quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Grupo Escolar de Restinga: Onde o Neocolonial Abraçou Sonhos na Fronteira do Paraná

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Restinga

Denominação atual: Colégio Estadual Dr. Ovande do Amaral

Endereço: Rua Inácio Schelbauer, 139 - Bom Jesus

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 16 de fevereiro de 1952

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Dr. Ovande do Amaral em 2017 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2018

O Grupo Escolar de Restinga: Onde o Neocolonial Abraçou Sonhos na Fronteira do Paraná

Na curva suave da Rua Inácio Schelbauer, entre pinheirais e lavouras, um edifício em forma de U erguido em 1952 carrega nas paredes o eco de gerações que ali aprenderam que o saber não conhece fronteiras — nem geográficas, nem sociais

O Alvorecer de uma Nova Era: O Paraná que se Fazia Escola

Fevereiro de 1952. Enquanto o mundo ainda curava as feridas da Segunda Guerra Mundial e o Brasil mergulhava no otimismo desenvolvimentista de JK, nas terras altas de Rio Negro — município fronteiriço onde o Paraná beija Santa Catarina sob o manto verde da Mata Atlântica — acontecia um evento singelo porém revolucionário: a inauguração do Grupo Escolar de Restinga. Naquela manhã de 16 de fevereiro, sob um céu de nuvens altas típicas do planalto, crianças de pés descalços e roupas remendadas cruzaram pela primeira vez o portão de um prédio que mudaria para sempre seus destinos.
Era o ápice de um sonho gestado nos anos imediatamente pós-guerra (1945-1951), quando o Paraná, sob a égide de políticas públicas ousadas, decidira que educar o interior não era luxo, mas imperativo de soberania nacional.
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Enquanto Curitiba se modernizava com avenidas largas e prédios altos, o Estado voltava seus olhos para os distritos esquecidos — como Restinga, região rural de Rio Negro onde famílias de descendência germânica, polonesa e italiana cultivavam a terra com mãos calejadas e corações resilientes. Ali, onde o canto do sabiá competia com o sino da capela do Bom Jesus, erguia-se não apenas uma escola, mas um pacto: o de que nenhum filho de colono ficaria à margem da pátria letrada.

Entre Dois Mundos: Restinga, Bom Jesus e a Alma de uma Comunidade

Para compreender a escola, é preciso sentir o chão onde ela nasceu. Restinga — nome que evoca não as restingas litorâneas, mas talvez terrenos alagadiços ou de descanso entre as roças — localizava-se na região do Bom Jesus, distrito marcado pela fé católica e pelo trabalho árduo dos imigrantes. Rio Negro, fundado em 1829 como primeira colônia alemã do Paraná, carregava nas veias a memória dos tropeiros que ali passaram e dos colonos que transformaram a mata virgem em campos de trigo e pomares de maçã.
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Nas décadas de 1940-50, a região vivia transição delicada: os velhos costumes europeus — o alemão falado em casa, as festas juninas com sotaque teutônico, o chucrute nas panelas de ferro — conviviam com a pressão crescente de se tornar "brasileiro de fato". As crianças brincavam em dialeto riograndense nos terreiros, mas ao entrarem na escola precisavam soletrar "Brasil" com perfeição. Era nesse limiar cultural que o Grupo Escolar de Restinga assumia seu papel histórico: não apagar identidades, mas tecer uma nova — brasileira, porém respeitosa com as raízes que a nutriam.

Arquitetura como Poema: O Neocolonial que Honrava a Terra

Projetado em 1948 pela Secretaria de Viação e Obras Públicas — braço executivo de um Estado que via na infraestrutura o caminho para a civilização —, o edifício revelava uma escolha estética profundamente simbólica: a linguagem neocolonial.
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Enquanto o modernismo concretista avançava nas capitais, o interior paranaense recebia escolas que dialogavam com a memória construtiva ibérica e germânica — telhados inclinados que lembravam os enxaiméis das casas coloniais, vãos generosos que captavam a luz do planalto, alvenaria robusta que desafiava os invernos rigorosos da serra.
A tipologia em "U" não era mero capricho arquitetônico. Era filosofia materializada: o abraço formado pelas duas alas laterais e o corpo central criava um terreiro protegido — espaço sagrado onde o saber saía das salas para encontrar a terra. Ali, entre as paredes brancas e os telhados de barro, as crianças aprendiam que educação não era confinamento, mas expansão; que o pátio era tão sala de aula quanto o espaço com quadro-negro.
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O neocolonial, muitas vezes criticado como revivalismo nostálgico, revelava-se aqui como gesto de pertencimento: dizer aos filhos de imigrantes que suas origens — fossem elas portuguesas, alemãs ou italianas — faziam parte da alma brasileira.

