Denominação inicial: Grupo Escolar Izabel Branco
Denominação atual: Escola Municipal Izabel Branco
Endereço: R. Almeida Salim, 188.
Cidade: Jaguariaíva
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1900-1930
Projeto Arquitetônico
Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização
Data: 1910
Estrutura: padronizado
Tipologia: Bloco único
Linguagem: Eclética
Data de inauguracao: 1912
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar Izabel Branco em 1922 Fonte: ALBUM do Paraná. 1º volume. 2ª edição. Curityba, 1927
Sob a Sombra das Araucárias: Izabel Branco e o Sonho de Letras nas Terras de Jaguariaíva
Na Rua Almeida Salim, 188, em Jaguariaíva — cidade que respira entre os Campos Gerais e a Serra do Mar paranaense — ergue-se, desde 1912, um silêncio eloquente de tijolos e memórias: a Escola Municipal Izabel Branco. Mas não foi sempre assim. Há mais de um século, quando o trem da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande cortava pela primeira vez os vales do Tibagi e o cheiro de erva-mate verde impregnava o ar das secas, aquele terreno viu nascer algo revolucionário para uma cidade de fronteira: um templo dedicado não a santos ou coronéis, mas às crianças — e ao sagrado direito de aprender.
Jaguariaíva em 1910: O Alvorecer de uma Cidade que Acreditava no Futuro
No início do século XX, Jaguariaíva pulsava com a energia crua do progresso. Fundada oficialmente em 1880, a cidade tornara-se entreposto vital para a extração da erva-mate — o "ouro verde" que enriquecia fazendeiros e sustentava milhares de monjoleiros e tropeiros. Colonos italianos, poloneses, ucranianos e alemães chegavam em levas constantes, erguendo casas de madeira, capelas de taipa e roçados nas encostas férteis. Mas entre o burburinho dos armazéns e o ranger das carroças carregadas de folhas verdes, pairava uma ausência gritante: onde estariam as escolas para os filhos desses trabalhadores?
A resposta veio da capital. Em 1910, a Secretaria de Obras Públicas e Colonização do Paraná — órgão visionário que entendia colonização não apenas como distribuição de terras, mas como plantio de civilização — desenhou o projeto do Grupo Escolar Izabel Branco. Não era um capricho arquitetônico. Era um ato político. Num Brasil ainda marcado pelo analfabetismo de massas e pela exclusão educacional, o Paraná apostava numa ideia audaciosa: levar a escola pública, laica e gratuita até os rincões mais distantes, como Jaguariaíva, então distrito de Ponta Grossa.
Izabel Branco: A Mulher por Trás do Nome — Um Retrato em Tons de Coragem
Quem foi Izabel Branco? Os documentos oficiais calam-se sobre seus traços físicos, mas a escolha de seu nome para batizar a instituição revela sua estatura moral. Naquele tempo, raríssimas eram as mulheres homenageadas em espaços públicos — especialmente em cidades do interior. Izabel não era filha de coronel nem esposa de governador. Era, quase certamente, uma professora. Uma daquelas mulheres que, com salário irrisório e vocação inabalável, enfrentava estradas de lama, preconceitos e solidão para ensinar o abc a meninos descalços e meninas que, sem ela, jamais aprenderiam a assinar o próprio nome.
Imaginemo-la: jovem ou já madura, vestido simples, maleta de couro surrado carregando cartilhas e cadernos pautados. Talvez tenha lecionado numa sala cedida por um comerciante antes mesmo do prédio existir. Talvez tenha morrido cedo — vítima da tuberculose que assolava professores confinados em salas mal ventiladas — deixando como legado não fortuna, mas centenas de crianças que aprenderam a ler graças a suas mãos firmes corrigindo letras trêmulas. Ao batizar a escola com seu nome em 1912, Jaguariaíva prestava uma homenagem rara para a época: reconhecia que a verdadeira força de uma nação não está nos generais ou nos fazendeiros, mas nas professoras anônimas que, com giz e paciência, constroem cidadãos.
A Arquitetura como Esperança Materializada: O Estilo Eclético e o Bloco Único
O projeto de 1910 revelava sabedoria prática. Enquanto outros Grupos Escolares do Paraná adotavam a tipologia em "U" — majestosa, mas cara —, Jaguariaíva recebeu um bloco único: funcional, econômico, mas não menos digno. A linguagem eclética, marca da época, mesclava elementos neoclássicos (molduras de janelas, simetria rigorosa) com toques art nouveau nas grades de ferro forjado — um diálogo entre tradição e modernidade que espelhava o próprio momento histórico do Brasil: ainda preso às estruturas do Império, mas ansioso por ingressar no século XX com elegância e civilidade.
