quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Templo do Saber na Rua Balduino Taques: A História Viva do Grupo Escolar Júlio Teodorico

 Denominação inicial: Grupo Escolar Júlio Teodorico

Denominação atual: Colégio Estadual Professor Júlio Teodorico

Endereço: Rua Balduino Taques, 1168 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica

Data: 1934

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 31 de julho de 1935

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Júlio Teodorico - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)

O Templo do Saber na Rua Balduino Taques: A História Viva do Grupo Escolar Júlio Teodorico

Na manhã de 31 de julho de 1935, enquanto o sol de inverno paranaense dourava os telhados de Ponta Grossa, uma multidão se aglomerava diante de um edifício que parecia ter brotado da própria ambição de uma cidade em transformação. Bandeiras tremulavam ao vento, crianças de uniforme branco seguravam flores silvestres colhidas nos campos vizinhos, e autoridades discursavam com a voz embargada pela emoção. Naquele dia, as portas do Grupo Escolar Júlio Teodorico se abriram pela primeira vez — não apenas como um prédio de tijolos e cimento, mas como um templo laico dedicado ao mais nobre dos sonhos: educar o povo.

O Sonho Republicano: Quando o Paraná Decidiu Escolarizar seu Povo

A década de 1930 marcou um divisor de águas na história educacional do Paraná. Sob a liderança visionária do governador Manuel Ribas e impulsionada pela reforma pedagógica capitaneada pelo Inspetor Geral de Ensino Lauro Ribas, o estado embarcou em uma empreitada quase utópica: construir, em poucos anos, dezenas de Grupos Escolares padronizados que levariam o ensino primário a cada canto do território paranaense.
Esses não eram meros prédios escolares. Eram símbolos de uma nova era — estruturas pensadas para abrigar não apenas salas de aula, mas também bibliotecas, auditórios, pátios arborizados e espaços para a formação integral da criança. Cada Grupo Escolar tornava-se o coração pulsante de sua comunidade: local de festas juninas, de reuniões cívicas, de alfabetização de adultos à noite, de esperança renovada a cada geração.
Foi nesse contexto de fervor construtivo que, em 1934, a Secção Técnica do Departamento de Obras e Viação do estado desenhou o projeto do Grupo Escolar Júlio Teodorico — uma edificação de tipologia em "U", desenhada para abraçar seus alunos como um colo materno, com braços abertos para acolher sonhos e transformá-los em realidade.

A Beleza Contida: Art Déco como Linguagem da Modernidade

Olhar para as fotografias históricas do Grupo Escolar Júlio Teodorico é compreender como a arquitetura pode ser poesia em concreto. Sua fachada, marcada pela elegância sóbria do Art Déco, não ostentava luxos desnecessários — mas respirava modernidade com cada detalhe calculado.
As linhas geométricas que cortavam a fachada não eram meros ornamentos; eram manifestos visuais de uma época que acreditava no progresso racional. Os vãos simétricos das janelas, dispostos com precisão quase musical, garantiam que a luz natural banhasse cada carteira escolar — como se o próprio sol fosse convidado a participar do ato de aprender. A tipologia em "U" criava um pátio interno protegido, um microcosmo onde as crianças corriam entre as aulas, onde as professoras vigiavam com olhos atentos mas mãos generosas, onde o sino da escola marcava não apenas o tempo das lições, mas o ritmo da própria cidade.
Naqueles corredores de piso hidráulico — cujos desenhos geométricos contavam histórias silenciosas — ecoaram, pela primeira vez, os passos de meninos e meninas filhos de tropeiros, de agricultores, de operários da estrada de ferro, de imigrantes italianos e poloneses que haviam cruzado oceanos para construir uma nova vida nos Campos Gerais. Ali, pela primeira vez na história de muitas famílias, uma criança segurava um caderno de capa dura e aprendia a soletrar seu próprio nome.

Quem Foi Júlio Teodorico? O Homem por Trás do Nome

Embora os documentos oficiais guardem certa discrição sobre sua biografia completa, o nome escolhido para batizar a escola não foi casual. Júlio Teodorico pertencia àquela estirpe de homens que, na virada do século XX, dedicaram suas vidas à causa pública em Ponta Grossa — fosse como educador, político municipal comprometido com a instrução popular, ou líder comunitário que compreendeu, antes de muitos, que sem escolas não há futuro.
Homenageá-lo significava mais que prestar tributo a um indivíduo; era afirmar um valor coletivo: a gratidão da cidade para com aqueles que plantam sementes cuja colheita só será vista por gerações futuras. Ao atravessar o portão da escola, cada criança carregava consigo, ainda que sem saber, o legado de um homem que acreditou que o conhecimento era a única herança que nunca seria roubada pela miséria, pela guerra ou pelo tempo.

