quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

RANAVALONA III: A ÚLTIMA RAINHA DE MADAGASCAR - ENTRE A RESISTÊNCIA E O EXÍLIO

 

RANAVALONA III: A ÚLTIMA RAINHA DE MADAGASCAR - ENTRE A RESISTÊNCIA E O EXÍLIO


RANAVALONA III: A ÚLTIMA RAINHA DE MADAGASCAR - ENTRE A RESISTÊNCIA E O EXÍLIO

Por Renato Drummond Tapioca Neto
Em 22 de novembro de 1861, nascia em Ambohimanga, nas terras altas centrais de Madagascar, uma princesa que carregaria nos ombros o peso de ser a última soberana de um reino milenar. Batizada originalmente como Razafindrahety, ela se tornaria conhecida para a história como Ranavalona III, a derradeira rainha de Madagascar, cujo reinado de quatorze anos (1883-1897) seria marcado por uma luta heroica, porém fútil, contra o avanço implacável do colonialismo francês.
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O REINO MERINA: O PODER DAS TERRAS ALTAS

Para compreender a grandiosidade e a tragédia de Ranavalona III, é necessário voltar no tempo e entender o contexto do Reino Merina de Madagascar. Situada ao largo da costa de Moçambique, no Oceano Índico, Madagascar é a quarta maior ilha do mundo, um continente em miniatura com biodiversidade única e uma história complexa.
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No início do século XIX, a ilha era habitada por diversos grupos étnicos, mas foram os merina, povo das terras altas centrais, que conseguiram unificar a maior parte do território sob seu domínio. A capital, Antananarivo ("a cidade dos mil", em tradução literal), tornou-se o centro político e cultural de um reino que se estendia por grande parte da ilha.
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O recenseamento demográfico não era uma prática comum na época, mas estima-se que por volta de 1865, Madagascar tivesse aproximadamente 5 milhões de habitantes, dos quais cerca de 800.000 eram merina. Apesar da diversidade étnica, havia uma notável unidade cultural: todos falavam línguas malgaxes relacionadas e compartilhavam costumes e práticas religiosas semelhantes.
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O fundador do reino unificado de Madagascar foi o rei Adrianampoinimerina, que consolidou seu poder através da unificação e expansão territorial no final do século XVIII. Seu filho, Radama I (1810-1828), continuou a obra de unificação e abriu o reino à influência europeia, especialmente britânica. Foi Radama I quem estabeleceu as bases para a modernização do reino e o contato com o ocidente.
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A ASCENSÃO DE RANAVALONA III AO TRONO

Razafindrahety era neta do rei Radama I e pertencia à nobreza merina. Quando jovem, recebeu uma educação cuidadosa, moldada pelo cristianismo protestante, que havia sido introduzido em Madagascar por missionários da London Missionary Society.
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Sua formação incluiu estudos de línguas, história, e os princípios da fé cristã, preparando-a para um futuro que ela provavelmente não imaginava.
Em 1883, quando tinha apenas 22 anos, Razafindrahety foi escolhida pela nobreza para suceder sua tia, a rainha Ranavalona II, que falecera em 13 de julho daquele ano.
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Em 30 de julho de 1883, ela foi proclamada rainha, assumindo o nome real de Ranavalona III.
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No entanto, o poder real em Madagascar não residia inteiramente nas mãos da jovem rainha. Desde 1864, o cargo de Primeiro-Ministro era ocupado por Rainilaiarivony, um homem astuto e poderoso que havia governado o país através de três rainhas sucessivas: Rasoherina, Ranavalona II e, agora, Ranavalona III.
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Para consolidar seu poder, Rainilaiarivony seguia a tradição de se casar com a rainha reinante, tornando-se assim o marido e co-governante de Ranavalona III, apesar da grande diferença de idade - ele tinha 55 anos, enquanto ela acabara de completar 22.
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Rainilaiarivony era, na prática, o verdadeiro governante de Madagascar. Ele modernizou o exército, reformou o sistema jurídico, promoveu a educação e tentou manter a soberania do reino frente às crescentes pressões coloniais europeias.
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AS GUERRAS FRANCO-HOVA: A LUTA PELA SOBERANIA

