sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O Templo do Saber nas Terras do Brejo: A História Viva do Grupo Escolar Jesuíno Marcondes e o Sonho que Nunca se Apagou

 Denominação inicial: Grupo Escolar Jesuíno Marcondes - 1ª sede.

Denominação atual: Escola Municipal Imaculada Conceição

Endereço: Rua Coronel Pedro Ferreira, 223 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Ângelo Bottechia

Data: 1906

Estrutura: padronizado

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 3 de maio de 1908

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Jesuíno Marcondes - sem data

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 277

O Templo do Saber nas Terras do Brejo: A História Viva do Grupo Escolar Jesuíno Marcondes e o Sonho que Nunca se Apagou

Na esquina da Rua Coronel Pedro Ferreira com o tempo, ergue-se em Palmeira uma construção que respira memórias. Suas paredes, mesmo alteradas pelo peso das décadas, guardam o eco de primeiras sílabas soletradas, o ranger de carteiras de madeira, o cheiro de giz e cera de assoalho, o murmúrio de crianças que um dia se tornaram cidadãos. Esta é a história do Grupo Escolar Jesuíno Marcondes — hoje Escola Municipal Imaculada Conceição — não apenas como edifício, mas como testemunha silenciosa da construção de uma cidade através do saber.

O Sonho Republicano que Chegou ao Brejo

O ano era 1906. Enquanto a Europa se preparava para a tempestade da Grande Guerra, no coração do Paraná, nas terras úmidas do Brejo — assim chamadas pela exuberância de seus campos alagados —, um sonho republicano ganhava forma nos traços de um arquiteto italiano. Ângelo Bottechia, homem de linhas precisas e visão humanista, desenhava sobre papel o que seria mais do que uma escola: seria o farol civilizador de Palmeira.
Naquele momento, o Paraná vivia uma revolução silenciosa liderada por visionários como Francisco José Cardoso Júnior e, posteriormente, José Marques Guimarães. A política dos Grupos Escolares não era mero projeto administrativo; era um ato de fé na educação como fundamento da nação. Enquanto cidades como Curitiba, Ponta Grossa e Castro recebiam seus primeiros grupos escolares padronizados, Palmeira — com sua alma formada pela miscigenação de italianos, alemães, poloneses e caboclos — aguardava seu templo do conhecimento.
Bottechia concebeu um bloco único de linguagem eclética, onde o rigor clássico das colunas encontrava a leveza das linhas neoclássicas, e onde os beirais generosos protegiam não apenas o telhado, mas a dignidade da infância. Era uma arquitetura que dizia, sem palavras: aqui, toda criança é bem-vinda; aqui, o saber é sagrado.

A Inauguração que Mudou Destinos: 3 de Maio de 1908

Na manhã de domingo, 3 de maio de 1908, Palmeira vestiu-se de gala. As ruas de terra batida, normalmente sulcadas pelas rodas das carroças carregadas de erva-mate e madeira, enchiam-se de famílias trajando seus melhores trajes — os homens de paletó escuro, as mulheres com vestidos engomados, as crianças com os pés descalços mas os rostos lavados com cuidado especial.
Às dez horas, sob o sol frio do outono paranaense, autoridades municipais, professores vindos de Curitiba e a população reunida diante do edifício imponente. Ao som do hino nacional tocado pela banda de música local — formada por descendentes de italianos que trouxeram seus instrumentos nas malas de imigrantes —, cortava-se a fita simbólica. Mas o verdadeiro cerimonial acontecia nos olhos arregalados das crianças: meninos de calça curta e meninas de tranças que pela primeira vez cruzavam uma porta não para trabalhar nos campos ou nas oficinas, mas para aprender a ler o mundo.
O nome escolhido — Jesuíno Marcondes — honrava um homem cuja trajetória se entrelaçava com a própria fundação de Palmeira. Filho do Barão de Guaraúna, Francisco José Marcondes de Oliveira, Jesuíno representava a elite rural que, ao contrário de muitos de sua classe, acreditava que o progresso não viria apenas dos trilhos de ferro ou das exportações, mas da mente iluminada de cada criança. Dar seu nome à primeira escola pública da cidade era um pacto simbólico: a terra que produzia erva-mate e madeira agora produziria cidadãos.

As Salas que Forjaram Destinos

Dentro daquele bloco único padronizado, o mundo se expandia. Nas salas de aula de pé-direito alto, onde o vento do Brejo entrava pelas janelas altas trazendo o cheiro de pinheiro e terra molhada, professores dedicados escreviam no quadro-negro com letra cursiva impecável:
— A de amor, B de bondade, C de cidadania...
Crianças filhas de imigrantes italianos que mal falavam português aprendiam a conjugar verbos ao lado de descendentes de poloneses que traziam nas mãos calosas a herança dos avós camponeses. Meninos que pela manhã ajudavam a ordenhar vacas agora descobriam os mistérios da tabuada; meninas que teciam rendas com as mães à noite agora desvendavam os segredos da gramática. Naquele espaço, a ecletismo arquitetônico refletia-se na diversidade humana: todos diferentes, todos iguais diante do saber.
O recreio era um microcosmo do Paraná: pão com linguiça trazido de casa misturava-se a polenta e pierogi; jogos de amarelinha desenhados com pedaços de telha quebrada conviviam com cantigas de roda trazidas da Europa e reinventadas com sotaque paranaense. E sempre, ao centro, a figura austera mas amorosa da diretora — quase sempre uma mulher — que não apenas ensinava, mas cuidava, curava feridas com mercúrio branco e almas com palavras de incentivo.

