Denominação inicial: Grupo Escolar Professor Becker e Silva
Denominação atual: Escola Estadual Professor Becker e Silva
Endereço: Avenida Visconde de Taunay, 1145 - Centro
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 1948
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Outra
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola Estadual Professor Becker e Silva em 2017 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2017
O Silêncio que Ensina: A História Não Contada do Grupo Escolar Professor Becker e Silva
Na esquina da Avenida Visconde de Taunay com a memória de Ponta Grossa, ergue-se desde os anos de reconstrução do pós-guerra um edifício que carrega em seus tijolos uma história incompleta — não por falta de importância, mas por um paradoxo cruel da história: os verdadeiros educadores raramente deixam retratos em molduras douradas, mas gravam suas lições na alma de gerações. O Grupo Escolar Professor Becker e Silva, inaugurado nos alvores da década de 1950 naquela que se tornaria uma das avenidas mais nobres do Centro de Ponta Grossa, é um monumento àqueles que ensinaram sem buscar fama, que moldaram caráter sem assinar seus nomes nos livros didáticos, que dedicaram a vida à lousa e ao giz enquanto o mundo celebrava generais e políticos.
O Tempo da Reconstrução: Quando o Paraná Voltou a Sonhar
O ano era 1948. O mundo ainda sentia o tremor das bombas que haviam calado cidades inteiras na Europa e no Pacífico. No Brasil, Getúlio Vargas preparava-se para deixar o Estado Novo; no Paraná, o governador Bento Munhoz da Rocha Netto assumia o desafio de transformar um estado marcado pela pobreza rural em um território de esperança. E em Ponta Grossa — cidade que havia servido como importante entreposto ferroviário durante a guerra, onde o movimento dos trens carregava não apenas mercadorias mas sonhos de um Brasil moderno — erguia-se um projeto silencioso mas revolucionário: mais uma escola para as crianças da cidade que crescia.
A Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhou, naquele ano de 1948, os traços que dariam forma ao Grupo Escolar Professor Becker e Silva. Sua tipologia em "U" — herança do modelo pedagógico que privilegiava a comunidade sobre a individualidade — criava um abraço arquitetônico em torno de um pátio central onde as crianças correriam entre as aulas de canto e os jogos de peteca. Mas diferente dos Grupos Escolares da década de 1930, que ostentavam o Art Déco como linguagem da modernidade triunfante, este edifício adotou uma linguagem arquitetônica contida, quase humilde — talvez um reflexo do tempo de austeridade pós-bélica, talvez uma escolha deliberada: não era a fachada que importava, mas o que aconteceria dentro daqueles muros.
O Enigma do Nome: Quem Foi Becker e Silva?
Aqui reside o mistério que torna esta escola profundamente humana: quem foi, afinal, o Professor Becker e Silva?
Os arquivos oficiais guardam silêncio sobre sua biografia completa. Não há retratos conhecidos, discursos registrados, livros publicados sob seu nome. Talvez fosse um professor primário que dedicou quarenta anos às salas de aula das primeiras escolas de Ponta Grossa, corrigindo cadernos à luz de lamparina antes da eletricidade chegar aos bairros distantes. Talvez fosse um diretor rigoroso mas justo que expulsou alunos por indisciplina mas os acolheu de volta com pão caseiro quando soube que passavam fome. Talvez fosse um homem de origem humilde — filho de imigrante alemão (Becker) e de família lusitana (Silva) — que compreendeu antes de muitos que a educação era a única fronteira que valia a pena cruzar.
O duplo sobrenome — Becker e Silva — fala por si só. É o Brasil em miniatura: a precisão germânica encontrando a fluidez lusitana; a disciplina europeia dialogando com a criatividade tropical. Talvez tenha sido justamente essa síntese que o tornou digno de homenagem — não por grandes feitos públicos, mas por uma vida inteira de pequenos gestos: o lápis emprestado ao aluno pobre, a correção paciente da letra trêmula da menina filha de lavadeira, a proteção silenciosa ao menino negro que sofria bullying no recreio.
Há uma beleza trágica nesse anonimato. Enquanto estátuas de políticos são derrubadas e nomes de ruas são trocados conforme as marés ideológicas, o nome de Becker e Silva permanece gravado na placa da escola — não por decreto de poder, mas por um consenso silencioso da comunidade que, em algum momento entre 1948 e 1951, decidiu: "Este homem merece ser lembrado. Não por quem ele foi para a história oficial, mas por quem foi para nossos filhos."
A Esquina da Memória: Visconde de Taunay e o Coração da Cidade
Escolher a Avenida Visconde de Taunay para abrigar a escola não foi casual. Naqueles anos, a avenida já se afirmava como a espinha dorsal do Centro de Ponta Grossa — via por onde passavam os bondes elétricos, onde se erguiam os primeiros prédios de três andares, onde as famílias tradicionais exibiam suas carruagens aos domingos. Ali, na altura do número 1145, a escola tornava-se um marco de democratização: não era uma instituição escondida nos bairros pobres, mas um templo do saber posicionado no coração da cidade — como a declarar que o conhecimento não era privilégio de elite, mas direito de todos, inclusive daqueles que moravam nas periferias e percorriam quilômetros a pé para chegar às suas portas.
