasse ser disputada. Filha de Pedro Bueno e Júlia Maria, cresceu sob o peso de uma ausência precoce. O pai teria morrido na Guerra do Paraguai, e desde cedo a vida ensinou a Maria que as perdas chegam sem pedir licença. Ainda menina, foi levada para Curitiba e viveu em um ambiente religioso, possivelmente num convento das Irmãs Marcelinas. Ali aprendeu a ler, escrever, costurar, bordar, sobreviver.

Quando saiu daquele espaço protegido, encontrou uma cidade pequena, úmida, desconfiada. Trabalhou como lavadeira e doméstica, morando na região da Rua Saldanha Marinho. Era descrita como uma mulher parda, cafuza, muito bonita, dessas belezas que incomodam porque não pedem permissão para existir. Gostava de dançar. Gostava de se vestir bem. Frequentava bailes. Maria da Conceição Bueno tinha 38 anos quando foi assassinada. Não era uma menina imprudente. Era uma mulher adulta, dona dos próprios passos.

Na noite de 29 de janeiro de 1893, Maria fez o que fazia tantas outras vezes. Foi a um baile. Polcas, valsas, xotes. O som do salão abafado pelo riso, pelo chão batido vibrando sob os passos. Do lado de fora, a cidade era outra. Lampiões a querosene lançavam uma luz amarela e cansada, criando sombras longas nas esquinas. As ruas eram de terra e macadame, o barro vermelho grudando nas barras dos vestidos. O sereno descia fino, quase uma neblina, e o silêncio só era quebrado pelo coaxar dos sapos e pelo latido distante de algum cão.

Inácio José Diniz, anspeçada do Exército, barbeiro da Cavalaria, não queria que ela tivesse ido. Ciumento, violento, abandonou o posto no quartel e a esperou no caminho de volta, escondido num matagal da então Rua dos Campos Gerais, hoje Vicente Machado, quase na esquina com a Visconde do Rio Branco. Naquele tempo, ali era o fim da cidade. Depois dos lampiões, só campo, cerca de madeira e escuridão.

O ataque foi rápido e brutal. Uma navalha, talvez um punhal. Maria foi degolada. O sangue se misturou à terra úmida, escurecendo ainda mais o chão. Curitiba acordou no dia seguinte com a sensação de que algo tinha se quebrado para sempre.

O julgamento de Diniz parou a cidade. Júri popular, cochichos, curiosidade mórbida. No fim, a absolvição. Crimes de honra ainda encontravam abrigo fácil nos tribunais da época. Mas o povo não aceitou o veredito. E quando, em 1894, durante a Revolução Federalista, Diniz foi preso com mulas roubadas e fuzilado pelos maragatos, a leitura popular foi imediata. Não era política. Era acerto de contas. Justiça tardia, mas justiça.

O que veio depois é o que transforma a história em mito. No local do crime, fincaram uma cruz de madeira. Dizem que, do sangue seco de Maria, brotou uma rosa vermelha. A lenda não é ingênua. Ela serve para limpar a imagem de uma mulher que dançava, que era livre, que incomodava. A rosa transforma o escândalo em pureza, a vítima em mártir, a culpa coletiva em devoção.

Maria Bueno virou santa sem altar oficial. Santa parda, santa do povo. Numa cidade marcada pelo racismo e pela exclusão, a devoção a uma mulher pobre, negra, lavadeira, foi também uma forma de resistência. O povo não se via nos santos europeus de mármore frio. Via-se nela.

Hoje, Maria descansa no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, no bairro São Francisco. Logo na entrada, à esquerda. Um túmulo azul e branco, simples e impossível de ignorar. Um pequeno santuário protegido por grades de ferro, sempre cheio de velas, flores, copos d’água, bilhetes dobrados, fotos amareladas, ex-votos de mãos, pés, cabeças. Gente pedindo cura, emprego, reconciliação, proteção. Gente pedindo o que a vida costuma negar primeiro aos pobres.

Os milagres atribuídos a Maria Bueno não falam de grandes revelações teológicas. Falam de feridas que fecham, de dores que aliviam, de mulheres que pedem proteção contra maridos violentos. É como se ela, morta por ser livre, tivesse se tornado guardiã das que ainda tentam sobreviver.

A Igreja nunca a canonizou. E talvez nunca o faça. Ainda assim, quem passa por ali costuma baixar a cabeça. Alguns fazem o sinal da cruz. Outros apenas respeitam. Porque Maria Bueno não é santa por decreto. É santa por necessidade.

