PEDRO II: O MENINO-IMPERADOR E A BUSCA POR UMA NOIVA EUROPEIA
PEDRO II: O MENINO-IMPERADOR E A BUSCA POR UMA NOIVA EUROPEIA
Por Renato Drummond Tapioca Neto
INTRODUÇÃO: O HOMEM POR TRÁS DA BARBA
Quando observamos as fotografias de D. Pedro II, é impossível não nos impressionarmos com a figura solene que encaramos. Barbas longas e brancas, olhar penetrante perdido em algum ponto além do horizonte, postura ereta de quem carrega o peso de um império nos ombros. Essa imagem icônica, reproduzida infinitamente em livros didáticos e museus, transformou o segundo imperador do Brasil em algo maior que um homem: tornou-se um símbolo, um ícone, quase uma divindade laica da história brasileira.
Mas quem era o homem por trás da barba? O que pensava o imperador enquanto contemplava o infinito através das lentes dos fotógrafos do século XIX? E, mais importante: como um menino de cinco anos, abruptamente transformado em soberano de uma nação continental, conseguiu não apenas sobreviver politicamente, mas prosperar e se tornar um dos monarcas mais respeitados de seu tempo?
A resposta para essas perguntas começa muito antes das fotografias famosas, muito antes das barbas brancas e do olhar contemplativo. Começa com uma criança assustada, órfã de mãe, abandonada pelo pai, coroada imperadora contra sua própria vontade. E continua com uma das buscas mais difíceis e delicadas de toda a história dinástica brasileira: encontrar uma noiva à altura de um imperador que, para as cortes europeias, era pouco mais que um príncipe exótico de um país distante e sem importância.
CAPÍTULO I: A CRIANÇA SOBERANA
A Abdicação e o Abandono
Era madrugada de 7 de abril de 1831 quando D. Pedro I, primeiro imperador do Brasil, tomou uma decisão que mudaria para sempre o destino de seu filho de cinco anos. Acuado por crises políticas, impopularidade crescente e saudade de Portugal, o imperador abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho, Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Habsburgo-Lorena e Bragança.
O menino, acordado no meio da noite, mal compreendia o que acontecia. Em poucas horas, deixara de ser apenas "Pedrinho" para se tornar "Sua Majestade Imperial, D. Pedro II, Imperador do Brasil". Mas majestade alguma poderia preencher o vazio deixado pela partida do pai. D. Pedro I embarcou de volta para Portugal naquela mesma manhã, deixando para trás não apenas uma coroa, mas um filho que provavelmente nunca mais veria.
A imperatriz D. Maria Leopoldina, mãe de Pedro II, já havia falecido em 1826, quando o menino tinha apenas um ano de vida. Assim, aos cinco anos, Pedro era duplamente órfão: sem mãe no túmulo, sem pai em outro continente.
O Período Regencial: Caos e Incerteza
Como Pedro II era menor de idade, a Constituição de 1824 previa a formação de uma regência para governar em seu nome. Iniciou-se então o Período Regencial (1831-1840), uma das fases mais turbulentas da história brasileira.
Três regentes se sucederam no poder:
- Regência Trina Provisória (abril-junho de 1831)
- Regência Trina Permanente (1831-1835)
- Regência Una (1835-1840), primeiro com Padre Diogo Antônio Feijó, depois com Pedro de Araújo Lima
Durante esses nove anos, o Brasil foi um barril de pólvora prestes a explodir. Revoltas eclodiram de norte a sul do país:
- Cabanagem (Pará, 1835-1840): Revolta popular que chegou a tomar Belém
- Farroupilha (Rio Grande do Sul, 1835-1845): A mais longa e perigosa, que proclamou a República Rio-Grandense
- Sabinada (Bahia, 1837-1838): Pregava a autonomia baiana até a maioridade do imperador
- Balaiada (Maranhão, 1838-1841): Revolta de cunho social com participação de escravizados
O fantasma da fragmentação territorial assombrava o Brasil. Muitos temiam que o país seguisse o caminho das colônias espanholas, que se haviam dividido em múltiplas repúblicas após a independência.
No meio desse caos, uma criança crescia nos salões do Paço Imperial, cercada por tutores, preceptores e políticos que disputavam sua influência. Pedro II era, ao mesmo tempo, soberano e prisioneiro, imperador e órfão, autoridade máxima e menor de idade.