Imaginemos uma manhã de inverno paranaense por volta de 1951 — ano provável de inauguração. O frio cortante dos Campos Gerais fazia as crianças chegarem com as mãos enfiadas nos bolsos, mas os olhos brilhantes de expectativa. Ao cruzar o portão de ferro forjado, eram recebidas pelo cheiro característico de escola antiga: mistura de cera de assoalho, giz novo e sopa de legumes que viria ao meio-dia na cantina. Nas salas de aula de pé-direito alto, os mapas-múndi pendurados nas paredes mostravam um planeta ainda em reconstrução — a Alemanha dividida, a Índia recém-independente, o Brasil sonhando com uma nova capital no planalto central.
E ali, entre aqueles muros, acontecia a verdadeira revolução silenciosa: meninas filhas de operárias aprendiam a ler Machado de Assis; meninos netos de tropeiros descobriam que os rios do Paraná nasciam nas mesmas serras que eles conheciam das andanças com o pai; crianças de todas as cores sentavam-se lado a lado diante do quadro-negro onde a professora escrevia com letra cursiva impecável: "A pátria é a terra onde se planta o futuro."
As Marcas do Tempo: Alterações que Não Apagam a Alma
Os anos passaram como folhas secas levadas pelo vento dos Campos Gerais. O Brasil conheceu ditaduras e aberturas democráticas; Ponta Grossa transformou-se de cidade de tropeiros em metrópole universitária; os alunos que um dia aprenderam a tabuada naquelas salas tornaram-se avós que hoje levam os netos à mesma escola — agora rebatizada como Escola Estadual Professor Becker e Silva.
A edificação sofreu alterações — como toda coisa viva que resiste ao tempo. Novas janelas foram abertas, pinturas renovadas, acessibilidade adaptada às exigências contemporâneas. A tipologia em "U" talvez tenha sido parcialmente modificada para acomodar laboratórios de informática onde antes havia canteiros de hortaliças escolares. Mas algo permanece intacto, quase sagrado: a atmosfera de acolhimento que parece emanar das paredes.
Quem visita a escola hoje — como registrou a fotografia de 2017 capturada pelo Google Maps — percebe que, apesar das modernizações, o edifício conserva uma dignidade serena. Sua fachada não impressiona pela grandiosidade, mas pela solidez de quem testemunhou décadas de histórias: o primeiro beijo escondido atrás do bebedouro; a lágrima derramada na despedida do professor favorito; a euforia da formatura do primário com diploma de papel almaço; o silêncio respeitoso quando a diretora anunciava a morte de um ex-aluno ilustre.
Legado de Quem Não Precisou de Estátua
Há uma lição profunda na história incompleta do Professor Becker e Silva. Enquanto pesquisadores vasculham arquivos em busca de sua biografia detalhada, talvez estejamos procurando no lugar errado. Sua verdadeira biografia não está em documentos empoeirados, mas nas vidas transformadas por sua passagem.
Está no médico que hoje atende no Hospital Santa Casa e atribui sua vocação à professora que lhe emprestou seu primeiro livro de anatomia naquela escola. Está na professora aposentada que, aos oitenta anos, ainda corrige a pontuação das cartas dos netos com a mesma meticulosidade que aprendeu na sala do segundo ano. Está no agricultor que, ao introduzir técnicas de conservação do solo em sua propriedade, lembra-se do professor de ciências que lhe ensinou a respeitar a terra como se respeita um ancestral.
Becker e Silva — seja ele quem tenha sido — representa todos os educadores anônimos do Brasil: aqueles que não tiveram ruas ou praças com seus nomes, mas cujas vozes ecoam ainda hoje nos corredores das escolas públicas onde o saber continua sendo oferecido como um ato de amor gratuito.
Epílogo: O Silêncio que Ensina
Na Avenida Visconde de Taunay, 1145, o edifício da Escola Estadual Professor Becker e Silva permanece de pé — não como monumento museificado, mas como coração pulsante de uma comunidade que ainda acredita que a educação pode redimir.
E talvez seja justamente essa ausência de registros grandiosos que torne sua história mais comovente. Porque há heróis cujas façanhas são cantadas em poemas épicos; e há heróis cuja única façanha foi acender uma vela no escuro para que uma criança enxergasse a primeira letra do alfabeto. Os primeiros têm estátuas. Os segundos têm algo mais duradouro: a memória viva de quem foi por eles transformado.
Quando uma criança de hoje entra naquela escola, ela não sabe quem foi Becker e Silva. Mas, ao aprender a ler seu primeiro poema, ao resolver sua primeira equação, ao sentir pela primeira vez o orgulho de assinar seu nome com letra firme, ela está, sem saber, prestando a mais bela das homenagens: continuando a obra daquele professor anônimo que acreditou — mesmo sem testemunhas — que cada criança merece uma chance de sonhar.
E assim, entre o silêncio dos arquivos e o barulho do recreio, o nome de Becker e Silva permanece vivo — não nas páginas da história oficial, mas no gesto cotidiano de quem ensina com amor, de quem aprende com gratidão, de quem compreende que as maiores revoluções não começam com tiros de canhão, mas com o ranger suave de um giz sobre uma lousa escura, escrevendo, letra por letra, o futuro de uma nação.

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