sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Entre o Sulco e o Saber: A Escola que Ensinou a Terra a Falar e os Homens a Sonhar — História do Colégio Agrícola Getúlio Vargas de Palmeira

 Denominação inicial: Escola de Trabalhadores Rurais Getúlio Vargas

Denominação atual: Colégio Agrícola Getúlio Vargas

Endereço: Rodovia João Chede (PR-151), km 2

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Ernesto Máximo – D.V.P./Seção Técnica

Data: 

Estrutura: singular

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1940

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola de Trabalhadores Rurais Getúlio Vargas - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)

Entre o Sulco e o Saber: A Escola que Ensinou a Terra a Falar e os Homens a Sonhar — História do Colégio Agrícola Getúlio Vargas de Palmeira

Na curva da Rodovia João Chede, quilômetro 2, onde o asfalto encontra o horizonte verde do Planalto Paranaense, ergue-se um edifício que respira história com cada tijolo. Suas linhas Art Déco, marcadas pelo tempo mas não vencidas por ele, contam uma história rara no Brasil: a história de uma escola que não nasceu para formar doutores ou engenheiros das grandes cidades, mas para devolver dignidade ao homem do campo. Aqui, na antiga Escola de Trabalhadores Rurais Getúlio Vargas — hoje Colégio Agrícola Getúlio Vargas —, o saber não se media em diplomas, mas em colheitas generosas; a sabedoria não se provava em concursos, mas na terra fértil que brotava sob mãos antes calejadas apenas pelo esforço bruto.

O Brasil que Redescobriu a Roça: 1940 e o Sonho Rural do Estado Novo

O ano era 1940. Enquanto a Europa ardia em chamas e o mundo mergulhava na Segunda Guerra Mundial, o Brasil vivia uma revolução silenciosa nos campos. Getúlio Vargas, o presidente que sabia que um país não se constrói apenas com fábricas e estradas de ferro, lançava um olhar inédito sobre o trabalhador rural — até então invisível, analfabeto, tratado como força bruta descartável.
Nascia assim, sob o signo do nacional-desenvolvimentismo, a política das Escolas de Trabalhadores Rurais: não eram meros galpões onde se ensinava a ler e escrever, mas verdadeiros centros de transformação social. O objetivo era ambicioso e revolucionário para a época: formar o "agricultor moderno" — homem que soubesse não apenas plantar, mas entender os ciclos da terra; não apenas colher, mas calcular custos e lucros; não apenas obedecer ao patrão, mas sonhar com sua própria propriedade.
E foi nesse contexto que Palmeira — cidade do Brejo, cercada por campos alagados e serras verdejantes — recebeu seu templo da agricultura moderna. Localizada estrategicamente na Rodovia João Chede (PR-151), via que ligava o planalto às regiões produtoras de erva-mate e madeira, a escola tornava-se um farol para os pequenos agricultores espalhados pelas colônias italianas, polonesas e alemãs que pontilhavam o interior paranaense.

A Arquitetura que Honrava o Trabalho: Ernesto Máximo e a Tipologia "E" Singular

Diferente dos grupos escolares padronizados que brotavam nas cidades, a Escola de Trabalhadores Rurais Getúlio Vargas nasceu com alma própria. Seu projeto, assinado pelo arquiteto Ernesto Máximo da Seção Técnica do Departamento de Viação e Obras Públicas (D.V.P.), rompeu com o convencional ao adotar a tipologia "E" — forma que não era acaso, mas símbolo.
As três asas que se abriam como braços acolhedores representavam os três pilares da nova agricultura: o saber teórico (salas de aula), a prática (oficinas e laboratórios) e a vida comunitária (dormitórios e refeitório para os alunos vindos de longe). No centro, o corpo administrativo funcionava como coração que bombeava conhecimento para todas as extremidades.
E sobre tudo isso, a linguagem Art Déco — mas não a Art Déco das metrópoles luxuosas. Aqui, o estilo se adaptava à rusticidade do campo: frisos geométricos inspirados nos sulcos da lavoura; linhas horizontais que evocavam os terraços das encostas; ângulos que lembravam o perfil das serras do Iguaçu. Até os materiais falavam a língua da terra: tijolos aparentes que recordavam as construções dos colonos; madeira de araucária nas esquadrias; telhas de barro que guardavam o calor do sol para as noites frias do planalto.
Ernesto Máximo não projetou um edifício — projetou um manifesto. Um manifesto que dizia, em cada linha arquitetônica: o trabalhador rural merece beleza; sua escola não precisa ser um barracão; sua dignidade começa na arquitetura que o acolhe.

