quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Maria Thereza (Nona) BERTINATTO Nascida a 9 de junho de 1901 (domingo) - Rio Grande do Sul Falecida a 16 de agosto de 1972 (quarta-feira) - Curitiba, Parana, Brasil, com a idade de 71 anos

  Maria Thereza (Nona) BERTINATTO Nascida a 9 de junho de 1901 (domingo) - Rio Grande do Sul Falecida a 16 de agosto de 1972 (quarta-feira) - Curitiba, Parana, Brasil, com a idade de 71 anos

Maria Thereza "Nona" Bertinatto Stubert: A Tecelã Silenciosa de Memórias em Terra Paranaense

No amanhecer de um domingo de inverno gaúcho, 9 de junho de 1901, enquanto o Rio Grande do Sul ainda carregava as marcas das grandes correntes migratórias que redesenhavam seu coração, vinha ao mundo Maria Thereza Bertinatto — aquela que a família, com carinho ancestral, chamaria de Nona. Seu nascimento não foi registrado com fanfarras nos jornais da época, mas ecoou nas paredes simples de uma casa de colonos, onde o cheiro de pão de milho quente se misturava ao sotaque italiano dos pais. Era o início de uma vida que, embora discreta aos olhos da História com H maiúsculo, teceria com fios de amor e resistência uma das narrativas mais profundamente brasileiras: a da mulher que carrega consigo a memória de dois mundos para construir um terceiro.

Raízes na Terra do Chimarrão: Jacob e Madalena

Seu pai, Jacob Bertinatto (1873–1952), chegara ao Brasil ainda criança, nos braços de pais que fugiam da pobreza do Vêneto italiano. A família fixara-se no Rio Grande do Sul, onde a terra generosa acolheu sonhos de italianos, alemães e poloneses. Jacob cresceu entre parreiras e campos de trigo, aprendendo que a dignidade se constrói com as mãos calejadas e o silêncio do trabalho. Sua mãe, Madalena Ballin, trazia no sangue a força das mulheres do campo — aquelas que acendem o fogão antes do sol nascer, que curam com ervas do quintal e que guardam, nos olhos cansados, a memória de todas as dores da família.
Naquela casa simples do interior gaúcho, Maria Thereza aprendeu cedo o valor do pão compartilhado. As noites eram iluminadas pelo lampião de querosene, enquanto Jacob contava histórias dos nonni que nunca conhecera, e Madalena ensinava às filhas — se houve irmãs, seus nomes se perderam no tempo, mas sua presença ecoa na ternura com que Nona criaria seu próprio filho — a costurar não apenas roupas, mas laços. A infância de Maria Thereza foi feita de pés descalços na terra vermelha, de rezas em dialeto vêneto antes de dormir, e do orgulho silencioso de ser filha de imigrantes que transformaram solidão em comunidade.

A Travessia: Do Pampa às Araucárias

Por volta dos vinte anos, algo mudou no horizonte da família Bertinatto. Enquanto o Rio Grande do Sul consolidava suas tradições, o Paraná emergia como nova fronteira de esperança. Curitiba, ainda uma cidade em formação, atraía famílias em busca de lotes mais acessíveis e oportunidades na lavoura de subsistência. Assim, Jacob, Madalena e a jovem Maria Thereza deixaram para trás os campos gaúchos e rumaram para o norte — uma jornada de dias em carroças ou trens precários, carregando baús com roupas, santinhos, sementes de hortaliça e a certeza de que recomeçar exige coragem.
Chegaram a Curitiba numa época em que as ruas de terra ainda se transformavam em lama com a chuva, e o cheiro de pinheiro se misturava ao aroma do café recém-colhido. A cidade acolhia italianos, alemães, poloneses — cada grupo trazendo sua língua, sua fé, sua cozinha. Foi nesse caldeirão cultural, entre missas na Catedral e encontros na Praça Generoso Marques, que Maria Thereza, agora com vinte e quatro anos, cruzou o olhar com um homem de nome forte e origens distantes.

