Marie ROSE Chamberedon ( Marie Rose ) Nascida a 25 de setembro de 1832 (terça-feira) - Nîmes, 30000, Gard, Occitanie, FRANCE Faleceu em 13 de novembro de 1914 (sexta-feira) - la levade maison trinille - La Grand Combe, Gard, aos 82 anos de idade. Sem profissão (1854-1891), dona de casa (1894-1902), ama de leite
Marie Rose: A Filha das Sombras que Teciu uma Tapeçaria de Vidas
Uma homenagem à mulher que nasceu sem nome e morreu cercada por gerações que carregavam seu sangue
Naquela terça-feira de setembro de 1832, quando o sol se punha sobre Nîmes e as sombras alongavam-se pelas vielas da cidade provençal, uma vida começou nas margens do mundo. Às sete horas da noite, uma criança recém-nascida foi deixada silenciosamente à porta do Hospice d'Humanité — o abrigo que hoje abriga o Lycée Daudet. Não havia berço, nem mãe chorando, nem pai ansioso. Apenas um fardo pequeno envolto em panos, depositado na escuridão como um segredo que alguém não quis carregar. Louis Leque, funcionário municipal que encontrou a menina ao amanhecer, registrou-a na prefeitura com o nome que lhe pareceu mais puro para uma órfã: Marie Rose. Nascera sem família, sem história, sem passado. Mas o destino, teimoso como as oliveiras das Cévennes, reservava-lhe oito décadas para tecer uma existência que desafiaria as circunstâncias de seu nascimento.
As Raízes que Nunca Conheceu: Uma Infância Forjada pelo Acolhimento
Aos quatro dias de vida, Marie Rose foi confiada a um mensageiro que a transportou das ruas de pedra de Nîmes para as montanhas verdes das Cévennes. Por 7 francos e 50 centavos — quantia registrada meticulosamente nos livros do hospício em 12 de outubro —, sua infância foi entregue às mãos de Marie Goulabert, esposa de Antoine Chamboredon, em Mas Devois, Portes. Ali, naquela casa de pedra cercada por vinhas e castanheiros, a menina órfã encontrou o que o sangue não lhe dera: um lar. Em 24 de abril de 1836, aos três anos e meio, foi confiada gratuitamente à sua ama — gesto raro que revela o afeto que já a cercava. Antoine e Marie não apenas a criaram; deram-lhe seu sobrenome, Chamboredon, transformando-a, aos olhos do mundo, em filha legítima daquela família de camponeses das montanhas.
Ela cresceu em Les Treilles, entre o canto dos grilos e o cheiro de pão quente no forno de barro. Aprendeu a fiar lã, a preparar queijo de cabra, a rezar o terço com as velhas da aldeia. Nunca soube quem a gerou — seus pais biológicos permanecem como sombras sem rosto nos registros (SOSA x desconhecido) —, mas carregou consigo, até o fim dos dias, a marca daqueles que a escolheram: os Chamboredon. Quando Marie Goulabert morreu em 1852 e Antoine seguiu-a em 1865, Marie Rose já era mulher. E, mesmo sem sangue em comum, carregava no coração a herança de quem a salvara da indiferença do mundo.
Dois Amores, Duas Famílias: A Maternidade como Ato de Resistência
Em 14 de junho de 1854, aos 21 anos, Marie Rose casou-se com Guilhaume Bruel, um homem quatorze anos mais velho, na pequena igreja de Portes. Começava ali uma jornada que definiria sua existência: a maternidade como ato de coragem em uma época em que cada parto era um risco e cada inverno ameaçava ceifar vidas infantis.
Seu primeiro filho, Henri Auguste, nasceu em 11 de junho de 1855 em Bordezac. Por três anos, Marie Rose embalou aquele menino, ensinou-lhe as primeiras palavras, protegeu-o do frio das montanhas. Mas em 26 de abril de 1858, a morte bateu à porta: Henri Auguste partiu, deixando um vazio que nenhuma oração preencheria. Ainda assim, Marie Rose seguiu. Em 1859, nasceu Marie Alphonsine; por volta de 1861, César; em 1862, Louis — este nascido em Cransac, no Aveyron, talvez durante uma migração temporária da família em busca de trabalho. Em 1864, veio a dor mais silenciosa: um filho natimorto em La Canabière, cujo choro nunca ecoou pelas paredes da casa. E em 1866, Auguste, que sobreviveria para cruzar oceanos e plantar raízes no Brasil.
Enquanto criava esses filhos, Marie Rose trabalhava como ama de leite — ironia profunda para quem fora salva por uma ama. Seu corpo nutria outras crianças enquanto o coração carregava as cicatrizes das perdas. Quando Guilhaume morreu em 1883 em Champoly, Loire, ela já era uma mulher marcada pelas ausências, mas fortalecida pela teimosia da vida.
Poucos anos depois, encontrou novo porto em Louis Verbon (1831-1888). Com ele, aos 37, 39 e 42 anos — idades consideradas avançadas para gestações na época —, deu à luz Antoine Eugène, Aimé Ernest e Marie Angéline. Cada nascimento era um desafio ao tempo e ao destino. Quando Louis faleceu em dezembro de 1888, Marie Rose, agora viúva pela segunda vez, tinha 56 anos e uma prole espalhada pelas montanhas do Gard.
