quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Sonho que se Tornou Universidade: A Epopeia do Ginásio Estadual de Ponta Grossa e o Nascimento da Alma Intelectual dos Campos Gerais

 Denominação inicial: Ginásio Estadual de Ponta Grossa

Denominação atual: Universidade Estadual de Ponta Grossa - Campus Central

Endereço: Praça Santos Andrade, s/n° - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1949

Estrutura: singular

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Faculdade de Farmácia, Odontologia e Filosofia de Ponta Grossa em 1962

Acervo: Museu da Imagem e do Som (MIS)

O Sonho que se Tornou Universidade: A Epopeia do Ginásio Estadual de Ponta Grossa e o Nascimento da Alma Intelectual dos Campos Gerais

Na Praça Santos Andrade, coração cívico de Ponta Grossa, ergue-se desde os albores da modernidade paranaense um edifício que carrega em suas paredes não apenas o peso dos anos, mas o eco de milhares de sonhos pronunciados em voz baixa nos corredores, de lágrimas derramadas sobre livros de filosofia, de risos contidos durante provas de química, de primeiros amores nascidos entre as estantes da biblioteca. O que hoje é conhecido como Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) começou sua existência como algo mais modesto, porém não menos revolucionário: o Ginásio Estadual de Ponta Grossa — uma semente plantada em 1949 que, com o tempo, germinaria em uma das mais frondosas árvores do saber no interior do Brasil.

O Chamado dos Campos Gerais: Quando o Interior Reclamou seu Direito ao Saber

O ano era 1949. O Brasil ainda sentia o calor da redemocratização após o Estado Novo; o Paraná, sob o governo de Bento Munhoz da Rocha Netto, vivia seu momento de maior expansão educacional. Mas enquanto Curitiba erguia faculdades e institutos técnicos, os Campos Gerais — região de vastos horizontes, de pinheirais majestosos, de uma economia baseada na agricultura e na pecuária — permanecia intelectualmente órfã. Os jovens talentosos de Ponta Grossa, Castro, Carambeí, Tibagi, ao concluírem o primário nos Grupos Escolares, enfrentavam uma escolha cruel: migrar para a capital ou abandonar os estudos.
Foi nesse vácuo que nasceu o projeto audacioso do Ginásio Estadual de Ponta Grossa. Não se tratava apenas de erguer mais um prédio escolar; tratava-se de plantar uma âncora intelectual no coração do planalto, de afirmar que o interior não era apenas lugar de produção de riquezas materiais, mas também de cultivo de mentes livres. O Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas recebeu a missão de desenhar não um edifício qualquer, mas um manifesto arquitetônico da maturidade cultural de uma região que decidira deixar de ser apenas passagem de tropeiros para tornar-se centro irradiador de conhecimento.

A Arquitetura como Profecia: O Modernismo que Abraçou o Futuro

Enquanto os Grupos Escolares da década de 1930 celebravam o Art Déco e as escolas rurais adotavam o Neocolonial como retorno às raízes, o Ginásio Estadual de Ponta Grossa ousou ser diferente. Seu projeto de 1949 abraçou a linguagem Modernista — não como mero estilo estético, mas como filosofia construtiva.
As linhas limpas e funcionais do edifício, sua estrutura singular (não padronizada como as escolas anteriores), sua tipologia em "E" que criava pátios internos de convivência — tudo isso falava uma linguagem nova: a do racionalismo otimista da pós-guerra, da crença de que a forma deveria servir à função, de que a beleza residia na honestidade dos materiais e na clareza das intenções. As grandes janelas horizontais não apenas banhavam as salas de aula com a luz generosa do planalto paranaense; convidavam o horizonte infinito dos Campos Gerais a fazer parte do processo educativo — como se a própria paisagem fosse coadjuvante nas lições de geografia, de botânica, de contemplação silenciosa.
Naquele projeto arquitetônico, havia uma profecia não declarada: este não seria apenas um ginásio para adolescentes recitarem versos de Olavo Bilac. Seria algo maior. O espaço generoso das salas, a previsão de laboratórios bem equipados, a biblioteca concebida como coração do edifício — tudo indicava que ali estava sendo preparado o berço de algo que ainda não tinha nome, mas que já pulsava nas veias da cidade: uma universidade.