A Inauguração: Lágrimas nos Olhos das Mães

Naquela quarta-feira de 31 de julho de 1935, quando as autoridades cortaram a fita inaugural diante da fachada imponente na Rua Balduino Taques, 1168, muitas mães choraram em silêncio. Eram mulheres que haviam passado a vida inteira sem saber ler um bilhete de amor, sem poder assinar o próprio nome no registro de casamento, sem compreender as letras miúdas dos contratos que assinavam com a marca da cruz.
Agora, ali estavam seus filhos — de pés descalços mas de alma vestida de esperança — entrando por aquelas portas como se cruzassem o limiar de um novo mundo. Dona Maria, esposa de um tropeiro que ainda levava gado para São Paulo pela antiga Estrada da Mata, segurou a mão trêmula do pequeno João e sussurrou: "Filho, aqui você vai aprender o que eu nunca pude. Não esqueça disso."
E João não esqueceu. Assim como centenas de outros Joões, Marias, Antonios e Francisca que passaram por aquelas salas ao longo das décadas — cada um levando consigo não apenas a tabuada e a gramática, mas a certeza inabalável de que haviam sido dignificados pelo ato simples e revolucionário de aprender.

O Peso do Tempo: Alterações e Continuidade

Os anos passaram como folhas levadas pelo vento dos Campos Gerais. O Brasil conheceu ditaduras e redemocratizações; Ponta Grossa transformou-se de pacata cidade de tropeiros em importante centro urbano; as crianças que um dia correram pelo pátio do Grupo Escolar tornaram-se avós que hoje contam aos netos como era estudar "na escola do Júlio Teodorico".
A edificação sofreu alterações — como toda coisa viva que resiste ao tempo. Novas alas foram acrescentadas, portas foram modificadas, pinturas renovadas. Mas sua alma permanece intacta. Hoje, como Colégio Estadual Professor Júlio Teodorico, continua cumprindo a mesma missão de 1935: acolher crianças e jovens, oferecer-lhes o mapa das palavras e dos números, prepará-los para navegar no mundo com a bússola do conhecimento.
Quem caminha hoje pela Rua Balduino Taques, no Centro de Ponta Grossa, e contempla sua fachada — ainda reconhecível apesar das marcas do tempo — está diante de mais que um prédio escolar. Está diante de um monumento à teimosia da esperança. Cada tijolo carrega a memória dos primeiros professores que ali pisaram com seus sapatos engomados e cadernos de chamada; cada janela testemunhou o brilho nos olhos de uma criança compreendendo, pela primeira vez, o mistério das frações ou a beleza de um poema de Castro Alves.

O Legado que Não se Cala

Há escolas que são apenas edifícios. E há escolas que se tornam personagens da história de uma cidade. O Grupo Escolar Júlio Teodorico pertence a esta segunda categoria — não por grandiosidade arquitetônica exuberante, mas pela quietude heroica de sua existência contínua.
Enquanto houver uma criança abrindo um livro sob seu teto, enquanto houver um professor escrevendo no quadro-negro com giz branco, enquanto houver o tilintar do recreio ecoando nos corredores, Júlio Teodorico — o homem e o ideal — permanecerá vivo. Porque nomes gravados em placas de mármore desbotam com a chuva; mas nomes gravados na memória coletiva de gerações de estudantes tornam-se imortais.
Naquela manhã de julho de 1935, ninguém poderia prever que aquele edifício sobreviveria a guerras mundiais, a crises econômicas, a transformações sociais profundas. Mas os construtores daquela escola sabiam algo que transcende a pedra e o cimento: quem constrói escolas constrói eternidade. E assim, entre os pinheirais dos Campos Gerais, o Grupo Escolar Júlio Teodorico segue de pé — não como ruína museificada, mas como coração pulsante, lembrando a todos que a mais revolucionária das obras públicas sempre será aquela que abre as portas para uma criança entrar e sonhar.

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