segunda-feira, 16 de março de 2026

Maria José da Bélgica: A "Rainha de Maio" que Governou a Itália por Apenas 35 Dias

 

Maria José da Bélgica: A "Rainha de Maio" que Governou a Itália por Apenas 35 Dias


Maria José da Bélgica: A "Rainha de Maio" que Governou a Itália por Apenas 35 Dias

Fotografia de Maria José dos Belgas, a última rainha consorte da Itália, em 1946.
Nascida em Oostende, no dia 4 de agosto de 1906, Marie-José Charlotte Sophie Amélie Henriette Gabrielle era filha do rei Albert I dos Belgas com a rainha Isabel da Baviera, sobrinha da famosa imperatriz Elisabeth "Sissi" da Áustria. A princesa cresceu em uma atmosfera cosmopolita, acostumada com a presença de intelectuais e cientistas, como Albert Einstein. Sua paixão por leitura, música e esportes ajudou a desenvolver o espírito crítico e percepção aguçada.

Infância Marcada pela Guerra e pela Cultura

Em 1914, quando a Bélgica foi invadida por forças alemãs durante a Primeira Guerra Mundial, Maria José, então com 8 anos, foi evacuada para a Inglaterra, sendo matriculada no internato católico do Convento das Ursulinas, em Essex. Lá, ela aperfeiçoou sua pronúncia do inglês e entrou em contato com as obras dos principais escritores do país. De lá, a princesa foi enviada para a Itália em 1917, para dar continuidade à sua formação. Maria foi matriculada no Colégio da Ss. Annunziata di Poggio Imperiale, perto de Florença, onde permaneceu até junho de 1919.
Aos 13 anos, a princesa Maria José tinha um espírito cultivado pelo que de melhor poderia ser absorvido do pensamento inglês com a arte italiana. Essa miscelânea de culturas contribuiu para formar uma visão de mundo diversificada. Seus pais tinham plena consciência disso e sabiam que, conforme a filha desabrochava numa bela mulher, atrairia bons partidos. Assim, em 1918, ela foi apresentada ao príncipe Umberto de Saboia, filho do rei Vítor Emanuel III e herdeiro do trono italiano.

Um Casamento Arranjado pela Diplomacia

Há muito que o rei Albert I dos Belgas sonhava com uma aliança italiana através do casamento e sua filha deveria ser sacrificada em prol da diplomacia. A princesa fez sua estreia na sociedade em 1924, usando uma magnífica tiara de pérolas e diamantes que havia pertencido à Estefânia de Beauharnais, grã-duquesa de Baden. Seu noivado com o príncipe Umberto foi anunciado na corte de Bruxelas em 7 de setembro de 1929. A notícia não foi bem recebida por parte da população belga, que não queria sua princesa unida em matrimônio com o herdeiro do trono de um país fascista.
Apesar dos vários protestos, Maria José e Umberto se casaram em 8 de janeiro de 1930, no Palácio do Quirinal, em Roma. Desde o princípio, a nova princesa herdeira teve dificuldades de adaptação à corte em Turim, cuja austeridade contrastava com seu espírito cosmopolita. A família se mudou para Nápoles em 1933, para longe daquele ambiente sufocante. Ali, Maria José deu à luz os quatro filhos do casal: Maria Pia, nascida em 1934; Vitor Emanuel, nascido em 1937; Maria Gabriela, nascida em 1940; e Maria Beatriz, nascida em 1943.

Um Casamento Infeliz e Atos de Coragem

Por outro lado, seu casamento com Umberto era muito infeliz. Dizia-se que o príncipe preferia companhias masculinas em vez da própria esposa e que só se encontrava com ela em aparições públicas ou quando tinha que cumprir seus deveres conjugais, gerando sucessores para a Coroa. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, a princesa Maria José se adaptou com dificuldade à ditadura criada por Benito Mussolini. Conta-se que ela colocou sua vida em grande risco ao tentar seduzir o ditador, para obter informações sigilosas. Em seguida, ela tentou negociar uma paz separada para a Itália com o governo dos Estados Unidos, mas suas ações não obtiveram êxito.

A "Rainha de Maio": 35 Dias de Reinado

Com a derrocada de Mussolini em 1945, o governo do rei Vítor Emanuel III foi perdendo apoio gradativo entre os italianos. Em 9 de maio de 1946, ele finalmente abdicou do trono em favor de seu filho, que se tornou rei Umberto II. O período em que Maria José permaneceu como rainha da Itália, porém, foi breve. Em 12 de junho, a monarquia foi abolida e o país se tornou uma república. Assim, ela ficaria conhecida nos anais da História como a "rainha de Maio". A família real foi exilada para a Suíça, onde passou a residir.

Os Últimos Anos e o Legado

A última rainha só retornaria para a Itália em 1983, depois da morte de seu marido. Maria José sobreviveu a Umberto por mais 18 anos, falecendo de câncer de pulmão aos 94 anos, numa clínica em Thônex, na Suíça, no dia 27 de janeiro de 2001. Seu corpo foi trasladado para a Abadia de Hautecombe, em Saboia, sendo sepultada ao lado de Umberto II.
Maria José da Bélgica permanece na história como uma figura trágica e fascinante: uma princesa cosmopolita e culta que foi sacrificada pela diplomacia, casou-se com um homem que não a amava, viveu sob uma ditadura fascista, arriscou a vida em atos de resistência, tornou-se rainha por apenas 35 dias e terminou seus dias no exílio. Sua história é um testemunho das turbulências do século XX e do preço que muitos membros da realeza pagaram em nome do dever e da política.

Texto: Renato Drummond Tapiaga Neto
Imagem: Marie-José Charlotte Sophie Amélie Henriette Gabrielle, 1946. Colorizado por Rainhas Trágicas.
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