Denominação inicial: Grupo Escolar Vicente Machado
Denominação atual:
Endereço: Rua Mariana Marques, 2 (Praça Manoel Ribas) - Centro
Cidade: Castro
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação
Data: 1934
Estrutura: padronizado
Tipologia: Outro
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 16 de julho de 1935
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual:
Grupo Escolar Vicente Machado na década de 1930
Acervo: Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR)
O Sonho em Linhas Geométricas: O Renascimento Art Déco do Grupo Escolar Vicente Machado (1930-1945)
Quando Castro trocou as colunas clássicas pela elegância angular da modernidade e transformou sua escola em manifesto de um Brasil novo
Julho de 1935: O Dia em que a Escola Vestiu Futuro
Naquela terça-feira, 16 de julho de 1935, enquanto os sinos da matriz de Nossa Senhora do Carmo repicavam sobre a Praça Manoel Ribas, algo extraordinário acontecia diante do número 2 da Rua Mariana Marques. Diante de autoridades municipais, professores de vestidos engomados e crianças de sapatos brancos recém-lustrados, descerrava-se a placa que marcava a inauguração do novo Grupo Escolar Vicente Machado — não mais o edifício eclético da virada do século, mas uma construção que respirava o espírito de uma era: o Art Déco.
As paredes agora exibiam linhas retas e angulares onde antes havia curvas ornamentais; janelas em ritmo geométrico substituíam arcos tradicionais; detalhes em ziguezague e formas escalonadas dialogavam com o céu dos Campos Gerais. Projetado pelo Departamento de Obras e Viação do Paraná em 1934 e erguido com estrutura padronizada — reflexo das novas diretrizes nacionais para a arquitetura escolar —, o edifício não era apenas um prédio. Era um manifesto em concreto: Castro, a antiga cidade tropeira fundada em 1778, abraçava decididamente o futuro
.
O Brasil que se Reinventava: Educação como Arma do Estado Novo
Para compreender a magnitude daquela transformação, é preciso mergulhar no turbilhão histórico que sacudia o Brasil. Em 1930, Getúlio Vargas assumira o poder em meio à Revolução que derrubara a República Velha. E desde os primeiros dias de seu governo provisório, declarara: "Educação é matéria de vida e morte para a nação"
. Em 14 de novembro daquele ano, criara o Ministério da Educação e Saúde Pública — primeiro passo de uma reforma que transformaria radicalmente as escolas brasileiras
.
A década de 1930 trouxe novas diretrizes projetuais às instituições de ensino, com ênfase em questões sanitárias, ventilação cruzada, iluminação natural e espaços organizados para a formação cívica
. O Art Déco, linguagem arquitetônica que se difundiu no Brasil a partir dos anos 1930, tornou-se a escolha natural para edifícios públicos que buscavam expressar modernidade, ordem e progresso — valores centrais do projeto varguista
. Nas escolas, essa estética não era mero ornamento: as linhas geométricas simbolizavam a racionalidade do saber; as formas escalonadas evocavam a ascensão social pela educação; os materiais duráveis afirmavam a permanência do Estado como guardião do conhecimento.
No Paraná, o Departamento de Obras e Viação — órgão responsável pela execução de projetos públicos estaduais — adotou modelos padronizados que permitiam construir escolas com eficiência e qualidade em cidades do interior
. Castro, com sua importância histórica como terceira cidade mais antiga do estado e seu crescimento impulsionado pela imigração europeia, merecia um exemplar digno desse programa nacional de modernização.
Castro em Transformação: Entre Imigrantes e Sonhos de Brasilidade
Enquanto o novo prédio escolar erguia-se na Praça Manoel Ribas, Castro vivia sua própria metamorfose demográfica. Na década de 1930, novas levas de imigrantes europeus chegavam aos Campos Gerais: alemães estabeleciam-se na região, somando-se aos italianos, poloneses e ucranianos que já cultivavam a terra desde fins do século XIX
. Filhos de camponeses que falavam dialetos do Vêneto, do norte da Polônia ou da Galícia ucraniana entravam pelas portas do Grupo Escolar Vicente Machado para aprender português, cantar o Hino Nacional e escrever sobre "O Soldado Brasileiro" nos cadernos de capa dura.
