Denominação inicial: Ginásio Estadual de Ponta Grossa
Denominação atual: Universidade Estadual de Ponta Grossa - Campus Central
Endereço: Praça Santos Andrade, s/n° - Centro
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Colégio, Ginásio
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 1949
Estrutura: singular
Tipologia: E
Linguagem: Modernista
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Faculdade de Farmácia, Odontologia e Filosofia de Ponta Grossa em 1962
Acervo: Museu da Imagem e do Som (MIS)
O Sonho que se Tornou Universidade: A Epopeia do Ginásio Estadual de Ponta Grossa e o Nascimento da Alma Intelectual dos Campos Gerais
Na Praça Santos Andrade, coração cívico de Ponta Grossa, ergue-se desde os albores da modernidade paranaense um edifício que carrega em suas paredes não apenas o peso dos anos, mas o eco de milhares de sonhos pronunciados em voz baixa nos corredores, de lágrimas derramadas sobre livros de filosofia, de risos contidos durante provas de química, de primeiros amores nascidos entre as estantes da biblioteca. O que hoje é conhecido como Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) começou sua existência como algo mais modesto, porém não menos revolucionário: o Ginásio Estadual de Ponta Grossa — uma semente plantada em 1949 que, com o tempo, germinaria em uma das mais frondosas árvores do saber no interior do Brasil.
O Chamado dos Campos Gerais: Quando o Interior Reclamou seu Direito ao Saber
O ano era 1949. O Brasil ainda sentia o calor da redemocratização após o Estado Novo; o Paraná, sob o governo de Bento Munhoz da Rocha Netto, vivia seu momento de maior expansão educacional. Mas enquanto Curitiba erguia faculdades e institutos técnicos, os Campos Gerais — região de vastos horizontes, de pinheirais majestosos, de uma economia baseada na agricultura e na pecuária — permanecia intelectualmente órfã. Os jovens talentosos de Ponta Grossa, Castro, Carambeí, Tibagi, ao concluírem o primário nos Grupos Escolares, enfrentavam uma escolha cruel: migrar para a capital ou abandonar os estudos.
Foi nesse vácuo que nasceu o projeto audacioso do Ginásio Estadual de Ponta Grossa. Não se tratava apenas de erguer mais um prédio escolar; tratava-se de plantar uma âncora intelectual no coração do planalto, de afirmar que o interior não era apenas lugar de produção de riquezas materiais, mas também de cultivo de mentes livres. O Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas recebeu a missão de desenhar não um edifício qualquer, mas um manifesto arquitetônico da maturidade cultural de uma região que decidira deixar de ser apenas passagem de tropeiros para tornar-se centro irradiador de conhecimento.
A Arquitetura como Profecia: O Modernismo que Abraçou o Futuro
Enquanto os Grupos Escolares da década de 1930 celebravam o Art Déco e as escolas rurais adotavam o Neocolonial como retorno às raízes, o Ginásio Estadual de Ponta Grossa ousou ser diferente. Seu projeto de 1949 abraçou a linguagem Modernista — não como mero estilo estético, mas como filosofia construtiva.
As linhas limpas e funcionais do edifício, sua estrutura singular (não padronizada como as escolas anteriores), sua tipologia em "E" que criava pátios internos de convivência — tudo isso falava uma linguagem nova: a do racionalismo otimista da pós-guerra, da crença de que a forma deveria servir à função, de que a beleza residia na honestidade dos materiais e na clareza das intenções. As grandes janelas horizontais não apenas banhavam as salas de aula com a luz generosa do planalto paranaense; convidavam o horizonte infinito dos Campos Gerais a fazer parte do processo educativo — como se a própria paisagem fosse coadjuvante nas lições de geografia, de botânica, de contemplação silenciosa.
Naquele projeto arquitetônico, havia uma profecia não declarada: este não seria apenas um ginásio para adolescentes recitarem versos de Olavo Bilac. Seria algo maior. O espaço generoso das salas, a previsão de laboratórios bem equipados, a biblioteca concebida como coração do edifício — tudo indicava que ali estava sendo preparado o berço de algo que ainda não tinha nome, mas que já pulsava nas veias da cidade: uma universidade.
A Praça Santos Andrade: O Palco Cívico de uma Revolução Silenciosa
Escolher a Praça Santos Andrade para abrigar o Ginásio não foi casual. Nomeada em homenagem ao estadista paranaense que lutara pela autonomia política do estado, a praça já era o centro simbólico de Ponta Grossa — onde se erguiam os poderes constituídos, onde as manifestações públicas ganhavam voz, onde a cidade se reconhecia como comunidade.
