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quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Madraça Cher-Dor: A Escola dos Leões no Coração do Reguistão

 

Madraça Cher-Dor
Sherdor madrasasi • Madraça Sher Dor • Madraça Shir Dar
Informações gerais
TipoMadraça
ArquitetoAbedalá Jabar
Construção1619–1636
PromotorYalangtush Bakhodur
ReligiãoIslão sunita
Património Mundial
Ano2001 [♦]
Referência603 en fr es
Geografia
PaísUsbequistão
CidadeSamarcanda
Conjunto monumentalReguistão
Coordenadas39° 39′ 18″ N, 66° 58′ 35″ L
Localização em mapa dinâmico
Notas:
[♦] ^ Parte do sítio do Património Mundial "Samarcanda – cruzamento de culturas"

A Madraça Cher-Dor[1] ou Madraça Shir Dar[2] (em usbeque: Sherdor madrasasi, que significa "com leões") é uma madraça (escola islâmica) do século XVII no centro histórico de Samarcanda,[1] um sítio classificado como Património Mundial pela UNESCO no Usbequistão.[3] Juntamente com as madraças Ulugue Begue e Tillakori, forma o conjunto monumental do Reguistão, o antigo coração da cidade.[4]

O edifício é apontado como uma das principais atrações turísticas de Samarcanda[5] e é conhecido pela sua profusa decoração em azulejos e pinturas de temas vegetais policromados.[2]

História

A madraça foi construída entre 1619 e 1636 por ordem do hakim Yalangtush Bakhodur (Yalangtush bi Alchin[4] ou Alchin Yalantush Bahadur),[2] o governador de Samarcanda a mando do soberano jânida do Canato de Bucara Imã Culi Cã (r. 1611–1650).[1] A construção foi interrompida e retomada várias vezes. Segundo uma placa dificilmente legível, o seu arquiteto foi um tal de Abedal Jabar[2] (ou Abedalá Jabar) e a decoração é da autoria de Maomé Abas.[1]

Na área ocupada pelo edifício existiu antes um bazar coberto, mandado construir no século XIV por Tumã-Aca, uma das consortes de Tamerlão. O neto deste, Ulugue Begue, mandou demolir esse mercado para construir um khanqah adjacente à sua madraça, que atualmente fica em frente da Cher Dor.[2] Segundo alguns autores, esse khanqah, de dimensões mais pequenas que a atual madraça, foi demolido,[4] mas outros autores afirmam que Yalantush se limitou a reconstruir o edifício existente. Este foi construído em cima de detritos acumulados e areia sedimentada.[2]

O edifício foi restaurado várias vezes. As obras de restauro de maior envergadura foram realizadas no século XX por arquitetos soviéticos, nas décadas de 1920, 1930 (com a participação de Vladimir Shukhov)[5] e 1950. Nessas obras os minaretes foram endireitados e foram usadas faixas de aço para reforçar cúpulas rachadas e paredes tortas. Em 1962 foi restaurada grande parte das celas do piso superior, tendo sido reparados estuques e azulejos decorativos.[2]

Descrição

À semelhança da Madraça Ulugue Begue,[5] a Cher-Dor é um edifício quadrado, com um pátio interior, rodeado por dois pisos com hujras (celas de habitação de estudantes)[2] e duas salas de aula.[5] Em cada um dos lados do pátio há um ivã. Os dos lados norte, oeste e sul serviam como salas de aula ao ar livre. Em ambos os lados dos ivãs havia três hujras com arcos e os respetivos vestíbulos. A madraça não tinha mesquita, existindo apenas um ziarat khana ("sala de visitas piedosas").[2] As paredes e e torres são revestidos com ornamentos brilhantes em cerâmica vidrada, em parte desaparecidos, de vários padrões de plantas trepadeiras e citações do Alcorão em árabe.[5]

A fachada principal, virada para Praça do Reguistão e para a Madraça Ulugue Begue é simétrica e formada por três volumes contrastantes: um imponente portal retangular, duas cúpulas gémeas com nervuras e dois minaretes esguios (um em cada uma das esquinas). A transição da cúpula de tambores cilíndricos altos para estalactites e depois para nervuras de azulejos esmaltados é particularmente notável. As elevações externas não são interrompidas e estão ricamente decoradas com azulejos com padrões geométricos e policromáticos. Em cada uma das esquinas das traseira, em vez de minarete há um torreão.[2]