O reinado de Ranavalona III coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história de Madagascar: as Guerras Franco-Hova (também conhecidas como Guerras Franco-Malgaxes), que se estenderam de 1883 a 1896.
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O termo "Hova" referia-se à classe dominante merina, e os franceses usaram diversos pretextos para justificar suas intervenções militares, incluindo supostas violações de tratados comerciais e a proteção de interesses franceses na ilha.
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A primeira guerra (1883-1885) começou quando forças francesas bombardearam as cidades costeiras de Madagascar em dezembro de 1883.
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Os franceses buscavam restaurar propriedades e direitos que alegavam ter sido violados, incluindo a controversa "Carta Lambert", um acordo questionável supostamente firmado pelo rei Radama II.
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Apesar da resistência malgaxe, a primeira guerra terminou com um tratado desfavorável em 1885, que concedeu aos franceses certos privilégios comerciais e o controle sobre a baía de Diego-Suarez, no norte da ilha. No entanto, a paz foi efêmera.
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A segunda guerra Franco-Hova (1894-1895) foi decisiva. Em 1895, uma força expedicionária francesa massiva, composta por mais de 15.000 soldados, desembarcou em Madagascar e marchou em direção a Antananarivo.
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A jornada foi brutal: além dos combates, as tropas francesas sofreram enormemente com doenças tropicais, especialmente a malária, que causou mais baixas do que os próprios combates.
Em setembro de 1895, após um breve bombardeio do palácio real, as forças francesas capturaram Antananarivo. Ranavalona III foi forçada a se render, e Madagascar caiu sob controle francês.
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Rainilaiarivony, o poderoso primeiro-ministro, foi imediatamente exilado para Argel, na Argélia francesa, onde morreria menos de um ano depois, em 17 de julho de 1896.
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A DEPOSIÇÃO E O EXÍLIO CRUEL

Inicialmente, os franceses permitiram que Ranavalona III permanecesse no trono como uma figura simbólica, mas sua presença continuava a ser um foco de resistência nacionalista. Em 1897, as autoridades coloniais francesas, temendo sua influência sobre o povo malgaxe, decidiram exilá-la.
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Em 28 de fevereiro de 1897, Ranavalona III foi formalmente deposta e forçada a abdicar, marcando o fim oficial do Reino de Madagascar após séculos de soberania.
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Primeiro, ela e sua família foram exilados para a ilha da Reunião, uma possessão francesa no Oceano Índico.
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Em 1899, foram transferidos para Argel, na Argélia francesa, onde a rainha passaria o restante de seus dias sob supervisão francesa.
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O exílio de Ranavalona III foi marcado por uma tristeza profunda e pela saudade de sua terra natal. Ela nunca mais voltou a Madagascar. Em Argel, viveu com uma pensão modesta fornecida pelo governo francês, rodeada por alguns membros leais de sua corte que a acompanharam no exílio.
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Apesar das circunstâncias difíceis, ela manteve sua dignidade e continuou a ser reverenciada pelos malgaxes como sua verdadeira soberana.

A MORTE LONGE DA PÁTRIA AMADA

Em 23 de maio de 1917, aos 55 anos de idade, Ranavalona III faleceu em Argel, provavelmente vítima de uma embolia ou complicação arterial.
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Ela morreu longe de Madagascar, sem jamais ter visto seu povo recuperar a independência. Seu corpo foi sepultado na Argélia, e apenas décadas depois seus restos mortais foram transferidos para Madagascar, onde finalmente descansou em terra natal.
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Ranavalona III morreu sem herdeiros, e com ela se extinguiu a linhagem direta dos soberanos Merina que haviam governado Madagascar por gerações. Seu reinado de quatorze anos terminou em tragédia, mas sua resistência e dignidade frente à adversidade a tornaram um símbolo duradouro da soberania malgaxe.
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A COROA ROUBADA: UM SÍMBOLO DE SOBERANIA SAQUEADO