A poeira da antiga Vicente Machado virou asfalto. Os lampiões deram lugar às luzes de LED. Curitiba cresceu, se modernizou, se esqueceu de muita coisa. Mas o brilho das velas no túmulo de Maria Bueno permanece o mesmo desde 1893. O tempo passa, mas a culpa mal resolvida cria raízes. E floresce. Às vezes, em forma de rosa vermelha.

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Fagner Oliveira


Operários de muitos países fundaram a Sociedade Internacional da Água Verde 1974

 Operários de muitos países fundaram a Sociedade Internacional da Água Verde 1974

Há 69 anos, um grupo de operários, italianos, alemães, poloneses, brasileiros e de outras raças, reunidos num bosque, em festejo de piquenique, já tradicional entre eles, resolveram transformar aqueles encontros em uma Sociedade. Dessa idéia nasceu o então Sociedade Operária Beneficente Internacional de Água Verde, com o objetivo quase exclusivo de auxiliar os companheiros em casos de doença e outras necessidades.
A denominação de Internacional foi devido às diversas descendências que figuravam no grupo. Essa Sociedade é a mais antiga dos bairros de Curitiba e uma das primeiras a surgirem na Capital. Hoje conta com 5 mil e 800 associados e sempre funcionou no mesmo local, Avenida Iguaçu, esquina com Avenida República Argentina.
Quando a Sociedade Operária Internacional de Água Verde foi fundada o bairro ainda não existia. Havia pouco mais de meia dúzia de casas. Com a sua constituição as famílias foram se unificando, se unindo e as reivindicações dos moradores eram encaminhadas às autoridades através dos diretores da entidade. Assim a região foi crescendo e ruas sendo abertas. Hoje o bairro de Água Verde é um dos poucos que apresenta quase todas as suas vias de comunicação asfaltadas.
O atual presidente da Sociedade, sr. Basílio Machado Filho, que preside a entidade desde 1954, conta que no início deste século, existia atrás da sede da sociedade, um riacho que nascia na surgia nas imediações da então estrada que ia a São José dos Pinhais — hoje início da, provavelmente "Avenida das Torres" ou similar, mas no original parece "que ia a São José dos Pinhais — hoje início da
Avenida República Argentina,
que atravessava o bosque onde
é hoje, em parte, o terreno da
Sociedade.
Era comum, então ouvir-se os
garotos daqueles bons tempos
dizerem: "Mamãe, eu vou brin-
car ali no riozinho de água ver-
de e já volto".
Essa denominação "água ver-
de", foi em conseqüência da
vegetação e do limo verde que
nascia por baixo da água e nas
bordas do riacho, dando um fel-
so colorido verde à água, assim
como os ladrilhos de cores às
piscinas. Generalizou-se o termo
"água verde" e o bairro não
escapou do batismo popular:
"Bairro da Água Verde". Antes
de obter esse batismo, era de-
nominação oficial "Colonia
Dantas", onde foram localizadas,
no século passado, inúmeras fa-
mílias italianas.
Essa denominação "Bairro da
Água Verde", serviu, também,
para o título de um baião, que
foi dado ao sr. Antonio de Al-
meida, pela bravura com que se
houve na Guerra do Paraguai,
onde perdeu o braço esquerdo
nas barrancas do Humaité.
A SOCIEDADE
Foi assim que nos primeiros
anos deste século, no bosque daresidência da família Pedro Giovannoni, de propriedade de Sebastião Moletta, onde hoje está a sede da Sociedade, os moradores do Bairro da Água Verde, que na sua maioria era composta de italianos, alemães, poloneses, portugueses e alguns espanhóis, realizavam, quase todos os fins de semana, churrascadas e algumas danças para a alegria da mocidade daquele início de século.
Em numa dessas festividades de ensaio, foi que surgiu a iniciativa da fundação da Sociedade que é hoje a Sociedade Operária Beneficente Internacional da
Água Verde, com a finalidade de auxiliar os operários e suas respectivas famílias em casos de doenças, acidentes e falecimentos, bem como proporcionar diversões variadas de cunho artístico, cultural e recreativo. Essa finalidade prova que a previdência social no Brasil, teve início com as sociedades operárias beneficentes. A idéia para fundação da Sociedade Internacional, nasceu, realmente, nas festividades do 30 de outubro de 1904. Em 1.º de janeiro de 1905, foi declarada fundada a Sociedade e nomeada a primeira diretoria, tendo como presidente AgostinhoBerlim, 1.º e 2.º secretários Batista Toso e Domingos Costa e tesoureiro Germano Eggi. Além desses figuram como sócios fundadores David Meller, Frederico Regalicerro, Rafael Tocstchini, Jacob Fanestil, Fidelis Thomaz, Eugênio Ceschim, Constantino Razzolin, João Potasi, Pedro Giovannoni, Luciano Tedesco e Francisco Klenk. Os primeiros associados eram em número de aproximadamente 50.
Até hoje passaram pela presidência da Sociedade 25 presidentes com o atual, Basílio Machado Filho.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

