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quarta-feira, 18 de março de 2026

Sarah Forbes Bonetta: A Princesa Iorubá que Conquistou a Rainha Vitória

 

Sarah Forbes Bonetta: A Princesa Iorubá que Conquistou a Rainha Vitória


Sarah Forbes Bonetta: A Princesa Iorubá que Conquistou a Rainha Vitória

Em 15 de agosto de 1880, falecia de tuberculose em Funchal, na Ilha da Madeira, uma mulher cuja vida parecia um romance: Sarah Forbes Bonetta. Nascida princesa iorubá, escravizada, transformada em "presente diplomático" e, finalmente, protegida da rainha Vitória do Reino Unido, sua trajetória é um testemunho extraordinário de resiliência, adaptação e das complexidades do século XIX.

A Princesa Tornada Cativa

A história de Sarah começa por volta de 1843, quando nasceu com o nome de Ainá em uma importante família iorubá, na região que hoje corresponde à Nigéria. Seu mundo desmoronou quando sua tribo foi saqueada pelos soldados do rei Gezo de Daomé. Em meio à violência do conflito, seus pais foram mortos, deixando-a órfã aos 5 anos.
A partir de então, a pequena princesa foi levada ao reino de Daomé, onde se tornou cativa do rei Gezo. Os relatos sugerem que Ainá testemunhou cenas de extrema brutalidade, incluindo execuções de inimigos do rei por decapitação. Essas experiências traumáticas marcariam profundamente sua psique, deixando um estigma da morte que a acompanharia pelo resto da vida.

O "Presente" Diplomático

Em 1850, o capitão da Marinha Real Inglesa, Frederick Forbes, chegou ao reino de Daomé com uma missão ambiciosa: negociar com o rei Gezo a abolição do tráfico transatlântico de escravizados. As negociações, segundo os registros ingleses, não obtiveram êxito. O rei Gezo resistiu às pressões britânicas, defendendo que o comércio de escravos era parte fundamental da economia e da cultura de seu reino.
Contudo, um episódio intrigante ocorreu durante essas negociações fracassadas: o rei Gezo supostamente "presenteou" o capitão Forbes com uma menina escravizada. É profundamente contraditório que Forbes, enviado para combater o tráfico de escravos, tenha aceitado tal "presente". No entanto, é possível que essa aceitação tenha sido uma estratégia diplomática para não ofender o monarca africano, ou talvez uma tentativa genuína de salvar a menina de um destino pior.
Frederick Forbes rebatizou a pequena Ainá como Sarah, em homenagem a si mesmo. Em seguida, adicionou o nome de seu navio, HMS Bonetta, tornando-a Sarah Forbes Bonetta. Assim, a princesa iorubá recebeu um novo nome, uma nova identidade e, teoricamente, uma nova vida longe do cativeiro.

O Encontro com a Rainha Vitória

Ao retornar à Inglaterra, Forbes apresentou Sarah à rainha Vitória no Castelo de Windsor. A pequena tinha apenas 7 anos, mas impressionou a monarca britânica com sua inteligência e vivacidade. Em seus diários, a rainha registrou que achou a menina "afiada e inteligente" para tão pouca idade, demonstrando uma empatia imediata por sua história trágica.
Comovida profundamente com a narrativa de vida de Sarah, a rainha Vitória decidiu tomá-la sob sua proteção pessoal. A monarca pagou por sua educação, proporcionando à ex-escravizada oportunidades que poucas pessoas de sua origem teriam na Inglaterra vitoriana. Sarah recebeu uma educação refinada, aprendendo francês e inglês fluentemente, além de desenvolver talentos musicais.
A rainha demonstrou interesse constante pela vida de sua protegida, acompanhando seu desenvolvimento e mantendo correspondência com aqueles responsáveis por sua educação. Essa relação de apadrinhamento real foi fundamental para que Sarah pudesse se integrar à sociedade britânica.

