terça-feira, 11 de agosto de 2026

Curitiba: Um Retrato Vivo do Comércio, Indústria e História — Páginas Jornalísticas que Revelam a Alma da Capital Paranaense

 

Curitiba: Um Retrato Vivo do Comércio, Indústria e História — Páginas Jornalísticas que Revelam a Alma da Capital Paranaense





Curitiba: Um Retrato Vivo do Comércio, Indústria e História — Páginas Jornalísticas que Revelam a Alma da Capital Paranaense


Introdução

As páginas que aqui se reúnem são verdadeiras janelas abertas sobre o passado de Curitiba — testemunhos impressos de uma época em que a capital paranaense crescia, se estruturava e afirmava sua identidade como centro econômico, comercial e cultural do sul do Brasil. Cada anúncio, cada nome, cada endereço e cada número contam uma parte da história que construiu a Curitiba de hoje. Reunimos aqui todos os assuntos, nomes, empresas, produtos, endereços e curiosidades, sem deixar nada de fora, para desenhar um quadro completo e profundo de como vivia, trabalhava e se desenvolvia a sociedade curitibana em um dos períodos mais fascinantes de sua trajetória.

I. Alimentação, Bebidas e Fabricações Locais — O Sabor e a Tradição de Curitiba

A força produtiva de Curitiba e do Paraná salta aos olhos desde as primeiras linhas. Alimentos, bebidas e produtos de consumo diário eram fabricados com orgulho em solo paranaense, levando o nome da capital para todo o Estado e além.

Biscoito Gelco e Casa Edith

No topo da primeira página, o Biscoito "GELCO" se apresenta com confiança ao consumidor: "Não fique na dúvida" — um convite direto à prova de qualidade. Ao lado, a Casa Edith figura como estabelecimento de confiança, ponto de referência comercial em meio ao movimento da cidade. Compartilhando espaço, anúncios de Foto-Film e do Banco do Estado do Paraná revelam como comércio, serviços e instituições financeiras caminhavam lado a lado: entre o pão de cada dia e as escolhas de economia, o cidadão encontrava em sua própria terra as estruturas que amparavam a vida.

Matte Gioconda — Produto Inigualável

Em letras imponentes, destaca-se o "GIOCONDA", classificado sem hesitação como produto inigualável. Trata-se de um Matte — bebida símbolo da cultura sul-brasileira, o chimarrão transformado em produto industrial com marca e prestígio. Fabricado por Ascanio Miro & Cia., com a clareza de origem: Curitiba — Paraná — Brasil. A menção de ser "inigualável" revela o zelo com a qualidade e a convicção de quem produzia com dedicação, transformando um hábito ancestral em riqueza econômica.

Leão Junior & Companhia — Orgulho e Qualidade Paranaense

A Leão Junior & Companhia ergue-se como verdadeiro pilar da economia estadual. Seu apelo é patriótico e prático: "Cooperem para o engrandecimento industrial de nosso Estado, consumindo as inigualáveis farinhas de trigo". Seus produtos levavam nomes de afeto e força: DOLORES, SARA e DELIA, e a afirmação era direta: "produtos que se impõem pela qualidade". O leão que ilustra a marca simbolizava solidez e confiança.
Além das farinhas, a empresa era sinônimo de Matte Leão, com o convite caloroso: "Use e abuse do Matte Leão". Mantinha correspondência comercial com casas no exterior — Liverpool & London & Globe — provando que sua reputação já ultrapassava fronteiras. Estava sediada na Avenida Ivaí, acessível pelo Telefone 118, Caixa Postal 116 e endereço telegráfico simples: "Leão", Curitiba.

Hervateira Guimarães — Saúde e Tradição desde 1889

A Hervateira Guimarães, de propriedade de Guimarães & Cia., estabelecida desde 1889, cuidava da saúde e do bem-estar dos paranaenses com uma linha completa de chás e infusos: Mate queimado Kosmes, Verde Nacar, Chámarro Guimarães e Natalia. A matriz localizava-se na Rua 15 de Novembro, nº 1139, em Curitiba; havia uma filial em Paranaguá, Rua Manoel Bonifácio, conectando interior e litoral. Seus contatos: telegrama "NACAR", Caixa Postal 9.

Cervejas e Bebidas — Orgulho Paranaense

As cervejas "IMPERIAL" e "PILSEN NACIONAL" eram apontadas como "exemplo de patriotismo e boas cervejas" — beber com qualidade era também demonstrar amor à terra. A mensagem era clara: o melhor se produz aqui mesmo, sem necessidade de buscar fora aquilo que o Paraná já fazia com excelência.