ENTENDENDO O NOME DA RUA DO FOGO

 ENTENDENDO O NOME DA RUA DO FOGO

Segundo o historiador Valério Hoerner, a antiga Rua do Fogo, hoje Rua São Francisco, Curitiba, ela levava esse nome por conta da “balbúrdia” que nela acontecia, devido à prostituição.
As profissionais do ramo (prostitutas), portanto, aglomeravam-se naquela rua sem que a administração municipal as contivesse ou reunisse forças para conter tão inacreditável ousadia. [...] O nome porém era oficioso. Do fogo por causa da balbúrdia, mas como se encontrava em estado rudimentar de urbanização, seria bem melhor que ficasse por ali mesmo, sem misturanças desagradáveis. Afinal, Curitiba era uma cidade com reputação ilibada.
Na década de 1860 podemos observar iniciativas que tinham como objetivo dar um novo aspecto à tão mal falada Rua do Fogo. A começar por uma obra de aterro e empedramento macadamizado da Rua do Fogo, que começou a ser discutida entre 1863 e 1864. Sua pavimentação é uma das primeiras da capital e a rua segue até hoje ladrilhada de pedras, sem ser asfaltada, o que a faz ser um dos últimos remanescentes da paisagem colonial brasileira em Curitiba.
[...] Em 1871, passou a se chamar Rua São Francisco, em alusão à Igreja da Ordem, cujo nome oficial é Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas. Essa mudança buscou também, através do respeito que o catolicismo e o nome do Santo impunham, moralizar a rua e a região.
Além disso, a rua tinha também muitos comércios, como podemos atestar por anúncios de jornais de época, que iam desde a venda de escravizados, restaurantes, hotéis, até roupas e porcelanas.
Ao longo de sua história a rua sempre teve um aspecto mais comercial do que residencial. No século 20, quando a rua já se chamava São Francisco, surgem alguns edifícios e empreendimentos que até hoje estão na paisagem urbana da rua.
Um desses empreendimentos é o da Livraria e Papelaria João Haupt, uma das mais antigas e tradicionais de Curitiba. A papelaria continua no mesmo lugar e no mesmo edifício, porém com modificações. Hoje ela ocupa a esquina da Rua São Francisco com a Barão do Serro Azul, coisa que não acontecia antigamente e se tornou possível devido à demolição de um prédio que ficava na esquina, onde funcionou nesse edifício uma das primeiras sedes do Clube Curitibano.
Posteriormente, foi instalada nele a Delegacia Fiscal do Tesouro Federal.
As delegacias fiscais foram criadas a partir de um decreto de 1892, quando o Brasil já era República. No próprio prédio da Delegacia Fiscal havia um brasão da República. Portanto, é possível afirmar que o prédio teve essa utilização desde, pelo menos, 1892.
Não se sabe a data exata, mas posteriormente o edifício foi demolido e não houve nenhuma construção no espaço em que estava, fazendo com que a Livraria João Haupt ocupasse também a esquina. [...]
(Texto extraido de turistoria.com.br / Fotos: Acervo IHGPr)
Paulo Grani
Foto da Delegacia Fiscal sita à Rua Graciosa esquina com Rua Sao Francisco, Curitiba, em 1905.





José Beggi e a Casa de Tijolos que Sonhou na Rua Fernando Amaro: Um Retrato da Simplicidade Urbana em Curitiba (1917)

 Denominação inicial: Projecto de casa para o Snr. José Beggi.

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência Econômica

Endereço: Rua Fernando Amaro

Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 95,00 m²
Área Total: 95,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 27/02/1917

Alvará de Construção: Talão Nº 687; N° 998/1917

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.

Referências: 

CHAVES, Eduardo Fernando. Projecto de Casa para o Snr. José Beggi à Rua Fernando Amaro. Planta do pavimento térreo, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

José Beggi e a Casa de Tijolos que Sonhou na Rua Fernando Amaro:
Um Retrato da Simplicidade Urbana em Curitiba (1917)

Em plena Primeira Guerra Mundial, enquanto o mundo se despedaçava em trincheiras e alianças, em Curitiba um modesto cidadão chamado José Beggi dava início a um projeto profundamente humano: construir uma casa onde pudesse viver com sua família e, ao mesmo tempo, sustentá-la com o trabalho de seu próprio comércio. Era fevereiro de 1917. A cidade ainda respirava os ares de uma vila em transição, marcada por ruas de terra, bondes puxados a burro e uma arquitetura que misturava tradição lusitana, influências germânicas e o pragmatismo do cotidiano.

