quarta-feira, 22 de julho de 2026

António José da Silva — "O Judeu" São João de Meriti, 8 de maio de 1705 — Lisboa, 19 de outubro de 1739 Escritor, dramaturgo e advogado luso-brasileiro, é considerado um dos maiores autores teatrais da língua portuguesa e uma das figuras mais trágicas e simbólicas da perseguição da Inquisição. Conhecido universalmente como "O Judeu", sua obra e sua história permanecem referências centrais na cultura e na memória histórica do Brasil e de Portugal.

 

António José da Silva Coutinho
Nascimento
Morte
19 de outubro de 1739 (34 anos)

NacionalidadeLuso-brasileiro ( Brasil Colônia)
OcupaçãoEscritor e dramaturgo
Magnum opusGuerras do Alecrim e Manjerona

António José da Silva Coutinho (São João de Meriti, 8 de maio de 1705Lisboa, 19 de outubro de 1739) foi um escritor e dramaturgo luso-brasileiro, nascido no Brasil Colônia.[1] Formado na Universidade de Coimbra,[2] escreveu o conjunto da sua obra em Portugal entre 1725 e 1739.[1] Apelidado "O Judeu",[3] foi torturado, esquartejado e queimado na fogueira pela Inquisição portuguesa, num auto de fé.[4][5] É hoje considerado um dos maiores dramaturgos portugueses de todos os tempos e o precursor da modinha.[6]

O romancista português Camilo Castelo Branco retratou a vida de várias gerações da família de António José da Silva até à sua morte na sua obra O Judeu.[7][8] A história de António José da Silva também inspirou Bernardo Santareno a escrever a peça O Judeu (1966).[9][10] A sua vida é ainda retratada no filme luso-brasileiro homônimo (1995). A Fundação Nacional de Artes - Funarte e o Camões Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa instituíram o Prêmio Luso-Brasileiro de estímulo a dramaturgia António José da Silva no ano de 2007.[11][12] Portugal dedicou-lhe um selo a 7 de junho de 2010, na série Teatro em Portugal, que reproduz uma cena da peça "Guerras do Alecrim e da Manjerona", sob o título "António José da Silva (O Judeu)".

Biografia

António José da Silva nasceu no engenho do avô materno, Balthazar Rodrigues Coutinho, no bairro da Covanca, na atual cidade de São João de Meriti, no Rio de Janeiro.[13] Era filho do advogado e poeta João Mendes da Silva.[14] Mudou-se ainda pequeno com a família para a Freguesia da Candelária (hoje parte do centro da capital carioca). Batizado no catolicismo, mas de origem judaica, foi vítima da perseguição que dizimou a comunidade dos cristãos-novos do Rio de Janeiro em 1712. Pensa-se que terá conseguido manter a sua fé judaica secretamente. Mas, sua mãe, Lourença Coutinho foi bem menos sucedida. Acusada de judaísmo, foi deportada para Portugal onde foi processada pela Inquisição. O pai de António decidiu então partir para Portugal, para estar próximo de sua mulher, levando o jovem António consigo. A família instalou-se a seguir na metrópole Lisboa.

Em Portugal, António José da Silva estudou direito na Universidade de Coimbra, onde se inscreveu em 1725.[2] Interessado pela dramaturgia, escreveu uma sátira, que serviu de pretexto às autoridades para prendê-lo, acusado de práticas judaizantes, com sua mãe e sua esposa, a 8 de agosto de 1726. Embora fosse amigo de Alexandre de Gusmão, conselheiro do rei dom João V (1706–1750), foi torturado a 16 de agosto e 23 de setembro, tendo ficado parcialmente inválido durante algumas semanas, o que o impediu de assinar a sua "reconciliação" com a Igreja Católica, acabando por fazê-lo em grande auto-de-fé de 23 de outubro. Salvou sua vida admitindo ter seguido práticas da lei mosaica. Depois de ter abjurado seus erros, foi posto em liberdade. Sua mãe só foi liberta três anos mais tarde, em outubro de 1729, depois de ter sido torturada e figurada como penitente em outro auto-da-fé.

Depois de ter praticado três anos seu ofício de advogado, acabou por retomar sua atividade literária, sendo considerado o maior dramaturgo português da sua época. Escritor prolífico, escreveu sátiras em que criticava num modo burlesco o ridículo da sociedade portuguesa, usando referências frequentes à mitologia e aos autores da Antiguidade e da Península Ibérica, nomeadamente Dom Quixote de Miguel de Cervantes. Devido a partes orquestrais importantes, árias e conjuntos cantados, suas peças podem quase ser consideradas óperas. A única música que sobreviveu foi composta por António Teixeira.

