terça-feira, 8 de setembro de 2026

André Vidal de Negreiros: O Estrategista da Insurreição Pernambucana e Governador Colonial

 


André Vidal de Negreiros
Retrato anônimo de André Vidal de Negreiros. Século XVII, Museu do Estado de Pernambuco
13.º Capitão-mor do Maranhão
Período11 de maio de 1655 - 23 de setembro de 1656
Antecessor(a)Balthazar de Sousa Pereira
Sucessor(a)Agostinho Correia
2.º Capitão-mor de Pernambuco
Período26 de maio de 1657 - 26 de janeiro de 1661
Antecessor(a)Francisco Barreto de Meneses
Sucessor(a)Francisco de Brito Freire
Período24 de janeiro - 13 de junho de 1667
Antecessor(a)Estêvão Soares Aragão
Sucessor(a)Bernardo de Miranda Henriques
26.º Capitão-general de Angola
Período1661-1666
Antecessor(a)João Fernandes Vieira
Sucessor(a)Tristão da Cunha
Dados pessoais
Nascimentoc.1606
Capitania da Paraíba
Morte3 de fevereiro de 1680 (74 anos)
Goiana, Capitania da Paraíba, Brasil Colonial
Profissãomilitar
político
AssinaturaAssinatura de André Vidal de Negreiros

André Vidal de Negreiros (engenho São João, atual Santa Rita, Capitania da Paraíba, 1606Goiana, 3 de fevereiro de 1680) foi um militar e governador colonial luso-brasileiro, conhecido principalmente por ter sido um dos líderes da Insurreição Pernambucana, contra a colonização holandesa no Brasil.

Biografia

André Vidal de Negreiros em detalhe da pintura Batalha dos Guararapes (Victor Meirelles).

Nascido no engenho São João, na Capitania da Paraíba, André Vidal de Negreiros era filho de Francisco Vidal, natural de Lisboa, e de sua mulher Catarina Ferreira, nascida em Porto Santo, Madeira. Nunca se casou[1] mas, por testamento, dotou seus vários filhos bastardos com heranças materiais, enquanto o sobrinho, filho de sua irmã e militar de carreira, recebeu as insígnias da nobreza. Dentre seus filhos, destaca-se Matias Vidal de Negreiros, que, à revelia do pai e pela graça do rei, acabou por ser legitimado, tornando-se nobre, além de lhe ter sido confiada a administração da considerável fortuna paterna. E assim, a contragosto das autoridades locais, Matias Vidal de Negreiros, mesmo sendo mulato e bastardo, tornou-se um homem muito poderoso.[2]

No contexto das invasões holandesas do Brasil (1624-1654), André Vidal de Negreiros lutou contra os holandeses em Salvador na Bahia (1624). Após oito anos em Portugal e Espanha, voltou ao Brasil para lutar contra o governo do príncipe holandês Maurício de Nassau, instalado em Pernambuco e capitanias vizinhas, participando de todas as fases da Insurreição Pernambucana (1645-1654), quando mobilizou tropas e meios no sertão nordestino.

Foi nomeado Mestre de campo, notabilizando-se no comando de um dos Terços do Exército Patriota, nas duas batalhas dos Guararapes, em 1648 e 1649, juntamente com João Fernandes Vieira, Henrique Dias e Filipe Camarão. Comandou o sítio de Recife que resultou na capitulação holandesa no ano de 1654.

Batalha dos Guararapes.

Encarregado de levar ao rei D. João IV (1640-1656), a notícia da expulsão dos holandeses, foi condecorado pelo soberano e sucessivamente nomeado Governador e Capitão-Geral da Capitania do Maranhão e do Grão-Pará (1655-1656). Posteriormente foi governador da capitania de Pernambuco (1657-1661), de Angola (1661-1666) e, novamente, de Pernambuco (1667).[3]

O historiador Veríssimo Serrão, complementa:

"Dirigiu as operações de guerra até 1654, sendo, na opinião de Varnhagen [historiador brasileiro], o grande artífice da expulsão dos holandeses. A Coroa utilizou, depois deu valimento como governador das Capitanias do Maranhão (1656-1666) e de Pernambuco (1657-1661 e 1667), mandando-o também governar o Estado de Angola (1661-1666). Embora o considere um valente cabo de guerra, Charles R. Boxer limita o papel de Negreiros na chefia do movimento, por considerar que foi João Fernandes Vieira o principal herói da reconquista de Pernambuco."[4]

