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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Domingos Caldas Barbosa: O Trovador Brasileiro e Precursor da Nossa Identidade Cultural

 

Domingos Caldas Barbosa
Domingos Caldas Barbosa (Lereno Selinuntino).
Nascimento
4 de agosto de 1742

Morte
9 de novembro de 1800 (61 anos)

NacionalidadePortuguesa
Ocupaçãopadre católico
poeta
músico
Magnum opusViola de Lereno

Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1742Lisboa, 9 de novembro de 1800)[1] foi um sacerdote, poeta, dramaturgo e violeiro português, nascido no Estado do Brasil, precursor do Romantismo e da Música Popular Brasileira. Um dos primeiros escritores a usar a palavra brasileiro como nome pátrio.[2] Foi membro da Accademia dell'Arcadia, de Roma e da Nova Arcádia de Lisboa.

Filho do burocrata português Antônio de Caldas Barbosa com sua escrava, Antônia de Jesus, Domingos nasceu — segundo o depoimento de um sobrinho a Januário da Cunha Barbosa — no oceano, próximo ao Rio de Janeiro. Seu batismo ocorreu na Sé carioca a 9 de setembro de 1742: "filho natural de Antônia, do gentio de Guiné, escrava de Antônio de Caldas Barbosa". Tempos depois, no entanto, seu pai, já tendo alforriado Antônia, o reconheceu como filho e em agosto de 1745 o registrou na mesma Sé como ingênuo.[3]

Na juventude carioca, Caldas Barbosa entrou para o Colégio dos Jesuítas, como humanista, mas em 1759, quando da expulsão da Companhia do Brasil, largou a roupeta.[4] Pouco tempo depois foi engajado como soldado, pelo Governador Gomes Freire de Andrada, e partiu para a Colônia do Sacramento.

De volta ao Rio, seu pai o enviou ao Reino em 1763, para estudar Leis em Coimbra. Com a súbita morte de Antônio de Caldas Barbosa, Domingos deixou a Universidade sem completar o curso. Por esses tempos, já vivia de suas trovas, peregrinando pelo Norte de Portugal, onde conheceu seus protetores Vasconcelos: futuros marqueses de Castelo Melhor e de Belas. Em Lisboa, nas Cortes de Dom José I e de sua filha, Dona Maria I, celebrizou-se pelos improvisos ao som da viola brasileira de arame. Algumas de suas centenas de cantigas estão reunidas na Viola de Lereno, cujo primeiro volume foi publicado em Lisboa, em 1798, quando o artista ainda vivia. Um segundo volume, póstumo, contendo as cantigas mais antigas e "brasileiras" — provavelmente censuradas à época de Maria I em Portugal — só veio ao lume em 1826.[5]

Em Roma, graças à sua amizade com Basílio da Gama e os Jesuítas, foi empossado na Accademia dell'Arcadia a 3 de setembro de 1772, sob o pseudônimo de Lereno Selinuntino. E como Lereno, o músico fez sucesso em todo Portugal, apresentando-se diante dos Grandes (Marialva, Val de Reis, Angeja, Redondo, Castelo Melhor, Belas etc.) e do próprio Rei, Dom José I. Em pouco tempo, a modinha de acento americano ganharia ares de música erudita na corte portuguesa.[6]

Em sua poesia tratou das peculiaridades afetivas do povo que vivia na América, distinguindo-as da do que vivia na Europa. Aproximou-se assim de temas românticos e por este motivo sofreu muitas críticas de eruditos portugueses contemporâneos, como Filinto Elísio, Nicolau Tolentino, Bocage e António Ribeiro dos Santos, que chegou a escrever que não conhecia "um poeta mais prejudicial á educação particular e pública do que este trovador de Vênus e de Cupido: a tafularia do amor, a meiguice do Brasil e em geral a moleza americana que faz o caráter das suas trovas, respiram os ares voluptuosos de Pafos e de Citera, e encantam com venenosos filtros a fantasia dos moços e o coração das damas."[7]

Entre o final da década de 1770 e início da década de 1780, Lereno ordenou-se padre secular, recebendo em 1787 um benefício de Dona Maria I. [8]

Faleceu no dia 9 de novembro de 1800, em sua casa, na Bempostinha, em Lisboa, um construção vizinha ao Palácio do seu amigo e protetor de todas as horas, D. José Luís de Vasconcelos e Sousa, Marquês de Belas.[9]

Com cerca de uma centena de melodias ainda conhecidas através de partitura, entre suas mais de duzentas de cantigas, compostas ao longo da vida, Domingos Caldas Barbosa é, com toda a justiça, o patrono da cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Música.[10]

Referências

  1. CARDOSO, Lino de Almeida (2026). Lereno em Solfa. Ubatuba: Edição do Autor. p. 83. ISBN 9786502172551
  2. CARDOSO, Lino de Almeida (2019). Americana Cantilena. Campos do Jordão: Edição do Autor. p. 12-17. ISBN 9788591179312. Cópia arquivada em 25 de junho de 2026
  3. CARDOSO, Lino de Almeida (2026). Lereno em Solfa. Ubatuba: Edição do Autor. p. 84. ISBN 9786502172551
  4. CARDOSO, Lino de Almeida (2026). Lereno em Solfa. Ubatuba: Edição do Autor. p. 71. ISBN 9786502172551
  5. CARDOSO, Lino de Almeida (2026). Lereno em Solfa. Ubatuba: Edição do Autor. p. 15. ISBN 9786502172551
  6. TINHORÃO, José Ramos (2013). História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo: 34. pp. 124–125
  7. BRAGA, Teófilo (1901). Filinto Elísio e os dissidentes da Arcádia: a Arcádia brasileira. Porto: Chardron. 617 páginas
  8. CARDOSO, Lino de Almeida (2026). Lereno em Solfa. Ubatuba: Edição do Autor. ISBN 9786502172551
  9. CARDOSO, Lino de Almeida (2026). Lereno em Solfa. Ubatuba: Edição do Autor. p. 74. ISBN 9786502172551
  10. Site da Academia Brasileira de Música - Patronos - Domingos Caldas BarbosaAcessado em 26 de março de 2016

Bibliografia

  • Sawaya, Luiza. Domingos Caldas Barbosa - Herdeiro de Horácio - Poemas no ALMANAK DAS MUSAS: Estudo Crítico. Prefácio de Vania Pinheiro Chaves. Lisboa: Esfera do Caos Editores, 2015.

