Denominação inicial: Grupo Escolar de Nova Rússia ou Amálio Pinheiro
Denominação atual: Escola Estadual Professor Amálio Pinheiro
Endereço: Praça Getúlio Vargas, 183 - Nova Rússia
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica
Data: 1936
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola Estadual Professor Amálio Pinheiro em 2011 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2017
Entre Arcos Geométricos e Sonhos de Criança: A Escola de Nova Rússia e a Modernidade que Chegou aos Campos Gerais
Naquela esquina da Praça Getúlio Vargas, número 183, onde hoje o vento ainda sopra suave sobre os telhados de Nova Rússia, ergueu-se em meados da década de 1930 algo que parecia impossível para um distrito rural dos Campos Gerais: um edifício escolar de linhas puras, simétricas, ousadas — um templo Art Déco erguido não na capital, não no litoral cosmopolita, mas no coração do Paraná profundo, onde tropeiros ainda cruzavam caminhos de terra e o pinheiro-do-paraná dominava a paisagem. Era o Grupo Escolar de Nova Rússia, mais tarde batizado com o nome de um educador cuja memória merece ser resgatada: Professor Amálio Pinheiro.
Nova Rússia: O Berço Antigo que Sonhou com o Futuro
O distrito de Nova Rússia carrega nas veias uma das histórias mais antigas de Ponta Grossa. Seu povoamento remonta ao final do século XVIII, quando os primeiros colonizadores fixaram residência na região ainda selvagem dos Campos Gerais
. Diferente do que o nome sugere à primeira vista, "Nova Rússia" não nasceu da imigração russa — seu topônimo guarda mistérios que se perderam no tempo, talvez ligado à configuração geográfica do terreno ou a alguma referência histórica esquecida. O que importa é que, por ali, gerações de famílias construíram suas vidas com as mãos calejadas do trabalho rural, plantando batata, criando gado, sonhando com dias melhores.
Era nesse contexto de ruralidade profunda que, em 1936, o Departamento de Obras e Viação do Paraná — através de sua Secção Técnica — projetou algo revolucionário: uma escola pública de tipologia em "U", linguagem Art Déco, estrutura padronizada mas digna.
Enquanto muitas crianças do interior ainda estudavam em barracões de madeira precária ou em salas improvisadas nas casas dos professores, Nova Rússia receberia um monumento à modernidade educacional — fruto direto da política nacionalista de Getúlio Vargas, que via na escola pública o instrumento fundamental para forjar uma identidade brasileira unificada.
A Revolução Silenciosa do Art Déco nas Salas de Aula
Chegar à escola de Nova Rússia naquela época era experimentar um choque estético e simbólico. Enquanto o entorno ainda respirava o rural tradicional, o edifício erguia-se com sua geometria precisa: linhas horizontais marcantes, ângulos retos que desafiavam o caos da natureza, ornamentos abstratos que substituíam os arabescos ecléticos do século XIX por uma linguagem moderna, racional, otimista.
O Art Déco não era mero capricho estilístico — era ideologia materializada. Cada detalhe arquitetônico transmitia uma mensagem clara do Estado Novo: o Brasil está entrando na modernidade. As janelas amplas garantiam luz natural — princípio higienista que combatia o "ar viciado" das velhas escolas. Os corredores amplos permitiam a circulação ordenada de centenas de crianças — metáfora do progresso coletivo. A tipologia em "U", abraçando o pátio central, criava um microcosmo protegido onde o saber podia florescer longe das intempéries do mundo exterior — tanto as climáticas quanto as sociais.
Essa linguagem arquitetônica, introduzida no Brasil com força na década de 1930, transformou escolas em todo o país em verdadeiros "palácios do povo" — edifícios que afirmavam, sem palavras, que até as crianças mais humildes mereciam beleza, ordem e dignidade em seu ambiente de aprendizado.
Amálio Pinheiro: O Homem por Trás do Nome Esquecido
Poucos hoje se lembram de quem foi Amálio Pinheiro — e essa amnésia coletiva é talvez a maior injustiça contra aqueles que dedicaram a vida à educação pública brasileira. Embora documentos específicos sobre sua biografia permaneçam raros nos arquivos, o fato de uma escola ter recebido seu nome naquele período sugere um educador de reconhecida dedicação — talvez professor normalista formado nas primeiras escolas do Paraná, talvez inspetor escolar que percorreu a pé os caminhos de terra para fiscalizar o ensino rural, talvez diretor que transformou uma sala precária num verdadeiro templo do saber.
Na tradição paranaense da época, homenagear alguém com o nome de uma escola não era decisão leviana. Exigia-se trajetória exemplar, compromisso inabalável com a infância pobre, capacidade de transformar realidades adversas em oportunidades de aprendizado. Amálio Pinheiro, seja quem tenha sido, certamente encarnou esses valores — e sua memória merece ser resgatada não como mero nome em placa, mas como símbolo de uma geração de educadores anônimos que construíram, tijolo por tijolo, a escola pública brasileira.
