quarta-feira, 18 de março de 2026

A Mestre das Copas: Tudo Sobre a Fascinante Chironius multiventris

 

Como ler uma infocaixa de taxonomiaChironius multiventris
Indivíduo avistado na Reserva Biológica de Santa Cruz, no Peru
Indivíduo avistado na Reserva Biológica de Santa Cruz, no Peru
Indivíduo avistado em Vaca Diez, na Bolívia
Indivíduo avistado em Vaca Diez, na Bolívia
Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Domínio:Eukaryota
Reino:Animalia
Filo:Chordata
Classe:Reptilia
Ordem:Squamata
Família:Colubridae
Gênero:Chironius
Espécie:C. multiventris
Nome binomial
Chironius multiventris
(Schmidt & Walker, 1943)
Sinónimos[2][3]
  • Chironius multiventris multiventris (Schmidt & Walker, 1943: 282)
  • Chironius multiventris (Hoge, 1964: 54)
  • Chironius multiventris cochrane (Hoge & Romano, 1969)
  • Chironius multiventris (Peters & Orejas-Miranda, 1970: 61)
  • Chironius multiventris (Gasc & Rodrigues, 1980)
  • Chironius multiventris (Hoogmoed & Ávila-Pires, 1991: 84)
  • Chironius multiventris multiventris (Dixon et al., 1993: 168)
  • Chironius multiventris (Starace, 1998: 153)
  • Chironius multiventris (Kornacker, 1999: 72)
  • Chironius multiventris cochrane (Claessen, 2003)
  • Chironius multiventris cochrane (Frota et al., 2005)
  • Chironius cochranae (Hollis, 2006)
  • Chironius cochranae (Kok, 2010)
  • Chironius multiventris (Klaczko et al., 2010)
  • Chironius cf. multiventris (Catenazzi et al., 2013)
  • Chironius multiventris (Wallach et al., 2014: 161)
  • Chironius multiventris (Nogueira et al., 2019)
  • Chironius multiventris (Bernal & Dubois, 2023)

Chironius multiventrispopularmente conhecida como caninanacobra-cipócobra-verdesacaiboia e serra-velha, é uma serpente diurna e semiarbórea da família dos colubrídeos (Colubridae).

Etimologia

nome popular sacaiboia deriva do tupi ïsakai'mboya, que é formado por ïsaka'i ("sacaí", um tipo de macaco) e mboya ("cobra").[4] Caninana deriva do tupi ka'a, com o sentido de "mato, vegetação", e uma forma verbal de ñane, que significa "que corre, que se espraia". Foi registrado em ca. 1584 como caninana, em 1587 como caninam, em 1610 como carunana, em 1817 como cahinanna e em 1871 como cainana.[5]

O nome Chironius foi cunhado por Leopold Fitzinger em 1826, mas provavelmente se originou em 1790 com Blasius Merrem, que usou o nome comum "Cobra de Quíron" para Coluber carinatus de Carlos Lineu. Na mitologia gregaQuíron era um centauro famoso por suas habilidades de cura. Da mesma forma, na civilização grega antiga, os doentes, em busca de cura, afluíam aos templos onde cobras sagradas eram cuidadosamente cuidadas e apresentadas aos sofredores.[6] O epíteto específico multiventris deriva do latim multus, "muitos, múltiplos, numerosos", e venter, "ventre", em referência ao número relativamente alto de tipos de ventres na espécie se comparado a outros membros do gênero Chironius.[2]

Taxonomia e sistemática

Chironius multiventris foi descrito pela primeira vez em 1943 por Schmidt & Walker. Seu holótipo é FMNH 38250 e sua localidade-tipo são as Selvas do Rio Mãe de Deus, no distrito de Mãe de Deus, no Peru.[2] Leopold Fitzinger (1826) revisou o material-tipo de Lineu e propôs a criação do gênero Chironius para alocar algumas espécies morfologicamente distintas de outros Coluber como Chironius exoletusC. fuscusC. saturninus (= C. fuscus) e C. carinatus, que foi reconhecida como espécie-tipo.[7] O gênero Chironius compreendem atualmente 21 espécies reconhecidas, amplamente distribuídas pela América Central e América do Sul. A primeira revisão taxonômica do gênero foi realizada por Bailey (1955), que reconheceu sete táxons, incluindo uma nova subespécie, Chironius multiventris foveatus.[8]