A Transformação Silenciosa: Do Grupo Escolar à Imaculada Conceição

As décadas passaram. O Brasil conheceu revoluções, ditaduras, redemocratizações. Palmeira cresceu, asfaltou ruas, ganhou novos bairros. O edifício da Rua Coronel Pedro Ferreira, 223, sofreu alterações — novas pinturas, reparos, adaptações às necessidades de cada época — mas jamais perdeu sua alma.
Em algum momento não datado nos documentos oficiais, mas profundamente sentido na memória coletiva, a escola recebeu nova denominação: Escola Municipal Imaculada Conceição. A mudança de nome não apagou a história; ao contrário, a enriqueceu. Se Jesuíno Marcondes representava o patrono secular do progresso, a Imaculada Conceição trazia a dimensão espiritual que sempre esteve presente na vida das famílias de Palmeira — muitas delas profundamente católicas, outras trazendo de suas terras de origem outras formas de devoção.
A escola tornou-se assim um símbolo perfeito da identidade palmeirense: laica no seu compromisso republicano com a educação pública, mas respeitosa com a fé que sustentava tantas famílias nos momentos difíceis. As mesmas paredes que um dia ouviram o hino nacional agora também acolhiam orações antes das provas; o mesmo pátio que viu crianças correndo na década de 1920 ainda hoje testemunha os passos de novas gerações.

A Memória Preservada: A Pasta 277 e o Futuro

Nos arquivos da Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD, na Pasta 277, repousam fotografias sem data — imagens em preto e branco onde o Grupo Escolar Jesuíno Marcondes aparece imponente, talvez nos anos 1930 ou 1940. Nas fotos, não há legendas detalhadas, não há nomes das crianças que posam em frente ao edifício com expressões sérias e orgulhosas. Mas quem olha com atenção percebe: naquelas faces infantis, há o brilho de quem acabara de descobrir que o mundo era maior do que a roça onde nascera.
Hoje, a edificação existe com alterações — como toda coisa viva que resiste ao tempo. Mas sua essência permanece intacta: continua sendo um edifício escolar. Continua recebendo crianças. Continua transformando vidas.
E talvez seja essa a maior lição que o Grupo Escolar Jesuíno Marcondes nos ensina: patrimônio histórico não é apenas pedra e cal. É a continuidade do propósito. É saber que as mesmas salas que acolheram os netos dos imigrantes que desbravaram o Brejo agora acolhem os bisnetos de migrantes nordestinos que vieram buscar futuro no Paraná. É entender que, entre 1908 e hoje, milhares de histórias pessoais se entrelaçaram naquele espaço — primeiros amores nascidos no recreio, professores que se tornaram heróis anônimos, famílias que viram seus filhos ser os primeiros a assinar o próprio nome com orgulho.

Epílogo: O Sussurro das Carteiras Vazias

Quando o sol da tarde entra pelas janelas altas da Escola Municipal Imaculada Conceição, iluminando o assoalho de madeira já gasto pelo tempo, quem caminha em silêncio pelos corredores pode ouvir algo além do vento. É o sussurro das gerações: o riso contido de uma menina italiana aprendendo a soletrar seu nome em 1915; a ansiedade de um menino polonês antes da primeira prova de aritmética em 1932; a esperança de uma criança pobre em 1960 ao descobrir que, através dos livros, poderia viajar sem sair da sala de aula.
Ângelo Bottechia, ao projetar este edifício em 1906, não construiu apenas um bloco escolar padronizado. Construiu um navio. Um navio que, durante mais de um século, tem transportado gerações de palmeirenses através do oceano da ignorância em direção à terra firme do conhecimento.
E enquanto houver uma criança cruzando sua porta para aprender a ler, o sonho de 1908 permanecerá vivo. Porque escolas como esta não envelhecem — apenas acumulam camadas de sonhos realizados, como anéis de árvore que contam, em silêncio, a história do tempo que passou e da vida que floresceu. Em Palmeira, no coração do Brejo, o Grupo Escolar Jesuíno Marcondes não é ruína a ser preservada com nostalgia. É semente que continua germinando — um testemunho vivo de que, mesmo quando o mundo muda, certas coisas permanecem sagradas: o direito de aprender, a dignidade da infância, e a certeza de que cada criança que entra por aquela porta carrega consigo o futuro de uma cidade inteira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário