A PRINCESA ATRAVÉS DAS LENTES: MARC FERREZ E O RETRATO DE UMA ÉPOCA
A PRINCESA ATRAVÉS DAS LENTES: MARC FERREZ E O RETRATO DE UMA ÉPOCA
Por trás da imagem colorida de 1885, uma das figuras mais complexas e controversas do Brasil Imperial
Por Renato Drummond Tapioka Neto
Colorização: Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas
Colorização: Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas
I. O INSTANTE CONGELADO NO TEMPO
Rio de Janeiro, 1885. O fotógrafo franco-brasileiro Marc Ferrez, um dos maiores cronistas visuais do Brasil oitocentista, ajusta sua câmera no estúdio. Diante da lente está ela: Dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, Princesa Imperial do Brasil, Condessa d'Eu. Aos 39 anos, a herdeira do trono brasileiro posa para o que se tornaria um dos registros mais icônicos de sua trajetória
.
A fotografia em preto e branco, com dimensões de 24,0 x 18,0 centímetros, captura muito mais do que os traços de uma mulher. Preserva o olhar de quem, três anos depois, assinaria a Lei Áurea e mudaria para sempre o curso da história brasileira
. Hoje, digitalmente colorida, essa imagem ganha nova vida, novas camadas de interpretação e, principalmente, renovados debates.
Quem era, afinal, a mulher por trás da pena dourada que aboliu a escravidão no Brasil em 13 de maio de 1888?
II. A "REDENTORA" SOB JULGAMENTO: ENTRE MITO E REALIDADE
Mais de um século e meio depois, a Princesa Isabel continua dividindo opiniões. De um lado, a "Redentora", título que recebeu do Papa Leão XIII junto com a Rosa de Ouro por ter sancionado a abolição completa da escravidão
. Do outro, uma figura controversa, acusada de oportunismo político, de apagar o protagonismo negro e de ser apenas uma peça em um jogo de poder muito maior.
A verdade, como sempre, habita os tons de cinza entre esses extremos.
É inegável que a libertação dos escravizados foi uma luta travada há séculos pelos próprios negros e negras que gemiam sob o chicote. Quilombos, insurreições, fugas em massa, irmandades religiosas, sociedades abolicionistas – foram inúmeros os caminhos traçados por quem recusava a condição de mercadoria humana. Zumbi dos Palmares, Luís Gama, André Rebouças, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio: esses são nomes que a história oficial durante muito tempo silenciou, mas que hoje emergem com a força que merecem.
Nesse contexto, a imagem da princesa loira, branca, de olhos azuis, que com um gracioso gesto de mão assinou a lei com sua pena dourada, é legitimamente contestada pelos estudos decoloniais
. Esses estudos colocam os negros escravizados e libertos como os verdadeiros artífices dessa história, e não uma princesa nascida no berço de ouro do Paço de São Cristóvão.
Contudo, reduzir Isabel a uma figura meramente decorativa ou oportunista também é injusto com a complexidade de sua trajetória.
III. TRÊS REGÊNCIAS, UM LEGADO: A MULHER QUE DESAFIOU O PATRIARCADO
O que muitos esquecem – ou ignoram deliberadamente – é que Dona Isabel exerceu poder real em uma sociedade profundamente patriarcal. Por três vezes, ela foi Regente do Império do Brasil, governando uma nação em um período em que mulheres eram vistas, no máximo, como donas de casa exemplares ou mães dedicadas
.
Primeira Regência (1871-1872): Com apenas 25 anos, Isabel assumiu o governo enquanto seu pai, Dom Pedro II, viajava pela Europa. Em 27 de setembro de 1871, sancionou a Lei do Ventre Livre, que declarava livres todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data . Foi seu primeiro grande ato abolicionista, e não o último.
Segunda Regência (1876-1877): Novamente, com a ausência do Imperador, Isabel governou o Brasil em um período marcado por tensões entre Igreja e Estado, eleições violentas e uma grave seca no Nordeste que ameaçava a ordem pública .
Terceira Regência (1887-1888): A mais decisiva de todas. O Brasil estava em ebulição. O movimento abolicionista ganhava as ruas, e a pressão internacional era imensa. Isabel, cada vez mais convencida de que "alguma ação tinha que ser tomada", pressionou o conservador Barão de Cotegipe a acelerar a emancipação . Quando ele se recusou, ela o demitiu e nomeou João Alfredo Correia de Oliveira, um abolicionista convicto .
O resultado foi histórico: em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada, abolindo definitivamente a escravidão no Brasil .
Mas a que custo?
IV. O PREÇO DA LIBERDADE: ISABEL, A EXILADA
A abolição foi celebrada pelo povo, mas a monarquia nunca esteve tão frágil . Ao libertar mais de 700 mil escravizados sem indenizar os proprietários, Isabel e o Império perderam o apoio da elite agrária, que detinha poder econômico, político e social imenso .
Além disso, Isabel enfrentava o machismo estrutural de sua época. Periódicos conservadores contestavam abertamente a capacidade de uma mulher governar. Seu casamento com um estrangeiro, o francês Gaston d'Orléans, Conde d'Eu, era visto com desconfiança. Sua fé católica fervorosa e proximidade com o ultramontanismo (que defendia a autoridade do Papa sobre os governos temporais) afastavam liberais e maçons .
E havia ainda o preconceito contra seu filho mais velho, Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará, que nascera com o braço esquerdo paralisado, possivelmente devido ao parto difícil com fórceps .