A Inauguração que Mudou Destinos: 16 de Fevereiro de 1952

Imaginemos aquela manhã de verão. Bandeirinhas verde-amarelas tremulavam presas a cordas esticadas entre as árvores. Autoridades municipais — prefeito de terno engomado, secretário de educação com discurso na mão — posicionavam-se diante da entrada principal. Mas os verdadeiros protagonistas estavam ali, enfileirados em duas colunas: meninos de calça curta e suspensórios remendados; meninas de vestidos até os joelhos, cabelos presos em laços simples. Muitos haviam caminhado quilômetros desde suas chácaras, carregando lancheiras de lata com pão e linguiça defumada.
Ao som do Hino Nacional entoado por vozes infantis ainda marcadas pelo sotaque teutônico, o prefeito declarou inaugurado o Grupo Escolar de Restinga. Dentro das salas recém-inauguradas, cheiro de tinta fresca misturava-se ao aroma da cera de assoalho. Carteiras de madeira escura, dispostas em fileiras perfeitas, aguardavam as primeiras letras rabiscadas com giz. Na parede, o retrato de Getúlio Vargas observava sério — testemunha muda de um Brasil que apostava no ensino público como instrumento de transformação social.
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Para muitas daquelas crianças, aquela escola seria a única oportunidade de transcender o ciclo de pobreza rural. Ali aprenderiam não apenas a ler e escrever, mas a sonhar além do horizonte da própria roça — a imaginar-se professores, comerciantes, até médicos. A escola não prometia riqueza, mas oferecia algo mais precioso: dignidade através do saber.

A Transformação Silenciosa: De Grupo Escolar a Colégio Estadual

As décadas passaram. O Brasil viveu ditaduras e redemocratizações; o Paraná transformou-se de estado agrário em potência industrial; Rio Negro viu suas estradas de terra darem lugar ao asfalto da BR-116. E a escola resistiu — adaptando-se, crescendo, mas nunca perdendo sua alma.
Em determinado momento, recebeu novo nome em homenagem a uma figura que encarnou o ideal educacional paranaense: Dr. Ovande do Amaral. Embora os registros oficiais guardem silêncio sobre os detalhes de sua vida, seu legado ecoa no nome que hoje honra a instituição — testemunho de um educador, médico ou administrador público que dedicou sua existência à causa da instrução pública no estado.
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A mudança de denominação não apagou a memória de Restinga; ao contrário, ampliou seu horizonte: do ensino primário para o fundamental e médio; da formação básica para a preparação para a cidadania plena.
O prédio original, com suas linhas neocoloniais agora marcadas pelo tempo e pelas "alterações" inevitáveis da manutenção, permanece de pé na Rua Inácio Schelbauer, 139.
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Janelas foram substituídas, telhados reformados, salas adaptadas para laboratórios de informática. Mas a estrutura em "U" resiste — abraço arquitetônico que continua acolhendo gerações de estudantes. Em 2017, setenta e cinco anos após seu projeto inicial, o Colégio Estadual Dr. Ovande do Amaral ainda funcionava como "edifício escolar", cumprindo sua missão original com a serenidade de quem sabe que alguns valores não envelhecem.
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Epílogo: O Legado que se Renova a Cada Amanhecer

Hoje, quem passa pela Rua Inácio Schelbauer talvez não perceba a magnitude histórica daquele conjunto arquitetônico. Para muitos, é apenas "a escola do Bom Jesus". Mas para quem conhece sua história, aquele prédio em forma de U é muito mais: é um monumento vivo à coragem de um Estado que, mesmo em tempos de escassez, ousou sonhar com uma educação que alcançasse até os rincões mais distantes.
Na quietude das madrugadas de inverno, quando o nevoeiro desce sobre os vales de Rio Negro e envolve o edifício em seu manto branco, é possível quase ouvir os ecos daqueles primeiros dias: o ranger das carteiras de madeira sob o peso de corpos infantis, o murmúrio das crianças soletrando em coro "a-ba-ca-te", o tilintar dos copos de leite distribuídos no recreio. São fantasmas doces — memórias de um Brasil que acreditou que educar era o ato mais revolucionário que um país poderia praticar.
E enquanto houver um jovem em Restinga abrindo um livro sob o teto daquele U acolhedor, o sonho de 1952 continuará vivo. Não como relíquia museológica, mas como semente perene: a certeza de que, mesmo nas fronteiras mais remotas, mesmo entre pinheirais e lavouras, o saber é direito inalienável — e que cada criança que aprende a ler escreve, com sua própria existência, uma página nova na história da pátria.
Naquele 16 de fevereiro de 1952, ao cruzar o portão do Grupo Escolar de Restinga, aquelas crianças não sabiam que se tornariam guardiãs de um legado. Mas hoje, netos e bisnetos de alunos da primeira turma frequentam as mesmas salas — agora com tablets onde antes havia abacinhos de madeira — e carregam no coração a mesma centelha: a de que, entre o campo e o saber, há sempre um caminho. E que esse caminho começa onde a estrada cruza o sonho.

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