quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Entre Telhados de Quatro Águas e Sonhos de Quatro Cantos: O Grupo Escolar de Jaguariaíva e a Invenção do Brasil nas Terras do Tibagi

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Jaguariaíva

Denominação atual: Colégio Estadual Rodrigues Alves

Endereço: Rua do Expedicionário, 134 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 14 de março de 1944

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente

Uso atual: Edifício escolar

Ginásio Estadual de Jaguariaíva - s/d Acervo:

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)

Entre Telhados de Quatro Águas e Sonhos de Quatro Cantos: O Grupo Escolar de Jaguariaíva e a Invenção do Brasil nas Terras do Tibagi

Na Rua do Expedicionário, 134, no coração de Jaguariaíva, ergue-se desde meados do século XX um paradoxo silencioso: um prédio que olha para o passado para projetar o futuro. Com suas linhas suaves de telhado de quatro águas, beirais generosos que protegem do sol forte dos Campos Gerais e janelas emolduradas com a modéstia solene do Neocolonial, o Colégio Estadual Rodrigues Alves não é apenas uma escola. É um manifesto arquitetônico. Um ato de fé num Brasil que, em 1944, buscava sua alma entre as cinzas da guerra mundial e os sonhos de uma nação que queria ser, finalmente, brasileira.

1944: O Ano em que o Brasil Decidiu se Lembrar de Si Mesmo

Enquanto tanques soviéticos avançavam sobre Berlim e os Aliados desembarcavam na Normandia, no interior do Paraná, engenheiros e arquitetos da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhavam algo aparentemente singelo: o projeto do Grupo Escolar de Jaguariaíva, datado de 14 de março de 1944. Mas naquele traço a lápis sobre papel vegetal residia uma revolução silenciosa.
O Brasil vivia sob o Estado Novo de Getúlio Vargas — regime autoritário, sim, mas também época de intensa construção de identidade nacional. Enquanto o mundo se dilacerava em ideologias importadas, o governo brasileiro lançava um desafio ousado: criar um estilo próprio. Surgia então o Neocolonial — não como cópia nostálgica das construções luso-brasileiras do século XVIII, mas como reinvenção poética de um passado idealizado. Telhados inclinados evocando as fazendas do açúcar nordestino; paredes caiadas em tons de ocre e branco que dialogavam com a terra vermelha dos Campos Gerais; portais simples mas proporcionais que lembravam as igrejas de Aleijadinho — tudo isso sintetizado numa linguagem moderna, funcional, democrática.
Escolher o Neocolonial para uma escola em Jaguariaíva não era acaso. Era mensagem cifrada: aqui se ensina não apenas a ler e escrever, mas a pertencer. Num município formado por italianos que falavam talian, poloneses que rezavam em latim rústico, ucranianos que guardavam cantos da Galícia e brasileiros mestiços das matas de araucária, a arquitetura tornava-se instrumento de unidade. O telhado de quatro águas abrigava, sob uma mesma forma, todas as origens — fundindo-as numa nova identidade: a do cidadão paranaense, do brasileiro.

A Tipologia em "U": O Pátio como Coração da Comunidade Escolar

O projeto padronizado do Departamento de Edificações adotava a tipologia em "U" — três alas dispostas em forma de ferradura aberta para o nascente. Essa geometria não era mero capricho estético. Era pedagogia materializada.
O pátio interno, protegido dos ventos fortes que sopram das serras, transformava-se no verdadeiro centro vital da escola: ali as crianças corriam nos recreios sob a sombra de uma figueira plantada no primeiro dia de aula; ali os alunos do Ginásio formavam fileiras para o hasteamento da bandeira, entoando o Hino Nacional com vozes quebradas pela puberdade; ali, nas tardes de primavera, professores reuniam turmas para aulas ao ar livre, explicando botânica com as flores silvestres que brotavam entre as pedras.
As alas laterais abrigavam as salas de aula — sempre com janelas voltadas para o pátio, permitindo que o professor vigiasse o recreio com um olhar rápido. A ala central, mais elevada, destinava-se à administração e à biblioteca — pequeno templo de livros que, para muitos jovens jaguariaivenses, representava a primeira janela para o mundo além do roçado. Na extremidade oposta à entrada, quase sempre havia um pequeno coreto ou palanque — palco de festas juninas, formaturas emocionadas e comemorações do Dia da Raça, quando se exaltava a miscigenação como virtude nacional.

Rodrigues Alves: Por Que um Presidente do Café Batizou uma Escola do Erva-Mate?