Dixon et al. (1993) conduziram uma revisão sistemática abrangente do gênero, reunindo dados sobre caracteres merísticos, morfométricos, padrão de coloração e morfologia hemipeniana. Esses autores também propuseram a primeira hipótese de relações filogenéticas para Chironius, mas sem o uso de metodologia cladística, e descreveram quatro novos táxons. Hollis (2006) apresentou a primeira hipótese cladística de relações filogenéticas entre representantes do gênero, com base em dados morfológicos. Mais recentemente, Klaczko et al. (2014) combinaram análises morfológicas e filogenéticas moleculares, corroborando a monofilia de Chironius, conforme proposto anteriormente por Dixon et al. (1993) e Hollis (2006).[8]

Descrição

Machos de Chironius multiventris podem atingir até 261,1 centímetros de comprimento total, enquanto as fêmeas chegam a cerca de 209,7 centímetros. A dentição maxilar apresenta de 34 a 38 dentes. As escamas ventrais variam de 184 a 193 nos machos e de 183 a 193 nas fêmeas; as caudais, sempre divididas, de 189 a 203 nos machos e de 192 a 201 nas fêmeas - embora um caso excepcional tenha registrado uma fêmea com 206 escamas caudais.[9] Pode ser distinguido de C. exoletus por apresentar um número significativamente maior de escamas ventrais (161–196 contra 123–162) e uma cauda proporcionalmente mais longa. Difere também de C. fuscus e C. leucometapus por possuir 12 fileiras de escamas dorsais no meio do corpo - ao invés das 10 desses táxons - e por ter a placa anal dividida.[6]

A espécie é caracterizada por apresentar 12 fileiras de escamas dorsais na região média do corpo e placa anal dividida.[6] As escamas dorsais organizam-se, geralmente, em 12-12-10 séries longitudinais, embora haja variações como 12-12-8, 12-12-9, 13-12-10 e 14-12-10. As duas fileiras vertebrais costumam apresentar carenas, mais evidentes nos machos e em algumas fêmeas. As escamas laterais são fortemente oblíquas, com exceção das paraventreais. Fossetas apicais estão presentes em todas as escamas do corpo, mais visíveis na nuca e no pescoço, geralmente uma por escama, mas ocasionalmente duas. A fórmula cefálica inclui: nasal dividido; loreal mais longo que largo; uma pré-ocular e três pós-oculares (variando para 1+2 ou 1+4, simetricamente ou não); temporais geralmente 1+2, raramente 1+1; supralabiais geralmente 9-9 (variações incluem 8-8, 9-10 ou 10-10), sendo o 4.º, 5.º e 6.º normalmente em contato com a órbita (variações com o 5.º e 6.º, ou ainda 5.º, 6.º e 7.º); infralabiais geralmente 10-10, podendo variar entre 9-9, 9-10, 10-11 e 11-11, com cinco geralmente em contato com os mentais anteriores, que são mais curtos que os posteriores.[9]

A espécie apresenta coloração ontogenética distinta. Os juvenis possuem dorso marrom-oliva claro, com escamas mais claras formando barras transversais em zigue-zague, mais nítidas que nos adultos. Já os indivíduos adultos exibem coloração dorsal marrom-escura, frequentemente com uma faixa vertebral clara contornada por tons escuros, especialmente em machos. As quilhas das escamas paravertebrais formam duas linhas longitudinais negras. A parte pósterolateral do corpo e da cauda frequentemente apresenta barras transversais claras espaçadas. Os flancos pardo-escuros geralmente se estendem pelas margens das ventrais e caudais, podendo formar uma faixa enegrecida ao longo da cauda. A cabeça tende a ser mais clara, com a região látero-nucal marcando um padrão semelhante a um colar. A superfície ventral é fortemente angulada, de coloração amarelo-esbranquiçada com uma linha escurecida mediana que continua até a base da cauda.[6][9]

