Denominação inicial: Escola Normal de Paranaguá
Denominação atual: Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha
Endereço: Rua João Eugênio, 894 - Costeira
Cidade: Paranaguá
Classificação (Uso): Escola Normal
Período: 1900-1930
Projeto Arquitetônico
Autor: Engenheiro Carlos Ross
Data: 1920
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Eclética
Data de inauguracao: 1927
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola Normal de Paranaguá na década de 1920
Acervo: Memorial Lysimaco Ferreira da Costa
Entre Muros que Formaram Mestres: A Escola Normal de Paranaguá e o Sonho de Educar uma Nação nas Terras do Litoral
No coração da Costeira, bairro histórico de Paranaguá onde o cheiro do mar se entrelaça com o aroma do pinheiro e o canto dos sabiás ecoa entre sobrados centenários, ergue-se desde 1927 um templo silencioso da sabedoria: o edifício que abrigou a Escola Normal de Paranaguá. Suas paredes em forma de "U", desenhadas pelo engenheiro Carlos Ross em 1920, não foram construídas apenas com tijolos e argamassa — foram erguidas com a convicção inabalável de que, para transformar uma nação, era preciso primeiro formar aqueles que ensinariam às crianças a ler o mundo.
O Sonho de Caetano: Quando um Presidente do Estado Plantou Sementes de Sabedoria
Era 29 de julho de 1927 — data que coincidia com os 279 anos de fundação de Paranaguá — quando a cidade portuária assistiu à inauguração de seu mais nobre projeto educacional.
A cerimônia, realizada sob a gestão do Presidente do Estado Dr. Caetano Munhoz da Rocha (1879–1944), representava muito mais que a entrega de um prédio: era a materialização de um pacto entre o poder público e o futuro.
Caetano Munhoz da Rocha, nascido em Antonina e formado no Colégio Parthenon Paranaense e no Colégio São Luís de Itu, governou o Paraná entre 1920 e 1928 com uma visão progressista que via na educação o alicerce do desenvolvimento estadual.
Em sua gestão, enquanto o Porto de Paranaguá vivia o ciclo áureo da exportação de madeira — transformando o litoral em corredor de riquezas —, o governante entendia que a verdadeira prosperidade não residia apenas nas toras de araucária que seguiam rumo à Europa, mas nas mentes que seriam cultivadas dentro daquele edifício de estilo eclético, de estrutura padronizada e tipologia em "U" que simbolizava, na arquitetura, a abertura para acolher gerações de futuros mestres.
A pedra fundamental fora lançada em 1924, num gesto simbólico que antecipava a inauguração três anos depois — período em que operários locais ergueram, tijolo por tijolo, o sonho coletivo de formar professores para as escolas primárias do litoral paranaense.
O Mundo das Normalistas: Entre Livros, Bordados e o Chamado da Sala de Aula
Imagine a cena: uma jovem de dezesseis anos, filha de pescador ou de comerciante do centro histórico, cruza pela primeira vez o portão da Rua João Eugênio, 894. Seus pés calçam sapatos simples; suas mãos trazem o caderno de capa dura e o lápis apontado com cuidado. Ao entrar naquele pátio em forma de "U", ela não apenas ingressa numa escola — ingressa numa irmandade de mulheres que carregariam nas costas a responsabilidade de alfabetizar uma nação.
Na década de 1920, as Escolas Normais brasileiras formavam, predominantemente, professoras — guardiãs do saber que sairiam dali para enfrentar as mais duras realidades: salas de aula sem janelas em vilarejos distantes, crianças descalças que chegavam à escola com fome, a resistência de famílias que preferiam os filhos trabalhando nos campos a aprendendo a ler.
Em Paranaguá, cidade que durante muito tempo fora considerada insalubre e foco de epidemias — um perigo para outras cidades —, formar professores era também um ato de resistência sanitária e civilizatória.
O currículo normalista seguia padrões rigorosos: pedagogia, didática, psicologia infantil, mas também disciplinas que hoje parecem distantes da formação docente — bordado, caligrafia, música.
As normalistas aprendiam não apenas a ensinar a tabuada, mas a ser exemplo de compostura, de higiene, de moralidade burguesa — valores que o Estado Novo posteriormente transformaria em doutrina, mas que, na década de 1920, representavam a aspiração de uma elite ilustrada por civilizar o interior do país através da figura materna do professor.