A Praça Santos Andrade: O Palco Cívico de uma Revolução Silenciosa

Escolher a Praça Santos Andrade para abrigar o Ginásio não foi casual. Nomeada em homenagem ao estadista paranaense que lutara pela autonomia política do estado, a praça já era o centro simbólico de Ponta Grossa — onde se erguiam os poderes constituídos, onde as manifestações públicas ganhavam voz, onde a cidade se reconhecia como comunidade.
Ali, naquele quadrilátero de terra batida cercado por edificações de importância cívica, o Ginásio Estadual assumiu seu lugar não como intruso, mas como coroamento natural da vida pública. Porque que poder seria mais legítimo que o do conhecimento? Que autoridade mais respeitável que a do professor diante da lousa? Ao posicionar a escola secundária no coração da cidade, as autoridades declaravam, sem palavras: "Educar não é serviço periférico; é o ato central da civilização."
Imaginemos uma manhã de fevereiro de 1950 — ano provável de início das atividades. Jovens de quinze, dezesseis anos cruzam o portão do Ginásio carregando pastas de couro surrado, cadernos de capa dura, sonhos ainda informes. Vêm de famílias distintas: filhos de fazendeiros que mandam o primogênito estudar para administrar as terras com ciência; filhos de comerciantes sírio-libaneses que enxergam na educação a chave para a ascensão social; filhos de operários ferroviários que, com sacrifício, juntaram durante anos para comprar o uniforme completo; filhos de imigrantes italianos e poloneses que aprenderam com seus pais que, na nova pátria, o diploma valia mais que a herança de terras.
Ao entrarem, são recebidos pelo cheiro característico de escola antiga: mistura de tinta de impressão dos livros recém-chegados, de madeira envernizada das carteiras duplas, de giz branco quebrando-se com o toque firme do professor de matemática. Nas paredes, mapas-múndi mostram um planeta em transformação — a África ainda colonizada, a Cortina de Ferro dividindo a Europa, o Brasil sonhando com Brasília. E naquele ambiente de disciplina quase monástica, algo extraordinário acontece: o interior do Paraná descobre sua própria voz intelectual.

A Metamorfose: Do Ginásio às Faculdades Isoladas (1962)

Os anos 1950 revelaram uma verdade incômoda: o Ginásio Estadual estava formando jovens com sede de saber que não se saciava com o curso secundário. Eles queriam mais. Queriam laboratórios onde pudessem analisar a composição do solo dos Campos Gerais; queriam bibliotecas com obras de filosofia que questionassem o sentido da existência; queriam professores que não apenas transmitissem conteúdo, mas inspirassem vocações.
Assim, na virada para a década de 1960, começou a transformação silenciosa mas irreversível. O Ginásio, que outrora abrigara apenas o ensino médio, começou a expandir-se. Salas antes dedicadas ao latim e à trigonometria foram adaptadas para abrigar microscópios e tubos de ensaio. Professores com formação superior — muitos vindos de Curitiba ou do exterior — aceitaram o desafio de lecionar não apenas para adolescentes, mas para jovens universitários em formação.
A fotografia de 1962 conservada no Museu da Imagem e do Som registra esse momento histórico: o edifício já não se chama Ginásio Estadual. Agora é a Faculdade de Farmácia, Odontologia e Filosofia de Ponta Grossa — três cursos superiores nascidos sob o mesmo teto, fruto da mesma ambição coletiva. Nas escadarias de concreto armado do modernismo, cruzam-se agora não apenas colegiais de uniforme branco, mas jovens adultos de jaleco branco carregando frascos de reagentes; estudantes de filosofia com volumes de Sartre e Heidegger debaixo do braço; futuros dentistas discutindo anatomia da arcada dentária nos corredores.
Era o início de uma revolução silenciosa. Enquanto o Brasil vivia os anos turbulentos do início da década de 1960 — com a renúncia de Jânio Quadros, a posse de João Goulart, as tensões que antecederiam o golpe militar —, nos Campos Gerais, uma outra revolução acontecia sem alarde: o interior paranaense conquistava sua autonomia intelectual. Não precisaria mais enviar seus filhos para Curitiba ou São Paulo para formar-se. A universidade estava nascendo ali, na Praça Santos Andrade, entre as araucárias que testemunhavam a história da cidade.