Era a era da campanha de nacionalização — política do Estado Novo que buscava forjar uma identidade brasileira única, especialmente nas áreas de imigração
. Nas salas de aula da escola Art Déco, professores ensinavam não apenas a tabuada e a caligrafia, mas também o civismo varguista: o respeito à bandeira, a obediência às autoridades, o amor à pátria acima de qualquer origem estrangeira. Crianças cujos avós haviam deixado aldeias italianas ou polonesas para cruzar o Atlântico tornavam-se, entre aquelas paredes geométricas, brasileiras de corpo e alma.
A escola tornou-se assim palco silencioso de um drama histórico profundo: o apagamento gradual das línguas maternas em favor do português oficial; a substituição de tradições camponesas europeias por festas juninas e folclore nacionalmente padronizado; a transformação de identidades plurais em uma cidadania unificada sob o manto protetor — e autoritário — do Estado Novo
.
A Arquitetura que Educava: Quando as Formas Falavam Mais que as Palavras
O projeto padronizado do Departamento de Obras e Viação revelava uma filosofia pedagógica embutida na própria estrutura. Diferente do edifício eclético anterior — que dialogava com o passado europeu —, o Art Déco da nova escola apontava resolutamente para o futuro
. Suas linhas retas e angulares ensinavam, mesmo sem palavras, valores de ordem, disciplina e progresso linear — ideais caros ao regime varguista.
As janelas amplas e ritmadas permitiam entrada generosa de luz solar, combatendo a superstição de que crianças deveriam estudar em ambientes sombrios. Os corredores largos facilitavam a circulação ordeira de centenas de alunos — muitos descalços ao chegarem, calçando sapatos emprestados pela escola antes de entrar nas salas. Pátios internos com pisos de cimento liso serviam para exercícios físicos matinais, parte do programa nacional de educação corporal implementado pelo Estado Novo
. Até os banheiros, antes luxo raro em escolas rurais, foram projetados com sanitários coletivos — pequena revolução higiênica que salvava vidas em uma época de epidemias.
A tipologia "outro" registrada nos documentos oficiais revela que o edifício não seguia o modelo tradicional de "bloco único" das escolas do século XIX. Integrava, possivelmente, espaços complementares: biblioteca mínima com livros doados pelo governo federal, sala de professores com mapa-múndi desbotado, talvez até um pequeno auditório para cerimônias cívicas onde bandeiras tremulavam sob o teto de madeira envernizada.
16 de Julho de 1935: A Cerimônia que Selou um Novo Tempo
Na manhã da inauguração, autoridades estaduais e municipais reuniram-se diante da fachada recém-pintada. Discursos exaltavam Vicente Machado — o filho ilustre de Castro que governara o Paraná em tempos turbulentos e cujo nome honrava a instituição
. Mas entre as palavras protocolares, pairava um significado mais profundo: aquela escola era prova de que o interior do Paraná não ficaria à margem do progresso nacional.
Crianças uniformizadas — meninos de calça curta e gravata-borboleta, meninas de vestidos brancos com laços azuis — formavam alas simétricas diante do edifício, como soldadinhos do saber. Bandeiras do Brasil e do Paraná tremulavam ao vento dos Campos Gerais. E quando a fita foi cortada, abrindo-se as portas daquele templo da modernidade, ninguém ali imaginava que, dentro de poucos anos, o mundo mergulharia na Segunda Guerra Mundial — e que aquelas mesmas crianças aprenderiam a colar selos nos cadernos para "ajudar os Aliados", enquanto professores explicavam, com cuidado diplomático, por que o Brasil rompera relações com a Itália fascista e a Alemanha nazista.
