Denominação inicial: Grupo Escolar Professor Colares
Denominação atual: Colégio Estadual Professor Colares
Endereço: Avenida Visconde de Mauá, 650 - Oficinas
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica
Data: 1935
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 24 de julho de 1937
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar Professor Colares - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)
O Farol das Oficinas: Quando o Saber Iluminou o Coração Ferroviário de Ponta Grossa — A História do Grupo Escolar Professor Colares
Naquela manhã de 24 de julho de 1937, enquanto as locomotivas a vapor da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande exalavam nuvens brancas sobre os trilhos das Oficinas, algo silencioso mas igualmente poderoso acontecia na Avenida Visconde de Mauá, número 650. Portas de madeira maciça se abriam para revelar não apenas salas de aula, mas um sonho republicano feito de concreto, geometria e esperança: o Grupo Escolar Professor Colares, templo laico erguido onde o cheiro de carvão e óleo de máquina se misturava ao perfume das primeiras letras aprendidas por crianças de operários ferroviários.
Oficinas: O Berço do Progresso onde Nascia uma Escola
Para compreender a alma do Professor Colares, é preciso primeiro respirar o ar das Oficinas — bairro que não era apenas um ponto no mapa, mas o coração pulsante do progresso paranaense. Ali, desde o final do século XIX, concentravam-se os grandes galpões da ferrovia, onde máquinas gigantescas eram desmontadas, consertadas e renascidas para cruzar os Campos Gerais . Operários sujos de graxa, maquinistas de mãos calejadas, foguistas queimados pelo sol do fogo da caldeira — todos ali construíam não apenas trens, mas o próprio futuro do Paraná.
Era nesse universo de força bruta e precisão técnica que viviam suas famílias: mulheres que lavavam roupa até altas horas para complementar o salário do marido, crianças que brincavam entre dormentes de madeira e vagões abandonados, jovens que sonhavam em ser algo além do que seus pais haviam sido. A educação era luxo distante — até que o Estado, na figura do Departamento de Obras e Viação, decidiu erguer em 1935 um edifício que mudaria para sempre o destino daquelas crianças.
A Arquitetura da Esperança: Art Déco nas Terras dos Trilhos
O projeto assinado pela Secção Técnica em 1935 não era obra de arquiteto celebrado — era padrão estatal, repetido em dezenas de cidades brasileiras durante o Estado Novo. Mas nessa padronização residia justamente sua revolução: a certeza de que até os filhos dos operários das Oficinas mereciam beleza, ordem e dignidade em seu ambiente de aprendizado .
A tipologia em "U" abraçava o pátio central como um colo protetor — espaço onde as crianças, ainda com o cheiro de fumaça ferroviária nas roupas, podiam correr livres sob o sol dos Campos Gerais. As linhas horizontais marcantes, os ornamentos geométricos abstratos, as janelas amplas que capturavam a luz do saber — tudo isso compunha uma linguagem arquitetônica que afirmava, sem palavras: vocês, filhos do povo trabalhador, são dignos de um palácio para aprender .
Diferente do ecletismo ornamental do século XIX, o Art Déco era racional, otimista, voltado para o progresso. Cada detalhe transmitia a ideologia do Brasil de Vargas: a escola não era apenas lugar de alfabetização — era fábrica de cidadãos, templo onde se forjava a identidade nacional brasileira . Enquanto na Europa o estilo adornava cinemas e hotéis de luxo, nas Oficinas de Ponta Grossa ele erguia-se para abrigar os sonhos das crianças pobres — gesto de justiça estética raro na história da arquitetura mundial.
Quem Foi o Professor Colares? O Homem por Trás do Nome Esquecido
Poucos hoje se lembram de quem foi o Professor Colares — e essa amnésia coletiva é talvez a maior injustiça contra aqueles que dedicaram a vida à educação pública brasileira. Embora documentos específicos sobre sua biografia permaneçam raros nos arquivos estaduais, o fato de uma escola ter recebido seu nome naquele período sugere um educador de reconhecida dedicação — talvez professor normalista formado nas primeiras escolas do Paraná, talvez inspetor escolar que percorreu a pé os caminhos de terra para fiscalizar o ensino rural, talvez diretor que transformou uma sala precária num verdadeiro templo do saber.
Na tradição paranaense da época, homenagear alguém com o nome de uma escola não era decisão leviana. Exigia-se trajetória exemplar, compromisso inabalável com a infância pobre, capacidade de transformar realidades adversas em oportunidades de aprendizado. Professor Colares, seja quem tenha sido, certamente encarnou esses valores — e sua memória merece ser resgatada não como mero nome em placa, mas como símbolo de uma geração de educadores anônimos que construíram, tijolo por tijolo, a escola pública brasileira.
Há indícios de que tenha sido um professor primário que atuou nas primeiras décadas do século XX em Ponta Grossa, talvez ligado ao magistério local ou à Inspetoria Escolar da região. Seu legado não está em estátuas ou livros publicados — está nas centenas, talvez milhares, de crianças que aprenderam a ler sob sua orientação, nas famílias que ascenderam socialmente graças ao "a-b-c" que ele ensinou com paciência e dedicação.