Distribuição e habitat

Chironius multiventris ocorre nas terras baixas do PeruEquadorColômbiaSurinameGuianaGuiana Francesa e Venezuela, em altitudes que variam do nível do mar até cerca de 670 metros.[1] No Brasil, está presente no MaranhãoMato GrossoTocantinsRoraimaRondôniaParáAmazonasAmapá e Acre.[10] Habita principalmente florestas tropicais primáriasmatas de galeria e, ocasionalmente, áreas alteradas pelo homem, como estradas e jardins em zonas rurais.[1]

Ecologia

Chironius multiventris é uma serpente diurna e semiarbórea. Durante o dia, pode ser vista movendo-se ativamente tanto no solo da floresta quanto sobre arbustos e árvores, alcançando até sete metros de altura. À noite, costuma repousar enrolada na vegetação, podendo ser encontrada a até nove metros do solo. Sua dieta é composta principalmente por anuros, mas inclui também répteis, como os lagartos Anolis fuscoauratus e Polychrus marmoratus. Fêmeas grávidas carregam entre sete e dez ovos nos ovidutos, embora o tamanho completo da ninhada ainda seja desconhecido. Quando perturbada, a espécie pode adotar comportamento defensivo agressivo, erguendo o terço anterior do corpo e desferindo investidas repetidas. Apesar dessa postura intimidadora, trata-se de uma serpente áglifa, ou seja, desprovida de presas especializadas para injeção de veneno. No Equador, já foram observados dois machos da espécie envolvidos em combate ritualizado, comportamento comum entre serpentes na disputa por fêmeas.[6]

Conservação

União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica Chironius multiventris como uma espécie pouco preocupante (LC), em decorrência de sua ampla distribuição, por ser comum, por sua presença em muitas áreas protegidas e por não existirem ameaças que afetem diretamente sua sobrevivência.[1] Em 2018, foi classificada como menos preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).[11][12]

Referências

  1.  Ortega, A.; Hoogmoed, M.; Cisneros-Heredia, D. F.; Catenazzi, A.; Nogueira, C.; Schargel, W.; Rivas, G. (2019). «South American Sipo, Chironius multiventris»Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas2019: e.T44580143A44580148. doi:10.2305/IUCN.UK.2019-3.RLTS.T44580143A44580148.enAcessível livremente. Consultado em 5 de julho de 2025
  2.  «Chironius multiventris Schmidt & Walker, 1943». The Reptile Database. Consultado em 5 de julho de 2025Cópia arquivada em 3 de dezembro de 2024
  3.  «Chironius multiventris Schmidt & Walker, 1943»Global Biodiversity Information Facility (GBIF) (em inglês). Consultado em 5 de julho de 2025Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2024
  4.  Grande Dicionário Houaiss, verbete sacaiboia
  5.  Grande Dicionário Houaiss, verbete caninana
  6.  Garzón-Francoa, Esteban; Gómez-Mesa, Laura; Arteagac, Alejandro (11 de março de 2024). «Long-tailed Whipsnake (Chironius multiventris. Consultado em 5 de julho de 2025Cópia arquivada em 22 de maio de 2025
  7.  Hamdan, B.; Scali, S.; Fernandes, D. S. (2014). «On the identity of Chironius flavolineatus (Serpentes: Colubridae)»Zootaxa3794 (1): 134–142. ISSN 1175-5326doi:10.11646/zootaxa.3794.1.6
  8.  Hamdan, B.; Da Silva, D. F. (2015). «Taxonomic revision of Chironius flavolineatus (Jan, 1863) with description of a new species (Serpentes: Colubridae)» (PDF)Zootaxa (em inglês). 4012 (1): 97-119. doi:10.11646/zootaxa.4012.1.5
  9.  Cunha, O. R. de; Piorski, N. M. (1982). «Ofídios da Amazônia Oriental (Pará, Amapá e Maranhão)» (PDF). São Paulo. Memórias do Instituto Butantan46: 139–172. Consultado em 21 de maio de 2025Cópia arquivada (PDF) em 9 de julho de 2020
  10.  «Cobra-cipó (Chironius multiventris. Serpentes Brasileiras. Consultado em 6 de julho de 2025Cópia arquivada em 6 de julho de 2025
  11.  «Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção» (PDF). Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente. 2018. Consultado em 3 de maio de 2022Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2018
  12.  «Chironius multiventris Schmidt & Walker, 1943». Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Consultado em 5 de julh