O Encontro com Augusto: Quando Dois Mundos se Abraçaram

Augusto August Ferdinand Wilhelm Stubert (1894–1970) carregava na alma a herança germânica — nome completo como testemunho de uma linhagem que atravessara o Atlântico em busca de liberdade. Nascido no mesmo Paraná que agora acolhia os Bertinatto, Augusto era filho de colonos alemães que ajudaram a erguer as primeiras serrarias e lavouras de trigo nos Campos Gerais. Enquanto Jacob falava com as mãos, gesticulando como os italianos do Vêneto, Augusto expressava-se com a contenção típica dos teutônicos — mas ambos compartilhavam o mesmo código: o respeito pela terra, pelo trabalho honesto, pela família como santuário.
No sábado, 6 de fevereiro de 1926, sob o sol de verão paranaense, Maria Thereza e Augusto uniram suas vidas na igreja de madeira que então servia à comunidade católica de Curitiba. Ela, com seu vestido simples mas impecável, bordado por suas próprias mãos; ele, com o terno escuro herdado do pai. Não houve festa suntuosa — apenas pão, vinho e o abraço quente de parentes que, embora poucos, representavam a união simbólica de duas correntes migratórias que fariam do Paraná sua pátria definitiva. Naquele dia, Jacob Bertinatto abraçou o genro com força de homem que reconhece no outro a mesma fibra de sobrevivência. Madalena, emocionada, sussurrou ao ouvido da filha: "Ora sempre, minha Nona. A vida é dura, mas o amor é mais forte."

Miguel Jacob "Tetéco": O Fruto do Amor entre Duas Terras

Do enlace entre a italiana e o alemão nasceu Miguel Jacob "Tetéco" Stubert — nome que carrega em si a síntese de duas heranças. "Miguel", pela fé católica; "Jacob", homenagem ao avô materno que cruzara oceanos para dar futuro aos filhos; e "Tetéco", apelido carinhoso que só uma mãe sabe inventar — talvez inspirado no jeito gracioso com que a criança balbuciava suas primeiras palavras.
Nona dedicou-se à maternidade com a intensidade das mulheres de sua geração. Enquanto Augusto trabalhava na roça ou na oficina — registros sugerem que os Stubert estavam ligados à marcenaria ou à agricultura familiar —, Maria Thereza transformava a casa em reduto de afeto. Ali, o polenta italiano dividia a mesa com o kartoffelsalat alemão; o terço rezado em português misturava-se às canções de ninar em dialeto vêneto. Tetéco cresceu ouvindo histórias do nonno Jacob sobre os vinhedos perdidos da Itália e do pai Augusto sobre as florestas de pinheiros que agora cercavam sua casa em Curitiba. Era um menino paranaense por inteiro — fruto legítimo da miscigenação silenciosa que construiu o Brasil profundo.

A Solidez do Cotidiano: Setenta e Um Anos de Presença

A vida de Maria Thereza não foi marcada por grandes eventos públicos. Não foi heroína de guerra, não fundou instituições, não teve seu nome gravado em placas de bronze. Sua grandeza residia na tessitura diária da existência: no pão assado todas as manhãs, no remendo feito com capricho na calça do filho, no lenço oferecido ao marido quando a saudade da terra natal apertava o coração. Ela era a guardiã das memórias — quem lembrava o aniversário de cada sobrinho, quem guardava as cartas amareladas dos parentes que ficaram na Europa, quem sabia qual erva curava a tosse do inverno curitibano.
Em 1952, aos cinquenta anos, recebeu a notícia que abalou seus alicerces: Jacob Bertinatto, seu pai, aquele homem forte que cruzara oceanos e fronteiras, partira aos setenta e nove anos. Naquele momento, Nona compreendeu que se tornara a ponte viva entre gerações — a última a carregar na memória o sotaque do pai, o cheiro da casa gaúcha da infância, as rezas em italiano que Madalena já não conseguia pronunciar com clareza.
Dezesseis anos depois, em 23 de fevereiro de 1970, Augusto a deixou. Morreu aos setenta e seis anos, deixando um silêncio que só quem compartilhou quarenta e quatro anos de vida pode entender. Naquela casa agora vazia, Maria Thereza — já com sessenta e oito anos — descobriu uma nova força: a de viver por inteiro, mesmo quando metade da alma partiu. Passou seus últimos dois anos cercada pelo filho Miguel, pelos netos que começavam a chegar, pelas vizinhas que vinham tomar café e ouvir suas histórias de "quando eu era pequena no Rio Grande".