Conhecido pela facilidade e verve cómica das suas sátiras, José da Silva fez muitos inimigos contra os quais o conde de Ericeira o protegeu, mas após a morte deste último, o dramaturgo e escritor foi denunciado como suspeito de judaísmo à Inquisição. Foi preso de novo em 1737, em Lisboa com a mãe, a tia, o irmão (André) e a sua mulher, Leonor Maria de Carvalho, que se encontrava grávida. Morreu no dia 19 de outubro de 1739 na fogueira às mãos da Inquisição, num auto de fé. António José da Silva é ainda hoje considerado o mais famoso dramaturgo português do seu tempo.

Obra

Série Essencial Antologia do dramaturgo carioca patrono de uma cadeira da Academia Brasileira de Letras.[15]

As suas comédias ficaram conhecidas como a obra de "O Judeu" e foram encenadas frequentemente em Portugal nos anos da década de 1730. Influenciado pelas ideias igualitárias do iluminismo francês, o dramaturgo ligou-se a um grupo de “estrangeirados”, formado por eminentes figuras como o diplomata luso-brasileiro Alexandre de Gusmão (1695-1753), o principal conselheiro do rei D. João V.

Sua obra teatral inspirava-se no espírito e na linguagem do povo, rompendo com os modelos clássicos e incorporando o canto e a música barroca como elemento do espectáculo. Uma delas foi "Vida do Grande Dom Quixote de La Mancha", representada em 1733.[16]

Oito de suas óperas foram publicadas em 1744 em dois volumes, na série que ostenta o título Theatro comico portuguez, recuperadas em 1940, pelo investigador Luís Freitas Branco. Mais tarde o musicólogo Felipe de Souza confirmou a parceria de António José com o padre António Teixeira, autor das músicas.[17][18]

Escreveu também poemas, um deles publicado por Francisco Adolfo Varnhagen, em 1850, em seu florilégio da poesia brasileira. Este usa de recursos da poesia barroca, tal como o maneirismo.[19]

Pormenores do processo da Inquisição

Em 1737, António foi preso pela Inquisição portuguesa, juntamente com a mãe e a esposa (Leonor de Carvalho, com quem casara em 1728, que era sua prima e também judia). A mãe e a mulher seriam libertadas posteriormente.

António José da Silva foi novamente torturado. Descobriram que era circuncidado. Uma escrava negra testemunhou que ele observava o Shabbat. O processo decorreu com notória má-fé por parte do tribunal e António José da Silva foi condenado, apesar de a leitura da sentença deixar transparecer que ele não seria, de facto, judaizante.[20]

Como era regra com os prisioneiros que, condenados, afirmavam desejar morrer na fé católica, António José da Silva foi garrotado antes de ser queimado num Auto-de-Fé em Lisboa em outubro de 1739. Sua mulher, que assistiu à sua morte, morreria pouco depois.

Sobre

  • Antônio José ou O poeta e a inquisição (1838)
  • A obra O Judeu do romancista português Camilo Castelo Branco (1825–1890) retrata a vida de várias gerações da família de António José da Silva até à sua morte.[7][8]
  • A história António José da Silva inspirou Bernardo Santareno, ele próprio de origem judaica, a escrever a peça O Judeu.[9][10]
  • Mais recentemente, a vida de António José da Silva foi encenada por Jom Tob Azulay no filme O Judeu, de 1995. No filme, António José foi interpretado pelo ator Felipe Pinheiro, que faleceu ainda durante as filmagens.

Peças e textos

  • Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança (1733)
  • Esopaida ou Vida de Esopo (1734)
  • Os Encantos de Medeia (1735)
  • Anfitrião ou Júpiter e Alcmena (1736)
  • Labirinto de Creta (1736)
  • As Variedades de Proteu (1737)
  • Guerras do Alecrim e da Manjerona (1737)
  • Precipício de Faetonte (1738)
  • El Prodígio de Amarante (Comédia, escrita em castelhano, cerca de 1737)
  • Amor Vencido de Amor e Os Amantes de Escabech (ambas perdidas)

Existe ainda um manuscrito na Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa que atribui a António José da Silva a autoria da novela exemplar e picaresca Obras do Diabinho da Mão Furada. No entanto, um outro manuscrito de António José Saraiva, depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa, atribui essa mesma obra a Pedro José da Fonseca.

Bibliografia

  • As Comédias de Antônio José, o Judeu. SP: Martins Fontes, 2007.
  • Alberto Dines, Vínculos do Fogo, Antônio José da Silva, o Judeu e outras Histórias da Inquisição em Portugal e no Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1992.
  • Alberto Dines, Victor Eleutério. O judeu em cena: El prodigio de amarante/ O prodígio de Amarante. 1ª Edição bilíngüe e comprovação de autoria. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005. p. 61-67.
  • “Estudantes da Universidade de Coimbra Nascidos no Brasil”, suplemento ao volume IV da revista Brasília, Coimbra, 1949.
  • Processo 2027 da Inquisição de Lisboa Contra Antônio José da Silva. Cópia em porquenaosoucristao: processo-inquisitorial-contra-antonio.html
  • “Traslado dos Processos de Inquisição de Lisboa contra Antônio José da Silva”, Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro, Rio de Janeiro, Tomo LIX, pp. 5–51, 1896.

