Hans KREUTZER Nascido a 23 de março de 1914 (segunda-feira) - Saarbrücken, Saarland, Alemanha Falecido a 10 de dezembro de 1978 (domingo) - Curitiba, Parana, Brasil, com a idade de 64 anos
Hans Kreutzer: Entre Fronteiras de Carvão e Esperança — A Jornada de um Filho do Sarre que Encontrou Lar nas Terras de Curitiba
Nascido sob o céu cinzento de uma Europa à beira da tempestade, Hans Kreutzer chegou ao mundo na manhã de segunda-feira, 23 de março de 1914, nos arredores industriais de Saarbrücken, coração pulsante da bacia carbonífera do Sarre. Naquele mesmo mês, enquanto seu primeiro choro ecoava entre as colinas mineiras da região, o ar da Europa já carregava presságios sombrios: em julho, as primeiras balas da Grande Guerra seriam disparadas, mergulhando o continente em quatro anos de lama, trincheiras e luto coletivo. Hans, como tantos de sua geração, teria sua infância marcada não por brinquedos, mas pelo som distante dos canhões e pelo silêncio pesado das famílias que aguardavam notícias de filhos perdidos nas frentes de batalha.
Raízes nas Minas de Carvão: Uma Infância Entre Fronteiras Incertas
Saarbrücken, na época do nascimento de Hans, era uma cidade dividida entre identidades. Região rica em carvão e aço, o Sarre havia sido separado da Alemanha após o Tratado de Versalhes de 1919, passando à administração da Liga das Nações por quinze anos — um território sem pátria definida, onde as crianças cresciam ouvindo sussurros em alemão, mas sob bandeiras estrangeiras.
Hans aprendeu a andar entre as ruas estreitas da cidade mineira, onde o cheiro de enxofre das usinas se misturava ao aroma do pão de centeio caseiro, enquanto seu pai — cujo nome se perdeu nos arquivos familiares — provavelmente trabalhava nas profundezas das minas ou nas siderúrgicas que sustentavam a região.
Sua mãe, cuja face gentil talvez tenha sido a primeira imagem que seus olhos infantis registraram, ensinou-lhe canções de ninar em dialeto Saarländisch, mistura única de alemão renano e influências francesas — língua de uma terra que nunca soube bem a quem pertencia.
Entre irmãos cujos nomes hoje repousam em registros paroquiais esquecidos, Hans cresceu testemunhando a fragilidade das fronteiras humanas: em 1923, tropas francesas ocuparam a região durante a crise do Ruhr; em 1935, aos vinte e um anos, viu seu povo votar por esmagadora maioria (90,3%) para retornar à Alemanha — mas não à Alemanha de seus avós, e sim à Alemanha de Hitler, já envolta nas sombras do nazismo.
A Coragem do Adeus: Rumo ao Novo Mundo em Tempos de Trevas
Foi nesse clima de incerteza política e opressão crescente que Hans, com apenas vinte e três anos, tomou uma decisão que definiria seu destino: deixar para trás as minas de carvão, as ruas familiares de Saarbrücken e o fantasma de uma guerra que se avizinhava, rumo ao Brasil. Em meados da década de 1930, enquanto muitos alemães eram atraídos pelas promessas do regime nazista, outros — artesãos, camponeses, operários — buscavam no Atlântico Sul um refúgio para suas consciências e esperanças.
A viagem não foi fácil. Em navios apinhados de sonhos e saudades, Hans cruzou o oceano Atlântico durante semanas, observando o horizonte onde a Europa desaparecia atrás de uma linha tênue, enquanto à frente aguardava um continente de proporções continentais e promessas incertas. Chegou a Curitiba — então uma cidade em transformação, onde ruas de paralelepípedos se entrelaçavam com bondes elétricos e o aroma do pinhão se misturava ao sotaque polonês, italiano e ucraniano dos imigrantes que construíam a capital paranaense.
Ali, entre as colinas verdes do Planalto Curitibano, encontrou não apenas trabalho, mas algo ainda mais precioso: a possibilidade de recomeçar.
O Encontro com Olga: Quando Dois Destinos se Tecem em Terra Estrangeira
No outono de 1937, sob um céu curitibano tingido pelos tons alaranjados do ipê, Hans encontrou Olga Wanda Stubert — jovem de vinte anos, filha de outra linhagem de imigrantes que também buscara no Paraná um novo começo.
No dia 6 de novembro daquele ano, sábado marcado pela esperança, os dois uniram suas vidas em cerimônia simples, provavelmente celebrada em uma das igrejas católicas que pontilhavam a cidade, onde o latim das missas ecoava sobre sussurros em alemão e português.
Olga, nascida em 1917, trouxe para Hans não apenas companheirismo, mas a coragem feminina de quem também aprendera a ser estrangeira em sua própria terra. Juntos, construíram um lar modesto — talvez uma casa de madeira nos arredores da cidade, onde o fogão a lenha aquecia as noites frias de inverno e onde, nas paredes, penduravam fotografias desbotadas de parentes distantes, guardiãs silenciosas de memórias que a distância ameaçava apagar.