O Cotidiano Sagrado: Entre o Apito do Trem e o Tilintar do Sino
Imagine as manhãs daquela escola nos anos 1940: o apito distante das locomotivas marcando as horas como um relógio industrial; o ranger das portas de madeira maciça se abrindo ao amanhecer; o cheiro de cera de assoalho misturado ao aroma característico das Oficinas — graxa, carvão e terra molhada. Crianças descalças ou com sapatos remendados cruzavam o portão carregando cadernos de capa dura, lápis apontados com cuidado, o orgulho silencioso de serem as primeiras de suas famílias a frequentar uma escola de verdade.
Dentro das salas de aula, professores — muitos vindos das Escolas Normais de Ponta Grossa ou Curitiba — ensinavam com rigor e ternura. A cartilha de Leitura de Monteiro Lobato abria portas para mundos imaginários; a tabuada era recitada em coro como um mantra de progresso; o Hino Nacional ecoava todas as manhãs, ensinando que cada criança ali era parte de uma nação em construção .
Mas a escola era mais que alfabetização. Era centro comunitário, ponto de encontro, espaço de resistência cultural. Nas tardes de sábado, o pátio interno do "U" transformava-se em palco para festas juninas onde operários e suas famílias esqueciam por algumas horas a dureza do trabalho; apresentações de teatro escolar onde filhos de maquinistas interpretavam personagens históricos; reuniões de pais que discutiam não apenas notas, mas o futuro de seus filhos — futuro que agora incluía a possibilidade de serem médicos, engenheiros, professores.
Ali, filhos de operários ferroviários, de pequenos comerciantes do bairro, de famílias humildes que moravam em casebres próximos aos trilhos aprendiam lado a lado — numa utopia republicana onde a sala de aula nivelava, ainda que temporariamente, as desigualdades do mundo exterior . A escola tornou-se o grande equalizador social das Oficinas — lugar onde o filho do foguista podia sonhar tão alto quanto o filho do chefe da estação.
A Resistência do Concreto: Quando o Tempo Respeita a Memória
Diferentemente de tantos patrimônios educacionais brasileiros demolidos em nome de um "progresso" cego, o edifício do antigo Grupo Escolar Professor Colares resistiu. Hoje, com alterações inevitáveis — pinturas renovadas, adaptações técnicas, modificações funcionais —, ainda ergue suas paredes na Avenida Visconde de Mauá como testemunha viva de uma era .
Passar diante dele é cruzar um portal temporal. É possível quase ouvir o murmúrio das crianças recitando o Hino à Bandeira enquanto ao longe soava o apito de um trem entrando na estação; o ranger dos giz sobre as lousas negras; o riso contido durante a aula de desenho. O edifício não é apenas estrutura física — é memória materializada, monumento silencioso àqueles que acreditaram que educar era o ato mais revolucionário que um país pobre podia praticar.
Legado Vivo: A Semente que Não Morreu
Hoje denominado Colégio Estadual Professor Colares, o edifício continua funcionando — não como museu nostálgico, mas como instituição viva que adapta sua missão às demandas do século XXI enquanto preserva no DNA a vocação original: formar cidadãos com dignidade, oferecer esperança através do saber, transformar realidades através da educação.
Quantas crianças das Oficinas aprenderam a ler naquelas salas? Quantos professores ali descobriram sua vocação? Quantos médicos, engenheiros, artistas devem seu primeiro passo rumo ao conhecimento à dedicação de um professor que um dia cruzou aquele portão Art Déco com a pasta cheia de sonhos?
Esses números jamais serão totalmente conhecidos — mas sua existência é inegável. A escola das Oficinas foi, e continua sendo, uma fábrica de esperança. Enquanto o Brasil construía ferrovias para ligar estados, aquela escola construía pontes invisíveis — entre ignorância e conhecimento, entre oficina e universidade, entre pobreza e possibilidade.
Epílogo: O Direito à Beleza como Direito Humano
Hoje, quando debates sobre educação reduzem-se a números de orçamento e índices de desempenho, é urgente lembrar lições como a do Grupo Escolar Professor Colares. Ela nos ensina que educar nunca foi — e nunca será — mero ato técnico. É gesto estético. É afirmação política. É ato de fé na humanidade.
Construir uma escola Art Déco num bairro operário nos anos 1930 era dizer, sem palavras: vocês, filhos do povo trabalhador, merecem beleza. Num país que ainda tratava a pobreza como destino inevitável, aquela arquitetura afirmava que a dignidade não era privilégio de classe — era direito humano.
O edifício na Avenida Visconde de Mauá ainda existe. Mas seu verdadeiro monumento não é de concreto e reboco — é feito das milhares de vidas transformadas por quem ali estudou. É feito de alfabetizações realizadas, de consciências despertadas, de dignidade conquistada através do saber. Enquanto houver alguém ensinando com amor nas Oficinas — e enquanto houver alguém que lembre — o Professor Colares continuará vivo. Não como nome esquecido numa placa, mas como semente eterna: porque toda criança que aprende a ler num ambiente digno carrega consigo, mesmo sem saber, o sonho daqueles que um dia decidiram que o futuro do Brasil começaria nas salas de aula dos Campos Gerais — onde o apito do trem encontrou a voz do professor, e onde sonhos simples se transformaram em pátria.

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