O Adeus Sob as Araucárias

Na quarta-feira, 16 de agosto de 1972, Maria Thereza "Nona" Bertinatto Stubert fechou os olhos para sempre em Curitiba, aos setenta e um anos. Partiu sob o mesmo céu que a acolhera jovem imigrante interiorana, agora transformada em matriarca de uma família paranaense. Seu corpo foi enterrado na terra que adotara — a mesma terra onde plantara hortas, onde ensinara o filho a andar, onde chorara e rira ao lado do marido.
Mas Nona não se foi de verdade. Está viva em cada gesto de Tetéco ao preparar o molho de tomate como ela ensinou; na pronúncia suave do "r" que os netos herdaram sem saber; no cheiro de alecrim que ainda hoje brota espontâneo no quintal de antigas casas de Curitiba — planta que ela mesma terá plantado décadas atrás. Está na memória coletiva de uma cidade que se fez com as mãos calejadas de mulheres como ela: anônimas para a História, mas fundamentais para a história.

Legado de Uma Vida Simples

Maria Thereza Bertinatto Stubert não deixou fortuna nem testamento elaborado. Seu legado é outro: é a prova viva de que o Brasil se construiu não apenas com bandeiras e discursos, mas com o suor silencioso de mulheres que cruzaram fronteiras internas e externas carregando baús de esperança. É a demonstração de que italianos e alemães — povos historicamente distantes — puderam, no coração do Paraná, tecer uma nova identidade a partir do respeito mútuo e do amor cotidiano.
Hoje, quando passamos pelas ruas arborizadas de Curitiba, ou sentimos o frio úmido do inverno paranaense, podemos imaginar Nona caminhando de casa para a feira, o lenço cobrindo os cabelos grisalhos, os olhos ainda brilhando com a lembrança do pampa gaúcho e o orgulho do lar construído entre pinheiros. Ela foi, em essência, o que tantas Marias brasileiras foram e são: a raiz silenciosa de uma árvore cujos frutos colhemos sem saber de onde vieram.
E talvez seja essa sua maior lição: que vidas aparentemente simples — marcadas apenas por datas de nascimento, casamento e morte em registros paroquiais — são, na verdade, universos inteiros de amor, perda, resistência e graça. Maria Thereza "Nona" Bertinatto Stubert viveu setenta e um anos. Mas sua história, como todas as histórias verdadeiramente humanas, não tem fim. Ela continua — no sussurro do vento nas araucárias, no cheiro do café da manhã, no abraço apertado de um filho que nunca esqueceu o colo da mãe. E nisso reside sua eternidade.


Maria Thereza (Nona) BERTINATTO
  • Nascida a 9 de junho de 1901 (domingo) - Rio Grande do Sul
  • Falecida a 16 de agosto de 1972 (quarta-feira) - Curitiba, Parana, Brasil, com a idade de 71 anos
2 ficheiros disponíveis

 Pais

 Casamento(s) e filho(s)

 Notas

Nascimento

Nasc. 9-6-1901 – R. G. Do Sul

 Fotos e Registos de Arquivo

Foto Maria Thereza Bertinatto pdf

Foto Maria Thereza Bertinatto pdf

Maria Thereza BERTINATto Nona 02

Maria Thereza BERTINATto Nona 02

 Árvore genealógica (visão geral)

   
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Jacob BERTINATTO 1873-1952
 Madalena BALLIN
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Maria Thereza (Nona) BERTINATTO 1901-1972


19019 jun.

Nascimento

 
Notas

Nasc. 9-6-1901 – R. G. Do Sul

Descendentes de Maria Thereza (Nona) BERTINATTO

  


































































































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