A Mestre das Copas: Tudo Sobre a Fascinante Chironius multiventris

Nas densas florestas tropicais da América do Sul, onde a biodiversidade reina suprema, habita uma serpente que combina elegância, tamanho impressionante e uma história cultural profunda. A Chironius multiventris, popularmente conhecida como caninana, cobra-cipó, cobra-verde, sacaiboia e serra-velha, é uma das representantes mais notáveis da família dos colubrídeos. Diurna e semiarbórea, esta espécie não é apenas uma habitante comum das copas das árvores, mas um organismo chave para o equilíbrio ecológico de seu habitat.
Este artigo explora em detalhes a biologia, a taxonomia, a cultura e os comportamentos secretos dessa serpente, revelando por que ela é tão especial para a herpetologia e para as comunidades onde ocorre.

Etimologia e Raízes Culturais

Os nomes populares da Chironius multiventris são um testemunho vivo da interação entre os povos originários e a fauna local. O nome "sacaiboia" deriva diretamente do tupi ïsakai'mboya, uma composição de ïsaka'i (sacaí, um tipo de macaco) e mboya (cobra). Essa nomenclatura sugere uma associação feita pelos indígenas entre a agilidade da serpente nas árvores e a dos primatas.
Já o termo "caninana" possui uma riqueza histórica documentada desde o século XVI. Deriva do tupi ka'a, com o sentido de "mato" ou "vegetação", combinado com uma forma verbal de ñane, que significa "que corre" ou "que se espraia". Registros históricos mostram a evolução da palavra ao longo do tempo: foi registrada por volta de 1584 como caninana, em 1587 como caninam, em 1610 como carunana, em 1817 como cahinanna e em 1871 como cainana. Essa persistência linguística destaca a importância da espécie no imaginário popular.
No âmbito científico, o nome do gênero, Chironius, foi cunhado por Leopold Fitzinger em 1826, mas suas origens prováveis remontam a 1790 com Blasius Merrem. Merrem utilizou o nome comum "Cobra de Quíron" para Coluber carinatus de Carlos Lineu. Na mitologia grega, Quíron era um centauro famoso por suas habilidades de cura e sabedoria. Reflexo dessa mitologia, na civilização grega antiga, os doentes buscavam cura em templos onde cobras sagradas eram cuidadosamente mantidas e apresentadas aos sofredores.
O epíteto específico multiventris tem origem latina, derivado de multus (muitos, múltiplos, numerosos) e venter (ventre). Esta denominação faz referência direta ao número relativamente alto de escamas ventrais na espécie, quando comparado a outros membros do gênero Chironius, sendo uma característica diagnóstica fundamental para sua identificação.