As Flores de seu Jardim: Bernardete, Agnes e Guiomar
Do amor entre Hans e Olga brotaram três flores que dariam sentido à sua jornada de exílio: Bernardete, Agnes e Guiomar — três meninas cujos risos encheram a casa de alegria e cujos primeiros passos foram dados sobre o solo brasileiro que seus pais aprenderam a amar como próprio.
Bernardete, a mais velha, cresceu ouvindo histórias do "Velho Mundo" contadas pelo pai em noites de inverno — narrativas de minas escuras, de trens que cruzavam vales nevados, de um rio chamado Sarre que serpenteava entre colinas cobertas de florestas. Agnes, que mais tarde se tornaria Agnes Kreutzer Fabri ao casar, herdou talvez a determinação materna e o olhar sonhador do pai — aquele mesmo olhar que, décadas depois, ainda se perdia no horizonte como se buscasse, além das montanhas paranaenses, as silhuetas distantes de Saarbrücken.
E Guiomar — nome brasileiro escolhido com carinho, talvez em homenagem à terra que os acolhera — representou a ponte definitiva entre duas culturas: filha de um alemão do Sarre e de uma brasileira de ascendência germânica, ela encarnava a síntese da jornada de Hans: não mais estrangeiro, não mais exilado, mas curitibano de coração, pai de brasileiras que carregariam seu sangue e sua história nas veias.
Entre Duas Guerras: O Silêncio que Falava Mais Alto
Os anos que se seguiram ao casamento foram marcados pela sombra da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Enquanto bombas caíam sobre a Europa — e certamente sobre Saarbrücken, que sofreu trinta ataques aéreos aliados
— Hans vivia em Curitiba o paradoxo doloroso de quem escapara da destruição física, mas não da destruição emocional. Cartas de parentes na Alemanha tornaram-se raras; notícias chegavam fragmentadas, carregadas de luto e incerteza. Muitas famílias alemãs no Brasil enfrentaram perseguições durante o Estado Novo de Vargas, quando o regime desconfiava de "quintas colunas" nazistas no Sul do país.
Hans, provavelmente, aprendeu a calar certas memórias, a sorrir com cautela, a ensinar às filhas que "ser alemão" não significava apoiar Hitler — mas sim honrar as tradições, o trabalho honesto e a dignidade humana.
O Legado Silencioso de um Homem Comum
Hans Kreutzer faleceu no domingo, 10 de dezembro de 1978, em Curitiba, aos sessenta e quatro anos — tendo vivido exatos sessenta e quatro outonos desde aquele março de 1914 em Saarbrücken. Seu corpo foi sepultado em solo brasileiro, mas sua alma permaneceu dividida entre duas terras: a que o gerou e a que o acolheu.
Não deixou fortunas nem nomes em ruas ou prédios públicos. Não foi herói de guerra nem líder político. Foi, antes de tudo, um homem comum — operário, marido, pai — cuja grandeza reside precisamente nisso: na coragem cotidiana de recomeçar, na fidelidade ao lar construído com mãos calejadas, no amor silencioso dedicado a três meninas que jamais conheceriam as minas de carvão onde seu avô talvez trabalhara.
Hoje, quando os ipês voltam a florir em Curitiba e o vento frio do inverno paranaense sopra sobre as ruas onde Hans caminhou, seu legado permanece vivo nas histórias contadas por Bernardete, Agnes e Guiomar a seus filhos e netos — nas receitas de sauerkraut adaptadas ao paladar tropical, nas canções de ninar em alemão que ainda embalam berços curitibanos, na memória de um homem que cruzou oceanos não por glória, mas por amor à vida.
Hans Kreutzer foi um fio na grande tapeçaria da imigração — tênue, quase invisível para olhos apressados, mas essencial para a trama que hoje define a alma multicultural de Curitiba. E talvez seja nisso que reside sua verdadeira imortalidade: não em monumentos de pedra, mas no sangue morno de descendentes que, ao pronunciarem seu nome, mantêm viva a memória de quem ousou acreditar que, mesmo entre fronteiras incertas e guerras distantes, era possível plantar raízes — e fazer florescer esperança onde antes só havia exílio.
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Casamento(s) e filho(s)
- Casado a 6 de novembro de 1937 (sábado), Curitiba, Parana, Brasil, com Olga Wanda STUBERT 1917-1991 tiveram
| (esconder) |
Acontecimentos
| 23 de março de 1914 : | Nascimento - Saarbrücken, Saarland, Alemanha |
| 6 de novembro de 1937 : | Casamento (com Olga Wanda STUBERT) - Curitiba, Parana, Brasil |
| 13 de agosto de 1941 : | Residência Atenção: duas páginas sob o link abaixo. |
| 10 de dezembro de 1978 : | Morte - Curitiba, Parana, Brasil |
191423 de março.
Nascimento
19376 de novembro
23 anos
Casamento
197810 dez.
64 anos
Morte
Descendentes de Hans KREUTZER
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