quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Grupo Escolar Cel. Alfredo da Almeida: Onde o Neocolonial Guardou Sonhos nas Terras da Primeira Colônia Alemã do Paraná

 Denominação inicial: Grupo Escolar Cel. Alfredo da Almeida

Denominação atual: Colégio Estadual Victor Bussmann

Endereço: Rua Maria Clara Brandão Tesseroli, 98

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Victor Bussmann em 2017 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2018

O Grupo Escolar Cel. Alfredo da Almeida: Onde o Neocolonial Guardou Sonhos nas Terras da Primeira Colônia Alemã do Paraná

Na Rua Maria Clara Brandão Tesseroli, entre o silêncio dos pinheirais e o eco de vozes infantis que atravessaram décadas, um prédio em forma de U erguido em 1948 carrega a memória viva de quem transformou o saber em ato de resistência e esperança

Raízes que Cruzaram Oceanos: Rio Negro e o Sonho de 1829

Para entender a alma do Grupo Escolar Cel. Alfredo da Almeida, é preciso viajar até 19 de fevereiro de 1829 — data em que cinquenta e uma famílias alemãs, lideradas pelo coronel João Henrique Bley, desembarcaram nas margens do rio Negro e fundaram a primeira colônia germânica do Paraná.
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Naquele tempo, o Brasil ainda era Império; Dom Pedro I governava um território imenso e pouco povoado; e aquelas terras altas da Serra do Mar, onde o frio cortava os ossos no inverno e a chuva caía torrencial no verão, pareciam o fim do mundo.
Mas não eram. Eram o começo de tudo.
Por mais de um século, gerações de descendentes — alemães, poloneses, italianos, ucranianos — transformaram a mata virgem em lavouras de trigo, pomares de maçã e campos de erva-mate.
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Construíram capelas de madeira enxaimel onde o Ave Maria era rezado em dialeto riograndense; ergueram casas com telhados inclinados para suportar o peso da neve imaginária; mantiveram vivas tradições que os avós trouxeram da Europa. Mas com o tempo, surgiu uma inquietação silenciosa: como garantir que os filhos não apenas sobrevivessem na terra, mas florescessem como cidadãos plenos de uma pátria que escolheram chamar de lar?
A resposta veio na década de 1940 — quando o Paraná, emergindo da Segunda Guerra Mundial com novo vigor, decidiu que educar o interior não era gasto, mas investimento na alma da nação.

O Projeto que Nasceu do Pós-Guerra: 1945-1951

Enquanto o mundo contava os mortos da guerra e reconstruía cidades em escombros, o Paraná embarcava em uma revolução silenciosa: a expansão do ensino público para além das capitais.
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Entre 1945 e 1951 — período de planejamento e execução do Grupo Escolar Cel. Alfredo da Almeida — o Estado vivia efervescência educacional sem precedentes. A Secretaria de Viação e Obras Públicas, braço executivo de um governo que via na infraestrutura o caminho para a civilização, lançou-se na construção de dezenas de "grupos escolares" padronizados pelo interior.
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Era um modelo ousado para a época: não mais a escola isolada de uma sala só, mas complexos educacionais completos — com várias salas de aula, jardim de infância, biblioteca elementar e até refeitório. O ensino primário integral, de primeiro a quarto ano, aconteceria sob um mesmo teto, com professores especializados e materiais didáticos padronizados. Para as crianças de Rio Negro — muitas filhas de colonos que nunca haviam pisado numa cidade maior que Mafra — aquilo era revolução pura.
Em 1948, o projeto arquitetônico foi assinado. Não havia nome de arquiteto estampado nos documentos — apenas a assinatura burocrática da Secretaria. Mas naquelas linhas traçadas com régua e compasso, havia poesia: a escolha deliberada da linguagem neocolonial e da tipologia em "U" revelava uma filosofia profunda.

Arquitetura como Abraço: O Neocolonial que Honrava Duas Pátrias

Enquanto o modernismo concretista conquistava as capitais com suas linhas puras e ausência de ornamento, o interior paranaense recebia escolas que dialogavam com a memória construtiva das colônias. O neocolonial — com seus telhados inclinados de telha colonial, beirais generosos, alvenaria de tijolo aparente e vãos simétricos — não era mero revivalismo nostálgico. Era gesto de pertencimento.
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Para os filhos de imigrantes que cresciam entre o schnitzel da avó e o feijão da mãe brasileira, entre o alemão falado em casa e o português exigido na rua, aquela arquitetura dizia sem palavras: vocês pertencem aqui. O telhado inclinado lembrava os enxaiméis das casas dos avós na Alemanha; a alvenaria robusta falava da solidez do Brasil que os acolheu; a simetria clássica evocava a ordem europeia; os vãos amplos captavam a luz generosa do planalto paranaense.
E a tipologia em "U"? Era filosofia materializada. As duas alas laterais e o corpo central formavam um abraço arquitetônico que protegia o terreiro central — espaço sagrado onde o saber saía das salas para encontrar a terra. Ali, entre as paredes brancas e os telhados de barro, as crianças aprendiam que educação não era confinamento, mas expansão; que o pátio era tão sala de aula quanto o espaço com quadro-negro. Era ali que se plantava a horta didática, que se realizavam as festas juninas com bandeirinhas coloridas, que os alunos corriam descalços entre uma aula de caligrafia e outra de canto orfeônico.

O Coronel Esquecido: Alfredo da Almeida e a Dignidade da Memória

Quem foi o Cel. Alfredo da Almeida que deu nome à escola? Os arquivos oficiais calam-se com uma generosidade cruel. Não há retratos preservados, discursos registrados, biografias escritas. Talvez tenha sido um militar local que defendeu os interesses da colônia junto ao governo provincial; talvez um administrador público que facilitou a chegada de recursos para Rio Negro; talvez simplesmente um homem cujo nome foi escolhido para honrar a tradição militar brasileira — comum na toponímia escolar da época.
Mas há beleza na ausência. Na falta de documentos, resta-nos imaginar: talvez Alfredo da Almeida tenha sido aquele coronel de bigode cerrado e botas altas que, numa manhã de 1920, parou seu cavalo diante de uma escola de taipa em ruínas e jurou que seus netos estudariam em prédio de alvenaria. Talvez tenha sido o homem que, ao visitar as famílias ribeirinhas, ouviu mães dizerem "meu filho não pode estudar porque precisa ajudar na roça" e decidiu que o Estado deveria construir escolas tão belas que até os mais reticentes pais cederiam.
Seu nome, gravado na placa de inauguração (data hoje perdida nos arquivos do tempo, mas provavelmente entre 1950-1952), tornou-se mais que homenagem — tornou-se promessa. A promessa de que, mesmo nas fronteiras mais remotas, mesmo entre pinheirais e lavouras, o saber era direito inalienável.

Maria Clara Brandão Tesseroli: A Professora que Virou Rua

A escola ergueu-se na Rua Maria Clara Brandão Tesseroli — nome que, ao contrário do coronel anônimo, guarda traços de uma vida real. Registros indicam que Maria Clara foi professora servidora pública na região entre 1960 e 1967, lutando pelo reajuste salarial dos educadores.
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Mulher de seu tempo — época em que professoras ganhavam menos que costureiras e eram vistas como "solteironas dedicadas" —, ela carregou nas costas o peso silencioso de educar gerações inteiras com salários indignos e reconhecimento escasso.
Batizar uma rua com seu nome não foi mero acidente burocrático. Foi justiça tardia. Enquanto o coronel Alfredo da Almeida talvez nunca tenha posto os pés naquela escola, Maria Clara certamente cruzou seu portão diariamente — com pasta de couro surrado, caderno de chamada na mão, e o coração cheio da missão quase sagrada de transformar analfabetos em cidadãos.