Curiosamente, o Grupo Escolar nasceu sem nome próprio — apenas "Grupo Escolar de Jaguariaíva", denominação funcional típica da época. Mas nos anos seguintes, ao ser elevado à categoria de Ginásio Estadual, recebeu o patrono Francisco de Paula Rodrigues Alves — presidente do Brasil entre 1902 e 1906, cujo legado parecia distante da realidade serrana do Paraná.
A escolha, porém, era profundamente simbólica. Rodrigues Alves fora o estadista que, com mão de ferro e visão sanitária, transformara o Rio de Janeiro numa capital moderna — saneando mangues, construindo avenidas, combatendo epidemias. Era o símbolo do progresso ordenado, da civilização imposta à natureza indócil. Para Jaguariaíva — cidade que, nas décadas de 1940 e 1950, lutava para superar o estigma de "terra de madeireiros e monjoleiros" — homenagear Rodrigues Alves significava declarar ambição: queríamos também ser modernos, higiênicos, civilizados. A escola que levava seu nome tornava-se promessa de que, daquelas salas de aula, sairiam os engenheiros que pavimentariam as estradas, os médicos que erradicariam doenças, os professores que levariam a luz do saber aos rincões mais remotos dos Campos Gerais.

Vozes que Habitaram os Corredores: Memórias de Giz e Esperança

Imagine a cena: manhã de segunda-feira, 1950. O sino de ferro fundido — pendurado sob o beiral do telhado neocolonial — toca às sete horas. Crianças descalças ou de alpercatas surradas cruzam o portão de ferro forjado. Dentro, o cheiro característico de cera de assoalho e giz novo. Nas salas, quadros-negros de ardósia polida refletem a luz do sol que entra pelos janelões altos.
A professora normalista, formada no Instituto de Educação do Paraná, escreve na lousa com letra cursiva impecável: "O Brasil é uma República Federativa...". Meninos filhos de tropeiros repetem em coro, enquanto meninas netas de italianos do Vêneto copiam a frase em cadernos pautados com capa de papel pardo. No recreio, todos misturam-se: brincam de pega-pega sob a figueira, compartilham pedaços de polenta trazidos de casa com bolos de fubá das colegas brasileiras. Naquele pátio em forma de U, a miscigenação deixava de ser discurso oficial para tornar-se prática cotidiana — suor infantil, risadas compartilhadas, amizades que ignoravam fronteiras de origem.
Anos depois, na década de 1960, o Ginásio Estadual de Jaguariaíva — como aparece nas fotos sem data do acervo da SEAD — já formava jovens que seriam protagonistas do Paraná moderno: engenheiros que projetariam as hidrelétricas do Iguaçu, médicas que abririam consultórios em cidades antes desassistidas, professores que levariam adiante a missão iniciada por Izabel Branco décadas antes. Todos eles passaram por aquele corredor central, sob aquele telhado de quatro águas que parecia abraçar o céu dos Campos Gerais.

O Legado que Resiste: Entre Alterações e Memórias Preservadas

Hoje, como Colégio Estadual Rodrigues Alves, o edifício mantém sua estrutura essencial — raro exemplo de preservação entre os Grupos Escolares paranaenses que sucumbiram à demolição ou à descaracterização total. Algumas janelas talvez tenham sido substituídas; novas alas de concreto podem ter sido acrescentadas para atender à demanda crescente; o pátio original talvez hoje divida espaço com quadras esportivas modernas. Mas o núcleo neocolonial permanece — testemunha silenciosa de gerações.
No acervo da Coordenadoria do Patrimônio do Estado (SEAD), pasta dedicada a Jaguariaíva, repousam fotografias em preto e branco sem data: o Ginásio Estadual de Jaguariaíva sob um céu de nuvens altas típicas dos Campos Gerais; alunos em fila indiana diante da fachada principal; professores de paletó e gravata posando com a seriedade própria da época. Essas imagens não são apenas documentos históricos. São portais. Ao contemplá-las, ouvimos o tilintar do sino da escola; sentimos o cheiro de terra molhada após a chuva da serra; vemos nos olhos daquelas crianças o mesmo brilho de curiosidade que ilumina os rostos dos estudantes que hoje cruzam aquele mesmo portão.

Epílogo: A Lição que o Telhado Ensina

O Neocolonial caiu em desuso nas décadas seguintes — substituído pelo concretismo brutalista, depois pelo funcionalismo sem alma das construções contemporâneas. Mas o Grupo Escolar de Jaguariaíva resiste como lição viva: civilização não se constrói apenas com tecnologia e eficiência. Constrói-se com memória. Com a coragem de olhar para trás para entender quem somos — e assim projetar um futuro que não apague nossas raízes.
Naquele telhado de quatro águas, há uma metáfora perfeita para a educação que ali se praticou: quatro vertentes que convergem num mesmo ponto — a tradição indígena da terra, a herança europeia dos colonos, a força africana presente no sangue mestiço do Brasil profundo, e o sonho moderno de uma nação justa e culta. Todas escorrem, como águas pluviais, para um mesmo destino: o pátio central onde crianças de todas as origens aprendem que, apesar das diferenças, compartilham um mesmo chão — e um mesmo futuro.
E assim, sob o sol forte de Jaguariaíva, o Colégio Estadual Rodrigues Alves continua de pé. Não como monumento musealizado, mas como coração pulsante de uma comunidade que, desde 1944, entendeu que a verdadeira independência não se conquista com armas, mas com livros; que a verdadeira pátria não é um território traçado em mapas, mas um pátio escolar onde todas as crianças, sob um mesmo telhado, aprendem a sonhar juntas.

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