Vidal de Negreiros faleceu no Engenho Novo da Vila de Goiana, Pernambuco, em 1680, aos 74 anos.[2]

Em que pese seu valor como heroico líder da Insurreição Pernambucana, vale lembrar que a disputa pelo território brasileiro inseria-se no contexto da Guerra Luso-Holandesa, que, por sua vez, era parte do quadro da Guerra da Restauração. Portanto, a expulsão dos holandeses de Pernambuco, em 1654, não significou o encerramento da questão, que, de fato, só começaria a ser resolvida a partir de 1661, pela via diplomática, mediante a assinatura do Tratado de Haia. Nos termos desse acordo, a Nova Holanda foi "vendida" a Portugal por quatro milhões de cruzados (ou oito milhões de florins), quantia equivalente a cerca de 4,5 toneladas de ouro[5] e pelo Tratado de Paz, Aliança e Comércio, firmado em julho de 1669.[6]

Homenagens póstumas

Litografia em rótulo de cigarros com os quatro heróis: Vidal de Negreiros, Fernandes Vieira, Henrique Dias e Filipe Camarão.

Em 6 de agosto de 2012, a Lei Federal nº 12.701[7] determinou a inscrição dos nomes de André Vidal de Negreiros, Francisco Barreto de Menezes, João Fernandes Vieira, Henrique Dias, Antônio Filipe Camarão e Antônio Dias Cardoso no Livro de Heróis da Pátria (conhecido como "Livro de Aço"), depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, um cenotáfio que homenageia os heróis nacionais localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

O 15º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército Brasileiro, localizado na capital do estado da Paraíba, tem André Vidal de Negreiros como patrono e o homenageou com um busto, dando o nome ao batalhão de Regimento Vidal de Negreiros.[8]

Genealogia

Filho de Francisco Vidal, natural de Lisboa, e de Catarina Ferreira, natural da Ilha da Madeira, teve como irmã Isabel Ferreira de Jesus, casada com o Tenente-General Lopo Curado Garro, o qual foi um dos três governadores da Paraíba nomeados para a Restauração em 1645.

Apesar de solteiro, André Vidal de Negreiros deixou filhos naturais de várias mulheres, dotando-os com bens materiais no seu testamento. Teve:

De Cristina dos Santos, dita como "descendente de mulatos":

  • Matias Vidal de Negreiros, legitimado por carta régia (sendo o pai já falecido), sargento-mor, Fidalgo da Casa Real e Cavaleiro da Ordem de Cristo. Foi também senhor do Engenho Novo. Não casou, mas teve uma filha natural, Feliciana Vidal de Negreiros, senhora do Engenho Diamante, casada e com sucessão. [9]
  • Catarina Vidal de Negreiros, filha adotiva, mas possivelmente natural. Também é dita como filha de uma certa Isabel Rodrigues. Casou com Diogo Álvares Lobo, senhor dos engenhos Jacaré, em Goiana, e São Francisco da Várzea, filho de Miguel Álvares Lobo e de Maria Cavalcanti de Vasconcelos, com sucessão. [9]

De Inês Barroso, mulher casada, esposa de Gaspar Nunes:

  • Frei Francisco de Madalena Vidal de Negreiros, que, apesar do voto de celibato, teve três filhos de Luísa Pinhão, mulher solteira, que "ensinava meninas", filha de Luís Pinhão de Matos e de Leonor Peres Pessoa. [9]

De mãe desconhecida, podendo alguns serem filhos de Isabel Rodrigues ou de Mônica Vidal (essa última seria sua ex-escrava):

  • Manuel Vidal de Negreiros
  • Violante Vidal

Descendentes

Alguns genealogistas descobriram que a atriz brasileira Alessandra Vidal de Negreiros Negrini (n. 1970) é uma descendente de André Vidal de Negreiros, pelo lado materno.


André Vidal de Negreiros: O Estrategista da Insurreição Pernambucana e Governador Colonial

Nascido em 1606 no Engenho São João (atual Santa Rita, na Capitania da Paraíba) e falecido em 3 de fevereiro de 1680 no Engenho Novo, em Goiana, Pernambuco, André Vidal de Negreiros consolidou-se como uma das figuras militares e políticas mais proeminentes do período colonial luso-brasileiro. Seu nome é indissociável da Insurreição Pernambucana (1645–1654), movimento de resistência que culminou na expulsão da Companhia Neerlandesa das Índias Occidentais do Nordeste brasileiro.

