quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Entre a Enxada e o Caderno: A Epopeia da Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas

 Denominação inicial: Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas

Denominação atual: Colégio Agrícola Augusto Ribas

Endereço: Alameda Nabuco de Araújo, 469 - Uvaranas

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 

Estrutura: 

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 17 de setembro de 1937

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas, Ponta Grossa, em 1943

Acervo: Museu da Imagem e do Som (MIS)

Entre a Enxada e o Caderno: A Epopeia da Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas

Na manhã de 17 de setembro de 1937, enquanto o orvalho ainda beijava os campos de capim dos Campos Gerais, um grupo de jovens camponeses — calçados com botinas gastas, mãos marcadas pelas primeiras enxadas, olhos brilhantes de uma mistura de timidez e determinação — cruzou pela primeira vez o portão da Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas, em Ponta Grossa. Vinham de sítios distantes, de vilarejos esquecidos nos vales da região, trazendo nas trouxas de pano não apenas roupas remendadas, mas o peso silencioso das expectativas de pais analfabetos que, pela primeira vez na história de suas famílias, enviavam um filho para aprender não só a ler e escrever, mas a dialogar com a terra de forma inteligente, respeitosa e produtiva.
Ali, na Alameda Nabuco de Araújo, 469, no bairro de Uvaranas, erguia-se mais que um prédio escolar: erguia-se um manifesto arquitetônico da revolução silenciosa que transformaria o Paraná de um território de fronteira agrícola em um dos celeiros do Brasil. Sua fachada sóbria em estilo Art Déco — com linhas geométricas que dialogavam com a racionalidade da ciência agrícola e a elegância contida da modernidade — não escondia sua alma profundamente enraizada na terra: cada tijolo parecia dizer que ali, pela primeira vez, o trabalhador rural seria tratado não como braço anônimo, mas como protagonista do seu próprio destino.

A Revolução que Nasceu nos Campos: O Sonho Educacional de Manuel Ribas

Para compreender a magnitude da Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas, é preciso mergulhar no turbilhão histórico que marcou o Paraná na década de 1930. Enquanto o Brasil vivia os anos turbulentos do Estado Novo, o estado do Paraná, sob a liderança visionária do governador Manuel Ribas (1932-1936), embarcava em uma das mais ousadas reformas educacionais da América Latina.
Manuel Ribas — homem de origem humilde, filho de tropeiro, que compreendia como poucos a alma do interior — sabia que não bastava alfabetizar crianças nas cidades. Sabia que o futuro do Paraná estava nos campos, nas pequenas propriedades familiares que brotavam entre pinheirais e campos nativos. E compreendeu uma verdade revolucionária para a época: o homem do campo não precisava apenas de força física; precisava de conhecimento técnico, de consciência cívica, de dignidade reconhecida.
Assim nasceu o projeto das Escolas de Trabalhadores Rurais — instituições que rompiam com o modelo urbano-centrado da educação tradicional. Não eram escolas para filhos de fazendeiros ricos; eram escolas para os filhos dos colonos, dos pequenos agricultores, dos que acordavam antes do sol para plantar mandioca e colher feijão. Escolas onde a teoria e a prática se entrelaçavam como raízes de uma mesma árvore: pela manhã, lições de botânica aplicada ao milho que cresciam nos canteiros da escola; à tarde, aulas de contabilidade para administrar a pequena produção familiar; à noite, palestras sobre cooperativismo que ensinavam a união como caminho para a sobrevivência.
E foi nesse contexto de transformação radical que a escola de Ponta Grossa recebeu o nome de Augusto Ribas — homenagem a um homem cujo legado se confunde com a própria história da educação paranaense. Embora os registros oficiais guardem certa discrição sobre sua biografia completa, Augusto Ribas pertencia àquela estirpe de educadores silenciosos que, longe dos holofotes políticos, dedicaram suas vidas a semear conhecimento nos rincões mais distantes. Talvez fosse parente próximo de Manuel Ribas; talvez fosse um professor rural que morrera no exercício da missão; talvez fosse um agrônomo visionário que compreendeu antes de todos que a agricultura paranaense só floresceria com ciência aliada ao trabalho. Seja qual tenha sido sua história, seu nome gravado na placa inaugural da escola tornou-se sinônimo de uma promessa: ninguém mais seria deixado para trás.

A Arquitetura que Abraçava a Terra: O Bloco Único em Art Déco

Diferente dos Grupos Escolares urbanos, com sua tipologia em "U" que criava pátios protegidos, a Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas adotou a tipologia do bloco único — uma escolha arquitetônica profundamente simbólica. Não havia necessidade de murar o espaço; a própria paisagem dos Campos Gerais era seu quintal infinito. As janelas amplas do estilo Art Déco não apenas emolduravam a beleza das araucárias ao longe, mas convidavam a natureza a participar das aulas.
O prédio, inaugurado em setembro de 1937, erguia-se com uma solenidade quase sagrada. Sua estrutura, embora padronizada pelo Departamento de Obras do estado, respirava uma identidade própria: os vãos verticais das janelas lembravam os sulcos ordenados de uma plantação bem cuidada; as linhas horizontais da cornija evocavam os horizontes infinitos do planalto; os detalhes geométricos em relevo nas paredes falavam a linguagem universal da razão — a mesma razão que agora chegava aos campos através de manuais agrícolas, de aulas de rotação de culturas, de experimentos com adubos verdes.
Mas a verdadeira alma da escola não estava apenas no prédio principal. Estava nos galpões anexos onde os alunos aprendiam a consertar arados; nos pomares experimentais onde testavam variedades de pêssego adaptadas ao clima da região; nas estufas de mudas onde cada broto era observado com a atenção de um cientista; nos dormitórios coletivos onde jovens de diferentes origens — italianos, poloneses, ucranianos, caboclos — descobriam que, apesar das línguas diferentes faladas em casa, compartilhavam o mesmo sonho de fazer a terra produzir com generosidade.

