Denominação inicial: Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres
Denominação atual: Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres
Endereço: Rua Graciliano Ramos, 20 - Jardim Carvalho
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 1948
Estrutura: padronizado
Tipologia: E
Linguagem: Neocolonial
Data de inauguracao: 1958
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres - s/d
Acervo: Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres
Entre Telhas e Sonhos: A História do Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres e o Legado de um Educador que Plantou Futuros
Na Rua Graciliano Ramos, número 20, no bairro Jardim Carvalho de Ponta Grossa, ergue-se desde os anos dourados do pós-guerra um edifício cuja beleza não está apenas nas linhas suaves de seu telhado colonial ou nos arcos que emolduram suas janelas — mas na quietude heroica de quem compreendeu, antes de quase todos, que construir escolas é semear civilização. O Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres, inaugurado oficialmente em 1958 após uma gestação de dez anos de sonhos e concretagem, não foi apenas mais uma unidade escolar erguida pelo governo paranaense; foi um ato de fé na infância pobre dos Campos Gerais, um manifesto arquitetônico de que até as periferias mereciam beleza, e um tributo vivo a um homem cujo nome carrega o peso silencioso de uma dinastia que ajudou a escrever a história de Ponta Grossa.
A Semente Plantada em Solo Fértil: O Contexto de uma Cidade em Transformação
O ano era 1948. Enquanto o mundo ainda curava as feridas da Segunda Guerra Mundial, o Paraná vivia seu próprio renascimento. Sob a liderança do governador Bento Munhoz da Rocha Netto, o estado embarcava na segunda grande onda de expansão escolar — complementando a revolução iniciada por Manuel Ribas na década de 1930. Mas agora, o foco ampliava-se: não bastava mais construir Grupos Escolares nos centros urbanos; era preciso levar o saber aos bairros emergentes, aos loteamentos que brotavam como capim nos arredores das cidades, aos filhos de operários ferroviários e pequenos agricultores que migravam para a cidade em busca de uma vida melhor.
Foi nesse cenário de expansão democrática do conhecimento que a Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhou, em 1948, os traços que dariam forma ao Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres. E aqui reside uma escolha profundamente simbólica: enquanto os Grupos Escolares da década de 1930 adotavam a linguagem racional do Art Déco — celebrando a modernidade como ruptura com o passado — este novo edifício abraçou o Neocolonial como linguagem arquitetônica.
As telhas de barro curvadas não eram mero ornamento; eram uma ponte entre o novo e o ancestral. Os arcos suaves das janelas não apenas emolduravam a luz do planalto, mas evocavam a tradição das capelas rurais onde gerações haviam rezado e aprendido os primeiros rudimentos da fé e da leitura. A tipologia em "E" — incomum entre os padrões da época — criava um jogo de pátios internos que permitia que cada ala da escola respirasse com autonomia, enquanto permanecia conectada ao corpo principal como os ramos de uma mesma árvore. Era arquitetura como metáfora: unidade na diversidade, tradição a serviço do futuro.
O Homem por Trás do Nome: Meneleu e a Dinastia Almeida Torres
Para compreender quem foi Meneleu de Almeida Torres, é preciso mergulhar nas raízes profundas da história de Ponta Grossa — nas estâncias de gado que moldaram o caráter da cidade, nos sobrenomes que atravessaram gerações como rios subterrâneos carregando memória.
A família Almeida Torres pertencia à elite fundadora dos Campos Gerais. Seu patriarca, Mariano de Almeida Torres (1816–1892), fora figura central na política provincial, homem de vastas posses territoriais e influência decisiva nos rumos da região. Seu filho, Mariano de Almeida Torres (1854–1899), casado com Joaquina Fernandes, continuara o legado familiar — mas fora na terceira geração que surgira Meneleu: não como senhor de estâncias, mas como educador silencioso, homem que trocara as rédeas do cavalo pelo apagador da lousa, que preferira moldar mentes a administrar terras.
