sexta-feira, 20 de março de 2026

Crônicas de uma Era: O Esplendor Social de Curitiba, a História de Guarapuava e a Voz do Parlamento

 

Crônicas de uma Era: O Esplendor Social de Curitiba, a História de Guarapuava e a Voz do Parlamento


Crônicas de 1954: O Esplendor das Bodas Lupion-Gandara, a Epopeia de Guarapuava e os Bastidores do Poder Paranaense

Por Redação
O ano de 1954 ficou marcado na história da sociedade paranaense como um período de extraordinária efervescência social, política e cultural. As páginas dos principais veículos de comunicação da época registram com riqueza de detalhes eventos que definiram o espírito de uma era onde a elegância das altas rodas curitibanas se entrelaçava com a reverência às origens pioneiras do estado e os debates acalorados do parlamento.

A Mais Bela Festa do Ano: O Enlace Lupion-Gandara

A cidade inteira aguardava, com desusada interesse, a chegada do dia 11 de dezembro de 1954, data que ficaria gravada na memória da sociedade curitibana como a realização do casamento entre Jona D'Arc Balan Lupion e o Dr. Manuel Gandara. Foi, sem dúvida alguma, a mais bela, elegante e comentada festa do ano, um evento que assinalou a união de duas das mais tradicionais famílias do Paraná.
A cerimônia religiosa, marcada para as 18:30 horas, foi realizada na Igreja de Santa Terezinha, templo que se tornaria palco de múltiplos eventos sociais da elite curitibana naquele período. O oficiante foi o padre Manoel Ferreira, que conduziu com solenidade o rito matrimonial. Os padrinhos do enlace foram o Senador Moysés Lupion e D. Ray Gandara, pais dos noivos, figuras proeminentes da política e sociedade paranaense.
Após a cerimônia, na intimidade de familiares e amigos, os noivos receberam os convidados em sua residência à rua Emiliano Perneta, onde foi servido refinado lunch. A descrição da recepção revela um cenário digno de contos de fadas: os amplos jardins do imponente casarão da Barigui estavam profusamente iluminados, tendo como centro uma graciosa corrente de toldos azuis que abrigava mesas onde foi servido o jantar suntuoso, a cargo de uma eficiente buffet especializada de São Paulo.
Reinando a mais cálida atmosfera, não bastasse a gentileza e o "savoir-faire" de seus anfitriões, o casal especialmente a gentil anfitriã, propriamente fascinados, tinham encantado os convidados. A festa atingiu seu auge com a presença de Carmelita Alves, que casando com a graça e a firmeza que a transformaram num ídolo popular, trouxe alegria intensa a todos quantos são amigos de Jona D'Arc e Ray.
Só sob o céu estrelado a festa esteve impossível de ser completamente descrita, tornando difícil ao mais experimentado cronista social o exato comentário de tanta beleza, tanto luxo e elegância. O ambiente em suas diversas salas via, a todo momento, estourarem "flashes" de fotógrafos notórios e cotados do Rio e São Paulo. A música "grave" servia incessantemente os convidados, com um conjunto do "Rádio Clube" de São Paulo animando a noite.
Assim era a melhor sociedade paranaense da qual são elementos de real destaque as famílias dos noivos, participantes da festa que, como disseram os cronistas da época, foi a mais bela, elegante e comentada deste ano da graça de 1954. Brilharam nas muitas flores, na elegância dos convidados das famílias dos noivos, e principalmente na alegria franca de quantos se associaram à ventura dos jovens esposos, a realização de um dos mais belos casamentos de que se tem notícia em Curitiba.