II. Comércio, Lojas e Estabelecimentos — O Corpo Econômico da Cidade

Curitiba desponta como cidade de comércio intenso e diversificado. Suas ruas concentravam dezenas de casas especializadas, cada uma com seu nome, sua reputação e seu público. Os endereços revelam também a geografia comercial da época: a Rua 15 de Novembro, a Praça Generoso Marques, a Avenida Ivaí eram os corações pulsantes onde o povo encontrava tudo o que precisava.

Casas de Variedades e Artigos Diversos

  • Casas Ideal: prometia o que havia de melhor para o lar, em localização central.
  • Laffitte & Joly: estabelecimento de prestígio, ao lado de Bar Germânia — ponto de sociabilidade e encontro.
  • Bazar Americano: situado na Rua 15 de Novembro, nºs 343 e 349, apresentava-se como "o ídolo do povo", com impressionantes 58.000 artigos — um verdadeiro mundo de variedades ao alcance de todos.
  • Casa David, A. Requião & Cia.: nomes de confiança em tecidos, armarinhos e modas.
  • Mocelin & Santos, Irmãos Bettega & Cia., Grandes Serrarias em Lapa: mostram a diversidade — do comércio varejista à produção madeireira.
  • Cia. Maruccio, Codega & Cia.: reforçam a presença de empresas de origem italiana que ajudaram a construir a cidade.
  • Loirinha e Loira & Amigos: nomes carinhosos que criavam vínculo afetivo com o público.
  • O Sabão Veado, Mundo das Camisinhas, Rander — Óptica, Calçados Riskaella, Móveis Junqueira & Cia. Ltda., Carlos V. Breithaupt: cada ramo tinha seus especialistas; cada necessidade, sua casa de confiança.

Chapelas e Moda — O Traje com Dignidade

O chapéu era parte essencial do vestuário, e Curitiba possuía casas dedicadas exclusivamente a isso:
  • Chapeleria Kosmos, de Ottoni F. Bello
  • Chapeleria Central
A elegância era levada a sério; cada detalhe do traje merecia atenção especial.

Casa Abdo — Crescimento e Renovação

A "CASA ABDO" anunciava com pompa sua mudança e expansão: "Preparando o deslocamento do Quartel General da 'CASA ABDO' para o Edifício Taclã". Durante os últimos dias de setembro, prometia "esplêndida massa de mercadorias" a preços convidativos. Situada na Rua 62, esquina com a Praça Generoso Marques, nº 26, era ponto de referência obrigatória no comércio curitibano — uma casa que crescia junto com a cidade.

Saúde e Farmácia — Confiança em Cada Frasco

A saúde da população estava garantida por farmácias e laboratórios que zelavam pela qualidade e procedência:
  • Haimadogen do Dr. Hommel
  • Elixir Fructuoso Westphalen
  • Xarope Santo Antônio
  • Bálsamo Santa Helena
Nomes que misturavam ciência, tradição e devoção. A Casa Continental, na Rua 2 de Novembro, nº 4, era reconhecida como "a casa de confiança em medicamentos" — garantia de que o que se comprava era seguro e eficaz.

III. Serviços, Seguros, Navegação e Comunicações — Conectando Curitiba ao Mundo

Curitiba não vivia isolada. As páginas revelam uma cidade conectada com o litoral, com outros estados e com o exterior, dispondo de serviços que garantiam segurança, mobilidade e informação.

Seguros — Proteção ao Patrimônio e ao Futuro

A Companhia Adriática de Seguros, fundada em 1896, representada por A. Couto & Cia., oferecia segurança e tranquilidade às famílias e empresas. Ao lado, a marca BRASIL — também representada por A. Couto & Cia., com sede em Curitiba — reforçava o orgulho nacional e a solidez de instituições que cuidavam do patrimônio. A mesma empresa, dois nomes de confiança: A. Couto & Cia. era sinônimo de seriedade.

Navegação e Comércio Marítimo — Ligando Interior ao Mar

A ligação entre Curitiba e os portos paranaenses era vital para o desenvolvimento. A Irmãos Bacerdá & Companhia atuava como Agentes Marítimos e Embarcadores, com estrutura bem distribuída:
  • Matriz — Antonina: Telegrama "Bacerdá", Caixa Postal 19, Telefone 49
  • Filial — Paranaguá: Telegrama "Bacerdá", Caixa Postal 111, Telefone 112
Serviços completos: embarques, desembarques, armazenagem, recebimento e entrega de mercadorias, com navios em movimento constante. As ilustrações de navios atracados reforçavam a confiança de quem conectava o interior paranaense ao mundo.

