Dona Amélia de Leuchtenberg: A Imperatriz do Brasil que Guardou Fidelidade Eterna a D. Pedro I
Dona Amélia de Leuchtenberg: A Imperatriz do Brasil que Guardou Fidelidade Eterna a D. Pedro I
Em 26 de janeiro de 1873, falecia aos 60 anos a imperatriz-viúva do Brasil, D. Amélia de Leuchtenberg, duquesa de Bragança.
A segunda esposa de D. Pedro I jamais se casou novamente e devotou sua vida ao cuidado da única filha que teve com o monarca, a princesa Maria Amélia. A jovem, porém, morreu aos 21 anos em 1853, vitimada pela tuberculose. Depois dessa perda devastadora, D. Amélia passou a residir no Paço das Janelas Verdes, em Lisboa, dedicando-se intensamente a obras de caridade, como um Hospital para Tuberculosos (ainda em funcionamento), fundado por ela na Ilha da Madeira, onde sua filha faleceu.
Um Casamento por Procuração
Amélie de Leuchtenberg nasceu em Milão em 31 de julho de 1812, filha de Eugène de Beauharnais, Duque de Leuchtenberg, e da princesa Augusta da Baviera. Seu pai era filho adotivo de Napoleão Bonaparte, o que a tornava parte da prestigiosa linhagem Beauharnais. Em 1829, aos 17 anos, foi escolhida para se casar com o imperador do Brasil, D. Pedro I, que havia enviuvado de D. Leopoldina de Áustria em 1826.
O casamento foi realizado por procuração em Munique, em 1º de agosto de 1829, e o encontro presencial ocorreu apenas em 15 de outubro daquele ano, quando o navio que trazia a jovem princesa aportou no Rio de Janeiro. Apesar da diferença de idade - Pedro tinha 30 anos e Amélie apenas 17 - o casal pareceu ter desenvolvido uma relação afetuosa. A imperatriz recebeu como presente de núpcias a magnífica Tiara de Bragança, uma joia deslumbrante que se tornaria uma de suas posses mais preciosas.
A Vida como Imperatriz do Brasil
D. Amélia chegou ao Brasil em um momento politicamente turbulento. O reinado de D. Pedro I estava marcado por conflitos políticos, e a impopularidade do monarca crescia dia após dia. Apesar das dificuldades, a jovem imperatriz tentou adaptar-se à sua nova pátria, aprendendo português e interessando-se pelos costumes locais.
Em 1831, D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho, o futuro D. Pedro II, e partiu para Portugal para lutar pela causa de sua filha, D. Maria II, cujo trono português estava sendo usurpado por D. Miguel. D. Amélia acompanhou o marido a Portugal, deixando para trás o Brasil que nunca mais veria.
A Morte de D. Pedro I e a Viuvez Eterna
Em Portugal, o casal enfrentou novos desafios. D. Pedro I liderou as tropas liberais contra os miguelistas na Guerra Civil Portuguesa, mas sua saúde já estava debilitada pela tuberculose. Em 24 de setembro de 1834, o imperador faleceu no Palácio de Queluz, aos 35 anos, deixando D. Amélia viúva aos 22 anos, grávida de cinco meses.
A imperatriz-viúva deu à luz em 4 de dezembro de 1834 a princesa Maria Amélia, sua única filha com D. Pedro I. A partir desse momento, D. Amélia dedicou-se inteiramente à criação da menina, recusando-se a contrair novo matrimônio, apesar das várias propostas que recebeu de casas reais europeias.
A Princesa Maria Amélia e a Tragédia na Madeira
Maria Amélia cresceu sob os cuidados devotados da mãe, demonstrando ser uma jovem inteligente, culta e de grande beleza. No entanto, em 1852, aos 19 anos, a princesa começou a apresentar sintomas de tuberculose. Na esperança de melhorar sua saúde, D. Amélia levou a filha para a Ilha da Madeira, cujo clima era considerado benéfico para doentes pulmonares.