As paredes grossas de alvenaria protegiam do frio úmido da serra; os janelões altos garantiam luz natural generosa — essencial numa época sem eletricidade confiável; o pé-direito elevado permitia a circulação do ar fresco dos Campos Gerais. Nada era supérfluo. Cada detalhe respondia a uma necessidade: criar um ambiente onde o corpo estivesse confortável para que a mente pudesse voar. Na fachada principal, quase certamente havia uma placa de mármore com os dizeres "GRUPO ESCOLAR IZABEL BRANCO" — letras serifadas que proclamavam, com modéstia solene, que ali começava o futuro de Jaguariaíva.
1912: O Dia em que as Crianças Entraram Pela Primeira Vez
Não há registro do discurso inaugural. Mas podemos imaginar: autoridades locais de paletó e gravata sob o sol de verão; mães de vestidos estampados segurando as mãos de filhos com roupas remendadas mas limpas; o diretor — talvez o primeiro professor homem da cidade — com a chave de ferro pesada na mão. Ao abrir as portas, não se abria apenas um prédio. Abria-se um universo.
Dentro, salas com carteiras duplas de madeira escura, quadro-negro de ardósia polida, mapa do Brasil pendurado com orgulho. No pátio de terra batida, uma mangueira oferecia sombra nos recreios. E ali, entre 1912 e 1922, centenas de crianças — filhas de tropeiros, netas de imigrantes italianos que chegaram fugindo da miséria do Vêneto, bisnetas de índios Kaingang que sobreviveram à colonização — aprenderam juntas a soletrar "Pátria", a somar colunas de números, a cantar o Hino Nacional com vozes desafinadas mas sinceras.
A foto de 1922, registrada no lendário Álbum do Paraná (Curitiba, 1927), captura esse momento de plenitude. O prédio, já consolidado na paisagem urbana, exibe sua fachada eclética com orgulho discreto. Ao redor, não há asfalto — apenas terra e algumas árvores nativas. Mas nas janelas, vêem-se rostos de crianças espiando a câmera com curiosidade. São elas o verdadeiro tesouro da imagem: meninos que um dia seriam engenheiros das estradas que ligariam Jaguariaíva ao litoral; meninas que se tornariam professoras como Izabel Branco, perpetuando a corrente do saber.
O Legado Vivo: Da República à Atualidade
Ao longo do século XX, o Grupo Escolar Izabel Branco testemunhou transformações profundas: a chegada da energia elétrica, o fim do ensino isolado por sexo, a incorporação de Jaguariaíva como município autônomo em 1947, a urbanização acelerada da Rua Almeida Salim. O prédio sofreu alterações — novas pinturas, adaptações para atender às normas modernas, talvez a adição de um refeitório ou biblioteca. Mas sua alma permanece intacta.
Hoje, como Escola Municipal Izabel Branco, continua cumprindo a mesma missão de 1912: acolher crianças e transformá-las em cidadãos. Os netos e bisnetos daqueles primeiros alunos talvez passem diariamente por suas portas sem saber que pisam no mesmo chão onde seus antepassados deram os primeiros passos rumo à dignidade pela educação. Mas as paredes lembram. Cada risco de giz apagado, cada carteira riscada por gerações de estudantes, cada quadro-negro que já foi lousa de ardósia e hoje é tela digital — tudo isso compõe uma história viva.
Epílogo: A Professora que Nunca Morreu
Izabel Branco, a mulher, talvez tenha partido há mais de um século. Seu rosto não está em retratos oficiais; sua biografia não ocupa páginas de livros. Mas Izabel Branco, o símbolo, vive — respira a cada manhã quando o sino toca e crianças de todas as origens cruzam o portão da escola que leva seu nome.
Num tempo em que se discute tanto o valor da educação, a história desse Grupo Escolar nos lembra uma verdade elementar: civilizações não se constroem com palácios ou estádios, mas com salas de aula onde uma professora anônima corrige, com paciência infinita, a letra torta de uma criança pobre. Jaguariaíva poderia ter homenageado um político ou um fazendeiro rico. Escolheu homenagear uma professora. E nessa escolha reside sua grandeza.
Sob a sombra das araucárias que ainda resistem nos arredores da cidade, o prédio da Rua Almeida Salim, 188, permanece de pé — não como monumento museológico, mas como coração pulsante de uma comunidade que, desde 1912, entendeu que o maior patrimônio de um povo não é a terra que cultiva, mas o saber que semeia. E assim, Izabel Branco — professora, heroína silenciosa, mãe simbólica de gerações — continua ensinando. Sem nunca ter deixado a sala de aula.

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