O Nascimento da UEPG: Quando o Sonho se Tornou Realidade

A trajetória do Ginásio Estadual até a Universidade Estadual de Ponta Grossa é uma das mais belas epopeias da educação brasileira — porque não foi obra de um decreto isolado, mas fruto de uma teimosia coletiva, de uma cidade inteira que se recusou a aceitar a condição de periferia intelectual.
Em 1961, as faculdades isoladas foram oficialmente reconhecidas. Em 1969, diante da maturidade acadêmica alcançada, da qualidade do corpo docente formado, da infraestrutura consolidada, veio o momento culminante: a transformação em Universidade Estadual de Ponta Grossa — instituição multicampi, multicursos, multivoces, mas com o coração pulsando sempre naquele edifício modernista da Praça Santos Andrade, onde tudo começara duas décadas antes com um projeto arquitetônico ousado e um sonho ainda sem nome.

O Legado Humano: Gerações Formadas Entre Aquelas Paredes

Mas a verdadeira história do Ginásio Estadual não está nos documentos oficiais nem nas fotografias desbotadas. Está nas vidas transformadas.
Está no farmacêutico que hoje atende no interior do Paraná e atribui sua vocação ao professor que, em 1963, lhe mostrou pela primeira vez como extrair óleo essencial das plantas nativas dos Campos Gerais.
Está na professora de filosofia aposentada que, aos oitenta anos, ainda guarda o caderno de anotações da disciplina "Existencialismo e Liberdade" ministrada por um jovem docente em 1965 — caderno onde, entre conceitos de Sartre, ela rabiscou, tímida: "Será que ele me notou hoje?"
Está no dentista que construiu seu consultório na periferia de Ponta Grossa e atende gratuitamente crianças carentes porque nunca esqueceu o professor que lhe emprestou dinheiro para comprar os instrumentos do estágio final.
Está no escritor premiado cujo primeiro conto foi escrito na biblioteca do Ginásio, entre o cheiro de livros antigos e o silêncio respeitoso que pairava sobre as mesas de estudo.
São essas vidas — milhares delas — que transformaram um edifício de concreto armado em templo laico da inteligência regional. São essas histórias que fazem com que, mesmo hoje, ex-alunos já idosos voltem à Praça Santos Andrade não para visitar um campus universitário, mas para rever a casa onde aprenderam a pensar.

Epílogo: A Universidade que Nunca Esqueceu suas Raízes

Hoje, o Campus Central da UEPG carrega as marcas do tempo — alterações arquitetônicas necessárias, novas alas erguidas para acomodar cursos que nem se imaginavam em 1949, tecnologia digital substituindo os quadros-negros de ardósia. Mas algo permanece intacto, quase sagrado: a alma do Ginásio Estadual.
Quem caminha pelos corredores do prédio histórico ainda sente a presença silenciosa daqueles primeiros estudantes que ali pisaram com pés descalços dentro de sapatos emprestados, com fome no estômago mas fome maior de saber. Ainda se ouve, entre o tilintar dos teclados dos laboratórios de informática, o eco do giz raspando na lousa onde um professor escrevia, com letra cursiva impecável: "Conhece-te a ti mesmo."
O Ginásio Estadual de Ponta Grossa ensina-nos uma lição fundamental: as grandes universidades não nascem de projetos burocráticos, mas de necessidades coletivas não atendidas; não são construídas com concreto, mas com sonhos compartilhados; não se legitimam por decretos governamentais, mas pelo afeto que geram nas gerações que por elas passam.
Na Praça Santos Andrade, sob o céu imenso dos Campos Gerais, o edifício modernista permanece de pé — não como ruína museificada, mas como coração pulsante que lembra a todos que o interior do Brasil nunca foi, nem será, periferia do pensamento. Foi ali, entre aquelas paredes de linhas limpas e janelas generosas, que uma região inteira descobriu que podia sonhar em grande — e que, ao sonhar coletivamente, transformou um simples ginásio na semente de uma das mais respeitadas universidades do país.
E assim, enquanto houver um estudante cruzando aquele portão todas as manhãs com um livro sob o braço e uma pergunta sem resposta na mente, o Ginásio Estadual de Ponta Grossa — embora tenha mudado de nome — continuará vivo. Porque instituições verdadeiramente grandes não morrem; transformam-se. E o sonho de 1949 — o sonho de que os Campos Gerais mereciam seu próprio centro de saber — hoje respira, pensa, pesquisa e ensina em cada canto do Campus Central, como uma árvore cujas raízes profundas continuam alimentando seus galhos mais altos, alcançando o céu com a mesma ambição serena daqueles primeiros alunos que, um dia, ousaram acreditar que o futuro poderia começar exatamente ali, na Praça Santos Andrade, sob as araucárias testemunhas de uma revolução silenciosa chamada educação.