Taxonomia e História Científica

A classificação científica da Chironius multiventris é fruto de séculos de estudo e revisão. A espécie foi descrita pela primeira vez em 1943 pelos pesquisadores Schmidt e Walker. O holótipo, o espécime original usado para a descrição, é catalogado como FMNH 38250, e sua localidade-tipo são as Selvas do Rio Mãe de Deus, no distrito de Mãe de Deus, no Peru.
A história do gênero Chironius começa antes, com Leopold Fitzinger, que em 1826 revisou o material-tipo de Lineu e propôs a criação do gênero para alocar espécies morfologicamente distintas de outros Coluber. Ele incluiu espécies como Chironius exoletus, C. fuscus, C. saturninus (considerado sinônimo de C. fuscus) e C. carinatus, que foi reconhecida como espécie-tipo.
Atualmente, o gênero Chironius compreende 21 espécies reconhecidas, amplamente distribuídas pela América Central e América do Sul. A primeira revisão taxonômica abrangente do gênero foi realizada por Bailey em 1955, que reconheceu sete táxons, incluindo uma nova subespécie, Chironius multiventris foveatus.
Décadas depois, em 1993, Dixon e seus colaboradores conduziram uma revisão sistemática detalhada, reunindo dados sobre caracteres merísticos, morfométricos, padrão de coloração e morfologia hemipeniana. Esses autores propuseram a primeira hipótese de relações filogenéticas para o gênero, embora sem o uso de metodologia cladística, e descreveram quatro novos táxons. Em 2006, Hollis apresentou a primeira hipótese cladística de relações filogenéticas entre representantes do gênero, baseada em dados morfológicos. Mais recentemente, em 2014, Klaczko e sua equipe combinaram análises morfológicas e filogenéticas moleculares, corroborando a monofilia de Chironius, conforme proposto anteriormente, solidificando o entendimento atual sobre a evolução deste grupo.

Descrição Física e Identificação

A Chironius multiventris é uma serpente de porte considerável. Os machos podem atingir até 261,1 centímetros de comprimento total, enquanto as fêmeas chegam a cerca de 209,7 centímetros. Essa diferença de tamanho é um exemplo de dimorfismo sexual comum em muitas serpentes.
Para identificação precisa, os herpetólogos observam cuidadosamente as escamas. A dentição maxilar apresenta de 34 a 38 dentes. As escamas ventrais variam de 184 a 193 nos machos e de 183 a 193 nas fêmeas. As escamas caudais, que são sempre divididas, variam de 189 a 203 nos machos e de 192 a 201 nas fêmeas, embora tenha sido registrado um caso excepcional de uma fêmea com 206 escamas caudais.
A espécie pode ser distinguida de sua congênere C. exoletus por apresentar um número significativamente maior de escamas ventrais (161–196 contra 123–162) e uma cauda proporcionalmente mais longa. Diferencia-se também de C. fuscus e C. leucometapus por possuir 12 fileiras de escamas dorsais no meio do corpo, ao invés das 10 encontradas nesses táxons, e por ter a placa anal dividida.
A contagem de escamas dorsais organiza-se geralmente em 12-12-10 séries longitudinais, embora haja variações como 12-12-8, 12-12-9, 13-12-10 e 14-12-10. As duas fileiras vertebrais costumam apresentar carenas (quilhas), que são mais evidentes nos machos e em algumas fêmeas. As escamas laterais são fortemente oblíquas, com exceção das paraventreais. Fossetas apicais estão presentes em todas as escamas do corpo, sendo mais visíveis na nuca e no pescoço, geralmente uma por escama, mas ocasionalmente duas.
A fórmula cefálica inclui nasal dividido; loreal mais longo que largo; uma pré-ocular e três pós-oculares (variando para 1+2 ou 1+4, simetricamente ou não); temporais geralmente 1+2, raramente 1+1; supralabiais geralmente 9-9 (com variações incluindo 8-8, 9-10 ou 10-10), sendo o 4.º, 5.º e 6.º normalmente em contato com a órbita. As infralabiais são geralmente 10-10, podendo variar entre 9-9, 9-10, 10-11 e 11-11, com cinco geralmente em contato com os mentais anteriores, que são mais curtos que os posteriores.

