Foto: Crianças da Família Souza e amigos a espera para utilizar o banheiro.
CLÉVENA MAGALI DE SOUZA TESEROLI
O meu pai começou a ir para a Ilha do Mel na década de 1920. Íamos sempre em julho, no inverno, e ficávamos um mês. Nós íamos de trem e pegávamos a lancha em Paranaguá. Não existia ainda em Pontal do Sul. Alugávamos uma lancha e íamos passando pela Ilha das Cobras até a ponta da Ilha, e descíamos em frente à casa. A gente pulava da lancha para a canoa e vinha, mas era difícil por causa da arrebentação, muitas ondas fortes.
Havia também o trapiche. Quando descia no trapiche, quase na ponta da Ilha, tinha o caminhãozinho e também a carrocinha com um cavalo, do filho do Diamantino. O Diamantino era lá em Brasília. Mais tarde a gente já ia por Pontal; a firma do meu pai tinha um caminhãozinho, e a gente ia sentado nos bancos, com as bagagens até Pontal.
OS PREPARATIVOS E A INFRA-ESTRUTURA DA ILHA
Criávamos porco em casa e matávamos uns quinze dias antes, fazendo latas de banha. Fazia uma fritada na costela e outras carnes e enterrava na lata de banha. Eram umas quatro latas, porque naquele tempo não existia azeite. A lingüiça se fazia em casa em casa, lá em Piraquara. Colocava em girau, pendurada com uma fogueira em baixo. E a lingüiça ia pingando e 1 3 pingando e defumava, ficava seca. A gente levava aquela lingüiça, levava “cudiquim”, o nome de queijo de porco. Nós temos na aldeia lá de Portugal essa receita. Era isso que a gente cortava para comer com café, não tinha manteiga, era banha que se passava no pão.
Não tinha luz, não tinha nada lá na ilha! A água era de lata. O pessoal nativo trazia a água, que vinha em barril e eles vendiam, traziam em carrinho de mão. A água era cara, vinha da fonte lá da Fortaleza. O banho era de canequinha e não era com aquela água, esta era apenas para cozinhar e beber. Tinha um gosto ruim, parecia água de iodo. Eu colocava limão pra disfarçar um pouco. Nós trazíamos um engradado de suco de uva, e os outros tomavam o suco. Eu não gostava, então bebia só com limão.
A uva era lá de casa, da fazenda. Nós fazíamos nos tachos, a geléia de uva e os sucos. Engarrafava tudo e tinha um aparelho para fechar a tampinha. Depois, fervíamos tudo para conservar e levávamos para ilha.
DIVERSÕES
Nossas brincadeiras eram jogar vôlei e baralho (escopa). Havia também os bailes no hotel. A gente se arrumava. Sempre levava umas saias, porque naquele tempo não se usava calça comprida, era saia. No dia do baile colocava uma vela em cima de duas latas de arroz (não existia plástico) e arrumava o espelho encostado na parede e se pintava, se ajeitava para ir ao baile.
Quando a gente escutava os foguetes, é que ia começar. Daí, saíamos ligeiro pela praia para ir lá. Mas o pai ia junto!
Nós não usávamos sapato de salto; eram sapatos feios que se tinha naquela época. O pai levava a gente, dançava primeiro com cada uma de nós e depois é que os moços podiam vir tirar a gente.
OUTROS TEMPOS
Nos tempos da guerra foi difícil pra gente, de 39 até 45. Nesse período não íamos mais com os italianos amigos nossos, que tinham casas lá; os Cale, os Zagonel, a Ritma.
O exército usou as casas deles. Ao lado da nossa casa tinha a casa de um tenente, que foi invadida. Nós tínhamos medo do canhão. Uma vez até deram um tiro de canhão, quando um navio vindo da Argentina passou. Estávamos lá quando eles atiraram. Foi aquela correria na Ilha do Mel, o tiro foi de um canhão lá de cima do morro da Fortaleza.
Havia holofotes e também o jipe do exército. No Forte era o quartel, com uns oitenta a cem soldados. Diziam que havia rádio na casa dos alemães, que tinha um fundo falso e lá havia um rádio que eles transmitiam para a 1 4 Argentina. Porque a Argentina era favorável à Guerra, aos alemães.
Então esse foi um tempo difícil. A gente levava açúcar mascavo, não era açúcar branco, verdura, cenoura. A gente fazia um buraco e enterrava todas as cenouras com o cabinho pra fora, para conservar. O chuchu, também, enterrávamos ao lado da casa que dá para o Farol, de onde o vento vinha. De um lado da casa era a Fortaleza e batia Sol, e do outro lado era o Farol, de onde batia o vento.
UM EPISÓDIO MARCANTE
Uma vez um avião caiu. Às vezes tinha gente, alemães ou italianos, depois da guerra, quando o exército já tinha saído e eles voltaram pra ilha. Eles vinham de teco-teco, como dizia na época. Desciam ali na praia, que agora está pequena, mas na época era enorme a praia! Com o binóculo a gente observava os navios que passavam bem perto. Porque era fundo ali, o navio passava no Farol, em frente da nossa casa, dia e noite. Lindos! Cargueiros. Era difícil passar um de passageiros, naquele tempo era mais navio cargueiro.
A FORTALEZA E AS FESTAS NA CAPELA
Nós íamos sempre brincar na Fortaleza, naquelas pedras de fora. Depois que a maré começou a encher a gente começou a passar do lado de lá da Fortaleza. Tinha uma escada para passar por cima, de tronco de árvore, bem simples.
Havia uma festa na Igreja que ficava do lado de lá, que acontecia em julho. Para chegar lá tinha que passar por cima da Fortaleza. Todos se lembram do andor que nós tínhamos que passar por cima da Fortaleza. Nós seguíamos no de Santo Antônio, pois queríamos casar!
CORRESPONDÊNCIAS, DOCES E SERENATAS
O correio era na casa do Sr. Domingos, um nativo. A mala do correio vinha na lancha e a casa dele era bem perto da Fortaleza. Quando chegava, todas as moças estavam na porta, esperando as cartas dos namorados. Mas era outra coisa!
Havia as serenatas quando se fazia amor em pedaços para servir. Tinha as cocadas da Quinota, que morava perto do seu Domingos. Uma delícia as cocadas! Depois começaram as balas de banana no Diamantino, já na década de 1960.
Texto baseado no depoimento de Clévena Magali de Souza Tesseroli, 72 anos.