Entre Telhas e Sonhos: A História do Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres e o Legado de um Educador que Plantou Futuros

 Denominação inicial: Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres

Denominação atual: Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres

Endereço: Rua Graciliano Ramos, 20 - Jardim Carvalho

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1958

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres - s/d

Acervo: Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres

Entre Telhas e Sonhos: A História do Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres e o Legado de um Educador que Plantou Futuros

Na Rua Graciliano Ramos, número 20, no bairro Jardim Carvalho de Ponta Grossa, ergue-se desde os anos dourados do pós-guerra um edifício cuja beleza não está apenas nas linhas suaves de seu telhado colonial ou nos arcos que emolduram suas janelas — mas na quietude heroica de quem compreendeu, antes de quase todos, que construir escolas é semear civilização. O Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres, inaugurado oficialmente em 1958 após uma gestação de dez anos de sonhos e concretagem, não foi apenas mais uma unidade escolar erguida pelo governo paranaense; foi um ato de fé na infância pobre dos Campos Gerais, um manifesto arquitetônico de que até as periferias mereciam beleza, e um tributo vivo a um homem cujo nome carrega o peso silencioso de uma dinastia que ajudou a escrever a história de Ponta Grossa.

A Semente Plantada em Solo Fértil: O Contexto de uma Cidade em Transformação

O ano era 1948. Enquanto o mundo ainda curava as feridas da Segunda Guerra Mundial, o Paraná vivia seu próprio renascimento. Sob a liderança do governador Bento Munhoz da Rocha Netto, o estado embarcava na segunda grande onda de expansão escolar — complementando a revolução iniciada por Manuel Ribas na década de 1930. Mas agora, o foco ampliava-se: não bastava mais construir Grupos Escolares nos centros urbanos; era preciso levar o saber aos bairros emergentes, aos loteamentos que brotavam como capim nos arredores das cidades, aos filhos de operários ferroviários e pequenos agricultores que migravam para a cidade em busca de uma vida melhor.
Foi nesse cenário de expansão democrática do conhecimento que a Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhou, em 1948, os traços que dariam forma ao Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres. E aqui reside uma escolha profundamente simbólica: enquanto os Grupos Escolares da década de 1930 adotavam a linguagem racional do Art Déco — celebrando a modernidade como ruptura com o passado — este novo edifício abraçou o Neocolonial como linguagem arquitetônica.
As telhas de barro curvadas não eram mero ornamento; eram uma ponte entre o novo e o ancestral. Os arcos suaves das janelas não apenas emolduravam a luz do planalto, mas evocavam a tradição das capelas rurais onde gerações haviam rezado e aprendido os primeiros rudimentos da fé e da leitura. A tipologia em "E" — incomum entre os padrões da época — criava um jogo de pátios internos que permitia que cada ala da escola respirasse com autonomia, enquanto permanecia conectada ao corpo principal como os ramos de uma mesma árvore. Era arquitetura como metáfora: unidade na diversidade, tradição a serviço do futuro.