CAPÍTULO II: A EDUCAÇÃO DE UM IMPERADOR
O Medo do "Fantasma" de Pedro I
Os tutores de Pedro II tinham uma obsessão: garantir que o menino NÃO se tornasse como o pai.
D. Pedro I fora um monarca impulsivo, apaixonado, autoritário e notoriamente infiel. Seus casos extraconjugais eram escândalos públicos. Sua relação conturbada com a imperatriz Leopoldina, que morreu jovem e doente enquanto o marido mantinha abertamente um relacionamento com a marquesa de Santos, era um precedente desastroso para a reputação da dinastia.
As cortes europeias cochichavam: "Será que o filho puxou ao pai em matéria de relacionamentos?"
Para evitar que Pedro II seguisse o "mau exemplo" paterno, seus educadores elaboraram um programa pedagógico rigoroso, quase espartano, destinado a formar o oposto completo de D. Pedro I.
O Programa Educacional
A educação de Pedro II foi entregue a alguns dos melhores preceptores da época, entre eles:
- Mariano de Vallerabore: Responsável pela educação geral
- Luís Aleixo Boulanger: Instrutor de matemática e ciências
- Frei Pedro de Santa Mariana e Souza: Educador religioso
- Rafael: Mestre de equitação
- D. Mariana de Verna: Aia e figura materna substituta
O currículo era extenso e exigente:
- Línguas: Português, francês, alemão, inglês, latim, grego clássico, hebraico, tupi-guarani
- Ciências: Matemática, física, química, astronomia, história natural
- Humanidades: História, geografia, filosofia, literatura
- Artes: Música (piano, flauta), desenho, caligrafia
- Educação Física: Equitação, esgrima, natação, dança
Pedro II estudava de 6 a 10 horas por dia, sem férias significativas. Sua rotina era monástica: acordar cedo, estudar, rezar, estudar mais, dormir cedo. Nada de festas, nada de aventuras juvenis, nada dos excessos que marcaram a juventude de seu pai.
O Preço da Perfeição
Esse programa educacional rigoroso produziu resultados impressionantes. Pedro II tornou-se um dos monarcas mais cultos de seu tempo, poliglota, cientista amador, poeta, mecenas das artes e das ciências. Correspondia-se com intelectuais europeus, financiava expedições científicas, criava instituições de ensino e pesquisa.
Mas houve um preço a pagar.
A educação repressiva, focada em negar qualquer traço da personalidade de Pedro I, criou um jovem excessivamente sério, introspectivo, emocionalmente contido. Pedro II dificilmente demonstrava afeto publicamente. Era reservado, às vezes frio, sempre consciente de seu papel e de suas responsabilidades.
Sua única válvula de escape era a leitura. O jovem imperador refugiava-se nos livros, devorando obras de literatura, ciência, história e filosofia. Construiu, ao longo da vida, uma das maiores bibliotecas privadas das Américas, com mais de 60 mil volumes.
Mas os livros não aquecem o coração de uma criança órfã. E foi exatamente essa carência afetiva que tornaria a busca por uma esposa tão urgente e tão delicada.
CAPÍTULO III: A MAIORIDADE ANTECIPADA
O Golpe da Maioridade
Em 1840, Pedro II tinha apenas 14 anos. Tecnicamente, deveria aguardar até completar 18 anos para assumir plenamente o governo, conforme a Constituição. Mas o Brasil não podia esperar.
As revoltas regenciais ameaçavam fragmentar o país. A autoridade central estava enfraquecida. Os políticos liberais, então no poder, tiveram uma ideia audaciosa: antecipar a maioridade do imperador.
Em 23 de julho de 1840, a Assembleia Geral declarou Pedro II maior de idade, encerrando o Período Regencial. No dia seguinte, 24 de julho, o menino-imperador de 14 anos foi solenemente coroado e consagrado na Capela Imperial do Rio de Janeiro.
A cerimônia foi fastosa, mas não podia esconder uma realidade desconfortável: o Brasil era governado por uma criança.
Pedro II, embora maturo para sua idade, era inexperiente, ingênuo em muitos aspectos políticos e, acima de tudo, solitário. Aos 14 anos, quando a maioria dos jovens pensa em aventuras, romances e descobertas, ele carregava o peso de um império de 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
A Preocupação com a Sucessão
Assim que Pedro II assumiu o poder, uma preocupação tomou conta de seus ministros e conselheiros: era preciso garantir a sucessão ao trono.