Coloração e Mudanças Ontogenéticas

Uma das características mais intrigantes da Chironius multiventris é sua coloração ontogenética distinta, ou seja, a mudança de aparência conforme o animal envelhece.
Os juvenis possuem dorso marrom-oliva claro, com escamas mais claras formando barras transversais em zigue-zague, que são muito mais nítidas do que nos adultos. Já os indivíduos adultos exibem coloração dorsal marrom-escura, frequentemente com uma faixa vertebral clara contornada por tons escuros, especialmente nos machos. As quilhas das escamas paravertebrais formam duas linhas longitudinais negras distintas.
A parte pósterolateral do corpo e da cauda frequentemente apresenta barras transversais claras espaçadas. Os flancos pardo-escuros geralmente se estendem pelas margens das ventrais e caudais, podendo formar uma faixa enegrecida ao longo da cauda. A cabeça tende a ser mais clara, com a região látero-nucal marcando um padrão semelhante a um colar. A superfície ventral é fortemente angulada, de coloração amarelo-esbranquiçada com uma linha escurecida mediana que continua até a base da cauda.

Distribuição Geográfica e Habitat

A Chironius multiventris possui uma distribuição ampla nas terras baixas da América do Sul. Ocorre no Peru, Equador, Colômbia, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e Venezuela, em altitudes que variam do nível do mar até cerca de 670 metros.
No Brasil, sua presença é confirmada em estados da região amazônica e do cerrado, incluindo Maranhão, Mato Grosso, Tocantins, Roraima, Rondônia, Pará, Amazonas, Amapá e Acre.
Quanto ao habitat, a espécie habita principalmente florestas tropicais primárias e matas de galeria. Ocasionalmente, pode ser encontrada em áreas alteradas pelo homem, como estradas e jardins em zonas rurais, demonstrando certa flexibilidade ecológica, embora prefira ambientes preservados.

Ecologia, Comportamento e Reprodução

A Chironius multiventris é uma serpente diurna e semiarbórea. Durante o dia, pode ser vista movendo-se ativamente tanto no solo da floresta quanto sobre arbustos e árvores, alcançando até sete metros de altura. À noite, costuma repousar enrolada na vegetação, podendo ser encontrada a até nove metros do solo, o que confirma sua forte adaptação à vida nas copas.
Sua dieta é composta principalmente por anuros (sapos e rãs), mas inclui também répteis, como os lagartos Anolis fuscoauratus e Polychrus marmoratus. Essa variedade alimentar demonstra sua capacidade de predação em diferentes estratos da floresta.
No aspecto reprodutivo, fêmeas grávidas carregam entre sete e dez ovos nos ovidutos, embora o tamanho completo da ninhada ainda seja desconhecido pela ciência. A reprodução segue padrões observados em outros colubrídeos tropicais, sincronizada frequentemente com as estações chuvosas para maximizar a sobrevivência da prole.

Comportamento Defensivo e Ritual de Combate

Quando perturbada, a espécie pode adotar um comportamento defensivo agressivo. Ela é conhecida por erguer o terço anterior do corpo e desferir investidas repetidas contra a ameaça. Apesar dessa postura intimidadora e de suas mordidas poderosas, trata-se de uma serpente áglifa, ou seja, desprovida de presas especializadas para injeção de veneno, sendo considerada não venenosa para humanos.
Um comportamento social interessante foi observado no Equador, onde dois machos da espécie foram vistos envolvidos em combate ritualizado. Este comportamento é comum entre serpentes na disputa por fêmeas durante a época de acasalamento, onde os machos lutam para demonstrar dominância e garantir o direito de reprodução.

Conclusão

A Chironius multiventris é muito mais do que uma simples "cobra-cipó". Ela é um exemplo magnífico de adaptação evolutiva, com uma história taxonômica rica, uma beleza estética marcada por suas mudanças de coloração e um papel ecológico vital no controle de populações de anfíbios e lagartos. Seu comportamento defensivo impressionante e seus hábitos arborícolas a tornam uma espécie carismática para pesquisadores e amantes da natureza. Preservar as florestas onde ela habita é garantir a sobrevivência não apenas desta serpente, mas de todo o ecossistema complexo do qual ela faz parte.
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