Episódios da Conquista de Guarapuava: Sangue e Coragem nos Campos Gerais

Em contraste marcante com a leveza das crônicas sociais, o documento reserva espaço para uma narrativa histórica densa e dramática. No artigo "Episódios da Conquista de Guarapuava", assinado por Delcídio Tavares Lucena especialmente para "A Divulgação", o leitor é transportado para os séculos XVIII e XIX, quando a ocupação dos Campos Gerais era marcada pela violência e pela coragem sobre-humana dos pioneiros.
A epígrafe do artigo já anuncia o tom dramático: "O ataque dos índios no Rio das Mortes é o episódio trágico de DONA LAURA DE FRANCA CAMARGO LOUREIRO". Segundo Basílio da Magalhães, a história do Paraná tem sua origem assinalada no século XVIII, com a descoberta das minas de ouro e esmeraldas, e com o estabelecimento da "Guarda Velha" que tinha por fim guardar os caminhos que iam para o Mato Grosso.
O primeiro documento que se conhece sobre a história do Paraná é uma carta de Doctor Manoel da Costa Freire, datada de 20 de março de 1750, na qual informa ao Capitão-mor de Curitiba que tinha ordem do Conde da Galvéas para estabelecer uma guarda no caminho das minas. Essa guarda foi estabelecida no lugar denominado "Roça de Dona Laura", em memória de Dona Laura de Franca Camargo Loureiro, que com sua família e agregados, ali se estabelecera.
Os primeiros povoadores começaram, então, a cultivar a terra, criando gado e estabelecendo relações comerciais com os índios, que eram os primitivos habitantes da região. Dona Laura de Franca Camargo Loureiro, viúva de Pedro Vaz de Barros, foi a verdadeira fundadora da povoação que deu origem à cidade de Guarapuava.
Em 1809, o governo da Capitania de São Paulo resolveu fundar uma vila nos campos de Guarapuava, e para isso enviou uma expedição chefiada pelo Capitão José de Góis e Morais. A expedição chegou aos campos de Guarapuava em 1810, e ali fundou a "Vila Nova do Príncipe", que depois passou a chamar-se Guarapuava. Dona Laura de Franca Camargo Loureiro faleceu em 1812, aos 85 anos de idade, deixando numerosa descendência.
O ataque dos índios no Rio das Mortes é um dos episódios mais trágicos da história do Paraná. Em 1760, uma expedição comandada pelo Capitão Pedro Vaz de Barros, genro de Dona Laura, partiu de Curitiba com destino aos campos de Guarapuava. A expedição era composta por 200 homens, entre brancos, índios mansos e escravos negros. Quando a expedição chegou ao Rio das Mortes, foi atacada por uma tribo de índios caingangues. O ataque foi surpreendente e violento. Muitos membros da expedição foram mortos, incluindo o Capitão Pedro Vaz de Barros.
Dona Laura, que aguardava o retorno da expedição em sua roça, recebeu a notícia do ataque com grande dor. Apesar da tragédia, Dona Laura não abandonou a região. Continuou a cultivar suas terras e a criar seus filhos e netos. Sua coragem e determinação foram fundamentais para a consolidação da povoação de Guarapuava. O episódio do Rio das Mortes ficou conhecido como um dos mais trágicos da história do Paraná, e é até hoje lembrado pelos historiadores.
A figura de Dona Laura de Franca Camargo Loureiro é um símbolo da coragem e determinação dos primeiros povoadores do Paraná. Sua história é um exemplo de como as mulheres desempenharam um papel fundamental na colonização do Brasil. Dona Laura de Franca Camargo Loureiro é considerada a fundadora de Guarapuava, e sua memória é honrada até hoje pelos habitantes da cidade.
Em 12 de dezembro de 1810, o Capitão José de Góis e Morais fundou a "Vila Nova do Príncipe", que depois passou a chamar-se Guarapuava. A vila foi fundada com o objetivo de consolidar a presença portuguesa na região dos campos de Guarapuava. Os primeiros moradores da vila eram descendentes de Dona Laura de Franca Camargo Loureiro, e de outros povoadores que se estabeleceram na região. A vila cresceu lentamente, e em 1855 foi elevada à categoria de cidade. Hoje, Guarapuava é uma das principais cidades do Paraná, e sua história é um testemunho da coragem e determinação dos primeiros povoadores.