A dinastia de Bragança no Brasil era jovem e frágil. Pedro I abdancara e morrera em Portugal em 1834. Pedro II era solteiro, jovem e, portanto, sem herdeiros. Se algo acontecesse ao imperador, a sucessão seria um caos.
A solução era óbvia: o imperador precisava se casar, e o mais rápido possível.
Mas não bastava qualquer casamento. Para uma monarquia que buscava legitimidade e reconhecimento internacional, o matrimônio imperial deveria seguir os protocolos das casas reais europeias. A noiva ideal deveria:
- Pertencer a uma das grandes dinastias europeias (Bourbon, Habsburgo, Savoia, etc.)
- Ser católica (o Brasil era um império católico)
- Ter idade adequada para gerar herdeiros
- Aceitar viver em um país distante, exótico e, para muitos europeus, "bárbaro"
Começava então uma das buscas matrimoniais mais difíceis da história diplomática brasileira.
CAPÍTULO IV: A BUSCA POR UMA NOIVA
O Problema da Imagem do Brasil
Encontrar uma noiva para Pedro II não seria tarefa fácil. O Brasil, apesar de sua extensão territorial e potencial econômico, tinha sérios problemas de imagem nas cortes europeias:
1. Distância Geográfica
O Brasil estava do outro lado do Atlântico, a semanas de viagem de navio. Para uma princesa europeia, casar-se com o imperador do Brasil significava deixar para sempre sua família, sua cultura, seu mundo. Era um exílio dourado, mas ainda assim um exílio.
2. Falta de Riqueza
Apesar de ser um país grande, o Brasil não era rico. A economia dependia do café e do açúcar, mas os cofres imperiais estavam frequentemente vazios. A família imperial brasileira não tinha a fortuna das casas reais europeias. Não podia oferecer dotes generosos ou garantir um estilo de vida luxuoso.
3. Escravidão
Em meados do século XIX, o Brasil era o último grande império escravista das Américas. Para as cortes europeias, cada vez mais influenciadas pelo abolicionismo, isso era um estigma moral e político.
4. O Precedente de Pedro I
Como bem explica o historiador José Murilo de Carvalho, "as famílias reais europeias se perguntavam, naturalmente, se o filho não teria puxado ao pai em matéria de relacionamento" (2007, p. 51).
D. Pedro I fora um marido infiel, tratara mal a imperatriz Leopoldina e mantivera casos públicos. As princesas europeias e suas famílias temiam que Pedro II repetisse o padrão. Nenhuma família queria ver sua filha humilhada em um país distante, sem possibilidade de retorno fácil.
5. "Exotismo" e "Barbárie"
Para muitos europeus, o Brasil era uma terra exótica, tropical, habitada por índios, negros e mestiços. Era visto como um país "bárbaro", "atrasado", "perigoso". As princesas criadas nos palácios refinados de Viena, Paris ou Madri temiam o clima tropical, as doenças, a cultura diferente.
As Negociações Diplomáticas
Apesar das dificuldades, o governo brasileiro iniciou negociações com diversas casas reais europeias. O embaixador brasileiro em Londres, Luís Alves de Lima e Silva (futuro Duque de Caxias), e outros diplomatas trabalharam incansavelmente para encontrar uma noiva adequada.
As primeiras candidatas consideradas incluíam princesas de:
- Áustria (Casa de Habsburgo)
- França (Casa de Bourbon)
- Espanha (Casa de Bourbon)
- Duas Sicílias (Ramo napolitano dos Bourbon)
- Saxe-Coburgo-Gotha (Casa alemã com ligações com a realeza britânica)
Mas as negociações eram lentas e frustrantes. Muitas famílias reais pediam tempo para "conhecer melhor" o imperador. Outras faziam exigências financeiras impossíveis de cumprir. Algumas simplesmente recusavam, alegando que a distância era grande demais.
Pedro II, enquanto isso, completava 15, 16, 17 anos. A pressão por um casamento aumentava. Os ministros temiam que, sem uma imperatriz e sem herdeiros, a estabilidade do Império permanecesse frágil.
O jovem imperador, por sua vez, começava a sentir o peso da solidão. Cercado por conselheiros, tutores e políticos, não tinha amigos de verdade, não tinha companheira, não tinha afeto genuíno.
