quarta-feira, 22 de julho de 2026

Alexandre Rodrigues Ferreira Cidade da Bahia, 27 de abril de 1756 — Lisboa, 23 de abril de 1815 Foi um naturalista, explorador e funcionário público luso-brasileiro, reconhecido como uma das figuras mais importantes da ciência e da exploração geográfica no período colonial. Ao lado de nomes como Manuel Arruda Câmara, é considerado um dos maiores naturalistas da história luso-brasileira, especialmente por sua Viagem Filosófica, a mais ampla e sistemática expedição realizada no interior da Amazônia e regiões vizinhas durante o século XVIII.

 

Alexandre Rodrigues Ferreira
Nascimento27 de abril de 1756
Salvador
Morte23 de abril de 1815 (58 anos)
Lisboa
CidadaniaBrasil
Alma mater
Ocupaçãoexplorador, botânico, naturalista, colecionador de plantas

Alexandre Rodrigues Ferreira (Cidade da Bahia,[1] 27 de abril de 1756Lisboa, 23 de abril de 1815) foi um naturalista brasileiro que se notabilizou pela realização de uma extensa viagem que percorreu o interior da Amazônia até ao Mato Grosso, entre 1783 e 1792.[2] Durante a viagem, descreveu a agricultura, a fauna, a flora e os habitantes das regiões visitadas. Ao lado de nomes como Manuel Arruda Câmara, é considerado um dos maiores naturalistas luso-brasileiros.

Vida e obra

Filho do comerciante Manuel Rodrigues Ferreira, iniciou os seus estudos no Convento das Mercês, na Bahia, que lhe concedeu as suas primeiras ordens em 1768.

Na Universidade de Coimbra, onde se matriculou no Curso de Leis e depois no de Filosofia Natural e Matemática, bacharelou-se aos 22 anos. Prosseguindo os seus estudos na instituição, onde chegou a exercer a função de Preparador de História Natural, obteve, em 1779, o título de Doutor.

Trabalhou, em seguida, no Real Museu da Ajuda. A 22 de Maio de 1780 foi admitido como membro correspondente na Real Academia das Ciências de Lisboa.

A expedição ao Brasil

Edição digital de Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, dois volumes.

Por esse tempo as rendas coloniais do Brasil se encontravam em decadência, exauridas as jazidas de ouro aluvional do Mato Grosso, de Goiás e, sobretudo, de Minas Gerais. Por essa razão, a rainha D. Maria I, desejando conhecer melhor o Centro-Norte da colônia, até então praticamente inexplorado, a fim de ali implementar medidas desenvolvimentistas, ordenou a Alexandre Rodrigues Ferreira, na qualidade de naturalista, que empreendesse uma Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá.

A ideia era dinamizar a exploração econômica e a posse das conquistas em áreas de litígio.

Em 1783 o naturalista deixou o seu cargo no Museu da Ajuda e, em setembro partiu para o Brasil, para descrever, recolher, aprontar e remeter para o Real Museu de Lisboa amostras de utensílios empregados pela população local, bem como de minerais, plantas e animais. Ficou também encarregado de tecer comentários filosóficos e políticos sobre o que visse nos lugares por onde passasse. Esse pragmatismo será o que leva a expedição a ser distinta de suas congêneres, mais científicas, comandadas por outros naturalistas que vieram explorar a América.

Ilustração da Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira às capitanias do norte e oeste do Brasil.

Com recursos precários, contava com dois desenhistas ou 'riscadores', José Codina, do qual pouco se sabe, e José Joaquim Freire (que tivera importante papel na Casa do Risco do Museu da Ajuda, frequentara aulas de desenho na Fundição do Real Arsenal do Exército) além de um jardineiro botânico, Agostinho do Cabo. Tinha a Viagem os auspícios da Academia das Ciências de Lisboa, Ministério dos Negócios e Domínios Ultramarinos e era planejada pelo naturalista italiano Domenico Vandelli. Programada para ter quatro naturalistas, veio apenas um, sem contar os drásticos cortes financeiros e materiais... Ficaram sobre os ombros de Alexandre Rodrigues Ferreira e poucos auxiliares as tarefas de coleta de espécies, classificação e preparação para o embarque rumo a Lisboa, sem contar os estudos sobre agricultura, cartografia e a confecção dos mapas populacionais.