António José da Silva — "O Judeu"

São João de Meriti, 8 de maio de 1705 — Lisboa, 19 de outubro de 1739
Escritor, dramaturgo e advogado luso-brasileiro, é considerado um dos maiores autores teatrais da língua portuguesa e uma das figuras mais trágicas e simbólicas da perseguição da Inquisição. Conhecido universalmente como "O Judeu", sua obra e sua história permanecem referências centrais na cultura e na memória histórica do Brasil e de Portugal.

📖 Biografia e trajetória

Origem e mudança para a Europa

Nasceu no engenho do avô materno, no bairro da Covanca, atual São João de Meriti (RJ). Filho do advogado e poeta João Mendes da Silva e de Lourença Coutinho, recebeu o batismo católico, mas pertencia a uma família de cristãos-novos — descendentes de judeus convertidos sob pressão. Em 1712, a comunidade judaica do Rio de Janeiro foi alvo de intensa perseguição; sua mãe foi acusada de manter práticas da fé judaica, deportada e julgada pela Inquisição. Para acompanhá-la, o pai levou o jovem António, então com cerca de 12 anos, para Lisboa.

Formação e primeira perseguição

Matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra em 1725, mas já demonstrava talento para a literatura. Em 1726, uma sátira que escreveu serviu de pretexto para sua prisão, ao lado da mãe e da esposa, Leonor Maria de Carvalho (sua prima, com quem casaria dois anos depois). Foi torturado duas vezes e obrigado a abjurar publicamente suas crenças no Auto de Fé de 23 de outubro de 1726, sob pena de morte. Ficou parcialmente inválido por semanas em decorrência dos maus-tratos, mas conseguiu salvar a vida.

Retorno à atividade intelectual

Libertado, exerceu a advocacia por três anos, até retomar com força a carreira literária. Ligou-se ao grupo dos "estrangeirados" — intelectuais influenciados pelas ideias do Iluminismo — contando com a proteção de figuras como o Conde de Ericeira e o conselheiro real Alexandre de Gusmão. Suas peças ganharam enorme sucesso em Lisboa na década de 1730, por sua linguagem acessível, humor e crítica velada à hipocrisia e aos vícios da sociedade.

Segunda prisão e execução

Após a morte de seu protetor, foi denunciado novamente e preso em 1737, com a mãe, a tia, o irmão e a esposa — que já estava grávida. O processo usou provas frágeis: o fato de ser circuncidado e o depoimento de uma escrava que afirmou vê-lo guardar o sábado. Condenado, foi primeiro garrotado para evitar sofrimento mais prolongado e, em seguida, esquartejado e queimado em praça pública no Auto de Fé de 19 de outubro de 1739. Sua esposa, que assistiu à execução, morreu pouco tempo depois.

🎭 Obra e características

Sua produção teatral rompeu com os modelos eruditos e rígidos da época, aproximando-se da linguagem e do imaginário do povo. Suas peças eram espetáculos completos, com diálogos, cenas de ação, árias e música, assemelhando-se a óperas cômicas — razão pela qual é também reconhecido como precursor da modinha e da música cênica em língua portuguesa. A maior parte das partituras se perdeu; apenas as letras e algumas composições de seu parceiro, o músico António Teixeira, chegaram até nós.

Principais peças

  • Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança (1733)
  • Esopaida ou Vida de Esopo (1734)
  • Os Encantos de Medeia (1735)
  • Anfitrião ou Júpiter e Alcmena (1736)
  • Labirinto de Creta (1736)
  • As Variedades de Proteu (1737)
  • Guerras do Alecrim e da Manjerona (1737) — sua obra mais célebre
  • Precipício de Faetonte (1738)
  • El Prodígio de Amarante (escrita em espanhol)
Escreveu também poemas de feição barroca e manuelina. O conjunto de suas peças foi publicado pela primeira vez em 1744, na coletânea Theatro comico portuguez, e redescoberto e reeditado no século XX.

📜 Legado e homenagens

A trajetória de António José da Silva permanece como símbolo da liberdade de expressão e da intolerância religiosa:
  • É patrono da cadeira nº 14 da Academia Brasileira de Letras;
  • Sua vida inspirou obras como o romance O Judeu (1866), de Camilo Castelo Branco; a peça teatral homônima (1966), de Bernardo Santareno; e o filme luso-brasileiro O Judeu (1995), dirigido por Jom Tob Azulay;
  • Em 2007, foi criado o Prêmio Luso-Brasileiro António José da Silva, para incentivar a dramaturgia;
  • Em 2010, Portugal emitiu um selo postal com sua imagem e uma cena de Guerras do Alecrim e da Manjerona, na série Teatro em Portugal.

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