Denominação inicial: Grupo Escolar Jesuíno Marcondes
Denominação atual: Escola Municipal Infantil Jesuíno Marcondes
Endereço: Rua Jesuíno Marcondes, 200 - Centro
Cidade: Palmeira
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica
Data: 1936
Estrutura: padronizado
Tipologia: T
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 1938
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edificação existente com alterações
Grupo Escolar Jesuíno Marcondes - s/d
Acervo: Museu Paranaense
Entre Linhas Geométricas e Sonhos Infantis: A Segunda Casa do Saber em Palmeira e o Legado Art Déco do Grupo Escolar Jesuíno Marcondes
Na Rua Jesuíno Marcondes, número 200, ergue-se em Palmeira uma construção que desafia o tempo com a elegância discreta da geometria. Suas linhas retas, seus ângulos precisos, seus detalhes em degraus suaves que sobem como escadarias para o céu — tudo fala uma linguagem diferente da arquitetura eclética da primeira sede escolar da cidade. Aqui, na segunda casa do saber batizada com o nome do visionário Jesuíno Marcondes, o Art Déco não foi mero estilo: foi manifesto. Manifesto de uma era que acreditava no progresso, na racionalidade, na criança como matéria-prima do futuro nacional. Este é o edifício que, desde 1938, abraça gerações com a frieza calculada do concreto e o calor infinito da infância.
O Brasil que Sonhava Alto: 1936 e o Despertar da Modernidade
O ano era 1936. Enquanto o mundo se preparava para a tempestade da Segunda Guerra Mundial, o Brasil vivia sob o signo do Estado Novo — regime autoritário, sim, mas também motor poderoso de modernização. Getúlio Vargas, com seu discurso ufanista de "construir o Brasil", impulsionava uma revolução silenciosa nas cidades do interior: estradas de rodagem substituíam as ferrovias como veias do progresso; rádios traziam a voz do presidente diretamente aos lares; e escolas — muitas, padronizadas, funcionais — brotavam como flores de concreto nos centros urbanos que cresciam.
No Paraná, o interventor Manoel Ribas transformava esse sonho em política concreta. O Departamento de Obras e Viação, através de sua Secção Técnica, assumia a missão quase sagrada de projetar não apenas edifícios, mas templos da cidadania. E foi assim que, em 1936, surgiram os traços da segunda sede do Grupo Escolar Jesuíno Marcondes — não mais obra de um arquiteto individual como Ângelo Bottechia, mas fruto do esforço coletivo do Estado, expresso na tipologia em "T" que se tornaria marca registrada da escola pública brasileira na era Vargas.
A escolha do Art Déco não foi casual. Enquanto o eclético da primeira sede falava a linguagem do passado europeu — colunas, frontões, ornamentos clássicos —, o Art Déco proclamava o futuro. Era a estética das grandes metrópoles: Nova York com seu Chrysler Building, Paris com seus cafés iluminados, Rio de Janeiro com o Copacabana Palace. Trazer essa linguagem para Palmeira, cidade cercada pelos campos do Brejo, era um ato político: dizer às crianças filhas de imigrantes, de tropeiros, de pequenos agricultores que elas também pertenciam à modernidade; que o progresso não era privilégio das capitais, mas direito de cada cidadão nascido nas terras úmidas do Paraná.
A Geometria do Cuidado: A Tipologia em "T" que Abraçava a Infância
O projeto padronizado em forma de "T" revelava uma sabedoria funcional raramente celebrada. O braço vertical do "T" abrigava a administração, a biblioteca modesta, o gabinete do diretor — o coração administrativo da escola. Os dois braços horizontais, simetricamente dispostos, continham as salas de aula, cada uma posicionada para receber a luz dourada da manhã pelo leste e a brisa fresca da serra pelo sul.
Mas era no centro da letra — na interseção sagrada do "T" — que residia a alma do edifício: o pátio interno, espaço protegido onde as crianças brincavam sob o olhar atento das professoras. Ali, entre paredes com frisos geométricos em alto-relevo — triângulos que lembravam montanhas, círculos concêntricos que evocavam o sol do Brejo —, meninos e meninas aprendiam mais do que a tabuada ou a gramática. Aprendiam a compartilhar, a esperar sua vez na fila do bebedouro de porcelana branca, a respeitar o espaço do outro enquanto corriam descalços sobre o cimento liso.
As janelas, altas e estreitas como olhos atentos, permitiam que as professoras vigiassem o recreio sem interromper a aula. Os rodapés, reforçados com azulejos brancos, resistiam às marcas inevitáveis de mãos infantis sujas de giz e terra. Até os corrimãos das escadas — embora este edifício fosse térreo — seguiam a estética Art Déco: linhas que subiam em zigue-zague suave, como se convidassem a criança a ascender, degrau após degrau, rumo ao conhecimento.
A Inauguração de 1938: Quando Palmeira Vestiu a Modernidade
Naquele ano de 1938, enquanto a Europa ardia em tensões pré-bélicas, Palmeira celebrava sua pequena revolução. A inauguração do novo Grupo Escolar Jesuíno Marcondes não teve apenas discursos oficiais e fitas cortadas. Teve algo mais profundo: o silêncio emocionado dos pais que, pela primeira vez, viam seus filhos entrarem em um edifício que não lembrava uma casa grande adaptada, mas sim um lugar feito para ser escola.