O Cotidiano Sagrado: Vozes que Ecoaram nos Corredores em "U"
Imagine as manhãs daquela escola nos anos 1940: o ranger das portas de madeira maciça se abrindo ao amanhecer; o cheiro de cera de assoalho misturado ao aroma da terra molhada pela chuva da madrugada; o tilintar dos sinos de metal marcando o início das aulas. Crianças descalças ou com sapatos remendados cruzavam o portão carregando cadernos de capa dura, lápis apontados com cuidado, o orgulho silencioso de serem as primeiras de suas famílias a frequentar uma escola de verdade.
Dentro das salas de aula, professores — muitos vindos de outras regiões do estado, alguns formados nas Escolas Normais de Curitiba ou Ponta Grossa — ensinavam com rigor e ternura. A cartilha de Leitura de Monteiro Lobato abria portas para mundos imaginários; a tabuada era recitada em coro como um mantra de progresso; o mapa do Brasil, pendurado na parede com as fronteiras ainda sendo definidas, ensinava que cada criança ali era parte de uma nação em construção.
Mas a escola era mais que alfabetização. Era centro comunitário, ponto de encontro, espaço de sociabilidade. Nas tardes de sábado, o pátio interno do "U" transformava-se em palco para festas juninas, apresentações de teatro escolar, reuniões de pais que discutiam não apenas notas, mas o futuro de seus filhos. Ali, filhos de agricultores, de pequenos comerciantes, de operários da fábrica de foices que existia no bairro
, aprendiam lado a lado — numa utopia republicana onde a sala de aula nivelava, ainda que temporariamente, as desigualdades do mundo exterior.
A Resistência do Concreto: Quando o Tempo Respeita a Memória
Diferentemente de tantos patrimônios educacionais brasileiros demolidos em nome de um "progresso" cego, o edifício da antiga Escola Amálio Pinheiro resistiu. Hoje, com alterações inevitáveis — pinturas renovadas, adaptações técnicas, modificações funcionais —, ainda ergue suas paredes na Praça Getúlio Vargas como testemunha viva de uma era.
Passar diante dele é cruzar um portal temporal. É possível quase ouvir o murmúrio das crianças recitando o Hino Nacional todas as manhãs, o ranger dos giz sobre as lousas negras, o riso contido durante a aula de desenho. O edifício não é apenas estrutura física — é memória materializada, monumento silencioso àqueles que acreditaram que educar era o ato mais revolucionário que um país pobre podia praticar.
Legado Vivo: A Semente que Não Morreu
A Escola Estadual Professor Amálio Pinheiro continua funcionando — não como museu nostálgico, mas como instituição viva que adapta sua missão às demandas do século XXI enquanto preserva no DNA a vocação original: formar cidadãos com dignidade, oferecer esperança através do saber, transformar realidades através da educação.
Quantas crianças de Nova Rússia aprenderam a ler naquelas salas? Quantos professores ali descobriram sua vocação? Quantos médicos, engenheiros, artistas devem seu primeiro passo rumo ao conhecimento à dedicação de um professor que um dia cruzou aquele portão Art Déco com a pasta cheia de sonhos?
Esses números jamais serão totalmente conhecidos — mas sua existência é inegável. A escola de Nova Rússia foi, e continua sendo, uma fábrica de esperança. Enquanto o Brasil construía rodovias para ligar estados, aquela escola construía pontes invisíveis — entre ignorância e conhecimento, entre campo e cidade, entre pobreza e possibilidade.
Epílogo: O Direito à Beleza
Hoje, quando debates sobre educação reduzem-se a números de orçamento e índices de desempenho, é urgente lembrar lições como a da escola de Nova Rússia. Ela nos ensina que educar nunca foi — e nunca será — mero ato técnico. É gesto estético. É afirmação política. É ato de fé na humanidade.
Construir uma escola Art Déco num distrito rural nos anos 1930 era dizer, sem palavras: vocês, crianças do povo, merecem beleza. Num país que ainda tratava a pobreza como destino inevitável, aquela arquitetura afirmava que a dignidade não era privilégio de classe — era direito humano.
O edifício na Praça Getúlio Vargas ainda existe. Mas seu verdadeiro monumento não é de concreto e reboco — é feito das milhares de vidas transformadas por quem ali estudou. É feito de alfabetizações realizadas, de consciências despertadas, de dignidade conquistada através do saber. Enquanto houver alguém ensinando com amor em Nova Rússia — e enquanto houver alguém que lembre — Amálio Pinheiro continuará vivo. Não como nome esquecido numa placa, mas como semente eterna: porque toda criança que aprende a ler num ambiente digno carrega consigo, mesmo sem saber, o sonho daqueles que um dia decidiram que o futuro do Brasil começaria nas salas de aula dos Campos Gerais.

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