Santa Maria de Belém do Grão Pará, em 1784. Desenho de Joaquim José Codina.

Em outubro de 1783 aportou em Belém do Pará na charrua (embarcação) Águia e Coração de Jesus.

Os nove anos seguintes foram dedicados a percorrer o centro-norte do Brasil, a partir das ilhas de Marajó, Cametá, Baião, Pederneiras e Alcobaça.

"Lafaensia", desenho de botânica, de José Codina.

Subiu o rio Amazonas e o rio Negro até à fronteira com as terras espanholas, navegou pelo rio Branco até à serra de Cananauaru. Subiu o rio Madeira e o rio Guaporé até Vila Bela da Santíssima Trindade, então capital do Mato Grosso. Seguiu para a vila de Cuiabá, transpondo-se da bacia amazônica para os domínios do Pantanal Mato-grossense, já na bacia do rio da Prata. Navegou pelos rio Cuiabá, pelo rio São Lourenço e pelo rio Paraguai.

Voltou a Belém do Pará em janeiro de 1792. Tinha, como se vê, percorrido as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá de 1783 a 1792.

Inventariara a natureza, as comunidades indígenas e seus costumes, avaliou as potencialidades econômicas e o desempenho dos núcleos populacionais. Foi a mais importante viagem durante o período colonial.

Obra

Onça Pintada. Aquarela de José Joaquim Freire e José Codina.

Diz a Brasiliana abaixo citada, p. 51: "Nos diários de sua Viagem Filosófica, traçou um amplo quadro das lavouras, procurando subsídios para o declínio da produção, sobretudo após a expulsão dos jesuítas. As culturas estavam prejudicadas pelo desprezo do português pelo trabalho, indolência dos nativos, falta de braços e redução do número de escravos negros. Seus planos não se concentravam apenas na multiplicação das áreas agrícolas, mas na qualidade e na diversificação dos produtos. A economia somente avançaria caso houvesse uma racionalização das culturas e introdução de técnicas adequadas à lavoura e ao solo. Para avaliar o empreendimento, construiu tabelas pormenorizadas, destinadas a fornecer um panorama sobre povoados e lavouras. Em cada comunidade, os mapas populacionais dimensionavam as potencialidades da mão-de-obra, destacando a existência de trabalhadores ativos e inativos, o número de brancos, índios, negros escravos, mulheres, crianças e velhos. Deste modo, compunha um quadro sobre a viabilidade econômica dos lugarejos visitados.

"A produção agrícola tornou-se, igualmente, um dado fundamental para compor um diagnóstico da economia da Amazônia. O naturalista, então, mensurava as colheitas de farinha, arroz, milho, cacau, café e tabaco, compondo balanços da produção."

Pirarucu. Aquarela de José Joaquim Freire e José Codina.

O seu "Diário da Viagem Filosófica" foi publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro entre 1885 e 1888.

A Divisão de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional conserva na Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira (2006) centenas de documentos da Viagem Filosófica, além de papéis referentes à Amazônia no século XVIII.[3]

Em 2010, durante um levantamento das colecções pertencentes à Universidade de Coimbra, foram encontrados vários exemplares de peixes do Brasil conservados “em herbário”, em perfeitas condições. Os exemplares do século XVIII de peixes do Brasil, oriundos das colecções do Real Museu da Ajuda, representam diferentes espécies, conservados sobre cartão, com a designação científica no sistema de Lineu. O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra atribuiu esses elementos às recolhas efectuadas por Alexandre Rodrigues Ferreira para a coroa portuguesa, na bacia do Amazonas, entre 1783 e 1792. Esquecidos durante muitos anos numa zona de difícil acesso do departamento de Zoologia da Universidade de Coimbra, parte dos exemplares é apresentada publicamente a 19 de janeiro de 2011, no Auditório do Laboratório Chimico.[4][5]

A remessa para Portugal

Tucano no Cajueiro. Aquarela de José Joaquim Freire e José Codina.

Durante todos os anos de sua entrada pelo sertão, havia ordenado o envio do material coletado para a Corte. Ao descobrir que todas as despesas haviam sido custeadas pelo capitão, gastando o dote de sua filha, disse-lhe "Isso não servirá de embaraço ao seu casamento; eu serei quem receba essa sua filha por mulher." E assim o fez: casou-se dia 16 de setembro de 1792 com Germana Pereira de Queiroz.