Uma Dama da Sociedade Vitoriana

Sarah Forbes Bonetta cresceu para se tornar uma jovem talentosa e culta. Sua educação privilegiada sob os auspícios da rainha Vitória lhe permitiu desenvolver habilidades que a tornaram um membro popular da sociedade de Brighton, uma elegante cidade costeira inglesa.
Falava fluentemente francês e inglês, possuía uma educação musical refinada e demonstrava as maneiras e o refinamento esperados de uma dama da era vitoriana. Sua presença na sociedade era notável não apenas por suas qualidades pessoais, mas também por sua história extraordinária: uma princesa africana resgatada da escravidão e apadrinhada pela monarca mais poderosa do mundo.
Em 1862, aos 19 anos, Sarah casou-se com James Pinson Labulo Davies, um rico comerciante de Serra Leoa, cujos pais também haviam sido escravizados. James era um homem bem-sucedido e respeitado, e o casamento representou uma união de duas pessoas que, de formas diferentes, haviam sido tocadas pelo flagelo da escravidão.

Uma Família Sob a Proteção Real

Sarah e James Davies tiveram um total de três filhos. Em reconhecimento à rainha Vitória e à sua generosidade, o casal deu o nome de Vitória à primeira filha. Assim como fizera com a mãe, a rainha tomou a pequena Vitória como sua afilhada e pagou por sua educação, estendendo sua proteção à segunda geração da família.
Essa relação continuada entre a rainha Vitória e a família Davies demonstra o compromisso genuíno da monarca com o bem-estar de sua protegida. Não se tratou apenas de um ato isolado de caridade, mas de um relacionamento duradouro baseado em afeto e responsabilidade mútua.

A Tragédia da Tuberculose

Infelizmente, a vida de Sarah Forbes Bonetta não foi longa. Assim como sua antiga mentora, a rainha Vitória, que perderia seu marido príncipe Albert em 1861, Sarah enfrentou os fantasmas da doença que assolava o século XIX.
A tuberculose, conhecida na época como "peste branca" ou "mal do século", era uma doença implacável que ceifava vidas sem distinção de classe social. Sarah, aos 37 anos, viu sua saúde deteriorar-se e foi aconselhada a buscar climas mais amenos para tentar recuperar suas forças.
Foi assim que chegou a Funchal, na Ilha da Madeira, um destino popular para doentes de tuberculose devido ao seu clima ameno e ar puro. A ilha portuguesa havia se tornado um refúgio para muitos que buscavam alívio para a doença. Ironia do destino, Sarah faleceu no hospital que havia sido criado pela imperatriz-viúva do Brasil, Dona Amélia de Leuchtenberg, em memória de sua filha, a princesa Dona Maria Amélia, outra jovem cuja vida fora ceifada pela tuberculose aos 21 anos.

Um Legado de Superação

A morte de Sarah Forbes Bonetta em 15 de agosto de 1880 encerrou uma vida marcada por transformações extraordinárias. De princesa iorubá a cativa, de "presente diplomático" a protegida real, de educanda a dama da sociedade, sua trajetória reflete as complexidades e contradições do século XIX.
Sua história levanta questões importantes sobre colonialismo, escravidão, poder e agência pessoal. Embora tenha sido "resgatada" por Forbes e Vitória, Sarah nunca deixou de ser vista através da lente do exotismo e da caridade imperial. No entanto, ela também demonstrou notável resiliência e capacidade de adaptação, aproveitando as oportunidades que lhe foram apresentadas para construir uma vida digna e respeitada.
Sarah Forbes Bonetta foi mais do que uma curiosidade histórica ou um símbolo da benevolência vitoriana. Ela foi uma mulher real, com sonhos, talentos e uma história de superação que merece ser lembrada e celebrada. Sua vida continua a inspirar reflexões sobre identidade, liberdade e as cicatrizes deixadas pela escravidão e pelo colonialismo.

Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Colorizado por Rainhas Trágicas
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