Denominação inicial: Grupo Escolar Senador Correia
Denominação atual: Colégio Estadual Senador Correia
Endereço: Praça Roosevelt, s/n°.
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1900-1930
Projeto Arquitetônico
Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização
Data: 1911
Estrutura: padronizado
Tipologia: Bloco único
Linguagem: Eclética
Data de inauguracao: 28 de Março de 1912
Situação atual: Edificação demolida
Uso atual:
Grupo Escolar Senador Correia - s/d Fonte: PARANÁ. Ponta Grossa. Curityba: Capri & Olivero, [s.d]
O Templo do Saber que Desapareceu: A História Silenciada do Grupo Escolar Senador Correia e o Sonho de Educação nos Campos Gerais
Naquela manhã de 28 de março de 1912, sob um céu de outono prematuro nos Campos Gerais do Paraná, algo sagrado nasceu em Ponta Grossa. Não foi o badalar de sinos de uma catedral nem a inauguração de um palácio de poder — foi algo mais revolucionário para aquela cidade em transformação: a abertura das portas do Grupo Escolar Senador Correia, a primeira escola pública da cidade, erguida como um farol de esperança na recém-criada Praça Roosevelt.
Entre Tropeiros e Sonhos: O Contexto de uma Nação que Aprendia a Ler
Ponta Grossa, na segunda década do século XX, ainda respirava o cheiro de couro dos tropeiros que por séculos cruzaram seus campos abertos.
A cidade, coração dos Campos Gerais, vivia uma transição dolorosa e bela: dos caminhos de boiadeiros para os trilhos de ferro, das estâncias pastoris para os primeiros loteamentos urbanos. Era um lugar onde o pinheiro-do-paraná ainda dominava a paisagem e onde imigrantes — principalmente holandeses a partir de 1911 — começavam a plantar não apenas batatas, mas sonhos de uma nova pátria.
Nesse cenário, a educação pública era um luxo quase inexistente. As crianças aprendiam em salas improvisadas, em casas particulares ou simplesmente não aprendiam. Até que o Estado, na figura da Secretaria de Obras Públicas e Colonização, decidiu erguer um monumento ao futuro: um edifício escolar projetado em 1911, inaugurado em 1912, com linguagem arquitetônica eclética — aquela mistura elegante de elementos clássicos, neogóticos e neorrenascentistas que marcava a ambição civilizatória da Primeira República.
O Homem por Trás do Nome: Manuel Francisco Correia Júnior
A escola homenageava Manuel Francisco Correia Júnior (1831-1905), nascido em Paranaguá, advogado de formação e político de vocação.
Senador pelo Paraná entre 1877 e 1878, Correia foi uma das vozes que ajudaram a moldar a identidade política do estado ainda jovem — um homem que testemunhou a transformação do Paraná de província distante em entidade federativa com ambições próprias. Ao batizar a escola com seu nome, o Estado não apenas prestava tributo a um político, mas simbolizava a união entre o saber jurídico, a representação popular e a instrução das novas gerações — tríade fundamental para uma república que ainda aprendia a caminhar.
A Arquitetura do Sonho: Um Palácio para as Crianças do Povo
O prédio, erguido segundo padrões oficiais da Secretaria de Obras Públicas e Colonização, seguia tipologia de bloco único — solução arquitetônica que buscava funcionalidade sem abrir mão da dignidade estética.
Suas linhas ecléticas não eram mero capricho decorativo: cada frontão, cada moldura de janela, cada proporção calculada carregava uma mensagem silenciosa mas poderosa — as crianças do povo merecem beleza. Enquanto muitas escolas rurais eram barracões de madeira precária, o Senador Correia erguia-se como um templo laico, onde o conhecimento era venerado com a mesma solenidade com que se venerava Deus nas igrejas.
Localizado estrategicamente na Praça Roosevelt — espaço central que simbolizava a modernidade urbana que Ponta Grossa almejava —, o edifício tornou-se marco geográfico e afetivo.
Durante aproximadamente quinze anos, foi a única escola pública da cidade, abrigando gerações de ponta-grossenses que ali aprenderam não apenas a ler e escrever, mas a sonhar além dos limites dos campos que cercavam a cidade.