Arquitetura como Pedagogia: O Significado do "U" que Abraçava o Saber
O projeto do engenheiro Carlos Ross, aprovado em 1922 segundo relatórios governamentais da época, não foi escolhido ao acaso.
A tipologia em "U" — forma arquitetônica clássica para instituições educacionais — criava um pátio interno protegido, um espaço de convivência onde as futuras professoras podiam caminhar entre as aulas, trocar ideias sob a sombra das árvores nativas, sonhar com as salas de aula que um dia administrariam.
A linguagem eclética do edifício refletia o momento histórico do Brasil: entre o academicismo europeu e o nascente nacionalismo, entre o ornamento clássico e a funcionalidade moderna.
Janelas amplas permitiam a entrada generosa da luz natural — elemento essencial numa época sem iluminação elétrica abundante — enquanto os corredores amplos facilitavam a circulação de dezenas de jovens que, duas vezes ao dia, transformavam aquele espaço em corredor de sonhos e ansiedades.
O Legado Silencioso dos que Ensinarão a Ensinar
Quantas crianças aprenderam a soletrar seu primeiro nome graças a uma professora formada na Escola Normal de Paranaguá? Quantos filhos de imigrantes poloneses, ucranianos e açorianos descobriram o português nas salas de aula conduzidas por normalistas que ali se formaram? Quantos futuros médicos, engenheiros e escritores devem seu primeiro "a, b, c" à dedicação de uma mulher que, décadas antes, sentara-se naquelas carteiras de madeira sob o teto do edifício da Costeira?
A escola cumpriu sua missão formativa por décadas, até que em 1967 — num momento de reestruturação do ensino brasileiro que extinguiria gradualmente as escolas normais com a Lei 5.692/1971 — transformou-se no Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha, homenageando definitivamente o estadista que acreditara na educação como vetor de desenvolvimento.
Memória Viva: O Acervo que Guarda o Sussurro das Gerações
Hoje, o edifício na Rua João Eugênio, 894 permanece de pé — embora com alterações que o tempo e as necessidades pedagógicas impuseram.
Suas paredes, que já ouviram o ranger de giz em quadros-negros, agora abrigam projetores digitais e laboratórios de informática. Seus pátios, que viram normalistas ensaiando suas primeiras aulas com bonecas de pano, hoje testemunham apresentações culturais e jogos estudantis.
Mas a memória não se perdeu. Parte dela repousa cuidadosamente preservada no Memorial Lysimaco Ferreira da Costa — instituição que homenageia outro gigante da educação paranaense, fundador em 1918 da Escola Agronômica do Paraná e intelectual que circulou nas discussões sobre os rumos da educação no estado.
Ali, fotografias desbotadas, registros de matrícula, manuais didáticos da década de 1920 e relatórios manuscritos contam a história não apenas de um prédio, mas de um projeto civilizatório que transformou o litoral paranaense numa região de professores — e, por consequência, de cidadãos.
Epílogo: A Eternidade dos que Ensinarão
Noventa e sete anos após sua inauguração, o Instituto de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha continua cumprindo sua missão original: formar jovens para o magistério e para a vida.
Mas seu verdadeiro legado transcende as estatísticas de formandos ou as notas de vestibular. Reside na teia invisível de conexões que une, através do tempo, uma normalista dos anos 1930 a uma criança que hoje aprende a ler na periferia de Guaratuba; um professor formado em 1950 a um adolescente que descobre a poesia na biblioteca escolar; Caetano Munhoz da Rocha, que assinou o decreto de criação, a um aluno contemporâneo que, ao cruzar o portão da Rua João Eugênio, 894, sente, mesmo sem saber, o peso sagrado da história que habita aqueles muros.
A Escola Normal de Paranaguá nunca foi apenas um edifício. Foi — e continua sendo — um coração pulsante de memória educativa, testemunha muda de que, mesmo nos tempos sombrios das epidemias e das desigualdades profundas do litoral paranaense, houve quem acreditasse que o futuro se constrói não com portos ou estradas, mas com o gesto revolucionário de formar alguém capaz de, por sua vez, formar outros.
E enquanto houver uma jovem cruzando aquele pátio em forma de "U", carregando na mochila o peso leve de um livro e o peso imenso de um sonho, a escola continuará viva — não como ruína histórica, mas como promessa renovada de que educar é, sempre, semear esperança nas terras mais áridas do destino humano.

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