Rádio e Comunicações — A Voz de Curitiba

A Rádio Mende destacava-se pela beleza e pureza de som: "o soberbo das ondas curtas — Super 363". A tecnologia chegava a Curitiba, levando informação, música e notícias a todos os lares.
A Rádio Clube Paranaense — PRB2 anunciava sua programação para o dia 15 de Novembro, convidando a população a ouvir "no Brasil". O endereço: Rua Barão do Rio Branco, nº 370, com comissários e direção devidamente identificados. A rádio era espaço de cultura, cidadania e integração.

Profissionais Liberais e Serviços Especializados

Curitiba também era cidade de profissionais qualificados, que atendiam à população com dedicação:
  • Dr. Hellmo da Silveira — consultório e horários de atendimento
  • Dr. Emonil A. de Abreu — especialista em cuidados com a saúde
  • Aviso — comunicações oficiais e avisos públicos, garantindo transparência
  • Cymkavo "Avo-Athlético" — cuidados com o corpo e a saúde física

Cultura e Lazer — Piano e Arte

A Piano "Esselfelder" e a marca Dacapo-Zupnik mostram que, entre trabalho e comércio, havia espaço para a arte, a música e a formação cultural. Curitiba cultivava a sensibilidade tanto quanto a economia.

IV. Ruas, Números e Geografia de Uma Cidade em Movimento

Os endereços reunidos nestas páginas desenham o mapa de uma Curitiba que já se organizava e se reconhecia:
Tabela
LogradouroReferência
Rua 15 de Novembronº 1139; nºs 343 e 349
Praça Generoso Marquesnº 26 (esquina com Rua 62)
Avenida Ivaís/nº (Leão Junior & Cia.)
Rua 2 de Novembronº 4 (Casa Continental)
Rua Barão do Rio Branconº 370 (Rádio Clube Paranaense)
Rua Manoel Bonifácio — ParanaguáFilial da Hervateira Guimarães
Telefones de apenas dois e três dígitos revelam o tempo em que tudo era próximo e conhecido. Os telegramas com nomes-chave — "Leão", "Bacerdá", "NACAR" — mostram como a comunicação funcionava com clareza e agilidade.

Conclusão — A Alma de Curitiba Impressa em Páginas

Reunir todas estas páginas é mais do que listar nomes e produtos: é compreender uma cidade que se construía com trabalho, patriotismo, confiança e visão. Curitiba não esperava por fora: ela fabricava seu próprio mate, sua farinha, seus remédios, seus seguros; conectava-se ao mar por suas próprias empresas; comunicava-se por suas próprias rádios; comercializava em suas próprias ruas, com nomes que o povo aprendeu a respeitar e confiar.
Cada anúncio é uma história: a família que abriu uma loja, o imigrante que trouxe seu saber, o jovem que investiu em indústria, o comerciante que manteve a palavra. Tudo isso forma o tecido de uma cidade que cresceu porque acreditava em si mesma — no trabalho de seu povo, na qualidade de seus produtos, no futuro de sua terra.
Estas páginas são, em essência, o retrato fiel de uma Curitiba que produzia, servia, conectava e sonhava. E ao ler cada nome, cada endereço e cada produto, compreendemos com orgulho: a Curitiba de hoje foi construída sobre a honra, o esforço e a visão daqueles que vieram antes — e que aqui deixaram, impressos no papel, os sinais de um amor profundo por esta terra.























A Marechal Deodoro de Curitiba em 1945.

 A Marechal Deodoro de Curitiba em 1945.


Imagem aérea de um ângulo não convencional de Ponta Grossa em 1940. Boa Viagem.

 Imagem aérea de um ângulo não convencional de Ponta Grossa em 1940. Boa Viagem.


Solenidade durante a comemoração do centenário de emancipação política do Paraná, em 1953, na Praça Tiradentes em Curitiba.

 Solenidade durante a comemoração do centenário de emancipação política do Paraná, em 1953, na Praça Tiradentes em Curitiba.


A indústria de Massas Alimentícias Todeschini de Curitiba em 1926.

 A indústria de Massas Alimentícias Todeschini de Curitiba em 1926.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Imagem aérea de um espaço do bairro Água Verde, onde se destaca o prédio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, famoso educandário feminino da capital. Foto de 1946.