Dentro das Salas: O Ritual Cotidiano da Transformação
Imagine as manhãs daquela escola: o ranger das carteiras de madeira escura, o cheiro de giz e cera de assoalho, o murmúrio de vozes infantis repetindo em coro a tabuada ou a lição de moral cívica. Professores — muitos vindos de outras regiões, alguns formados nas primeiras escolas normais do Paraná — carregavam nas mãos não apenas cadernos de chamada, mas o peso histórico de serem os primeiros a institucionalizar o ensino público na cidade.
As meninas aprendiam bordado e noções de economia doméstica; os meninos, geometria prática e noções agrícolas — reflexo das expectativas de gênero da época. Mas todos, sem distinção, aprendiam a mesma coisa fundamental: que a letra, uma vez gravada na alma, nunca mais se apagaria. Nas paredes, retratos de presidentes da República e mapas do Brasil ainda incompleto — um país que se expandia geograficamente enquanto se consolidava identitariamente através da escola.
A Solidão do Farol: Quinze Anos como Única Esperança
Ser a única escola pública por quinze anos significava carregar nas costas o destino educacional de toda uma cidade em crescimento.
Significava receber filhos de tropeiros que trocaram as tropas por pequenos comércios, filhos de imigrantes que mal falavam português mas queriam que seus descendentes fossem brasileiros de pleno direito, filhos de pequenos agricultores que viam na educação a única escada para ascender socialmente.
Essa responsabilidade imensa moldou uma cultura escolar própria — uma mistura de rigor disciplinar, calor humano e consciência histórica de estar construindo algo inédito. Estudos recentes sobre o período 1912-1930 revelam como a escola não era apenas um lugar de ensino, mas um centro de sociabilidade, de formação de valores republicanos e de construção de uma identidade cívica para Ponta Grossa.
A Perda Silenciosa: Quando o Templo foi Reduzido a Poeira
Nenhuma placa marca hoje o local exato onde o Grupo Escolar Senador Correia ergueu-se por décadas. O prédio, outrora símbolo de progresso, foi demolido — vítima talvez do "desenvolvimento" cego que confunde modernidade com apagamento da memória.
A Praça Roosevelt, que abrigava a escola, também desapareceu do mapa urbano, engolida por novas configurações viárias e prioridades urbanísticas que não valorizavam o patrimônio afetivo.
O que restou? Restou o nome — Colégio Estadual Senador Correia — transferido para outra edificação, outra época, outra realidade. Restaram fotografias desbotadas em álbuns de família, memórias de idosos que ainda lembram do cheiro do pátio de terra batida, documentos empoeirados em arquivos que poucos visitam. Restou, principalmente, a pergunta que ecoa silenciosa: como uma cidade pode esquecer o lugar onde suas primeiras crianças aprenderam a sonhar?
Legado Invisível: As Sementes que o Vento Levou
Embora o edifício tenha desaparecido, seu legado permanece vivo nas gerações que passaram por suas salas. Advogados, médicos, professores, comerciantes, mães e pais que construíram Ponta Grossa moderna carregaram consigo as lições aprendidas naquele prédio eclético. A escola foi o berço silencioso de uma classe média local que, décadas depois, transformaria a cidade em polo educacional e econômico dos Campos Gerais.
Hoje, o Colégio Estadual Senador Correia continua sua missão — agora como uma das poucas escolas públicas do Paraná que oferece aulas regulares de música, mantendo viva a chama da educação integral que talvez tenha sido sonhada pelos idealizadores daquela primeira escola em 1912.
Epílogo: O Direito à Memória
A história do Grupo Escolar Senador Correia é mais do que a narrativa de um prédio escolar. É a metáfora de um país que, mesmo pobre e desigual, acreditou que a educação pública era direito de todos. É o testemunho silencioso de que, antes dos shopping centers e dos condomínios fechados, as cidades brasileiras ergueram templos para o saber — e que muitos desses templos foram sacrificados no altar do "progresso" sem rosto.
Que esta história sirva de alerta e de homenagem. Alerta para que não repitamos o erro de demolir nossa memória material sem antes registrar sua alma. Homenagem aos professores anônimos que ali ensinaram, às crianças que ali aprenderam, aos pedreiros que ergueram cada tijolo com a certeza de que estavam construindo o futuro.
O Grupo Escolar Senador Correia não existe mais em alvenaria e telhado. Mas existe — e existirá enquanto houver alguém que lembre — como ideia, como sonho realizado, como prova de que, mesmo nos Campos Gerais distantes do litoral, mesmo numa cidade pequena no coração do Paraná, o Brasil um dia acreditou que toda criança merecia um palácio para aprender a ler o mundo.

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