Ali, naquele quadrilátero de terra batida cercado por edificações de importância cívica, o Ginásio Estadual assumiu seu lugar não como intruso, mas como coroamento natural da vida pública. Porque que poder seria mais legítimo que o do conhecimento? Que autoridade mais respeitável que a do professor diante da lousa? Ao posicionar a escola secundária no coração da cidade, as autoridades declaravam, sem palavras: "Educar não é serviço periférico; é o ato central da civilização."
Imaginemos uma manhã de fevereiro de 1950 — ano provável de início das atividades. Jovens de quinze, dezesseis anos cruzam o portão do Ginásio carregando pastas de couro surrado, cadernos de capa dura, sonhos ainda informes. Vêm de famílias distintas: filhos de fazendeiros que mandam o primogênito estudar para administrar as terras com ciência; filhos de comerciantes sírio-libaneses que enxergam na educação a chave para a ascensão social; filhos de operários ferroviários que, com sacrifício, juntaram durante anos para comprar o uniforme completo; filhos de imigrantes italianos e poloneses que aprenderam com seus pais que, na nova pátria, o diploma valia mais que a herança de terras.
Ao entrarem, são recebidos pelo cheiro característico de escola antiga: mistura de tinta de impressão dos livros recém-chegados, de madeira envernizada das carteiras duplas, de giz branco quebrando-se com o toque firme do professor de matemática. Nas paredes, mapas-múndi mostram um planeta em transformação — a África ainda colonizada, a Cortina de Ferro dividindo a Europa, o Brasil sonhando com Brasília. E naquele ambiente de disciplina quase monástica, algo extraordinário acontece: o interior do Paraná descobre sua própria voz intelectual.
A Metamorfose: Do Ginásio às Faculdades Isoladas (1962)
Os anos 1950 revelaram uma verdade incômoda: o Ginásio Estadual estava formando jovens com sede de saber que não se saciava com o curso secundário. Eles queriam mais. Queriam laboratórios onde pudessem analisar a composição do solo dos Campos Gerais; queriam bibliotecas com obras de filosofia que questionassem o sentido da existência; queriam professores que não apenas transmitissem conteúdo, mas inspirassem vocações.
Assim, na virada para a década de 1960, começou a transformação silenciosa mas irreversível. O Ginásio, que outrora abrigara apenas o ensino médio, começou a expandir-se. Salas antes dedicadas ao latim e à trigonometria foram adaptadas para abrigar microscópios e tubos de ensaio. Professores com formação superior — muitos vindos de Curitiba ou do exterior — aceitaram o desafio de lecionar não apenas para adolescentes, mas para jovens universitários em formação.
A fotografia de 1962 conservada no Museu da Imagem e do Som registra esse momento histórico: o edifício já não se chama Ginásio Estadual. Agora é a Faculdade de Farmácia, Odontologia e Filosofia de Ponta Grossa — três cursos superiores nascidos sob o mesmo teto, fruto da mesma ambição coletiva. Nas escadarias de concreto armado do modernismo, cruzam-se agora não apenas colegiais de uniforme branco, mas jovens adultos de jaleco branco carregando frascos de reagentes; estudantes de filosofia com volumes de Sartre e Heidegger debaixo do braço; futuros dentistas discutindo anatomia da arcada dentária nos corredores.
Era o início de uma revolução silenciosa. Enquanto o Brasil vivia os anos turbulentos do início da década de 1960 — com a renúncia de Jânio Quadros, a posse de João Goulart, as tensões que antecederiam o golpe militar —, nos Campos Gerais, uma outra revolução acontecia sem alarde: o interior paranaense conquistava sua autonomia intelectual. Não precisaria mais enviar seus filhos para Curitiba ou São Paulo para formar-se. A universidade estava nascendo ali, na Praça Santos Andrade, entre as araucárias que testemunhavam a história da cidade.
O Nascimento da UEPG: Quando o Sonho se Tornou Realidade
A trajetória do Ginásio Estadual até a Universidade Estadual de Ponta Grossa é uma das mais belas epopeias da educação brasileira — porque não foi obra de um decreto isolado, mas fruto de uma teimosia coletiva, de uma cidade inteira que se recusou a aceitar a condição de periferia intelectual.