Meneleu de Almeida Torres — cujo primeiro nome evoca a força serena do carvalho ("meneleu" em tupi-guarani) — não buscou holofotes. Não foi ministro nem deputado; não teve ruas ou praças batizadas em sua homenagem em vida. Foi professor primário. Diretor de escola rural. Inspetor escolar que percorria a lama dos caminhos vicinais para visitar salas de aula de taipa onde crianças descalças aprendiam a soletrar com dedos manchados de terra. Foi o homem que, numa época em que a educação era privilégio de poucos, insistia: "Todo filho de tropeiro merece conhecer os versos de Camões. Todo neto de imigrante polonês tem direito a entender a Constituição que o protege."
Sua biografia oficial é escassa — como a de tantos educadores verdadeiros, cuja obra está nas vidas transformadas, não nos documentos assinados. Mas sua memória permanece viva nos relatos orais de antigos alunos: do menino que, faminto, encontrou na gaveta de Meneleu um pão com mortadela guardado "por engano"; da menina que, envergonhada por não ter sapatos, viu o professor chegar certa manhã com um par novo "que sobrara do meu filho"; do jovem negro que, discriminado pelos colegas, foi chamado à frente da classe por Meneleu para resolver um problema de aritmética diante de todos — e, ao acertar, recebeu aplausos que apagaram anos de humilhação.
Homenageá-lo não foi um ato burocrático; foi um reconhecimento coletivo. Quando, em 1948, decidiram batizar a nova escola do Jardim Carvalho com seu nome, não escolheram um político influente ou um empresário generoso. Escolheram o professor que, com as mãos calejadas de apagar lousas, havia plantado sementes cuja colheita só seria vista décadas depois — nos médicos, engenheiros, professores e cidadãos íntegros que um dia diriam: "Foi ele quem me ensinou que eu valia algo."
A Longa Gestação: Da Pedra Fundamental à Inauguração em 1958
Entre o projeto de 1948 e a inauguração oficial em 1958, dez anos se passaram — uma década marcada por atrasos, escassez de materiais no pós-guerra, mudanças de governo, prioridades deslocadas. Mas também uma década de espera coletiva. Enquanto o esqueleto de concreto da escola erguia-se lentamente no Jardim Carvalho, as famílias do bairro cresciam em torno dela como videiras em torno de um mourão. Mães grávidas apontavam a estrutura inacabada e diziam aos filhos pequenos: "Ali você vai estudar." Crianças brincavam nos terrenos baldios adjacentes imaginando como seriam as carteiras, o pátio, o bebedouro de onde jorraria água fresca nos dias quentes de verão.
Essa espera prolongada conferiu à inauguração um caráter quase sagrado. Quando, finalmente, em 1958, as portas se abriram sob as telhas coloniais recém-assentadas, não foi apenas uma cerimônia oficial com discursos e fitas cortadas. Foi uma festa popular. As famílias chegaram com quitutes caseiros; os alunos entraram calçando sapatos novos que haviam sido guardados para o grande dia; o padre da paróquia vizinha abençoou cada sala de aula como se abençoasse um templo. E no pátio central — desenhado pela tipologia em "E" para abrigar recreios protegidos do vento cortante dos Campos Gerais — as crianças correram pela primeira vez como se aquele espaço lhes pertencesse por direito de nascimento.
O Cotidiano Sob as Telhas Coloniais: Uma Escola que Era Casa
Nos primeiros anos de funcionamento, o Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres revelou sua alma verdadeira: não era um edifício frio de alvenaria, mas uma casa escolar no sentido mais profundo da palavra.
Pela manhã, as salas enchiam-se com o cheiro de café coado na cozinha da escola — oferecido gratuitamente aos professores que vinham de bairros distantes. Ao meio-dia, a cantina transformava-se em refeitório comunitário onde crianças de diferentes origens compartilhavam marmitas: o polentão da família italiana ao lado do pirão de farinha da família cabocla; o pão com linguiça do filho do açougueiro dividido com o pão seco da menina cujo pai estava desempregado. À tarde, enquanto os alunos do turno vespertino chegavam, os do matutino permaneciam nos pátios internos para aulas de reforço — porque Meneleu, mesmo ausente em corpo, estava presente em espírito: ninguém ficaria para trás.
