sábado, 3 de janeiro de 2026

A história de Maria Bueno me pareceu um pedido de desculpas escrito às pressas. Um pedido coletivo, tardio, feito por uma cidade inteira que falhou em proteger uma mulher viva e, por isso, precisou transformá-la em santa depois de morta...

 A história de Maria Bueno me pareceu um pedido de desculpas escrito às pressas. Um pedido coletivo, tardio, feito por uma cidade inteira que falhou em proteger uma mulher viva e, por isso, precisou transformá-la em santa depois de morta...


Desculpe a aridez de minhas palavras, mesmo porque eu tenho que definir uma narrativa e não tive outra ideia a não ser esta.

Maria da Conceição Bueno nasceu em Morretes, em 8 de dezembro de 1854, embora alguns documentos insistam em empurrá-la dez anos adiante, como se até a data de nascimento precisasse ser disputada. Filha de Pedro Bueno e Júlia Maria, cresceu sob o peso de uma ausência precoce. O pai teria morrido na Guerra do Paraguai, e desde cedo a vida ensinou a Maria que as perdas chegam sem pedir licença. Ainda menina, foi levada para Curitiba e viveu em um ambiente religioso, possivelmente num convento das Irmãs Marcelinas. Ali aprendeu a ler, escrever, costurar, bordar, sobreviver.

Quando saiu daquele espaço protegido, encontrou uma cidade pequena, úmida, desconfiada. Trabalhou como lavadeira e doméstica, morando na região da Rua Saldanha Marinho. Era descrita como uma mulher parda, cafuza, muito bonita, dessas belezas que incomodam porque não pedem permissão para existir. Gostava de dançar. Gostava de se vestir bem. Frequentava bailes. Maria da Conceição Bueno tinha 38 anos quando foi assassinada. Não era uma menina imprudente. Era uma mulher adulta, dona dos próprios passos.

Na noite de 29 de janeiro de 1893, Maria fez o que fazia tantas outras vezes. Foi a um baile. Polcas, valsas, xotes. O som do salão abafado pelo riso, pelo chão batido vibrando sob os passos. Do lado de fora, a cidade era outra. Lampiões a querosene lançavam uma luz amarela e cansada, criando sombras longas nas esquinas. As ruas eram de terra e macadame, o barro vermelho grudando nas barras dos vestidos. O sereno descia fino, quase uma neblina, e o silêncio só era quebrado pelo coaxar dos sapos e pelo latido distante de algum cão.

Inácio José Diniz, anspeçada do Exército, barbeiro da Cavalaria, não queria que ela tivesse ido. Ciumento, violento, abandonou o posto no quartel e a esperou no caminho de volta, escondido num matagal da então Rua dos Campos Gerais, hoje Vicente Machado, quase na esquina com a Visconde do Rio Branco. Naquele tempo, ali era o fim da cidade. Depois dos lampiões, só campo, cerca de madeira e escuridão.

O ataque foi rápido e brutal. Uma navalha, talvez um punhal. Maria foi degolada. O sangue se misturou à terra úmida, escurecendo ainda mais o chão. Curitiba acordou no dia seguinte com a sensação de que algo tinha se quebrado para sempre.

O julgamento de Diniz parou a cidade. Júri popular, cochichos, curiosidade mórbida. No fim, a absolvição. Crimes de honra ainda encontravam abrigo fácil nos tribunais da época. Mas o povo não aceitou o veredito. E quando, em 1894, durante a Revolução Federalista, Diniz foi preso com mulas roubadas e fuzilado pelos maragatos, a leitura popular foi imediata. Não era política. Era acerto de contas. Justiça tardia, mas justiça.

O que veio depois é o que transforma a história em mito. No local do crime, fincaram uma cruz de madeira. Dizem que, do sangue seco de Maria, brotou uma rosa vermelha. A lenda não é ingênua. Ela serve para limpar a imagem de uma mulher que dançava, que era livre, que incomodava. A rosa transforma o escândalo em pureza, a vítima em mártir, a culpa coletiva em devoção.

Maria Bueno virou santa sem altar oficial. Santa parda, santa do povo. Numa cidade marcada pelo racismo e pela exclusão, a devoção a uma mulher pobre, negra, lavadeira, foi também uma forma de resistência. O povo não se via nos santos europeus de mármore frio. Via-se nela.

Hoje, Maria descansa no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, no bairro São Francisco. Logo na entrada, à esquerda. Um túmulo azul e branco, simples e impossível de ignorar. Um pequeno santuário protegido por grades de ferro, sempre cheio de velas, flores, copos d’água, bilhetes dobrados, fotos amareladas, ex-votos de mãos, pés, cabeças. Gente pedindo cura, emprego, reconciliação, proteção. Gente pedindo o que a vida costuma negar primeiro aos pobres.

Os milagres atribuídos a Maria Bueno não falam de grandes revelações teológicas. Falam de feridas que fecham, de dores que aliviam, de mulheres que pedem proteção contra maridos violentos. É como se ela, morta por ser livre, tivesse se tornado guardiã das que ainda tentam sobreviver.

A Igreja nunca a canonizou. E talvez nunca o faça. Ainda assim, quem passa por ali costuma baixar a cabeça. Alguns fazem o sinal da cruz. Outros apenas respeitam. Porque Maria Bueno não é santa por decreto. É santa por necessidade.

A poeira da antiga Vicente Machado virou asfalto. Os lampiões deram lugar às luzes de LED. Curitiba cresceu, se modernizou, se esqueceu de muita coisa. Mas o brilho das velas no túmulo de Maria Bueno permanece o mesmo desde 1893. O tempo passa, mas a culpa mal resolvida cria raízes. E floresce. Às vezes, em forma de rosa vermelha.

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Fagner Oliveira


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