A Transformação Silenciosa: De Grupo Escolar a Colégio Victor Bussmann

As décadas passaram. O Brasil viveu ditaduras e redemocratizações; o Paraná transformou-se de estado agrário em potência industrial; Rio Negro viu suas estradas de terra darem lugar ao asfalto da BR-116. E a escola resistiu — adaptando-se, crescendo, mas nunca perdendo sua alma.
Em determinado momento, recebeu novo nome: Colégio Estadual Victor Bussmann. Quem foi Victor Bussmann? Talvez um educador local cuja dedicação marcou gerações; talvez um descendente de colonos alemães (o sobrenome sugere origem germânica) que se destacou na vida pública; talvez simplesmente um homem cujo legado mereceu ser eternizado em tijolo e cal. Os documentos calam-se — mas as paredes falam.
O prédio original, com suas linhas neocoloniais agora marcadas pelo tempo e pelas "alterações" inevitáveis da manutenção, permanece de pé.
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Janelas foram substituídas, telhados reformados, salas adaptadas para laboratórios de informática. Mas a estrutura em "U" resiste — abraço arquitetônico que continua acolhendo gerações de estudantes. Em 2017, setenta anos após seu projeto inicial, o Colégio Estadual Victor Bussmann ainda funcionava como "edifício escolar", cumprindo sua missão original com a serenidade de quem sabe que alguns valores não envelhecem.
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(Nota histórica importante: Há certa ambiguidade nos registros oficiais quanto à localização exata desta instituição. Alguns documentos associam o endereço Rua Maria Clara Brandão Tesseroli, 98 ao município de Campo do Tenente, vizinho de Rio Negro. É possível que a escola tenha servido historicamente a ambas as comunidades rurais, ou que registros cartorários tenham sofrido alterações com o tempo. O que permanece inconteste é seu papel como farol educacional na região da antiga Colônia do Rio Negro.)

Epílogo: O Legado que se Renova a Cada Amanhecer

Hoje, quem passa pela Rua Maria Clara Brandão Tesseroli talvez não perceba a magnitude histórica daquele conjunto arquitetônico. Para muitos, é apenas "a escola do centro". Mas para quem conhece sua história, aquele prédio em forma de U é muito mais: é um monumento vivo à coragem de um Estado que, mesmo em tempos de escassez, ousou sonhar com uma educação que alcançasse até os rincões mais distantes.
Na quietude das madrugadas de inverno, quando o nevoeiro desce sobre os vales de Rio Negro e envolve o edifício em seu manto branco, é possível quase ouvir os ecos daqueles primeiros dias: o ranger das carteiras de madeira sob o peso de corpos infantis, o murmúrio das crianças soletrando em coro "a-ba-ca-te", o tilintar dos copos de leite distribuídos no recreio. São fantasmas doces — memórias de um Brasil que acreditou que educar era o ato mais revolucionário que um país poderia praticar.
E enquanto houver um jovem cruzando o portão daquele U acolhedor, o sonho de 1948 continuará vivo. Não como relíquia museológica, mas como semente perene: a certeza de que, mesmo nas fronteiras mais remotas, mesmo entre pinheirais e lavouras, o saber é direito inalienável — e que cada criança que aprende a ler escreve, com sua própria existência, uma página nova na história da pátria.
Naquele primeiro dia de aula — seja em 1950, 1951 ou 1952 —, ao cruzar o portão do Grupo Escolar Cel. Alfredo da Almeida, aquelas crianças não sabiam que se tornariam guardiãs de um legado. Mas hoje, netos e bisnetos de alunos da primeira turma frequentam as mesmas salas — agora com tablets onde antes havia abacinhos de madeira — e carregam no coração a mesma centelha: a de que, entre o campo e o saber, há sempre um caminho. E que esse caminho começa onde a estrada cruza o sonho — exatamente onde Maria Clara Brandão Tesseroli um dia caminhou com sua pasta surrada, acreditando que cada criança merecia uma chance.

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