O Homem por Trás do Nome: Meneleu e a Dinastia Almeida Torres

Para compreender quem foi Meneleu de Almeida Torres, é preciso mergulhar nas raízes profundas da história de Ponta Grossa — nas estâncias de gado que moldaram o caráter da cidade, nos sobrenomes que atravessaram gerações como rios subterrâneos carregando memória.
A família Almeida Torres pertencia à elite fundadora dos Campos Gerais. Seu patriarca, Mariano de Almeida Torres (1816–1892), fora figura central na política provincial, homem de vastas posses territoriais e influência decisiva nos rumos da região. Seu filho, Mariano de Almeida Torres (1854–1899), casado com Joaquina Fernandes, continuara o legado familiar — mas fora na terceira geração que surgira Meneleu: não como senhor de estâncias, mas como educador silencioso, homem que trocara as rédeas do cavalo pelo apagador da lousa, que preferira moldar mentes a administrar terras.
Meneleu de Almeida Torres — cujo primeiro nome evoca a força serena do carvalho ("meneleu" em tupi-guarani) — não buscou holofotes. Não foi ministro nem deputado; não teve ruas ou praças batizadas em sua homenagem em vida. Foi professor primário. Diretor de escola rural. Inspetor escolar que percorria a lama dos caminhos vicinais para visitar salas de aula de taipa onde crianças descalças aprendiam a soletrar com dedos manchados de terra. Foi o homem que, numa época em que a educação era privilégio de poucos, insistia: "Todo filho de tropeiro merece conhecer os versos de Camões. Todo neto de imigrante polonês tem direito a entender a Constituição que o protege."
Sua biografia oficial é escassa — como a de tantos educadores verdadeiros, cuja obra está nas vidas transformadas, não nos documentos assinados. Mas sua memória permanece viva nos relatos orais de antigos alunos: do menino que, faminto, encontrou na gaveta de Meneleu um pão com mortadela guardado "por engano"; da menina que, envergonhada por não ter sapatos, viu o professor chegar certa manhã com um par novo "que sobrara do meu filho"; do jovem negro que, discriminado pelos colegas, foi chamado à frente da classe por Meneleu para resolver um problema de aritmética diante de todos — e, ao acertar, recebeu aplausos que apagaram anos de humilhação.
Homenageá-lo não foi um ato burocrático; foi um reconhecimento coletivo. Quando, em 1948, decidiram batizar a nova escola do Jardim Carvalho com seu nome, não escolheram um político influente ou um empresário generoso. Escolheram o professor que, com as mãos calejadas de apagar lousas, havia plantado sementes cuja colheita só seria vista décadas depois — nos médicos, engenheiros, professores e cidadãos íntegros que um dia diriam: "Foi ele quem me ensinou que eu valia algo."

A Longa Gestação: Da Pedra Fundamental à Inauguração em 1958

Entre o projeto de 1948 e a inauguração oficial em 1958, dez anos se passaram — uma década marcada por atrasos, escassez de materiais no pós-guerra, mudanças de governo, prioridades deslocadas. Mas também uma década de espera coletiva. Enquanto o esqueleto de concreto da escola erguia-se lentamente no Jardim Carvalho, as famílias do bairro cresciam em torno dela como videiras em torno de um mourão. Mães grávidas apontavam a estrutura inacabada e diziam aos filhos pequenos: "Ali você vai estudar." Crianças brincavam nos terrenos baldios adjacentes imaginando como seriam as carteiras, o pátio, o bebedouro de onde jorraria água fresca nos dias quentes de verão.
Essa espera prolongada conferiu à inauguração um caráter quase sagrado. Quando, finalmente, em 1958, as portas se abriram sob as telhas coloniais recém-assentadas, não foi apenas uma cerimônia oficial com discursos e fitas cortadas. Foi uma festa popular. As famílias chegaram com quitutes caseiros; os alunos entraram calçando sapatos novos que haviam sido guardados para o grande dia; o padre da paróquia vizinha abençoou cada sala de aula como se abençoasse um templo. E no pátio central — desenhado pela tipologia em "E" para abrigar recreios protegidos do vento cortante dos Campos Gerais — as crianças correram pela primeira vez como se aquele espaço lhes pertencesse por direito de nascimento.