Esse cenário de incerteza e solidão só mudaria em 1842, quando uma carta chegou ao Brasil, trazendo consigo o início de uma das histórias de casamento mais improváveis e, surpreendentemente, bem-sucedidas da realeza oitocentista.
CAPÍTULO V: TERESA CRISTINA CHEGA AO BRASIL
A Escolha das Duas Sicílias
Em 1842, após anos de negociações frustradas, os diplomatas brasileiros finalmente tiveram sucesso. O Reino das Duas Sicílias (atual sul da Itália) aceitou oferecer uma de suas princesas em casamento a Pedro II.
A escolhida foi Teresa Cristina Maria de Bourbon-Duas Sicílias, nascida em 14 de março de 1822, filha do rei Francisco I das Duas Sicílias e da rainha Maria Isabel da Espanha. Teresa Cristina tinha 20 anos em 1842, cinco anos a mais que Pedro II.
Mas havia um problema: Teresa Cristina não era considerada particularmente bela. Baixa, um pouco acima do peso, com feições comuns, não tinha o glamour das princesas retratadas em pinturas românticas. Além disso, mancava levemente devido a um problema de desenvolvimento nos pés.
Os diplomatas brasileiros, temendo que o imperador recusasse a noiva ao vê-la, enviaram ao Brasil um retrato idealizado de Teresa Cristina, pintado por artistas que suavizaram seus traços e a apresentaram como uma beleza clássica.
Pedro II, jovem e inexperiente, apaixonou-se pela imagem. Aceitou o casamento por procuração em 30 de maio de 1843, sem saber que a realidade seria diferente do retrato.
O Encontro Desastroso
Em 3 de setembro de 1843, a fragata Constituição aportou no Rio de Janeiro, trazendo a nova imperatriz do Brasil. Pedro II, ansioso e apaixonado pela imagem que vira, correu para o cais para receber sua noiva.
O encontro foi um desastre.
Ao ver Teresa Cristina pela primeira vez, o jovem imperador de 17 anos ficou visivelmente desapontado. A princesa real era menos atraente que o retrato. Era mais baixa, mais robusta, mancava de forma perceptível.
Pedro II não escondeu sua decepção. Segundo relatos, teria dito algo como: "Enganaram-me!" ou "Não é essa a princesa do retrato!". Chegou a cogitar cancelar o casamento e devolver Teresa Cristina à Itália.
Mas os conselheiros imperiais intervieram. Cancelar o casamento seria uma ofensa diplomática gravíssima, que poderia isolar o Brasil internacionalmente. Além disso, Pedro II precisava de uma esposa e de herdeiros.
Relutantemente, o imperador aceitou prosseguir com o matrimônio. O casamento oficial foi celebrado em 30 de maio de 1843, na Capela Imperial.
Um Casamento que Superou as Expectativas
O início do casamento foi frio. Pedro II tratava Teresa Cristina com polidez, mas sem afeto. A imperatriz, consciente de sua decepção do marido, esforçava-se para ser uma esposa dedicada, discreta e obediente.
Mas, com o passar dos anos, algo extraordinário aconteceu: o respeito e o afeto floresceram.
Teresa Cristina revelou-se uma mulher de caráter excepcional. Inteligente, culta, discreta, dedicada às obras de caridade e ao bem-estar do povo brasileiro. Trouxe do Italia artistas, cientistas, músicos e intelectuais que enriqueceram a cultura brasileira. Promoveu escavações arqueológicas e doou ao Museu Nacional uma valiosa coleção de artefatos romanos.
Mais importante: foi uma esposa leal e amorosa, que nunca retribuiu a frieza inicial do marido com ressentimento. Pelo contrário, apoiou Pedro II incondicionalmente, gerou quatro filhos e construiu, com paciência e dedicação, um casamento sólido.
Pedro II, por sua vez, amadureceu. Percebeu que a beleza física era efêmera, mas o caráter de Teresa Cristina era eterno. Aprendeu a amar a mulher que, inicialmente, rejeitara.
Em cartas íntimas, o imperador chegou a chamar Teresa Cristina de "minha querida amiga", "minha companheira leal". Embora nunca tenha sido um casamento passionista como os romances de ficção, foi um casamento de respeito mútuo, parceria e afeto genuíno.
Os dois permaneceriam casados por 46 anos, até a morte de Teresa Cristina no exílio, em 1889.