As mães — muitas delas analfabetas, vindas da Itália, da Polônia, do interior do Paraná — choravam ao cruzar o portão de ferro forjado com motivos geométricos. Não choravam de tristeza, mas de reconhecimento: ali estava materializado o sacrifício de anos de trabalho nos campos, nas serrarias, nas cozinhas. Ali estava a prova de que seus filhos não repetiriam seus destinos de anônimos.
Os professores, homens e mulheres de olhar sério e caderneta sempre à mão, assumiam suas salas com solenidade quase religiosa. Sabiam que, sob o regime de Vargas, ensinar era também formar o "brasileiro novo" — patriota, disciplinado, produtivo. Mas entre as linhas do currículo oficial, eles teciam outra educação: ensinavam a menina italiana a pronunciar "xícara" sem sotaque; ajudavam o menino polonês a entender que seu nome, difícil para os ouvidos locais, era digno de respeito; mostravam a todos que ser brasileiro não era apagar as origens, mas tecê-las na trama diversa da nação.
A Memória Preservada: As Fotografias sem Data do Museu Paranaense
No acervo do Museu Paranaense, repousam fotografias sem data do Grupo Escolar Jesuíno Marcondes. Imagens em preto e branco onde o edifício aparece imponente sob o céu de Palmeira, talvez nos anos 1940 ou 1950. Nas fotos, crianças em fila indiana sobem os degraus da entrada principal; professoras de vestido longo e cabelo preso em coque severo posam com expressão grave diante da fachada geométrica.
Não há legendas que identifiquem nomes. Não sabemos se a menina de tranças na primeira fila tornou-se professora, costureira ou mãe de doze filhos. Não sabemos se o menino magro segurando a cartilha aprendeu a ler naquele mesmo edifício onde seu avô, analfabeto, assinara documentos com uma cruz trêmula. Mas nas expressões dos rostos infantis — sérias, quase solenes diante da câmera — percebe-se algo universal: o orgulho de pertencer. O orgulho de ser aluno da escola nova, da escola bonita, da escola que parecia saída dos jornais ilustrados que chegavam de Curitiba.
Essas fotografias são mais do que documentos históricos; são testemunhos silenciosos de uma promessa cumprida. A promessa de que, mesmo nas cidades pequenas, mesmo nas famílias pobres, a educação pública poderia ser bela, digna, transformadora.
A Metamorfose Contínua: Da Escola Primária à Escola Infantil
As décadas passaram. O Estado Novo caiu, a ditadura militar chegou e partiu, redemocratizações se sucederam. O edifício da Rua Jesuíno Marcondes, 200, sofreu alterações — novas tintas sobre os frisos originais, reparos nas estruturas, adaptações às normas contemporâneas de acessibilidade. Mas, diferente de muitos prédios históricos que viraram museus vazios ou foram demolidos para dar lugar a construções "mais modernas", esta escola nunca deixou de cumprir seu propósito original.
Hoje, como Escola Municipal Infantil Jesuíno Marcondes, ela abraça crianças ainda menores — menores até do que aquelas que cruzaram sua porta em 1938. Bebês de dois anos, três anos, quatro anos descobrem o mundo entre paredes que já viram gerações aprenderem a ler. Os mesmos corredores que ecoaram o ranger de carteiras de madeira agora ouvem o riso agudo da primeira infância; os mesmos pátios que viram partidas de amarelinha hoje testemunham primeiros passos e descobertas sensoriais.
Há beleza profunda nessa continuidade. O Art Déco, com sua estética racionalista, foi concebido para adultos formarem cidadãos. Mas hoje, paradoxalmente, abriga o universo irracional, emocional, mágico da primeira infância. E nesse encontro entre a geometria fria e o calor humano das crianças pequenas reside a lição mais preciosa que este edifício nos oferece: a arquitetura pública não existe para si mesma. Existe para servir à vida — em todas as suas fases, em todas as suas formas.
Epílogo: O Legado nas Mãos que Brincam
Quando o sol da tarde incide sobre a fachada da Escola Municipal Infantil Jesuíno Marcondes, os frisos geométricos projetam sombras alongadas que dançam sobre o chão como espectros benevolentes. São as sombras de todas as crianças que ali passaram: as dos anos 1940, com seus uniformes engomados e cadernos de capa dura; as dos anos 1960, com cabelos à Beatles e sonhos de viajar para Curitiba; as dos anos 1990, com tênis coloridos e mochilas de plástico; e as de hoje, pequenos seres de pijama escolar que ainda nem sabem soletrar seu nome, mas já aprendem a compartilhar um brinquedo.
O Departamento de Obras e Viação, ao projetar este edifício em 1936, não construiu apenas um bloco escolar padronizado. Construiu um recipiente para sonhos. Um recipiente que, passados mais de oitenta anos, continua cheio — não de concreto e argamassa, mas de futuro.
E talvez seja essa a verdadeira marca do Art Déco em Palmeira: não a elegância das linhas ou a sofisticação dos detalhes, mas a coragem de acreditar que até uma cidade pequena, cercada por campos alagados e montanhas verdes, merecia uma escola que falasse a linguagem do mundo. Que suas crianças mereciam aprender entre paredes que não escondiam sua modernidade, mas a proclamavam com orgulho.
Na Rua Jesuíno Marcondes, 200, o tempo não parou. Transformou-se. E enquanto houver uma criança cruzando aquela porta para descobrir que o mundo é maior do que seu próprio quintal, o sonho de 1936 permanecerá vivo — não como ruína a ser preservada com nostalgia, mas como semente que continua germinando, geração após geração, na terra fértil do Brejo paranaense.

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