sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Sonho em Tijolo e Argamassa: A História do Ginásio Estadual de Palmeira e o Legado do Colégio D. Alberto Gonçalves

 Denominação inicial: Ginásio Estadual de Palmeira

Denominação atual: Colégio Estadual D. Alberto Gonçalves

Endereço: Praça Manoel Ribas, 268 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual D. Alberto Gonçalves - s/d

Acervo: Colégio Estadual D. Alberto Gonçalves

O Sonho em Tijolo e Argamassa: A História do Ginásio Estadual de Palmeira e o Legado do Colégio D. Alberto Gonçalves

Na quietude da Praça Manoel Ribas, sob o céu generoso dos Campos Gerais do Paraná, ergue-se desde o final da década de 1940 um monumento silencioso à esperança: o edifício que abrigou o Ginásio Estadual de Palmeira e hoje carrega o nome de Colégio Estadual D. Alberto Gonçalves. Não é apenas uma construção de alvenaria e concreto — é a materialização de um pacto coletivo, firmado por uma geração que acreditou, mesmo após os horrores da guerra mundial, que o futuro se constrói primeiro nas salas de aula.

O Alvorecer de uma Nova Era: 1945 e o Grito por Educação no Interior

O ano era 1945. Enquanto o mundo contava os escombros da Segunda Guerra Mundial, no coração do Paraná, na bucólica Palmeira — cidade fundada por imigrantes poloneses, ucranianos e italianos que transformaram o planalto em jardins de trigo e fé —, nascia uma revolução silenciosa. O Ginásio Estadual de Palmeira abria suas portas, não com fanfarras ou discursos grandiosos, mas com o rangido suave de carteiras de madeira sendo arrumadas e o cheiro de giz fresco no ar.
Naquele momento, ter um ginásio público no interior era um ato de soberania cultural. Significava que os filhos dos agricultores, dos carpinteiros, das costureiras não precisariam mais abandonar a terra natal aos doze anos para buscar estudos em Curitiba ou Ponta Grossa. Significava que uma menina filha de imigrante polonês poderia sonhar em ser professora; que um rapaz neto de tropeiro poderia aspirar ao curso de Direito. Cada carteira vazia naquele primeiro dia não era um espaço vazio — era uma promessa por cumprir.

A Arquitetura como Declaração de Princípios: O Projeto de 1948

Três anos após a fundação provisória, em 1948, o Departamento de Obras e Viação do Paraná, através de sua Secção Técnica, desenhou para Palmeira não apenas um prédio, mas uma filosofia em forma de concreto. O projeto, classificado na tipologia "E" — padrão para estabelecimentos de ensino secundário do período —, respirava a linguagem modernista que varria o Brasil: linhas limpas, funcionalidade sem ostentação, janelões que convidavam a luz natural a iluminar os cadernos rabiscados.
Não havia colunas monumentais nem frontões barrocos. A beleza residia na honestidade dos materiais: o tijolo à vista, as esquadrias de madeira robusta, os corredores amplos que permitiam a circulação não apenas de corpos, mas de ideias. A padronização não era sinal de descaso — era, ao contrário, um ato democrático: o mesmo rigor projetual que definia escolas em Londrina ou Maringá chegava a Palmeira, afirmando que a educação de qualidade não era privilégio das capitais, mas direito de cada criança paranaense, onde quer que nascesse.
Na planta arquitetônica, cada detalhe contava uma história: os pés-direitos altos para arejar o calor das tardes de primavera; os sanitários separados com rigor quase monástico — sinal dos tempos; o pátio central, coração pulsante onde as gerações se cruzariam em recreios que marcariam para sempre suas memórias afetivas.