O Nome que Nunca Foi Seu: A Luta por uma Identidade Própria
Nos documentos oficiais, ela era Marie Chamboredon — o nome da família que a acolhera. Mas em seu coração, ela sempre fora Marie Rose, a menina sem passado registrada por um funcionário compassivo. Em 16 de outubro de 1902, aos 70 anos, apresentou um pedido ao tribunal para que seu nome legal fosse alterado, devolvendo-lhe a identidade que lhe fora dada no primeiro ato de humanidade de sua vida. O pedido foi indeferido. A burocracia negou-lhe o direito de ser, até nos papéis, quem sempre soube que era.
Mesmo assim, em 7 de julho de 1888, um juiz em Roanne corrigira a certidão de óbito de Guilhaume Bruel, registrando-a como "Marie Rose" em vez de "Marie Chamboredon". Pequena vitória em uma vida de lutas silenciosas. Ela carregou os dois nomes como carregou suas duas viuvezes: com dignidade quieta, sem dramatismo, mas sem jamais esquecer de onde viera.
As Asas dos Filhos: Entre as Montanhas da França e os Campos do Brasil
Marie Rose testemunhou seus filhos voarem para além das Cévennes. Auguste Bruel, seu filho mais novo com Guilhaume, partiu para o Brasil em 1895 — casou-se com Maria Clara Cassou em Bacacheri, nos arredores de Curitiba, e fundou uma linhagem que floresceria no Paraná. Netos como Agostinho Marie Claire (nascido em Curitiba em 1896), Luiz, Margarida Delfina, Octavio e Alice Lila nasceram sob céus tropicais, enquanto Marie Rose envelhecia entre as oliveiras de La Vernarède e La Levade.
Ela compareceu ao casamento de Marie Angéline em 1894 em La Vernarède — a filha mais nova que escolheu ficar perto, com quem dividiria os últimos anos de vida. Também esteve presente quando Antoine Eugène casou-se em Laval-Pradel em 1902, morando temporariamente com ele em La Vernarède. Mas não pôde estar nos casamentos de Louis (1891, em Nîmes) nem de Aimé (1901, em La Grand'Combe) — talvez pela distância, talvez pela fragilidade da idade, talvez por feridas não ditas.
Em 1910, aos 77 anos, vivia com Marie Angéline em La Levade, cercada por netos e bisnetos cujas vozes enchiam a casa de risadas. A menina abandonada à porta de um hospício tornara-se o tronco de uma árvore genealógica que se espalharia por dois continentes.
O Último Suspiro: 13 de Novembro de 1914
Na sexta-feira 13 de novembro de 1914, às seis horas da tarde, Marie Rose Chamboredon fechou os olhos para sempre na Maison Trinille, em La Levade. Tinha 82 anos — longevidade rara para uma mulher de sua condição naquele tempo. Morreu em plena Primeira Guerra Mundial, enquanto jovens morriam nos campos de batalha da França; mas ela, que conhecera a fome, a perda e o abandono, resistira.
Seu corpo foi sepultado em La Levade ou em Laval-Pradel — até na morte, a incerteza a acompanhou. Mas seu legado permaneceu: onze filhos conhecidos, dezenas de netos, bisnetos nascidos do Atlântico ao planalto paranaense. A filha natural de Nîmes tornara-se ancestral de famílias inteiras.
Legado de uma Alma que Transformou Abandono em Pertencimento
Marie Rose nunca conheceu seus pais biológicos. Nunca soube por que foi deixada naquela porta em setembro de 1832. Mas ao longo de oitenta e dois anos, ela fez algo extraordinário: redefiniu o que significa família. Não pelo sangue, mas pelo ato contínuo de cuidar, de permanecer, de amar mesmo após as perdas.
Ela foi ama de leite para outros, mas antes fora salva por uma ama. Foi dona de casa sem jamais ter tido uma casa própria até ser acolhida. Foi mãe que enterrou filhos, mas que seguiu gerando vida. Foi mulher que lutou por um nome próprio e, mesmo negada, manteve viva a essência de quem era.
Hoje, nos arquivos do Gard, seu nome aparece em registros secos: "Marie Chamboredon, nascida Marie Rose". Mas nas memórias das famílias Bruel e Verbon — nas fotos amareladas de netos brasileiros, nas histórias contadas em La Grand'Combe, nos nomes dados a crianças nascidas décadas depois — permanece a presença silenciosa daquela menina que o mundo quase descartou.
Ela não foi rainha, nem santa, nem heroína de romances. Foi apenas uma mulher das montanhas, de mãos calejadas e coração resiliente. Mas em sua trajetória reside uma verdade universal: ninguém é definido pelo abandono que sofreu, mas pela coragem com que escolhe viver depois dele.
Marie Rose partiu em 1914, mas deixou para trás algo que o tempo não apaga: a prova de que até a vida mais frágil no início pode tornar-se raiz de florestas inteiras. E nas veias de seus descendentes — na França, no Brasil, em todos os lugares onde seus netos plantaram sementes — corre ainda, silenciosa e poderosa, a força da menina que nasceu sem nome e morreu como mãe de mundos.
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