Tamanduá. Aquarela de José Joaquim Freire e José Codina.

Já em Lisboa, tendo regressado em janeiro de 1793, dedicou sua vida à administração metropolitana: foi nomeado Oficial da Secretaria do Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. Em 1794 foi condecorado com a Ordem de Cristo e tomou posse como Diretor interino do Real Gabinete de História Natural e do Jardim Botânico. No ano seguinte foi nomeado, seguidamente, Vice Diretor da instituição, Administrador das Reais Quintas e Deputado da Real Junta do Comércio.

O farto material proveniente da Viagem Filosófica permaneceu por mais de um século desconhecido e não foi estudado pelos sábios portugueses, nem mesmo por Ferreira. Este jamais retomaria os trabalhos com as espécies e amostras recolhidas no Brasil, não aperfeiçoou as memórias e estudos e boa parte desse material seria mais tarde levada para Paris como butim de guerra. Ainda há, entretanto, rico acervo, diários, mapas geográficos, populacionais e agrícolas, correspondência, mais de mil pranchas e memórias - que se encontram sobretudo na Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no Museu Bocage integrado no Museu Nacional de História Natural e da Ciência em Lisboa e no Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa.

Ver também

Referências

  1. «'Viagem Ao Brasil', De Alexandre Rodrigues Ferreira» (PDF). Consultado em 9 de Dezembro de 2012. Arquivado do original (PDF) em 22 de fevereiro de 2014
  2. Goeldi, Emilio (1895). Ensaio sobre o Dr. Alexandre R. Ferreira : mormente em relação ás suas viagens na Amazonia e sua importancia como naturalista. Pará: Alfredo Silva & Ca. Editores. 108 páginas
  3. Fundação Biblioteca Nacional. Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira. 2006. <http://bndigital.bn.gov.br/projetos/alexandre/Index.html>.
  4. CienciaPT - A Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação em Português (17 de janeiro de 2011). «Colecção raríssima de peixes do século XVIII encontrada no Museu da Ciência». Consultado em 17 de Janeiro de 2011. Arquivado do original em 31 de maio de 2013
  5. André Jegundo em Jornal Público (17 de janeiro de 2011). «Colecção "raríssima" do séc. XVIII de peixes do Brasil encontrada na Universidade de Coimbra». Consultado em 17 de Janeiro de 2011