Em 15 de novembro de 1889, menos de dois anos após a Lei Áurea, um golpe militar depôs Dom Pedro II e proclamou a República. A família imperial foi exilada para a Europa . Isabel, a mulher que assinara a abolição, morreu em 14 de novembro de 1921 no Château d'Eu, na França, sem poder retornar ao Brasil que tanto amara .
Em suas próprias palavras, no dia seguinte ao golpe: "Se a abolição é a causa disso, não me arrependo; considero que valeu a pena perder o trono" .
V. A MULHER DE CARNE E OSSO: PARA ALÉM DOS RÓTULOS
Mas quem foi Isabel além dos títulos e das controvérsias?
A fotografia de Marc Ferrez de 1885 nos mostra uma mulher de aparência serena, mas a realidade era mais complexa. Isabel era baixa, tinha olhos azuis, cabelos loiros, era um pouco acima do peso e não tinha sobrancelhas – características que ela própria parecia aceitar com resignação .
Sua educação foi rigorosa e ampla: mais de nove horas e meia por dia, seis dias por semana, estudando português, francês, astronomia, química, história, desenho, piano, dança, economia política, geografia, geologia e filosofia . Falava fluentemente português, francês, inglês e alemão .
No entanto, por mais completa que fosse sua formação intelectual, Isabel foi deliberadamente mantida afastada da prática do poder. Dom Pedro II, apesar de amá-la profundamente, não acreditava que uma mulher pudesse governar o Brasil
. "Ele não lhe mostrou nenhum documento de Estado. Não discutiu política com ela. Não a levou em suas visitas constantes aos escritórios do governo", escreveu o historiador Roderick J. Barman .
Isabel também enfrentou tragédias pessoais devastadoras. Perdeu dois filhos ainda no ventre e teve um terceiro, Pedro de Alcântara, com deficiência física . Consultou médicos, visitou o santuário de Lourdes em busca de um milagre, e carregou o luto de forma silenciosa .
Era uma mulher de contradições: por um lado, genuinamente abolicionista e caridosa; por outro, distante da realidade dos brasileiros comuns, vivendo uma vida reclusa no Paço de São Cristóvão ou no palácio de Petrópolis . Alguns relatos críticos afirmam que ela chamava seus serviçais de "pretos" e debochava de abolicionistas mais radicais, mas esses testemunhos precisam ser lidos com cautela, pois muitas vezes vêm de fontes republicanas interessadas em deslegitimá-la
.
VI. A FOTOGRAFIA COMO TESTEMUNHA: O LEGADO DE MARC FERREZ
Marc Ferrez (1843-1923) não foi apenas um fotógrafo; foi um cronista visual do Brasil Imperial e Republicano. Suas imagens documentaram paisagens, cidades, ferrovias, povos indígenas, escravizados e a família imperial
. A fotografia de Isabel em 1885 faz parte da Coleção Gilberto Ferrez e está sob a custódia do Instituto Moreira Salles, sendo um dos registros mais importantes da Brasiliana Fotográfica
.
Ao colorir digitalmente essa imagem em 2026, o projeto "Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas" não está apenas adicionando cores a uma fotografia antiga. Está provocando um exercício de empatia histórica: nos convidando a ver Isabel não como uma estátua de bronze ou um alvo de críticas, mas como uma pessoa real, com virtudes e defeitos, acertos e erros.
A cor traz humanidade. Os olhos azuis ganham profundidade. A pele clara revela nuances. O vestido, os detalhes da indumentária, o cenário do estúdio – tudo isso nos transporta para aquele momento específico de 1885, três anos antes da Lei Áurea, quatro anos antes da Proclamação da República.
VII. CONCLUSÃO: POR UMA HISTÓRIA MAIS COMPLEXA E JUSTA
A Princesa Isabel merece ser estudada e compreendida em toda a sua complexidade. Nem santa, nem vilã. Nem "Redentora" messiânica, nem figura decorativa sem agência política.
Ela foi uma mulher que exerceu poder em uma sociedade que não aceitava mulheres no comando. Foi uma abolicionista que agiu dentro de seus limites e de seu tempo, mas que também se beneficiou do protagonismo que a história oficial lhe conferiu em detrimento dos verdadeiros artífices da abolição: os negros e negras escravizados.
Foi uma mãe que perdeu filhos, uma esposa que viveu um casamento arranjado, uma princesa que morreu no exílio sem ver seu país novamente.
A fotografia colorida de Marc Ferrez nos lembra que a história é feita de pessoas, não de mitos. E que, talvez, o maior ato de justiça histórica seja reconhecer tanto as luzes quanto as sombras de quem, como Isabel, navegou pelas águas turbulentas de um Brasil em transformação.
Que essa imagem nos inspire a olhar para o passado com olhos mais atentos, corações mais empáticos e mentes mais críticas. Porque só assim construiremos uma história mais justa – para Isabel, para os escravizados, para as mulheres do século XIX e para todos nós, que herdamos esse legado complexo e contraditório.
Referências e Fontes:
Brasiliana Fotográfica. "Princesa Isabel". Marc Ferrez, 1885. Instituto Moreira Salles.
Wikipedia. "Isabel, Princess Imperial of Brazil".
Barman, Roderick J. Princess Isabel of Brazil: gender and power in the nineteenth century. 2002.
Geledés. "O lado B da Princesa Isabel". 2017.
Brasil Paralelo. "Descubra Quem Realmente Foi a Princesa Isabel". 2022.
Este artigo é uma homenagem a todas as mulheres que, como Isabel, desafiaram as limitações de seu tempo, mas também uma crítica necessária aos silenciamentos históricos que ainda precisam ser reparados.
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