Assinado pelo arquiteto Eduardo Fernando Chaves, o “Projecto de casa para o Snr. José Beggi” revela, em suas linhas sóbrias, o retrato de uma classe trabalhadora que, com esforço e dignidade, buscava se firmar no tecido urbano da capital paranaense.


Uma Casa-Econômica, Mas Cheia de Propósito

Com apenas 95 metros quadrados em um único pavimento, a construção projetada para José Beggi enquadra-se na categoria de residência econômica com uso misto — um modelo arquitetônico essencial à formação dos bairros centrais de Curitiba nas primeiras décadas do século XX. Localizada na Rua Fernando Amaro, provavelmente em um trecho ainda em desenvolvimento, a casa era pensada para maximizar funcionalidade sem abrir mão da decência.

A planta do térreo, conservada em microfilme digitalizado, mostra uma distribuição clara: a frente voltada para a rua abrigava o comércio — talvez uma pequena mercearia, oficina ou armarinho — com acesso direto do passeio público. Nos fundos ou lateral, acessórios como cozinha, banheiro e área de serviço garantiam o mínimo necessário à vida doméstica. O projeto também incluía corte e fachada frontal, revelando preocupação com a estética, ainda que dentro dos limites do econômico.


Tijolos, Trabalho e Permanência

A escolha pela alvenaria de tijolos como técnica construtiva era, na época, um sinal de intenção de permanência. Diferente das construções de madeira — mais rápidas e baratas, mas vulneráveis ao fogo e à deterioração —, o tijolo representava solidez, investimento e futuro. José Beggi não estava apenas erguendo um abrigo; estava plantando raízes.

O alvará de construção, emitido sob o Talão nº 687 e registro nº 998/1917, confirma a legalidade e o engajamento do proprietário com as normas urbanas emergentes. Em uma época em que muitas construções ainda eram feitas sem fiscalização formal, o fato de Beggi ter buscado o alvará demonstra respeito pela cidade e por suas leis, além de uma consciência cívica rara entre pequenos proprietários da época.


Desaparecida, Mas Não Esquecida

Infelizmente, assim como o prédio de Marinha Dias de Paiva, a casa de José Beggi não resistiu ao tempo. Registrada como demolida até 2012, sua ausência física é um lembrete doloroso do quanto Curitiba perdeu ao negligenciar seu patrimônio modesto — aquele que não chama atenção por esplendor, mas que carrega, em cada detalhe, a história real de seus habitantes comuns.

Não há fotografias do edifício em pé. Apenas o projeto arquitetônico, preservado em uma única prancha com planta, corte e fachada, sobrevive como testemunha. E é nesse documento técnico que encontramos a alma do projeto: a geometria humilde, as proporções equilibradas, a integração entre rua e residência.


José Beggi: O Herói Anônimo da Cidade

Hoje, quase nada se sabe sobre a vida pessoal de José Beggi — sua origem, profissão, família ou destino. Mas seu nome, gravado no projeto e no alvará, é suficiente para devolvê-lo à história. Ele pertence à geração de homens e mulheres que, com as próprias mãos, ergueram Curitiba não com monumentos, mas com casas de esquina, portas abertas e balcões de atendimento.

Sua residência-comércio era mais do que um imóvel: era um microcosmo da economia de bairro, um espaço de trocas, cuidados e sobrevivência. Era ali que o pão era vendido, a encomenda entregue, a conversa fiada ao fim do dia. Era ali que a cidade realmente acontecia.


Memória em Tijolos Invisíveis

Embora a casa tenha sido demolida, seu legado permanece nos arquivos, nas ruas que ainda guardam o traçado antigo, e na memória coletiva daqueles que entendem que a grandeza de uma cidade está também em seus edifícios simples.

Que José Beggi seja lembrado não como um nome esquecido em um microfilme, mas como símbolo de todos os cidadãos que, com pouco, fizeram muito. Porque construir uma casa — mesmo pequena, mesmo econômica — é sempre um ato de esperança.


Referência Arquivística:
CHAVES, Eduardo Fernando. Projecto de Casa para o Snr. José Beggi à Rua Fernando Amaro. Planta do pavimento térreo, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.

“Nem toda grandeza precisa de torres. Às vezes, basta um tijolo, um balcão e a coragem de começar.”