O Cotidiano dos Primeiros Alunos: Entre o Orvalho e o Giz

Imaginemos um dia qualquer em 1943 — ano em que a fotografia histórica do Museu da Imagem e do Som registrou a escola em plena atividade. O sino tocava às cinco da manhã. Os alunos, ainda sonolentos, vestiam-se no escuro dos dormitórios coletivos. Às cinco e meia, já estavam nos campos da escola com enxadas e foices nas mãos — porque o primeiro aprendizado do dia não vinha dos livros, mas da terra úmida do amanhecer.
Enquanto o sol nascia tingindo de laranja os campos de Uvaranas, eles capinavam canteiros de hortaliças, regavam mudas de batata-doce, observavam o comportamento das abelhas nos apiários escolares. O suor escorria pelas têmporas, mas ninguém reclamava: aquele trabalho não era castigo; era aula viva. O professor de agricultura caminhava entre eles, apontando com o dedo calejado uma folha amarelada: "Vejam, meninos: falta de nitrogênio. Na aula de química, vamos entender por quê."
Às oito horas, após um desjejum simples de leite fresco e pão caseiro, os alunos lavavam as mãos enlameadas e entravam nas salas de aula. Ali, o mesmo jovem que horas antes manejara uma enxada agora inclinava-se sobre um caderno pautado, aprendendo a conjugar verbos ou a resolver equações de primeiro grau. E algo mágico acontecia: os números deixavam de ser abstrações para se tornarem ferramentas — "se tenho um hectare e planto milho a cada 40 centímetros na linha, quantas plantas cabem?"; as palavras ganhavam poder — "escrever uma carta para o técnico agrícola do município pedindo orientação sobre pragas".
Ao meio-dia, o refeitório transformava-se em espaço de diálogo. Filhos de imigrantes italianos ensinavam aos colegas poloneses o sabor do polentão; meninos caboclos contavam histórias de caça nos matos de Araucárias; todos compartilhavam, sem saber, o processo silencioso de construção de uma identidade paranaense — não baseada na homogeneidade, mas na diversidade que se une em torno de um projeto comum: fazer da terra não um lugar de sobrevivência precária, mas um espaço de prosperidade compartilhada.

A Herança Viva: Do Sonho Rural ao Colégio Agrícola Contemporâneo

Os anos transformaram o Brasil. A Revolução Verde chegou, trazendo tratores onde antes havia bois de carroça; as estradas de terra deram lugar ao asfalto; os filhos dos alunos da escola rural migraram para as cidades em busca de universidades e empregos formais. Muitas Escolas de Trabalhadores Rurais fecharam as portas, vítimas de um modelo que parecia ultrapassado diante da mecanização acelerada da agricultura.
Mas a Augusto Ribas resistiu.
Hoje, como Colégio Agrícola Augusto Ribas, suas paredes carregam as marcas do tempo — pinturas renovadas, alas ampliadas, laboratórios modernizados. O Art Déco original convive com estruturas contemporâneas; os canteiros de hortaliças agora dividem espaço com estufas tecnológicas; os dormitórios coletivos adaptaram-se às novas realidades educacionais. Mas algo permanece intacto, quase sagrado: a alma da escola.
Ainda hoje, ao caminhar por seus corredores, é possível sentir a presença silenciosa daqueles primeiros alunos — os jovens de 1937 que cruzaram o portão com as mãos calejadas e o coração cheio de esperança. Ainda hoje, os professores que ali lecionam sabem que não estão apenas transmitindo conteúdo curricular; estão guardando uma chama acesa há quase noventa anos — a chama da convicção de que educar o homem do campo é dignificá-lo, é devolver-lhe a soberania sobre seu trabalho, é permitir que ele olhe para a terra não como um senhor que explora, nem como um servo que sofre, mas como um parceiro que dialoga com a natureza com sabedoria e respeito.

Epílogo: O Nome que Não se Apaga

Há escolas que são apenas construções. E há escolas que se tornam templos laicos de uma fé específica: a fé no potencial humano quando aliado ao conhecimento. A Escola de Trabalhadores Rurais Augusto Ribas pertence a esta segunda categoria.
Seu nome — Augusto Ribas — pode não estar nos livros de história como o de grandes estadistas ou generais. Mas está gravado na memória de gerações de agricultores paranaenses que aprenderam ali a técnica que salvou suas lavouras da praga; na lembrança de famílias que saíram da miséria graças ao cooperativismo ensinado nos bancos escolares; no orgulho silencioso de um avô que, já idoso, mostra ao neto a fotografia desbotada de sua turma de formandos em 1945 e diz, com a voz embargada: "Foi lá que aprendi que ser homem do campo não era destino de pobreza. Era vocação de grandeza."
Naquela manhã de setembro de 1937, quando o primeiro aluno cruzou o portão da escola recém-inaugurada, ninguém podia prever que aquele edifício resistiria a décadas de transformações sociais, econômicas e políticas. Mas os visionários que o ergueram sabiam algo fundamental: quem planta uma escola no campo não planta apenas um prédio — planta uma semente cujos frutos alimentarão gerações.
E assim, entre os campos verdejantes de Uvaranas, o Colégio Agrícola Augusto Ribas permanece de pé — não como monumento museificado ao passado, mas como coração pulsante que lembra a todos uma verdade simples e revolucionária: a maior riqueza de uma nação não está no subsolo, mas na inteligência de seus filhos; e a terra mais fértil não é a que produz o maior volume de grãos, mas aquela onde o conhecimento brota com a mesma generosidade das sementes plantadas com amor e sabedoria.

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