Em 1961, as faculdades isoladas foram oficialmente reconhecidas. Em 1969, diante da maturidade acadêmica alcançada, da qualidade do corpo docente formado, da infraestrutura consolidada, veio o momento culminante: a transformação em Universidade Estadual de Ponta Grossa — instituição multicampi, multicursos, multivoces, mas com o coração pulsando sempre naquele edifício modernista da Praça Santos Andrade, onde tudo começara duas décadas antes com um projeto arquitetônico ousado e um sonho ainda sem nome.
O Legado Humano: Gerações Formadas Entre Aquelas Paredes
Mas a verdadeira história do Ginásio Estadual não está nos documentos oficiais nem nas fotografias desbotadas. Está nas vidas transformadas.
Está no farmacêutico que hoje atende no interior do Paraná e atribui sua vocação ao professor que, em 1963, lhe mostrou pela primeira vez como extrair óleo essencial das plantas nativas dos Campos Gerais.
Está na professora de filosofia aposentada que, aos oitenta anos, ainda guarda o caderno de anotações da disciplina "Existencialismo e Liberdade" ministrada por um jovem docente em 1965 — caderno onde, entre conceitos de Sartre, ela rabiscou, tímida: "Será que ele me notou hoje?"
Está no dentista que construiu seu consultório na periferia de Ponta Grossa e atende gratuitamente crianças carentes porque nunca esqueceu o professor que lhe emprestou dinheiro para comprar os instrumentos do estágio final.
Está no escritor premiado cujo primeiro conto foi escrito na biblioteca do Ginásio, entre o cheiro de livros antigos e o silêncio respeitoso que pairava sobre as mesas de estudo.
São essas vidas — milhares delas — que transformaram um edifício de concreto armado em templo laico da inteligência regional. São essas histórias que fazem com que, mesmo hoje, ex-alunos já idosos voltem à Praça Santos Andrade não para visitar um campus universitário, mas para rever a casa onde aprenderam a pensar.
Epílogo: A Universidade que Nunca Esqueceu suas Raízes
Hoje, o Campus Central da UEPG carrega as marcas do tempo — alterações arquitetônicas necessárias, novas alas erguidas para acomodar cursos que nem se imaginavam em 1949, tecnologia digital substituindo os quadros-negros de ardósia. Mas algo permanece intacto, quase sagrado: a alma do Ginásio Estadual.
Quem caminha pelos corredores do prédio histórico ainda sente a presença silenciosa daqueles primeiros estudantes que ali pisaram com pés descalços dentro de sapatos emprestados, com fome no estômago mas fome maior de saber. Ainda se ouve, entre o tilintar dos teclados dos laboratórios de informática, o eco do giz raspando na lousa onde um professor escrevia, com letra cursiva impecável: "Conhece-te a ti mesmo."
O Ginásio Estadual de Ponta Grossa ensina-nos uma lição fundamental: as grandes universidades não nascem de projetos burocráticos, mas de necessidades coletivas não atendidas; não são construídas com concreto, mas com sonhos compartilhados; não se legitimam por decretos governamentais, mas pelo afeto que geram nas gerações que por elas passam.
Na Praça Santos Andrade, sob o céu imenso dos Campos Gerais, o edifício modernista permanece de pé — não como ruína museificada, mas como coração pulsante que lembra a todos que o interior do Brasil nunca foi, nem será, periferia do pensamento. Foi ali, entre aquelas paredes de linhas limpas e janelas generosas, que uma região inteira descobriu que podia sonhar em grande — e que, ao sonhar coletivamente, transformou um simples ginásio na semente de uma das mais respeitadas universidades do país.
E assim, enquanto houver um estudante cruzando aquele portão todas as manhãs com um livro sob o braço e uma pergunta sem resposta na mente, o Ginásio Estadual de Ponta Grossa — embora tenha mudado de nome — continuará vivo. Porque instituições verdadeiramente grandes não morrem; transformam-se. E o sonho de 1949 — o sonho de que os Campos Gerais mereciam seu próprio centro de saber — hoje respira, pensa, pesquisa e ensina em cada canto do Campus Central, como uma árvore cujas raízes profundas continuam alimentando seus galhos mais altos, alcançando o céu com a mesma ambição serena daqueles primeiros alunos que, um dia, ousaram acreditar que o futuro poderia começar exatamente ali, na Praça Santos Andrade, sob as araucárias testemunhas de uma revolução silenciosa chamada educação.

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