A Inauguração que Mudou o Destino do Brejo: 1940

Naquele ano de 1940, enquanto o mundo assistia à queda da França diante das tropas nazistas, em Palmeira acontecia uma revolução pacífica. A inauguração da Escola de Trabalhadores Rurais Getúlio Vargas não teve apenas autoridades e discursos protocolares. Teve algo mais profundo: a presença silenciosa de homens de rosto marcado pelo sol, mãos calejadas segurando chapéus de palha, olhos marejados ao cruzar o portão da escola onde seus filhos aprenderiam o que eles nunca puderam.
Eram pais que haviam chegado ao Paraná décadas antes — italianos de Vêneto que fugiam da miséria pós-unificação; poloneses que deixaram as terras geladas do império russo; caboclos que desbravaram o sertão paranaense com facão e coragem. Todos tinham em comum a mesma dor: a de não saber ler a própria escritura de terra; a de ser enganado pelo comerciante na hora de vender a colheita; a de ver os filhos repetirem o ciclo de analfabetismo e exploração.
Naquele dia, ao entrarem nas salas de aula com mapas da flora brasileira nas paredes, ao verem os laboratórios com microscópios para analisar o solo, ao caminharem pelos campos experimentais onde se testavam novas variedades de milho e feijão, esses homens sentiram algo raro: esperança. Não a esperança abstrata dos políticos, mas a esperança concreta de que seus filhos aprenderiam a calcular o pH da terra, a identificar pragas antes que destruíssem a lavoura, a negociar com dignidade no mercado de Palmeira.

O Cotidiano que Transformava Vidas: Entre a Cartilha e o Arado

Dentro daquelas paredes Art Déco, a educação rural ganhava carne e osso. O dia começava ao amanhecer, com o sino de metal batendo forte no pátio central. Os alunos — muitos vindos de colônias distantes, dormindo nos alojamentos da escola — reuniam-se não para rezar, mas para ouvir a lição do dia: "Hoje aprenderemos sobre a rotação de culturas. Quem planta sempre milho no mesmo lugar esgota a terra. A terra é como um corpo: precisa descansar, precisa variedade."
Nas salas de aula, o professor escrevia no quadro-negro com giz branco: equações simples para calcular a quantidade de semente por hectare; diagramas do ciclo da água na natureza; mapas do Brasil mostrando as diferentes zonas agrícolas. Mas o verdadeiro aprendizado acontecia lá fora — nos campos experimentais onde meninos de doze anos aprendiam a enxertar mudas de laranjeira; nas oficinas onde construíam arados mais eficientes com madeira e ferro; nos galpões onde observavam o ciclo de vida das abelhas e aprendiam a produzir mel.
As meninas, muitas vezes invisíveis na história oficial, tinham seu espaço próprio: aprendiam a transformar o leite em queijo e manteiga; a conservar alimentos para o inverno rigoroso do planalto; a criar galinhas poedeiras com técnicas modernas. E, crucialmente, aprendiam a ler e escrever — não apenas para assinar documentos, mas para ler receitas agrícolas, entender boletins meteorológicos, escrever cartas para parentes distantes.
À noite, sob a luz fraca dos lampiões (a eletricidade chegaria anos depois), os alunos mais velhos ensinavam os mais novos. E assim, naquele edifício em forma de "E", nascia algo revolucionário: uma comunidade de saber onde o conhecimento não era propriedade do professor, mas domínio coletivo a ser compartilhado.