Infelizmente, o tratamento não surtiu efeito. Maria Amélia faleceu em Funchal, na Madeira, em 4 de fevereiro de 1853, aos 21 anos. A perda da única filha foi um golpe devastador para D. Amélia, que nunca se recuperou completamente do luto. Em homenagem à princesa, a imperatriz fundou na Ilha da Madeira um hospital para tuberculosos, que permanece em funcionamento até os dias de hoje como o Hospital Dr. João Almada.
Problemas de Saúde e o Declínio Físico
Anos antes de sua morte, D. Amélia vinha padecendo de fortes dores no peito, que sua biógrafa, Cláudia Thomé Witte (2023), acredita que se tratava de angina, condição que provoca falta de oxigênio no coração. A imperatriz também tinha escoliose, razão pela qual sofria com problemas crônicos na coluna.
Todavia, apesar do semblante de tristeza que a caracterizou após a perda da filha, é possível dizer que aquela outrora linda monarca ainda conservava o porte elegante de seus primeiros tempos, como podemos observar na fotografia em destaque, tirada por volta de 1860. Mesmo aos 48 anos, D. Amélia mantinha a dignidade e a graça que a haviam caracterizado como imperatriz.
O Reencontro com D. Pedro II
Como não tinha herdeiros vivos, D. Amélia modificou seu testamento, deixando todas as suas joias para a irmã, a rainha da Suécia e da Noruega, Joséphine. Entre as peças, a magnífica Tiara de Bragança, que ela havia ganhado de D. Pedro I como presente de casamento. Esta tiara se tornaria uma das joias mais emblemáticas da casa real sueca.
Uma de suas últimas alegrias foi reencontrar o enteado, D. Pedro II, alguns meses antes de sua morte, quando o imperador estava em visita a Portugal com sua esposa, D. Teresa Cristina, em 1871. Naquela ocasião, o imperador havia constatado como a passagem dos anos havia pesado precocemente em sua madrasta, que parecia bem mais velha para sua idade. Apesar disso, o reencontro foi emocionante, e D. Pedro II registrou em seu diário a comoção de rever a mulher que havia cuidado de seu pai nos últimos anos de vida.
Morte e Preservação Notável
D. Amélia de Leuchtenberg faleceu em Lisboa, em 26 de janeiro de 1873, aos 60 anos. Seu corpo foi embalsamado e seu caixão hermeticamente fechado, um procedimento que permitiu que seus remanescentes humanos ficassem incrivelmente conservados, conforme se constatou na autópsia do cadáver, feita em 2012 por pesquisadores portugueses e brasileiros.
O estudo revelou que a imperatriz mantinha características físicas notáveis para sua idade, e a preservação do corpo foi considerada excepcional, permitindo aos historiadores e cientistas compreender melhor os tratamentos funerários do século XIX e a saúde da imperatriz em seus últimos anos.
O Retorno ao Brasil
Conforme seu último desejo, o corpo da imperatriz-viúva foi sepultado originalmente no Panteão dos Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, ao lado de seu marido e da filha. Ali permaneceu por mais de um século, até que em 1982, seus restos mortais foram transladados para o Brasil.
Atualmente, D. Amélia repousa na cripta Imperial, localizada no interior do Monumento ao Centenário da Independência, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Ali, ela se reuniu a D. Pedro I mais uma vez, cumprindo-se o desejo de eternidade que os uniu em vida. Ao seu lado também descansam D. Leopoldina, a primeira imperatriz, e outros membros da família imperial brasileira.
Legado e Memória
Dona Amélia de Leuchtenberg permanece na história como uma figura de dignidade, fidelidade e compaixão. Sua dedicação à memória de D. Pedro I, seu amor devotado à filha Maria Amélia, e sua obra caritativa na Ilha da Madeira são testemunhos de um caráter nobre que transcendeu as dificuldades de uma época marcada por turbulências políticas e perdas pessoais.
A imperatriz que chegou ao Brasil como uma jovem princesa de 17 anos partiu como uma viúva dedicada à caridade e à memória de seus entes queridos, deixando um legado de amor, sacrifício e humanidade que continua a inspirar aqueles que conhecem sua história.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: D. Amélia de Leuchtenberg, em 1860. Colorização: Rainhas Trágicas
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