Bibliografia

  • AREIA, M. L. Rodrigues; MIRANDA, M. A.; HARTMANN, T. Memória da Amazónia. Alexandre Rodrigues Ferreira e a Viagem Philosophica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuyabá. 1783-1792. Coimbra: Museu e Laboratório Antropológico da Universidade, 1991.
  • BATES, Henry Walter. O naturalista no rio Amazonas (2 v.). São Paulo: Editora Nacional, 1944.
  • BDLB - Biblioteca Digital Luso Brasileira. Manuscritos de Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815). link
  • BN - Biblioteca Nacional. Biblioteca Nacional Digital: Manuscritos de Alexandre Rodrigues Ferreira. link.
  • CARVALHO, J. C. M. Viagem filosófica pelas capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (1783-1793): uma síntese no seu bicentenário. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1983.
  • CIFEFIL - Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. Documentos manuscritos e impressos de Alexandre Rodrigues Ferreira da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. s.d. .
  • CORREIA FILHO, V. Alexandre Rodrigues Ferreira. Vida e obra do grande naturalista brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939.
  • CUNHA, O. R. O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Uma análise comparativa de sua viagem filosófica (1783-1793). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1991.
  • DOMINGUES, A. Formas de intervenção no espaço amazónico em finais do século XVIII: política e aventura. Dissertação de mestrado. Lisboa: FCSH da UNL, 1988.
  • DOMINGUES, A. “Viagens científicas de exploração à Amazónia de finais do século XVIII”. Ler História. 19(1990)105-125.
  • DOMINGUES, A. Viagens de exploração geográfica na Amazónia em finais do século XVIII: Política, Ciência e Aventura. Lisboa: Secretaria Regional do Turismo, Cultura e Emigração (Madeira)/Centro de Estudos de História do Atlântico, 1991.
  • DOMINGUES, A. “Os índios da Amazónia para um Naturalista do século XVIII”. Ler História. 23(1992)3-10.
  • FALCÃO, Edgard de Cerqueira. Breve notícia sobre a "Viagem Filosófica" de Alexandre Rodrigues Ferreira. Revista de História, São Paulo, v. 40, n. 81, p. 185-195, 1970. link.
  • FERREIRA, A. R. Desenhos de Gentios, Animaes quadrupedes, Aves, Amphibios, Peixes e Insectos [...] da Expedição Philosophica do Pará, Rio Negro, Matto-Grosso e Cuyabá. Copiados no R. Jardim Botanico. Manuscrito do Museu Nacional, Rio de Janeiro, s.d.
    • Vol. I, Desenhos de gentios, animaes quadrupedes, aves, amphibios, peixes e insectos, link.
    • Vol. II, Prospectos de cidades, villas, povoações, edifícios, rios e cachoeiras, link.
    • Vol. III, Plantas, pt. 1, link; pt. 2, link; pt. 3, link;
  • FERREIRA, A. R. Diário da viagem filosófica pela capitania de São José do Rio Negro com a informação do estado presente. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 48(70): 1-234, 1885, link; 49(72): 123-288, 1886 link; 50(75): 11-141, 1887, link; 51(76): 5-166, 1888, link.
  • FERREIRA, A. R. Viagem filosófica às Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Desenhos originais coligidos pelo Prof. Dr. Edgard de Cerqueira Falcão. São Paulo: Gráfica Brunner, 1970.
  • FERREIRA, A. R. Viagem Filosófica: pelas Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá: 1783-1792: Iconografia; v.1: Geografia e antropologia; v.2: Zoologia. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1971.
  • FERREIRA, A. R. Viagem Filosófica...: Memórias; v.1. Zoologia e botânica, 1972; v. 2. Antropologia, 1974. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1972-1974. il.
  • FERREIRA, A. R. Viagem Filosófica...: Memórias: I. Antropologia. 2a. ed. Manaus: Valer, 2008.
  • GOELDI, Emílio. Ensaio sobre o Dr. Alexandre R. Ferreira. Pará: Alfredo Silva, 1895. link. [2a. ed. Brasília: UNB, 1982.]
  • MACEDO, Joaquim Manuel de, Anno biographico brazileiro (v.1), Typographia e litographia do imperial instituto artístico, Rio de Janeiro, 1876.
  • PEREIRA, Paulo Roberto, org. Brasiliana da Biblioteca Nacional: guia de fontes sobre o Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, Nova Fronteira, 2001.

Alexandre Rodrigues Ferreira

Cidade da Bahia, 27 de abril de 1756 — Lisboa, 23 de abril de 1815
Foi um naturalista, explorador e funcionário público luso-brasileiro, reconhecido como uma das figuras mais importantes da ciência e da exploração geográfica no período colonial. Ao lado de nomes como Manuel Arruda Câmara, é considerado um dos maiores naturalistas da história luso-brasileira, especialmente por sua Viagem Filosófica, a mais ampla e sistemática expedição realizada no interior da Amazônia e regiões vizinhas durante o século XVIII.

📚 Formação e primeiros anos

Filho do comerciante Manuel Rodrigues Ferreira, iniciou seus estudos no Convento das Mercês, na Bahia, onde recebeu as primeiras ordens religiosas em 1768.
Seguiu para a Europa e matriculou-se na Universidade de Coimbra, primeiro no curso de Direito e depois em Filosofia Natural e Matemática. Aos 22 anos, já era bacharel e, continuando seus estudos, chegou a atuar como Preparador de História Natural na própria instituição. Em 1779, obteve o título de Doutor.
Logo depois, integrou a equipe do Real Museu da Ajuda, em Lisboa. Em 22 de maio de 1780, foi aceito como membro correspondente da Real Academia das Ciências de Lisboa, consolidando seu prestígio científico.

