quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Presente Mais Íntimo de D. Pedro I: Quando a História Revela os Bastidores do Amor

 

O Presente Mais Íntimo de D. Pedro I: Quando a História Revela os Bastidores do Amor


O Presente Mais Íntimo de D. Pedro I: Quando a História Revela os Bastidores do Amor

Por Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Detalhe do álbum de autógrafos da Marquesa de Santos. Fonte: Paulo Rezzutti. In: Domitila: a história não contada (2023).

O ano era 1827. O Brasil vivia os intensos e turbulentos dias do Primeiro Reinado, e nos bastidores do poder, um romance apaixonado capturava a atenção — e por vezes, a reprovação — da corte. D. Pedro I, homem de temperamento fogoso e sentimentos à flor da pele, decidiu inovar na arte de presentear sua amante oficial, Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.
Não se tratava de joias cintilantes, como o famoso colar de ametistas. Não era propriedade nobre, como o Palacete em São Cristóvão. Tampouco eram vestidos de seda importada. O presente era algo muito mais pessoal, quase visceral: um tufo de pelos crespos e encaracolados, retirados de uma parte íntima de seu próprio corpo, cuidadosamente embrulhado e enviado acompanhado de uma carta manuscrita.

📜 A Carta: Entre o Imperador e o Amante

Na mensagem que acompanhava o inusitado pacote, D. Pedro revelava suas múltiplas facetas. Ele escrevia não como soberano, mas como homem apaixonado. Os trechos da carta, preservados pela história, mostram a profundidade de seu sentimento:
"Minha querida filha e amiga do meu coração. Ainda agora te respondi como imperador, agora te escrevo como teu filho, amigo e amante, para mostrar-te que estou saudoso de ti... Minha filha, já que não posso arrancar meu coração para te mandar, recebe esses dois cabelos do meu bigode, que arranquei agora mesmo para te mandar."
Na superfície, a carta menciona fios do bigode. Era uma explicação plausível, digna de ser lida por terceiros caso o envelope fosse interceptado. Porém, a realidade guardada naquele embrulho era outra.

💍 A Moda dos "Mementos" no Século XIX

Para entender o gesto, é preciso compreender o contexto da época. No século XIX, era uma prática comum e sentimentalmente valiosa que amigos e amantes trocassem mechas de cabelo como prova de estima e conexão eterna.
Conhecidos como mementos, esses fios eram frequentemente trançados e incorporados a joias — broches, anéis e pulseiras — que serviam como lembranças físicas da pessoa amada. Muitas dessas peças, produzidas com cabelos de membros da família imperial, encontram-se hoje preservadas no Museu Imperial de Petrópolis e no Museu Paulista da USP. Era uma forma de levar consigo um fragmento do outro, uma relíquia de afeto.

🔍 A Descoberta de Paulo Rezzutti

Contudo, o que D. Pedro enviou a Domitila ia muito além da convenção dos cabelos do bigode. Durante as pesquisas para a edição revista e ampliada da biografia da Marquesa de Santos, o escritor e historiador Paulo Rezzutti encontrou nos arquivos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, o referido embrulho.
Ao analisar o conteúdo, Rezzutti descreveu o material como "chumaços de um pelo escuro, grosso e encaracolado que, se não forem do peito do imperador apaixonado, são de alguma parte muito mais íntima de seu corpo" (REZZUTTI, 2023, p. 178).
Os fios foram guardados pela marquesa ao longo dos anos e hoje se encontram colados em um álbum de autógrafos, junto com diversas outras cartas de D. Pedro I. O invólucro está registrado sob o código CF 49,07, 001 nº 56. Conhecendo os hábitos do monarca e a natureza de seu relacionamento com Domitila, muitos historiadores apostam que os fios enviados são, de fato, um tufo de pelos íntimos, simbolizando uma entrega total, física e emocional.

❤️ Um Legado de Paixão e História

Esse episódio, embora curioso aos olhos modernos, revela muito sobre a humanidade de D. Pedro I. Longe de ser apenas uma figura política distante, ele era um homem guiado por paixões intensas, que não media esforços — nem constrangimentos — para demonstrar seu afeto àquela que considerava sua companheira de alma.
Para Domitila, guardar tal presente não era apenas um ato de vaidade, mas a preservação de um vínculo que transcendeu as barreiras do protocolo real. Era a prova de que, por trás das coroas e dos tronos, existiam corações que batiam forte e desejavam ser lembrados.
A história, muitas vezes, nos surpreende não apenas com grandes batalhas ou leis, mas com esses pequenos fragmentos de intimidade que sobrevivem ao tempo. Eles nos lembram que os personagens do passado foram, acima de tudo, seres humanos complexos, capazes de amores profundos e gestos inesperados.

Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Foto: Paulo Rezzutti. In: Domitila: a história não contada. São Paulo: Editora LeYa, 2023.
Fontes históricas consultadas: Arquivo Nacional (Biblioteca Nacional), Museu Imperial de Petrópolis, REZZUTTI, Paulo. Domitila: a história não contada.
#Domitila #rainhastragicas #dpedroi #marquesadesantos #domitiladecastro #PedroI #historia #historiadobrasil #curiosidadehistorica #biografia #seculoxix #romancehistorico #cultura #arquivonacional



Nenhum comentário:

Postar um comentário