A Memória Fotográfica: Imagens sem Data que Guardam Almas

No acervo da Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD, repousam fotografias sem data da Escola de Trabalhadores Rurais Getúlio Vargas. Imagens em preto e branco onde o edifício aparece imponente sob o céu do planalto, talvez nos anos 1940 ou 1950. Nas fotos, grupos de jovens com roupas simples posam diante da fachada Art Déco; meninas com vestidos rodados seguram cestas de hortaliças colhidas nos campos experimentais; meninos exibem com orgulho um bezerro recém-nascido nos braços.
Não há legendas que identifiquem nomes. Não sabemos se o rapaz sorridente ao lado do trator tornou-se proprietário de uma fazenda próspera em Palmeira; se a jovem com o livro de agronomia na mão foi a primeira mulher da família a cursar uma faculdade; se o casal que se conheceu na escola construiu uma família numerosa e feliz nas terras que aprenderam a cultivar ali.
Mas nas expressões dos rostos — sérias, mas com um brilho nos olhos — percebe-se algo que transcende a época: a dignidade recém-descoberta. A certeza de que, pela primeira vez, eram vistos não como "caboclos ignorantes", mas como futuros agricultores, técnicos, líderes comunitários. A escola não apenas ensinava — devolvia a autoestima roubada por gerações de exploração.

A Metamorfose Contínua: Da Escola Rural ao Colégio Agrícola

As décadas passaram. O Estado Novo caiu, a ditadura militar chegou e partiu, o Brasil redescobriu a democracia. A escola na Rodovia João Chede, km 2, acompanhou cada transformação — sempre mudando para permanecer fiel à sua missão original.
A denominação mudou de "Escola de Trabalhadores Rurais" para "Colégio Agrícola Getúlio Vargas" — não por ruptura, mas por evolução. O termo "trabalhadores rurais" carregava, com o tempo, uma conotação de subalternidade que não condizia mais com a realidade dos egressos: técnicos agrícolas, engenheiros agrônomos, empresários rurais que transformaram o Paraná no celeiro do Brasil.
O edifício sofreu alterações — novas alas construídas, equipamentos modernizados, acessibilidade adaptada aos tempos contemporâneos. Mas a alma permaneceu intacta: continua sendo um edifício escolar. Continua formando jovens para a terra. Continua honrando o pacto feito em 1940: devolver ao campo sua dignidade através do saber.
Hoje, quando alunos do século XXI entram naqueles corredores com celulares na mão e sonhos de inovação agrícola, eles caminham sobre as pegadas de gerações que ali aprenderam que plantar não é apenas ato físico, mas exercício de inteligência. Que a terra não é inimiga a ser dominada, mas parceira a ser compreendida. Que ser agricultor não é destino de quem não teve sorte na vida, mas vocação nobre que alimenta nações.

Epílogo: O Legado que Cresce com as Colheitas

Quando o vento do planalto sopra sobre a Rodovia João Chede, carregando o cheiro de pinheiro e terra molhada, quem passa diante do Colégio Agrícola Getúlio Vargas pode não perceber a magnitude do que ali aconteceu. Mas basta parar um instante, olhar além da fachada com alterações modernas, e sentir: este não é apenas um prédio escolar. É um monumento vivo à redenção do homem do campo.
Ernesto Máximo, ao projetar esta escola com sua tipologia singular em forma de "E", não construiu apenas paredes e telhados. Construiu um abraço arquitetônico para quem sempre fora marginalizado. Um abraço que dizia: você, trabalhador rural, merece o melhor. Sua terra merece ciência. Seus filhos merecem futuro.
E o tempo provou que o sonho não era vazio. Das salas desta escola saíram os homens e mulheres que transformaram o Paraná na potência agrícola que é hoje — não com exploração predatória, mas com inteligência e respeito à terra. Saíram técnicos que ensinaram seus pais a usar adubação verde; saíram mulheres que fundaram cooperativas de leite nas colônias; saíram jovens que levaram a extensão rural para os rincões mais distantes do estado.
Na curva do quilômetro 2, entre o asfalto e o verde infinito do planalto, o Colégio Agrícola Getúlio Vargas permanece de pé — não como museu de uma época passada, mas como sementeira viva. Porque enquanto houver um jovem cruzando sua porta para aprender que a agricultura é ciência e arte; enquanto houver um professor explicando que o solo é um organismo vivo que precisa de cuidado; enquanto houver uma criança descobrindo que plantar é um ato de fé no amanhã — o sonho de 1940 continuará florescendo, colheita após colheita, geração após geração, na terra generosa do Brejo paranaense.

Nenhum comentário:

Postar um comentário