terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O Berço das Mestras: A Escola Normal de Ponta Grossa e a Revolução Silenciosa que Educou os Campos Gerais

 Denominação inicial: Escola Normal de Ponta Grossa

Denominação atual: Colégio Estadual Regente Feijó

Endereço: Rua do Rosário, 194 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Engenheiro Carlos Ross

Data: 1920

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1924

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola Normal de Ponta Grossa em 1924 Fonte: PARANÁ. Relatorio do Inspector Geral do Ensino, Cesar P. Martinez, ao Secretario Geral do Paraná. Curityba: Typ. da Penitenciaria do Estado, 1924

O Berço das Mestras: A Escola Normal de Ponta Grossa e a Revolução Silenciosa que Educou os Campos Gerais

Naquela manhã de 1924, quando o vento dos Campos Gerais soprava suave sobre as araucárias centenárias, algo extraordinário aconteceu no coração de Ponta Grossa. Nas esquinas da Rua do Rosário, número 194, portas se abriram para revelar não apenas salas de aula, mas um sonho republicano feito de tijolo, argamassa e esperança: a Escola Normal de Ponta Grossa, templo laico onde jovens — principalmente jovens mulheres — aprenderiam a transformar letras em liberdade, giz em futuro, e salas de aula em territórios de revolução silenciosa.

O Sonho Republicano: Quando o Brasil Decidiu que Todo Professor Precisava ser Formado

No alvorecer do século XX, o Brasil ainda sangrava as marcas de um passado escravocrata e analfabeto. Menos de 30% da população sabia ler; nas cidades do interior, professores davam aulas sem nunca terem pisado numa faculdade — muitos mal haviam concluído o primário. Foi nesse cenário que surgiram as Escolas Normais: instituições visionárias criadas para formar os formadores, para transformar o ato de ensinar numa profissão digna, técnica e sagrada.
Ponta Grossa, cidade estratégica nos Campos Gerais, coração ferroviário do Paraná em expansão, clamava por esse avanço. Enquanto tropeiros ainda cruzavam seus campos e imigrantes europeus desbravavam terras vermelhas, a elite intelectual local — liderada por figuras como Cesar P. Martinez, então Inspetor Geral do Ensino do Paraná — compreendeu que o verdadeiro progresso não viria apenas dos trilhos de ferro ou das lavouras de erva-mate, mas das salas de aula onde crianças aprenderiam a pensar.

Carlos Ross e a Arquitetura da Dignidade: Um Palácio para as Futuras Professoras

Em 1920, o engenheiro Carlos Ross recebeu uma missão que ia além da técnica: projetar não um simples prédio escolar, mas um monumento à educação feminina. Sua resposta foi um edifício de tipologia em "U" — forma simbólica que abraçava o pátio interno como um colo acolhedor — revestido pela linguagem eclética que marcava a Primeira República: frontões clássicos dialogando com ornamentos art nouveau, janelas amplas para capturar a luz do saber, proporções que falavam de ordem e beleza.
A escolha do estilo eclético não era casual. Na arquitetura, como na educação que ali se promoveria, buscava-se harmonizar tradição e modernidade — honrar o passado enquanto se construía o futuro. Cada detalhe do projeto de Ross carregava uma mensagem subliminar: vocês, futuras professoras, merecem um palácio. Num país que ainda tratava a mulher como ser inferior, aquela construção afirmava, em silêncio mas com força de mármore, que educar era obra digna de templo.

1924: O Ano em que as Mulheres de Ponta Grossa Ganharam Voz

Quando as portas se abriram oficialmente em 1924, algo revolucionário entrou em movimento. Jovens vindas de fazendas distantes, de vilarejos sem nome no mapa, de famílias humildes que vendiam o pouco que tinham para custear o uniforme escolar — todas elas cruzaram aquele umbral carregando nas mãos não apenas cadernos e livros, mas a chave para uma nova existência.
Na Escola Normal, aprendiam-se disciplinas que hoje soariam exóticas: Didática Geral, Moral e Cívica, Caligrafia, Economia Doméstica — mas também Português com rigor filológico, História do Brasil com consciência crítica, Ciências Naturais com espírito investigativo. E acima de tudo, aprendia-se a arte de ensinar: como segurar o giz, como organizar o caderno de chamada, como lidar com a criança indisciplinada sem humilhá-la, como acender a chama do conhecimento nos olhos de quem nunca vira um livro.
Essas normalistas — como eram chamadas — tornaram-se as "mestras" das cidades do interior paranaense. Formadas em Ponta Grossa, espalharam-se por Jaguariaíva, Castro, Carambeí, Palmeira, Tibagi — levando consigo não apenas o método pedagógico, mas uma ética de trabalho, uma postura cívica, uma crença inabalável de que a educação era o único caminho para uma sociedade mais justa. Muitas delas jamais casaram; dedicaram a vida inteira às salas de aula, tornando-se figuras maternais para gerações de alunos que depois se tornariam médicos, engenheiros, políticos — e professores também.