Domingos Caldas Barbosa: O Trovador Brasileiro e Precursor da Nossa Identidade Cultural

Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1742 — Lisboa, 9 de novembro de 1800) foi um sacerdote, poeta, dramaturgo e violeiro, uma das figuras mais singulares e pioneiras da cultura luso-brasileira. É reconhecido como precursor do Romantismo e da Música Popular Brasileira, além de ser um dos primeiros escritores a usar a expressão “brasileiro” como nome de uma pátria e de uma identidade própria. Membro das prestigiadas Accademia dell’Arcadia de Roma e da Nova Arcádia de Lisboa, marcou profundamente a arte e a literatura de seu tempo sob o pseudônimo de Lereno Selinuntino.

Origem e infância: raízes marcadas pela história

Filho do burocrata português Antônio de Caldas Barbosa e de Antônia de Jesus, uma escrava de origem africana, seu nascimento envolve uma narrativa especial: conforme relato de um sobrinho, ele nasceu no mar, próximo à costa do Rio de Janeiro. Seu batismo, em 9 de setembro de 1742 na Sé carioca, o registrou inicialmente como “filho natural de Antônia, do gentio de Guiné, escrava de Antônio de Caldas Barbosa”. Anos depois, em 1745, seu pai alforriou a mãe e o reconheceu oficialmente como filho legítimo, alterando seu registro para “ingênuo” — uma mudança que refletiu as barreiras sociais que ele precisaria superar ao longo da vida.

Juventude e trajetória inicial

Na juventude, ingressou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro, dedicando-se aos estudos humanísticos. Mas em 1759, com a expulsão da Companhia de Jesus do Brasil, abandonou a vida religiosa escolar. Pouco tempo depois, foi alistado como soldado pelo Governador Gomes Freire de Andrada e seguiu para a Colônia do Sacramento, na região do Prata.
De volta ao Rio, em 1763, seu pai o enviou a Coimbra para cursar Direito. Contudo, com a morte repentina do pai, não pôde concluir os estudos e passou a viver de sua arte: percorreu o norte de Portugal cantando suas trovas, onde encontrou seus primeiros grandes protetores, a família Vasconcelos — futuros marqueses de Castelo Melhor e de Belas, que permaneceram ao seu lado por toda a vida.

Consagração na Corte e a identidade de Lereno

Em Lisboa, sob os reinados de D. José I e depois de Dona Maria I, sua fama se espalhou rapidamente: encantava a nobreza e o próprio Rei com seus improvisos ao som da viola brasileira de arame. Adotou o nome artístico Lereno Selinuntino, e sob essa identidade foi admitido em 1772 na Accademia dell’Arcadia de Roma, com apoio de amigos como o poeta Basílio da Gama.
Sua obra reuniu-se na célebre coleção Viola de Lereno: o primeiro volume saiu em Lisboa, em 1798, ainda em vida do autor; o segundo, com as cantigas mais antigas e de caráter mais nitidamente “brasileiro” — provavelmente censuradas na corte portuguesa — foi publicado apenas postumamente, em 1826. Graças ao seu talento, a modinha de raiz americana ganhou espaço e prestígio, transformando-se de manifestação popular a uma arte apreciada inclusive nos salões mais eruditos.

Poesia, identidade e polêmicas

Sua produção artística tinha uma marca única: retratava a sensibilidade, os afetos e o modo de ser do povo da América portuguesa, diferenciando-os explicitamente dos costumes e sentimentos europeus. Essa postura antecipou os ideais do Romantismo, mas também lhe rendeu forte oposição de intelectuais contemporâneos em Portugal — entre eles Bocage, Nicolau Tolentino e Filinto Elísio. O crítico António Ribeiro dos Santos chegou a classificá-lo como “o poeta mais prejudicial à educação particular e pública”, criticando em suas trovas o que chamou de “meiguice do Brasil” e “moleza americana”.
Longe de se abalar, Caldas Barbosa manteve sua voz própria: foi quem primeiro deu forma literária e musical à consciência de uma identidade distinta, que viria a ser a brasileira.

Vida pessoal e últimos anos

Entre o final da década de 1770 e o início da de 1780, ordenou-se padre secular, recebendo em 1787 um benefício concedido pela própria Rainha Dona Maria I.
Faleceu em 9 de novembro de 1800, em sua casa na Bempostinha, em Lisboa — vizinha ao palácio de seu maior protetor, o Marquês de Belas. Deixou mais de duzentas cantigas, das quais cerca de uma centena ainda sobrevivem com suas respectivas melodias.

Legado imortal

Hoje, Domingos Caldas Barbosa ocupa lugar central em nossa história: é o patrono da cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Música, reconhecido como o primeiro a cantar e escrever o Brasil com a alma de seu povo. Suas trovas, sua viola e a coragem de afirmar o que era nosso, em meio a uma cultura que olhava apenas para a Europa, fazem dele um verdadeiro pioneiro — quem primeiro deu voz ao sentimento de ser brasileiro.