Deputado Celestino D. Tempski: A Voz do Parlamento Paranaense

A política também tem seu espaço de honra nas páginas analisadas. A seção dedicada ao Deputado Celestino D. Tempski apresenta um perfil laudatório do parlamentar, transcrevendo conceito feito pelo "Diário da Noite" sobre o estimado colaborador e distinto orador da tribuna paranaense.
Quando se é membro titular de uma tribuna e, especialmente, quando se é, como o orador, um tribuno de escol, tem-se o direito de esperar que a palavra seja sempre ouvida com respeito e consideração. O deputado Celestino Tempski é um dos mais distintos oradores da Assembleia Legislativa do Paraná. Sua palavra é sempre ouvida com respeito e consideração por todos os membros da casa.
Como homem e como cidadão, de uma honestidade a toda prova, o deputado Celestino Tempski tem sabido, com seu talento e seu trabalho, conquistar o respeito e a admiração de todos os paranaenses. Sua atuação na Assembleia Legislativa do Paraná tem sido marcada pela correção, pela honestidade e pelo respeito às instituições democráticas. O deputado Celestino Tempski é um defensor intransigente dos direitos do povo paranaense.
Sua palavra é sempre firme e decidida quando se trata de defender os interesses do povo. O deputado Celestino Tempski é um homem de caráter e de sentimentos nobres. Sua atuação na vida pública é um exemplo de honestidade e de dedicação ao bem comum. Como expressão da solidariedade e apreço da redação, o documento transcreve o conceito publicado, destacando que o deputado é um tribuno de escol.
A página é adornada com uma fotografia do dr. Celestino Tempski lutando para o recebimento do diploma de Deputado Estadual, capturando o momento solene de sua posse. Ao lado do perfil político, a seção "Nota Social" informa sobre um acontecimento nos registos da alta sociedade curitibana: um chá oferecido pelas distintas senhoras Carmem e Fernanda de Barros Paranhos, filhas do casal Luiz Paranhos, em uma de suas encantadoras amigas.
A página ainda reserva espaço para citações filosóficas de autores consagrados, sugerindo a profundidade intelectual do ambiente político da época: "O riso está bem perto das lágrimas" e "E muito raro conhecer um homem sem erro" (De Segur); "Não há maior loucura do que tentar fazer ver a razão ao amor" (Jacques Helouch); "As virtudes perdem-se no interesse, como os rios se perdem no mar" (La Rochefoucauld); "Confessei que se é tímido, é se deixar de o ser" (Andre Maurois); e "As doenças dizem de nós o que, logo que outras maiores se avizinham" (Camilo).

Bodas de Prata: A Celebração da Constância Familiar

Fechando o ciclo de celebrações, o documento traz a cobertura das Bodas de Prata do casal Prof. Milton de Macedo Munhoz, figuras primaciais da sociedade curitibana. As fotos são creditadas a Rizzotto, fotógrafo renomado da época.
Há datas que merecem ser fixadas, tal a expressão e significado dos fatos marcantes da vida em família. É o caso da comemoração das Bodas de Prata do casal Prof. Milton de Macedo Munhoz, que souberam, graças à união e ao respeito mútuo, edificar um lar feliz. Tiveram oportunamente de realizar essa comemoração a 20 de novembro, na Igreja de Santa Terezinha, o mesmo templo que acolheu o casamento Lupion-Gandara, reforçando a importância desta igreja para a elite curitibana.
Depois da cerimônia religiosa, o casal reuniu em sua residência os amigos e pessoas amigas, que compareceram em grande número para apresentar os cumprimentos e votos de felicidade. Os noivos receberam, em sua residência à rua Pedro Collere, 48, os cumprimentos dos amigos, que lhes ofereceram um brilhante "party", coroado por uma tarde maravilhosa.
A festa foi animada e alegre, e todos os convidados puderam apreciar a harmonia e a felicidade que reinam no lar do casal Prof. Milton de Macedo Munhoz. O casal é descrito como um exemplo de união e de respeito mútuo, e sua história é um testemunho de como o amor e a dedicação podem construir um lar feliz. As fotografias registram tanto o momento da cerimônia religiosa quanto o grupo de convidados reunidos em frente à residência, capturando a elegância e a sofisticação da celebração.

Um Retrato de Uma Era

Este conjunto de páginas funciona como uma cápsula do tempo extraordinária, revelando múltiplas facetas da vida paranaense em meados da década de 1950. A sociedade que emerge destes registros é aquela que valorizava profundamente a linhagem familiar, a fé católica e a história de seus antepassados, enquanto celebrava o presente com festas luxuosas e debatia o futuro através de seus representantes políticos.
A Igreja de Santa Terezinha aparece como fio condutor de múltiplos eventos, sugerindo seu papel central na vida social da elite curitibana. Os nomes das ruas mencionadas — Emiliano Perneta, Pedro Collere — ainda hoje compõem o mapa afetivo de Curitiba. As referências a profissionais do Rio de Janeiro e São Paulo (fotógrafos, buffet, músicos) revelam uma sociedade conectada com os grandes centros urbanos do país, mas orgulhosa de suas tradições locais.
A figura de Dona Laura de Franca Camargo Loureiro emerge como símbolo máximo da coragem pioneira, enquanto os casamentos e bodas celebrados representam a continuidade dessas tradições familiares. O Deputado Celestino Tempski encarna o ideal do homem público íntegro e eloquente. Jona D'Arc Balan Lupion e Dr. Manuel Gandara representam a nova geração que herdaria o legado dos pioneiros.
É um registro vivo de um Paraná em construção, onde o passado heroico de Guarapuava e o presente sofisticado de Curitiba caminhavam lado a lado, onde o sangue derramado no Rio das Mortes e o champagne servido nos jardins da Barigui eram faces da mesma moeda histórica. Um documento precioso para compreender as raízes da sociedade paranaense contemporânea.














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