O portal é recuado e não se projeta além das paredes de cortina. Nos azulejos que revestem o tímpano estão representados tigres parecidos com leões perseguindo gazelas, com sóis nascentes com rosto humano. O nome da madraça, que significa "com leões",[2] deve ter origem nesses animais. Este motivo zoomórfico deve ter chocado os muçulmanos mais velhos,[4] pois vai contra as convenções islâmicas ortodoxas, que proíbem a representação de animais vivos e seres humanos,[4] Porém, o projeto deve ter tido a aprovação do cã reinante, Imã Culi Cã,[4] cujo tio e vizir Nadir Divambegui, usou motivos semelhantes na Madraça de Nadir Divambegui, construída na mesma altura (entre 1619 e 1623) em Bucara.[6] A decoração do tímpano foi provavelmente inspirado numa obra da mesma altura no bazar de Ispaã, no Irão,[4] e pode constituir uma tentativa de obtenção legitimidade política por parte dos governantes jânidas, ao fazer uso dum motivo tradicional mongol. O arco é marcado por uma voluta entrançada e o revestimento decorativo é constituído por mosaicos de tesselas vidradas minúsculas ajustadas de forma compacta.[2] No centro do arco, abaixo do tímpano, há outra peculariedade: uma suástica, um símbolo antigo de abundância e fertilidade.[5]

A madraça apresenta semelhanças com a vizinha Madraça Ulugue Begue, duzentos anos mais velha. As duas madraças formam um kosh, um arranjo urbanístico típico da Ásia Central, no qual dois monumentos formam um par simétrico, segundo um mesmo eixo longitudinal, com as fachadas paralelas em frente uma da outra.[4] Os especialistas consideram que a qualidade dos acabamentos da Madraça Cher-Dor é inferior à sua vizinha.[5] O rés de chão é muito similar ao do da Madraça Ulugue Begue, mas não tem mesquita, o que provavelmente significa que os estudantes faziam as suas orações na Mesquita Kulkeltesh, que lhe era adjacente e que já não existe. Outro aspeto em que o desenho das duas madraças difere é o da decoração da fachada. A de Ulugue Begue usa formas geométricas em forma de estrela (provavelmente devido ao interesse pela astronomia do seu fundador epónimo), enquanto que a Cher-Dor usa motivos zoomórficos e vegetais.[4]

Muitos estudiosos opinam que as linhas mais acentuadas da Madraça Cher-Dor, os seus grandes padrões e ornamentos florais exaltados traduzem um declínio do artesanato local, resultante do declínio económico de Samarcanda no século XVII.[2]

Referências

  1.  Ouzbékistan (em francês), Guias Petit Futé, 2012, pp. 210–211
  2.  «Shir Dar Madrasa». archnet.org (em inglês). ArchNet: Islamic Architecture Community. Consultado em 26 de maio de 2021
  3. Samarkand – Crossroad of Cultures. UNESCO World Heritage Centre - World Heritage List (whc.unesco.org). Em inglês ; em francês ; em espanhol. Páginas visitadas em 26 de maio de 2021.
  4.  «Sher-Dor Madrasa of Samarkand, Uzbekistan» (em inglês). Asian Historical Architecture. www.orientalarchitecture.com. Consultado em 26 de maio de 2021
  5.  «Sher-Dor Madrasah, Samarkand» (em inglês). www.advantour.com. Consultado em 26 de maio de 2021
  6. «Nadir Divan-begi Madrasa, Bukhara, Uzbekistan» (em inglês). Asian Historical Architecture. www.orientalarchitecture.com. Consultado em 26 de maio de 2021

Bibliografia


A Madraça Cher-Dor: A Escola dos Leões no Coração do Reguistão

A Madraça Cher-Dor — também conhecida como Madraça Shir Dar — é uma das construções mais marcantes do conjunto monumental do Reguistão, em Samarcanda, no Usbequistão. Seu nome, traduzido do usbeque, significa literalmente “a que tem leões”, uma referência direta à decoração única que adorna sua fachada principal. Erguida no século XVII, faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO e, ao lado das madraças Ulugue Begue e Tillakori, forma o antigo centro político, religioso e cultural da cidade. Hoje, é uma das atrações turísticas mais visitadas e reconhecidas por sua decoração vibrante e seus detalhes simbólicos fora do comum.

História e Construção

As obras da madraça tiveram início em 1619 e se estenderam até 1636, um período longo marcado por várias interrupções e retomadas. A iniciativa partiu de Yalangtush Bakhodur, governador de Samarcanda que atuava sob as ordens do soberano do Canato de Bucara, Imã Culi Cã, que governou entre 1611 e 1650.
Segundo registros encontrados em uma placa na entrada — hoje bastante desgastada e de difícil leitura — o arquiteto responsável pelo projeto foi Abedal Jabar, enquanto a decoração artística ficou a cargo de Maomé Abas.