As paredes de reboco liso, pintadas de branco para refletir a luz generosa do planalto, testemunharam cenas que definem a essência da educação pública brasileira: a professora que, ao perceber que um aluno não tinha caderno, rasgava folhas de seu próprio bloco de anotações; o zelador que consertava carteiras quebradas com restos de madeira encontrados no depósito; o diretor que, ao invés de expulsar o menino pego fumando atrás do banheiro, sentava-se com ele num banco do pátio e contava histórias de como quase perdera o rumo na juventude.
E sempre, pairando sobre tudo, a presença silenciosa do patrono — não em retrato oficial na sala da diretoria (que talvez nunca tenha existido), mas na ética do cuidado que permeava cada gesto: a paciência ao explicar pela terceira vez a mesma regra gramatical; a justiça ao mediar brigas de recreio; a coragem ao defender um aluno pobre da discriminação velada de pais de classe média.
O Legado Vivo: Do Grupo Escolar ao Colégio Estadual
Os anos transformaram Ponta Grossa. O Jardim Carvalho, outrora periferia de terra batida, tornou-se bairro consolidado de ruas asfaltadas e comércio vibrante. O Brasil passou por ditaduras e redemocratizações; o ensino fundamental estendeu-se de quatro para oito anos; os quadros-negros deram lugar aos projetores digitais. E o Grupo Escolar Meneleu de Almeida Torres adaptou-se — rebatizado como Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres, suas estruturas originais sofreram alterações para abrigar novas demandas pedagógicas.
Mas algo permaneceu intacto, quase milagrosamente: a alma acolhedora do lugar. Quem visita a escola hoje — como registram as fotografias do acervo da própria instituição — percebe que, apesar das modernizações, o espírito neocolonial do projeto original ainda respira nas linhas suaves do telhado, nos pátios que continuam sendo o coração pulsante da convivência escolar, na maneira como professores e alunos tratam o espaço não como propriedade do estado, mas como patrimônio coletivo.
Ex-alunos já idosos retornam à escola para mostrar aos netos onde aprenderam a ler. Professores veteranos, alguns com mais de trinta anos de casa, contam histórias de como Meneleu — cujo rosto poucos viram, cuja voz ninguém ouviu — tornou-se uma presença moral que orienta decisões até hoje: "O que Meneleu faria nesta situação?" é pergunta ainda feita em reuniões pedagógicas quando dilemas éticos surgem.
Epílogo: A Lição que Não Envelhece
Há escolas que são apenas construções de tijolo e cimento. E há escolas que se tornam personagens vivos da história de uma cidade — não por grandiosidade arquitetônica, mas pela densidade humana que abrigam. O Colégio Estadual Professor Meneleu Almeida Torres pertence a esta segunda categoria.
Seu nome — Meneleu de Almeida Torres — carrega em si uma síntese poderosa da alma paranaense: a nobreza das antigas famílias fundadoras aliada à humildade do educador anônimo; o peso da tradição transformado em instrumento de inclusão; o privilégio histórico convertido em serviço ao próximo.
Na Rua Graciliano Ramos, 20, o edifício permanece de pé — não como monumento museificado ao passado, mas como coração pulsante que lembra a todos uma verdade simples e revolucionária: as maiores obras de uma civilização não são seus arranha-céus ou seus estádios, mas suas escolas; e os maiores heróis não são os que conquistam territórios com espadas, mas os que conquistam almas com o dom silencioso de ensinar.
E assim, sob as telhas coloniais que abrigam sonhos novos a cada ano letivo, Meneleu de Almeida Torres — o professor sem estátua, o educador sem biografia oficial — continua vivo. Vive no menino que hoje soletra seu primeiro nome com orgulho; na menina que descobre nos livros da biblioteca escolar um mundo além do bairro onde mora; no jovem que, ao formar-se, decide ser professor para devolver à comunidade o que recebeu sob aquele teto de telhas curvas.
Porque há legados que não precisam de mármore para durar. Basta uma escola bem cuidada, uma geração que aprendeu a sonhar, e a certeza silenciosa de que, enquanto houver crianças cruzando aquele portão todas as manhãs, Meneleu — como as araucárias dos Campos Gerais — permanecerá de pé, enraizado na memória coletiva, ensinando sem palavras que o futuro se constrói um aluno de cada vez.

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