 Imagem aérea de um espaço do bairro Água Verde, onde se destaca o prédio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, famoso educandário feminino da capital. Foto de 1946.


A ESTÁTUA DO BARÃO DO RIO BRANCO

 A ESTÁTUA DO BARÃO DO RIO BRANCO



Em 19/12/1914, a população de Curitiba reunia-se na Praça Generoso Marques para celebrar a inauguração da estátua do Barão do Rio Branco, elaborada em bronze. Esteve presente ao evento o presidente Carlos Cavalcanti e teve como orador Dario Vellozo. A estátua foi projetada e esculpida por Rodolpho Bernardelli e sua execução foi feita pela Fundição Indígena, no Rio de Janeiro. Naquela ocasião, o "Paço da Liberdade", ainda estava em construção e ficou pronto apenas dois anos depois.
A arrecadação de doações para sua ereção foi iniciada em 1912, sendo a primeira feita no Brasil em sua homenagem, e teve participação de toda a coletividade à época. Em 20/06/1914, o jornal "Diário da Tarde" noticiava que a estátua ficara pronta e estava em exposição em um salão da "Fundição Indígena". Conforme a nota, sua altura é de 3,20 metros, pesando somente a figura do ilustre homenageado 1.800 quilos. No total, com pedestal e adereços, seu peso chega a 3 toneladas.
A estátua foi instalada sobre um alto pedestal, voltada para a Rua Barão do Rio Branco e a Estação Ferroviária, para dar boas-vindas aos que chegavam à cidade por ela.
A festa de inauguração, contou com a presença maciça da população e de diversas autoridades. Após a cerimônia, um desfile de carruagens e automóveis rumou pelas ruas do centro em direção ao Palácio da Associação Comercial, na rua XV de Novembro, onde a diretoria ofereceu um "five o'clock tea" à fina flor da sociedade curitibana.
Paulo Grani

RELEMBRANDO OS FOTÓGRAFOS LAMBE-LAMBE

 RELEMBRANDO OS FOTÓGRAFOS LAMBE-LAMBE





Os fotógrafos lamb-lambe eram fotógrafos anônimos, populares e intuitivos, que desenvolviam suas atividades profissionais em praças, ruas e jardins públicos. Até poucos anos atrás, era muito comum encontrá-los, encapuzados e quase fundidos à caixotes sobres tripés.
Eles lambiam as chapas de vidro que capturavam a imagem – depois ela era transferida para um papel. Apenas um lado da lâmina era revestido pela emulsão sensível à luz, e essa camada era invisível. Lambendo, o fotógrafo sentia o lado mais áspero, em que a língua colava, e isso guiava o posicionamento do vidro na câmera – cada clique consumia uma nova chapa.
Estes fotógrafos ambulantes começaram a surgir nas primeiras décadas do século 20, exercendo a sua atividade ao ar livre. Procurados para registrarem momentos especiais, ou para tirar retratos para documentos do tipo 3x4, os lambe-lambes se transformaram em figuras tradicionais do cenário urbano.
A ferramenta de trabalho destes antigos fotógrafos era uma caixa de madeira sobre tripé, cujo equipamento tinha a função de bater as chapas e revelá-las ali mesmo. Além de ser utilizada para o registro fotográfico, esta servia, também, como mostruário, sendo as suas laterais cobertas de fotos.
Após ser batida, a fotografia do lambe-lambe era revelada e copiada dentro do mesmo caixote que sustentava a lente. Na realidade, podemos afirmar que, em seu interior, havia um micro laboratório. Ao entrar na "casaca" (o pano preto), o fotógrafo obtinha o seu negativo no escuro. Esta rotina era a mesma de um laboratório comum da época, porém num espaço ínfimo, onde a paciência do fotógrafo permitia viabilizar, graças à sua destreza, o produto tão esperado pelo seu cliente: a fotografia.
Ao desenvolver a sua atividade em espaços públicos, os lambe-lambes foram testemunhas oculares das transformações tecnológicas e do crescimento das cidades que foram tornando o papel do lambe-lambe obsoleto, permanecendo apenas o saudosismo de uma época presente no imaginário das pessoas que compartilharam essas vivências no espaço público da urbe. Profissão legada geralmente por herança e de tradição familiar, era basicamente regida pela intuição e por amor, sendo esta a forma genuína como os lambe-lambes se relacionavam com suas toscas e pesadonas máquinas nas praças, jardins e parques.
(Fotos: Wikipedia, pinterest, internet)
Paulo Grani