O Terreno e as Construções Anteriores

O local onde foi erguida a Cher-Dor já tinha uma longa história. No século XIV, ali funcionava um bazar coberto, construído por Tumã-Aca, uma das esposas do conquistador Tamerlão. Mais tarde, seu neto, o famoso governante e astrônomo Ulugue Begue, mandou demolir o mercado para construir no lugar uma khanqah — uma espécie de pousada e centro de reunião para monges sufistas — localizada justamente em frente à sua própria madraça.
A construção da Cher-Dor gerou debates entre os estudiosos: alguns afirmam que a estrutura antiga foi totalmente derrubada para dar lugar à nova escola, enquanto outros defendem que Yalangtush apenas reformou e ampliou o edifício existente, erguendo a nova construção sobre camadas de detritos e areia acumuladas ao longo dos séculos.

Preservação ao Longo do Tempo

Como todos os monumentos antigos da região, a madraça sofreu os efeitos do tempo, de terremotos e da atividade humana. Os maiores trabalhos de restauração foram realizados no século XX, durante o período soviético:
  • Nas décadas de 1920, 1930 e 1950, com a participação de engenheiros renomados como Vladimir Shukhov, foram endireitados os minaretes, reforçadas as cúpulas com estruturas de aço e reparadas paredes que haviam se inclinado;
  • Em 1962, foi feita uma grande recuperação das celas do andar superior, com restauração de estuques e reposição de azulejos danificados ou perdidos.

Arquitetura e Características

A Madraça Cher-Dor segue o modelo tradicional das instituições de ensino da Ásia Central, mas traz detalhes que a tornam única e facilmente distinguível de suas vizinhas.

Estrutura Geral

Seu formato é aproximadamente quadrado, com um amplo pátio interno cercado por dois andares. Ao redor desse espaço estão dispostas as hujras — pequenos quartos que serviam de moradia para os estudantes — e duas salas de aula maiores. Em cada um dos quatro lados do pátio há um ivã (salão aberto em forma de arco), que funcionavam como espaços de estudo ao ar livre, especialmente nos meses mais amenos.
Um ponto curioso é que a madraça não possuía uma mesquita própria. Em seu lugar, havia apenas uma ziarat khana, uma sala reservada para orações e visitas devocionais. Acredita-se que os alunos e professores se dirigiam à Mesquita Kulkeltesh, localizada ao lado e hoje já não existente, para os cultos coletivos.

Fachada e Decoração: Rompendo Regras

A fachada principal, voltada para a praça do Reguistão e de frente para a Madraça Ulugue Begue, é imponente e simétrica. Ela é composta por três elementos principais: um portal monumental, duas cúpulas gêmeas com desenhos em relevo e dois minaretes esguios nos cantos. As paredes são totalmente revestidas por azulejos coloridos, com padrões geométricos, motivos florais e versículos do Alcorão escritos em caligrafia árabe.
Mas o que mais chama a atenção e confere identidade à Cher-Dor é a decoração do arco principal. Lá, contrariando a regra ortodoxa da arte islâmica — que proíbe a representação de seres humanos e animais — aparecem figuras de tigres semelhantes a leões perseguindo gazelas, com o sol nascente ao fundo desenhado com rosto humano. É justamente essa imagem que deu origem ao nome da escola.
Esse detalhe causou estranhamento entre os seguidores mais rigorosos da fé, mas contou com a aprovação do governante da época. Acredita-se que o motivo tenha sido inspirado em construções da cidade de Isfahan, no Irã, e também usado como forma de legitimação política, ao resgatar símbolos tradicionais das antigas tribos mongóis. Ainda no centro do arco, abaixo das figuras, há outro símbolo incomum: uma suástica, usada na região há milênios como sinal de abundância e fertilidade.

Comparação com a Madraça Ulugue Begue

As duas construções, separadas por cerca de 200 anos, formam um par arquitetônico conhecido como kosh — um arranjo muito comum na Ásia Central, onde dois monumentos ficam posicionados frente a frente, em eixo simétrico. A estrutura do térreo é bastante semelhante, mas há diferenças marcantes:
  • A decoração da Ulugue Begue é feita apenas com formas geométricas e estrelas, ligadas ao gosto astronômico de seu fundador;
  • A Cher-Dor usa motivos animais e vegetais mais expressivos, mas, segundo especialistas, a qualidade técnica e o acabamento são inferiores, reflexo do enfraquecimento econômico e da queda na habilidade artesanal que marcaram Samarcanda no século XVII.

Hoje, a Madraça Cher-Dor continua sendo um símbolo vivo da história da região, representando tanto a tradição quanto a capacidade de inovação e adaptação que marcou a arquitetura islâmica ao longo dos séculos.