O Coração em Formato de U: Metáfora de uma Educação que Acolhe

A tipologia em "U" do edifício não era mero acidente arquitetônico. Naquele desenho que abraçava o pátio central, havia uma filosofia: a educação verdadeira não é linear nem rígida — é um espaço que acolhe, que protege, que permite o encontro. No pátio interno da Escola Normal, as alunas liam poemas de Castro Alves entre as aulas, discutiam os ideais republicanos, sonhavam em voz baixa com um Brasil mais igual. Ali, sob a sombra de árvores plantadas no primeiro ano letivo, nasceram amizades que durariam décadas e vocações que transformariam regiões inteiras.
Relatórios da época — como o do próprio Inspetor Martinez de 1924 — registram com orgulho os primeiros resultados: "As alunas demonstram zelo exemplar pelos estudos... a disciplina é mantida sem rigor excessivo... nota-se entre elas genuíno amor à profissão docente." Palavras simples que escondem uma revolução: pela primeira vez, ensinar deixava de ser ocupação de quem não tinha outra opção para se tornar vocação escolhida com orgulho.

A Metamorfose do Nome: De Escola Normal a Colégio Regente Feijó

Com o tempo, como todas as instituições vivas, a escola transformou-se. O modelo das Escolas Normais, que formavam exclusivamente professores do primário, cedeu lugar a novas estruturas educacionais. A denominação mudou para Colégio Estadual Regente Feijó — homenagem a Diogo Antônio Feijó (1784-1843), sacerdote, estadista e regente do Império durante a menoridade de Dom Pedro II, homem que dedicou a vida à construção de instituições republicanas num país ainda monárquico.
A escolha do nome não foi casual. Assim como Feijó lutara para consolidar as bases institucionais do Brasil jovem, aquela escola havia lutado — e continuava lutando — para consolidar as bases educacionais dos Campos Gerais. A mudança de nome representava não uma ruptura, mas uma evolução: da formação exclusiva de professores para uma educação integral que preparasse jovens para todos os caminhos da vida — mantendo, porém, no DNA institucional, o compromisso inegociável com a excelência pedagógica.

Testemunha Viva: O Edifício que Resistiu ao Tempo

Diferentemente do triste destino do Grupo Escolar Senador Correia — demolido e esquecido —, o prédio da antiga Escola Normal sobreviveu. Hoje, com alterações inevitáveis do tempo e das necessidades contemporâneas, ainda ergue suas paredes na Rua do Rosário, 194, como um farol silencioso da memória educacional paranaense. Suas fachadas ecléticas carregam cicatrizes de décadas — pinturas sobrepostas, janelas modificadas, adaptações técnicas — mas mantêm a alma original: a dignidade de quem foi construído para durar.
Passar diante dele é cruzar um portal temporal. É possível quase ouvir o ranger dos sapatos das normalistas subindo os degraus de pedra, o murmúrio de vozes recitando versos de Gonçalves Dias, o tilintar dos sinos que marcavam o início e o fim das aulas. O edifício não é apenas tijolo — é memória materializada, testemunha muda de gerações que ali descobriram que podiam ser mais do que esposas e mães: podiam ser mestras, intelectuais, agentes de transformação social.

Legado: As Sementes que Germinaram nos Campos Gerais

Quantas escolas rurais dos Campos Gerais foram fundadas por ex-alunas da Escola Normal de Ponta Grossa? Quantas crianças aprenderam a ler com professoras formadas naquele edifício em "U"? Quantos políticos, médicos, escritores devem seu primeiro "a-b-c" à dedicação de uma normalista que um dia cruzou aquelas portas com o coração cheio de sonhos?
Esses números jamais serão totalmente conhecidos — mas sua existência é inegável. A Escola Normal de Ponta Grossa foi, em sua essência, uma fábrica de esperança. Enquanto o Brasil construía ferrovias para transportar madeira e erva-mate, aquela escola construía pontes invisíveis — entre ignorância e conhecimento, entre submissão e autonomia, entre o campo atrasado e o futuro que se anunciava.

Epílogo: A Lição que o Tempo Não Apagou

Hoje, quando debates sobre educação pública parecem girar apenas em torno de orçamentos e índices, é urgente lembrar histórias como a da Escola Normal de Ponta Grossa. Ela nos ensina que educar nunca foi — e nunca será — mero ato técnico. É gesto político. É ato de fé. É revolução silenciosa que acontece na quietude de uma sala de aula, na paciência de uma professora corrigindo cadernos à noite, na coragem de uma jovem que decide dedicar a vida a formar outras vidas.
O prédio na Rua do Rosário ainda existe. Mas seu verdadeiro monumento não é de pedra — é feito das milhares de vidas transformadas por quem ali estudou. É feito de alfabetizações realizadas, de consciências despertadas, de dignidade conquistada através do saber. Enquanto houver alguém que lembre — e enquanto houver alguém ensinando com amor nos Campos Gerais — a Escola Normal de Ponta Grossa continuará viva. Não como ruína nostálgica, mas como semente eterna: porque toda professora que acende uma centelha de curiosidade nos olhos de uma criança é, de alguma forma, filha daquelas normalistas que, em 1924, decidiram que o futuro do Paraná começaria em suas mãos.

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