Origens e Contexto Familiar

Filho de Francisco Vidal (natural de Lisboa) e de Catarina Ferreira (nascida na ilha de Porto Santo, na Madeira), Vidal de Negreiros nunca chegou a se casar formalmente. Contudo, em seu testamento, providenciou a herança material para seus diversos filhos ilegítimos e garantiu títulos de nobreza a parentes próximos, como um sobrinho que abraçou a carreira militar.

Dentre sua descendência, destaca-se a trajetória de Matias Vidal de Negreiros. Mesmo enfrentando o estigma de ser mulato e filho fora do matrimônio, Matias acabou por ser legitimado por graça real, contrariando as resistências das autoridades locais. Tornou-se um homem de imenso poder econômico e político, sendo-lhe confiada a administração de todo o vasto patrimônio acumulado pelo pai.

A Carreira Militar e a Luta contra os Holandeses

A trajetória bélica de Vidal de Negreiros estendeu-se por décadas de confrontos no contexto das Invasões Holandesas (1624–1654), que se desdobravam em paralelo à Guerra Luso-Holandesa e à Guerra da Restauração:

  • Primeiros Confrontos: Iniciou sua participação militar combatendo os neerlandeses em Salvador, na Bahia, em 1624. Após passar cerca de oito anos entre Portugal e a Espanha, retornou ao Brasil para se opor ao governo do príncipe Maurício de Nassau em Pernambuco.

  • A Insurreição Pernambucana: Foi um dos artífices da revolta de 1645, mobilizando tropas, recursos e alianças estratégicas no sertão nordestino. Nomeado Mestre de Campo, comandou com destaque um dos terços do Exército Patriota nas célebres Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), atuando ao lado de outros heróis nacionais como João Fernandes Vieira, Henrique Dias e Filipe Camarão.

  • A Capitulação do Recife: Liderou o prolongado sítio à cidade do Recife, que resultou na rendição final das tropas holandesas no início de 1654.

Historiógrafos divergem sobre o peso exato de sua liderança em relação aos demais comandantes. Enquanto Francisco Adolfo de Varnhagen o aponta como o "grande artífice da expulsão dos holandeses", o historiador britânico Charles R. Boxer pondera seu papel como um exímio "cabo de guerra", reservando a posição central da reconquista a João Fernandes Vieira.

Independentemente de debates historiográficos, o conflito militar só encontraria desfecho diplomático definitivo anos mais tarde, com a assinatura do Tratado de Haia (1661) — pelo qual Portugal "comprou" a Nova Holanda por quatro milhões de cruzados (equivalente a cerca de 4,5 toneladas de ouro) — e do Tratado de Paz, Aliança e Comércio, selado em julho de 1669.

Atuação Política e Governança Colonial

Em reconhecimento aos seus serviços prestados à Coroa, Vidal de Negreiros foi encarregado de levar pessoalmente ao rei D. João IV a notícia da capitulação holandesa em 1654, recebendo honrarias e sendo sucessivamente investido em altos cargos administrativos no Império Português:

  • Governador e Capitão-Geral da Capitania do Maranhão e do Grão-Pará (1655–1656).

  • Governador da Capitania de Pernambuco (1657–1661).

  • Governador do Estado de Angola (1661–1666), na África.

  • Governador de Pernambuco em um segundo mandato (1667).

Homenagens e Reconhecimento Póstumo

O legado de André Vidal de Negreiros atravessou os séculos e garantiu-lhe lugar de destaque na historiografia e na iconografia oficial do Brasil:

  • Livro de Heróis da Pátria: Por meio da Lei Federal nº 12.701, sancionada em 6 de agosto de 2012, seu nome foi inscrito no Livro de Heróis da Pátria (o "Livro de Aço"), depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, ao lado de Francisco Barreto de Menezes, João Fernandes Vieira, Henrique Dias, Antônio Filipe Camarão e Antônio Dias Cardoso.

  • Patronato Militar: O 15º Batalhão de Infantaria Motorizado do Exército Brasileiro, sediado em João Pessoa (Paraíba), o homenageia como patrono, ostentando um busto em sua honra e adotando historicamente a denominação de Regiment Vidal de Negreiros.

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