O Acervo que Sobreviveu: Memórias Preservadas pelo DER-PR
Hoje, as fotografias em preto e branco guardadas no acervo do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR) são testemunhas mudas daquela era
. Imagens da década de 1930 mostram o edifício em toda sua elegância Art Déco: fachada imponente com detalhes geométricos que capturavam a luz do sol da manhã; crianças em fila indiana subindo os degraus de entrada; professores de bigode bem aparado e óculos de aro preto posando solenemente diante da placa inaugural.
Essas fotografias são mais que registros documentais — são portais para um tempo em que acreditar na educação como força transformadora não era ingenuidade, mas ato de fé republicana. Cada rosto infantil capturado naqueles negativos carrega consigo uma história não contada: o menino polonês que se tornaria engenheiro agrônomo; a menina italiana cujos filhos estudariam em universidades; o neto de tropeiro que aprenderia a ler mapas e sonharia com estradas além dos Campos Gerais.
O Edifício que Resistiu: Entre Alterações e Memórias
Ao contrário do primeiro prédio escolar — demolido décadas depois —, o edifício Art Déco de 1935 sobreviveu, embora com alterações que o tempo e as necessidades impuseram
. Fachadas originais foram revestidas; janelas trocadas por vidros modernos; pátios internos transformados em salas de informática. Mas nas paredes mais antigas, ainda se percebem os traços da geometria Art Déco — um friso escondido sob tinta nova, uma moldura angular resistindo às reformas.
A escola continuou sendo ponto de encontro de gerações. Avós que ali aprenderam a tabuada nos anos 1940 levaram netos para matricular nas décadas de 1980 e 1990. Professores aposentados retornavam para visitar salas onde passaram décadas de carreira. E mesmo com as alterações, o edifício manteve sua função essencial: ser o lugar onde Castro, a cada manhã, renova sua aposta no futuro através das crianças que cruzam seus portais.
Legado de uma Era: Quando a Pedra Contou História
O Grupo Escolar Vicente Machado no período 1930-1945 representa mais que uma fase arquitetônica — encarna um momento crucial da identidade brasileira. Foi naquelas salas Art Déco que filhos de imigrantes europeus tornaram-se brasileiros; que camponeses dos Campos Gerais aprenderam que seu lugar no mundo não estava limitado às fronteiras da roça; que meninas descobriram que podiam sonhar além do casamento e da maternidade.
A escolha do Art Déco não foi acaso. Essa linguagem — nascida nas exposições internacionais da França nos anos 1920 — simbolizava universalidade e modernidade sem ruptura radical com a tradição. Assim como o Brasil de Vargas buscava ser moderno sem abandonar certos valores conservadores, a arquitetura da escola equilibrava inovação formal com solidez estrutural. Era o Brasil que queria pertencer ao mundo moderno sem perder sua alma — e Castro, cidade histórica às margens do antigo Caminho de Sorocaba, tornou-se microcosmo desse projeto nacional
.
Hoje, ao caminhar pela Rua Mariana Marques e contemplar o edifício existente — ainda reconhecível apesar das alterações —, percebemos que algumas revoluções acontecem em silêncio. Não com tiros de fuzil nem com discursos inflamados, mas com o ranger de carteiras de madeira, o cheiro de giz no quadro-negro, o murmúrio de crianças aprendendo a soletrar "Brasil". A revolução Art Déco de Castro foi feita de letras cursivas, tabuadas decoradas e bandeiras tremulando ao vento da manhã.
E mesmo com as paredes modificadas, com os novos materiais que substituíram o cimento original, com as tecnologias que transformaram o ensino, permanece intacto o espírito daquela escola de 1935: a crença inabalável de que cada criança que cruza seus portais carrega consigo a semente de um futuro melhor — para si mesma, para Castro, para o Paraná e para o Brasil.
O Grupo Escolar Vicente Machado não é apenas um prédio. É a materialização de um sonho republicano que, mesmo sob regimes autoritários, nunca deixou de acreditar que ensinar é o ato mais revolucionário que uma sociedade pode praticar. E nas linhas geométricas de seu Art Déco — ainda visíveis sob as camadas do tempo — continua pulsando a esperança de que a educação, sempre, será nossa ponte para o amanhã.

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