Quando os franceses colonizaram Madagascar, eles não apenas depuseram sua rainha, mas também saquearam os símbolos sagrados da monarquia malgaxe. Entre os tesouros roubados estava a coroa real de Ranavalona III, uma peça magnífica que adornava o dossel cerimonial da rainha.
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Por mais de 123 anos, a coroa permaneceu exposta no Museu do Exército em Paris, no complexo dos Invalides, como um troféu de guerra, um lembrete humilhante da conquista colonial francesa.
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A peça foi mantida longe de seu povo, simbolizando a perda da soberania e a subjugação de uma nação inteira.

A RESTITUIÇÃO: 123 ANOS DEPOIS

Em um gesto histórico de reparação, o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente malgaxe Andry Rajoelina negociaram a devolução da coroa de Ranavalona III a Madagascar.
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Em 5 de novembro de 2020, após mais de um século longe de casa, a coroa finalmente retornou à sua terra de origem.
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A cerimônia de devolução coincidiu com o 60º aniversário da independência de Madagascar, conquistada da França em 1960, tornando o momento ainda mais simbólico e emocionante.
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Quando a peça finalmente chegou a Antananarivo, o presidente Rajoelina declarou emocionado: "Cento e vinte e três anos após seu sequestro, acolheremos este símbolo de nossa soberania nacional".
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A coroa foi instalada no Rova, o antigo palácio real de Antananarivo, que foi renovado e transformado em museu. Lá, ela repousa sobre uma almofada de veludo carmesim, com o estandarte da soberana ao fundo, finalmente em casa, onde deveria estar desde o início.
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Além da coroa, a França devolveu outros pertences pessoais de Ranavalona III, incluindo vestidos, chapéus e o dossel real completo, permitindo que as gerações futuras de malgaxes conheçam e honrem a história de sua última rainha.
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O LEGADO DE RANAVALONA III

Ranavalona III foi muito mais do que apenas a última rainha de Madagascar. Ela foi um símbolo de resistência, dignidade e amor à pátria. Seu reinado, embora curto e marcado pela tragédia da colonização, demonstrou a coragem de um povo que lutou até o fim para preservar sua soberania.
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Apesar dos esforços ultimately fúteis para resistir ao avanço colonial francês, Ranavalona III nunca abandonou seu povo, mesmo no exílio.
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Ela se tornou uma figura lendária em Madagascar, um lembrete vivo de que a verdadeira soberania não pode ser completamente apagada pela força das armas.
Hoje, Madagascar é uma república independente, mas a memória de Ranavalona III permanece viva no coração do povo malgaxe. Sua história é ensinada nas escolas, seu rosto aparece em moedas e selos, e seu legado continua a inspirar gerações de malgaxes que valorizam a independência e a soberania nacional.
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A restituição de sua coroa em 2020 foi mais do que um ato de justiça histórica; foi um reconhecimento de que os erros do colonialismo devem ser confrontados e reparados. Foi uma homenagem à última rainha de Madagascar, que morreu longe de casa, mas cujo espírito nunca abandonou a ilha que ela tanto amou.
Ranavalona III pode ter sido a última soberana do Reino de Madagascar, mas seu legado como símbolo de resistência e dignidade nacional é eterno. Que sua história nunca seja esquecida.

Fontes e Referências Históricas:
Este artigo foi baseado em documentos históricos, arquivos diplomáticos do reino Merina e pesquisas acadêmicas sobre o reinado de Ranavalona III e a colonização francesa de Madagascar.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Retrato oficial de Ranavalona III como rainha de Madagascar. Colorizado por Rainhas Trágicas.
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