CAPÍTULO VI: O LEGADO DE PEDRO II
O Imperador que Sobreviveu à República
Pedro II governou o Brasil por 58 anos, de 1831 a 1889. Foi o monarca que:
- Consolidou a unidade territorial do Brasil, derrotando as revoltas regenciais
- Modernizou o país, construindo ferrovias, telégrafos, portos
- Aboliu a escravidão, através da Lei Áurea assinada por sua filha Isabel em 1888
- Promoveu as artes e as ciências, sendo ele mesmo um intelectual e cientista amador
- Manteve o Brasil em paz, evitando as guerras civis que marcaram outros países latino-americanos
Mas, ironicamente, foi justamente no auge de sua popularidade que Pedro II foi deposto.
Em 15 de novembro de 1889, um golpe militar liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República. Pedro II, doente e idoso, foi exilado para a Europa.
A República, em seus primeiros anos, tentou apagar a memória do Império. Estátuas foram derrubadas, nomes de ruas mudados, símbolos imperiais destruídos.
Mas havia um problema: o povo não esqueceu Pedro II.
Mesmo após a morte do imperador, em Paris, em 5 de dezembro de 1891, sua popularidade só aumentou. Os brasileiros começaram a perceber que a República não trouxera a prosperidade e a democracia prometidas. A Primeira República (1889-1930) foi marcada por coronelismo, exclusão social, instabilidade política.
Em contraste, o Império de Pedro II parecia uma "idade de ouro" de estabilidade, progresso e dignidade.
A Imortalidade nas Fotografias
E é aqui que voltamos às fotografias mencionadas no início deste artigo.
As imagens de Pedro II, especialmente aquelas tiradas em sua maturidade, com suas longas barbas brancas e olhar contemplativo, tornaram-se ícones. Foram reproduzidas em livros, jornais, moedas, selos, estátuas.
Essas fotografias não mostram apenas um homem. Mostram um símbolo: da sabedoria, da dedicação ao serviço público, da dignidade, da cultura.
A República tentou derrubar Pedro II de seu trono. Conseguiu. Mas não conseguiu derrubá-lo de seu pedestal na memória coletiva dos brasileiros.
Até hoje, pesquisas de opinião mostram que Pedro II é avaliado positivamente pela maioria dos brasileiros. É considerado um dos maiores estadistas da história do país. Ruas, praças, escolas, hospitais levam seu nome.
O menino-imperador de 1831, o jovem decepcionado de 1843, o monarca exilado de 1889 — todos se fundiram em uma única imagem: a do imperador sábio, culto, dedicado, que colocou o Brasil acima de si mesmo.
CONCLUSÃO: O HOMEM ALÉM DO MITO
Pedro II foi, sem dúvida, uma figura extraordinária. Mas foi também um homem de carne e osso, com dúvidas, medos, solidão e carências.
Foi uma criança órfã, jogada no trono contra sua vontade. Foi um jovem inseguro, desapontado com sua noiva, mas que aprendeu a amar. Foi um imperador solitário, que encontrou refúgio nos livros e nas ciências. Foi um esposo que, apesar das aparências, soube valorizar a lealdade e o caráter de sua esposa.
A busca por uma noiva europeia, que parecia impossível devido às limitações do Brasil e ao precedente de Pedro I, terminou de forma surpreendentemente feliz. Teresa Cristina, subestimada e rejeitada inicialmente, provou ser a parceira perfeita para Pedro II.
Juntos, construíram um casamento que durou quase meio século. Juntos, governaram um império continental. Juntos, enfrentaram o exílio e a morte longe da pátria amada.
As fotografias de Pedro II, com seu olhar perdido no horizonte, talvez revelem mais do que pensamos. Revelam um homem que carregou o peso de um império nas costas. Um homem que aprendeu, através da dor e da solidão, que a verdadeira grandeza não está na coroa, mas no caráter.
Pedro II permanece, até hoje, como uma figura emblemática e fascinante. Não apenas como imperador, mas como homem. Não apenas como mito, mas como exemplo.
Que sua memória seja eterna.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Fotografia de Reverter Henrique Klumb, 1865. Colorização: Rainhas Trágicas
Referências Consultadas:
- CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II: Ser ou Não Ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
- LIMA, Oliveira. D. Pedro II: Esboço Crítico. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1910.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um Monarca nos Trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
- Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis
- Diários de D. Pedro II
- Correspondência entre D. Pedro II e D. Teresa Cristina
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