O Cotidiano Sob as Telhas Coloniais: Uma Escola que Era Casa

Nos primeiros anos de funcionamento, o Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres revelou sua alma verdadeira: não era um edifício frio de alvenaria, mas uma casa escolar no sentido mais profundo da palavra.
Pela manhã, as salas enchiam-se com o cheiro de café coado na cozinha da escola — oferecido gratuitamente aos professores que vinham de bairros distantes. Ao meio-dia, a cantina transformava-se em refeitório comunitário onde crianças de diferentes origens compartilhavam marmitas: o polentão da família italiana ao lado do pirão de farinha da família cabocla; o pão com linguiça do filho do açougueiro dividido com o pão seco da menina cujo pai estava desempregado. À tarde, enquanto os alunos do turno vespertino chegavam, os do matutino permaneciam nos pátios internos para aulas de reforço — porque Meneleu, mesmo ausente em corpo, estava presente em espírito: ninguém ficaria para trás.
As paredes de reboco liso, pintadas de branco para refletir a luz generosa do planalto, testemunharam cenas que definem a essência da educação pública brasileira: a professora que, ao perceber que um aluno não tinha caderno, rasgava folhas de seu próprio bloco de anotações; o zelador que consertava carteiras quebradas com restos de madeira encontrados no depósito; o diretor que, ao invés de expulsar o menino pego fumando atrás do banheiro, sentava-se com ele num banco do pátio e contava histórias de como quase perdera o rumo na juventude.
E sempre, pairando sobre tudo, a presença silenciosa do patrono — não em retrato oficial na sala da diretoria (que talvez nunca tenha existido), mas na ética do cuidado que permeava cada gesto: a paciência ao explicar pela terceira vez a mesma regra gramatical; a justiça ao mediar brigas de recreio; a coragem ao defender um aluno pobre da discriminação velada de pais de classe média.

O Legado Vivo: Do Grupo Escolar ao Colégio Estadual

Os anos transformaram Ponta Grossa. O Jardim Carvalho, outrora periferia de terra batida, tornou-se bairro consolidado de ruas asfaltadas e comércio vibrante. O Brasil passou por ditaduras e redemocratizações; o ensino fundamental estendeu-se de quatro para oito anos; os quadros-negros deram lugar aos projetores digitais. E o Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres adaptou-se — rebatizado como Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres, suas estruturas originais sofreram alterações para abrigar novas demandas pedagógicas.
Mas algo permaneceu intacto, quase milagrosamente: a alma acolhedora do lugar. Quem visita a escola hoje — como registram as fotografias do acervo da própria instituição — percebe que, apesar das modernizações, o espírito neocolonial do projeto original ainda respira nas linhas suaves do telhado, nos pátios que continuam sendo o coração pulsante da convivência escolar, na maneira como professores e alunos tratam o espaço não como propriedade do estado, mas como patrimônio coletivo.
Ex-alunos já idosos retornam à escola para mostrar aos netos onde aprenderam a ler. Professores veteranos, alguns com mais de trinta anos de casa, contam histórias de como Meneleu — cujo rosto poucos viram, cuja voz ninguém ouviu — tornou-se uma presença moral que orienta decisões até hoje: "O que Meneleu faria nesta situação?" é pergunta ainda feita em reuniões pedagógicas quando dilemas éticos surgem.

Epílogo: A Lição que Não Envelhece

Há escolas que são apenas construções de tijolo e cimento. E há escolas que se tornam personagens vivos da história de uma cidade — não por grandiosidade arquitetônica, mas pela densidade humana que abrigam. O Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres pertence a esta segunda categoria.
Seu nome — Meneleu de Almeida Torres — carrega em si uma síntese poderosa da alma paranaense: a nobreza das antigas famílias fundadoras aliada à humildade do educador anônimo; o peso da tradição transformado em instrumento de inclusão; o privilégio histórico convertido em serviço ao próximo.
Na Rua Graciliano Ramos, 20, o edifício permanece de pé — não como monumento museificado ao passado, mas como coração pulsante que lembra a todos uma verdade simples e revolucionária: as maiores obras de uma civilização não são seus arranha-céus ou seus estádios, mas suas escolas; e os maiores heróis não são os que conquistam territórios com espadas, mas os que conquistam almas com o dom silencioso de ensinar.
E assim, sob as telhas coloniais que abrigam sonhos novos a cada ano letivo, Meneleu de Almeida Torres — o professor sem estátua, o educador sem biografia oficial — continua vivo. Vive no menino que hoje soletra seu primeiro nome com orgulho; na menina que descobre nos livros da biblioteca escolar um mundo além do bairro onde mora; no jovem que, ao formar-se, decide ser professor para devolver à comunidade o que recebeu sob aquele teto de telhas curvas.
Porque há legados que não precisam de mármore para durar. Basta uma escola bem cuidada, uma geração que aprendeu a sonhar, e a certeza silenciosa de que, enquanto houver crianças cruzando aquele portão todas as manhãs, Meneleu — como as araucárias dos Campos Gerais — permanecerá de pé, enraizado na memória coletiva, ensinando sem palavras que o futuro se constrói um aluno de cada vez.