Entre 1948 e 1951: Os Anos da Consolidação Silenciosa

Embora a data exata da inauguração do prédio projetado em 1948 permaneça envolta na névoa do tempo — como tantos documentos que o tempo levou —, sabe-se que entre 1948 e 1951, o Ginásio Estadual de Palmeira deixou de ser uma ideia para tornar-se corpo e alma. Nesses anos, professores vindos de outras regiões chegavam de trem à estação local, malas cheias de livros e idealismo. Alunos caminhavam quilômetros de estradas de chão batido com lanche embrulhado em pano, determinados a decifrar os mistérios da álgebra ou a geografia dos rios brasileiros.
Nas paredes recém-caiadas, mapas-múndi mostravam um Brasil que ainda descobria a si mesmo. Nos corredores, o som de vozes entoando o hino nacional misturava-se ao canto dos sabiás nas araucárias do entorno. Era ali, naquele edifício modernista erguido com o suor de operários anônimos, que Palmeira tecia seu futuro — linha por linha, aula por aula.

A Homenagem que Elevou a Alma: Dom Alberto Gonçalves

Em algum momento entre os anos 1950 e 1960 — período em que o Paraná redescobria seus heróis locais —, o ginásio recebeu nova denominação: Colégio Estadual D. Alberto Gonçalves. Dom Alberto, bispo auxiliar de Curitiba entre 1926 e 1950, não era apenas uma figura religiosa; era um educador nato, um pastor que acreditava que a fé se expressa na construção de escolas tanto quanto em templos. Sua memória, gravada no nome da instituição, trouxe uma dimensão espiritual à missão laica da escola: educar não apenas para o mercado, mas para a vida; formar não apenas profissionais, mas cidadãos de alma generosa.
A mudança de nome não apagou a origem — apenas aprofundou o significado. O ginásio fundado na esperança pós-guerra agora carregava também a bênção de quem dedicara a vida a servir aos mais humildes. Nas solenidades escolares, ao pronunciar "Dom Alberto Gonçalves", professores e alunos evocavam não um título vazio, mas um compromisso ético: o de honrar, com cada nota corrigida e cada aluno acolhido, a memória de quem acreditou que educação é ato de amor.

O Legado Vivo: Entre Alterações e Continuidade

Hoje, o edifício na Praça Manoel Ribas, número 268, permanece de pé — "existente com alterações", como registram os documentos técnicos. Janelas foram trocadas, revestimentos atualizados, instalações elétricas modernizadas. O tempo deixou suas marcas, como sempre deixa. Mas nas paredes que resistiram, ainda ecoam os passos de gerações:
— Os alunos dos anos 1950 que aprenderam a ler Machado de Assis sob a luz tênue das lâmpadas incandescentes;
— As jovens dos anos 1960 que sussurravam sonhos de universidade enquanto copiavam fórmulas no quadro-negro;
— Os adolescentes dos anos 1980 que descobriram a política nos debates acalorados do grêmio estudantil;
— E os estudantes de hoje, que digitam em tablets onde outrora se rabiscavam cadernos de pauta, mas que ainda buscam, no fundo, a mesma coisa: um lugar que os veja, que os forme, que os prepare para o mundo sem lhes roubar a alma.

Epílogo: A Escola que Nunca Fecha

O Colégio Estadual D. Alberto Gonçalves não é um monumento musealizado. É um organismo vivo. Suas portas se abrem todas as manhãs para novos rostos, novas histórias, novas esperanças. E talvez seja justamente essa continuidade — essa teimosia em existir mesmo diante das dificuldades do ensino público brasileiro — seu maior triunfo.
Na memória coletiva de Palmeira, o colégio é mais que tijolo e concreto. É o primeiro beijo escondido no pátio; o terror da prova de matemática; a euforia da formatura; o professor que mudou um destino com uma palavra de incentivo. É o lugar onde filhos de agricultores se tornaram médicos, onde netos de imigrantes se tornaram poetas, onde a promessa feita em 1945 — de que toda criança merece aprender — continua sendo cumprida, dia após dia.
E assim, sob o mesmo céu que viu sua fundação, o edifício modernista da Praça Manoel Ribas segue em pé — não como relíquia do passado, mas como farol silencioso que repete, a cada geração: Aqui, o futuro começa hoje. Entre. Sente-se. Abra seu caderno. O mundo espera por você.

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