🚀 A Viagem Filosófica (1783–1792)

Contexto e objetivo

Na década de 1780, a economia colonial brasileira passava por forte declínio: as jazidas de ouro de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais estavam exauridas, e vastas regiões do Centro-Norte permaneciam praticamente desconhecidas da Coroa Portuguesa.
Para reverter esse quadro e também garantir a posse efetiva de territórios em disputa com a Espanha, a rainha D. Maria I ordenou a Ferreira que realizasse uma expedição de reconhecimento técnico e científico. A missão recebeu o nome oficial de Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá.
Seu objetivo não era apenas científico: era também avaliar o potencial econômico, mapear territórios, registrar modos de vida e propor medidas para desenvolver a região. Essa combinação de ciência e interesses administrativos tornou a expedição única entre as demais do período.

Equipe e condições

A expedição foi planejada para contar com quatro naturalistas, mas na prática seguiu apenas com Ferreira e um pequeno grupo:
  • Dois desenhistas: José Codina e José Joaquim Freire (especialista em desenho técnico e botânico);
  • Um jardineiro botânico: Agostinho do Cabo.
Contou com apoio institucional da Academia das Ciências, do Ministério dos Negócios Ultramarinos e foi idealizada com a colaboração do naturalista italiano Domenico Vandelli. Mesmo assim, sofreu cortes severos de verba e materiais, tornando-se um desafio ainda maior.

Percurso

Partiu de Lisboa em setembro de 1783 e aportou em Belém do Pará em outubro, a bordo da embarcação Águia e Coração de Jesus. Durante nove anos, percorreu uma rota imensa:
  • Ilhas do Marajó, Cametá, Baião, Pederneiras e Alcobaça;
  • Rio Amazonas e Rio Negro até a fronteira com terras espanholas;
  • Rio Branco até a Serra de Cananauaru;
  • Rios Madeira e Guaporé, chegando a Vila Bela da Santíssima Trindade (então capital do Mato Grosso);
  • Seguiu até Cuiabá, atravessando a divisão de águas da bacia amazônica para a bacia do Rio da Prata;
  • Navegou pelos rios Cuiabá, São Lourenço e Paraguai;
  • Retornou a Belém do Pará em janeiro de 1792.

📝 Conteúdo e resultados da obra

Ferreira deixou um inventário completo e detalhado das regiões percorridas:
  • Natureza: Descrições de fauna, flora, solos e formações geológicas, além de milhares de amostras coletadas;
  • Agricultura: Analisou as causas do baixo rendimento das lavouras — como a falta de técnicas adequadas, escassez de mão de obra e baixa produtividade — e propôs racionalização e diversificação de culturas (farinha, arroz, milho, cacau, café, tabaco);
  • População e sociedade: Elaborou mapas e tabelas detalhadas com o número de habitantes, divididos por raça, idade e condição social, avaliando a capacidade econômica de cada povoado;
  • Costumes indígenas: Registrou línguas, hábitos, técnicas de sobrevivência e organização das comunidades locais.
Seus relatos ficaram conhecidos como Diário da Viagem Filosófica, publicado pela primeira vez na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro entre 1885 e 1888.

Acervo preservado

Parte do material coletado ficou esquecida por décadas, mas hoje está guardado em instituições importantes:
  • Fundação Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro): coleção completa com diários, mapas, correspondências e mais de 1.000 pranchas de ilustrações;
  • Museu Nacional de História Natural e da Ciência e Academia das Ciências de Lisboa;
  • Museu da Ciência da Universidade de Coimbra: em 2010, foram redescobertos exemplares de peixes conservados em herbário, coletados durante a expedição e mantidos em perfeito estado.

🧭 Últimos anos

De volta à Europa, chegou a Lisboa em janeiro de 1793. Não retomou os estudos detalhados sobre o material recolhido, dedicando-se à carreira administrativa:
  • Oficial da Secretaria dos Negócios da Marinha e Ultramarinos;
  • Condecorado com a Ordem de Cristo em 1794;
  • Diretor interino e depois Vice-Diretor do Real Gabinete de História Natural e Jardim Botânico;
  • Administrador das Reais Quintas e membro da Junta do Comércio.
Casou-se com Germana Pereira de Queiroz em 16 de setembro de 1792. Faleceu em Lisboa, em 23 de abril de 1815, poucos dias antes de completar 59 anos.
Parte do seu acervo foi levada para a França como butim de guerra durante as Invasões Napoleônicas, mas o que restou permanece como uma das fontes mais valiosas para conhecer a Amazônia e o Centro-Oeste brasileiro no século XVIII.

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