EM TEMPOS DE EPIDEMIA ...
Entre 1890 e 1900, as diversas epidemias de febre amarela, varíola, peste bubônica, impaludismo (malária), disenteria, febre tifóide e outras doenças ceifaram em Santos milhares de indivíduos residentes ou de passagem. As razões dos surtos dessas epidemias estavam na falta de um fiável abastecimento de água potável e na ausência total de uma rede de esgotos.
O registro de um caso, relatado por Hans Jorgensen, imediato do veleiro Guidin Star:
"Em 1888, um oficial de navegação de nacionalidade sul-africana, imediato do veleiro de dois mastros Guiding Star, descreveu a viagem de seu navio até o porto de Santos para o carregamento de uma partida de café. Chegando ao porto santista em março daquele ano, o jovem oficial surpreendeu-se com a existência de mais de 50 embarcações ancoradas no estuário, algumas das quais aí estavam desde alguns meses! A origem deste fato devia-se à disseminação de uma epidemia de febre amarela que naquela época assolava a região.
À medida que as embarcações chegavam ao porto e aguardavam vaga para carga ou descarga nos precários trapiches de madeira, seus tripulantes iam sendo contaminados pela doença, e assim, lentamente, não havia mais número suficiente de homens para levar os veleiros para fora. Abandonados por sua tripulação, estes navios ficavam meses e meses fundeados, à espera de uma outra solução qualquer.
O Guiding Star teve melhor sorte, pois seu capitão conseguiu embarcar umas 600 sacas de café e, na falta de braços para carregar outras e considerando-se a precária situação sanitária da cidade e do porto, decidiu zarpar rapidamente para longe daquele inferno.
O veleiro cruzou em seguida o Atlântico Sul e três semanas mais tarde escalou no porto da Cidade do Cabo (África do Sul). Depois de novo carregamento, o Guiding Star zarpou com destino a Batavia, capital da ilha de Java (atual Jacarta), então possessão holandesa. A cerca de 500 milhas (926 quilômetros) de seu destino, o Guiding Star foi alcançado pela tragédia da doença. Inicialmente, morreram subitamente dois marinheiros; no dia seguinte, um outro, com febre delirante, jogou-se ao mar e no terceiro dia o próprio capitão e dois outros marinheiros também faleceram.
A tripulação do pequeno veleiro era de tão somente dez homens e, nessa altura, só sobravam quatro: um cozinheiro francês, dois marinheiros ingleses e o próprio Jorgensen. Mais 24 horas transcorridas e só o jovem imediato e um marinheiro estavam vivos.
Enquanto isso, o Guiding Star, verdadeiro navio-fantasma, derivava nas águas do Oceano Índico. Jorgensen só se recorda de que, imóvel em seu beliche, febril e aguardando a morte, viu de repente, entre torpor sonolento e realidade, aparecerem dois homens robustos e o carregarem para o convés.
O Guiding Star acabara de ser localizado por um outro veleiro, o Lancefield, de bandeira norte-americana, e os dois homens eram seus marinheiros. Com o auxílio do Lancefield, o Guiding Star foi levado até Batavia e lá, naquele porto, ao chegar, os dois marinheiros norte-americanos também foram vítimas do mesmo mal. Jorgensen, ainda vivo, deu o alarme da doença e as autoridades locais decidiram interná-lo em quarentena e pôr fogo no Guiding Star, com carga e tudo o mais.
Boicote - De 1887 a 1892, isto é, por cinco anos, várias empresas de navegação boicotaram a utilização do porto de Santos e seus navios foram desviados para o Rio de Janeiro. Uma das empresas que agiram assim foi a Messageries Maritimes (MM).
Consciente dos graves perigos à vida de seus homens, a armadora deixou de escalar seus vapores em Santos a partir de 1888, tocando somente o Rio de Janeiro. Tal decisão perdurou por bem quatro anos e foi somente após o aparecimento dos primeiros metros de cais de pedra e cimento da Companhia Docas de Santos que a armadora voltou ao porto santista, no final de 1892. Em 1899, foram feitos os primeiros trabalhos de construção de canalização de esgotos, sistema ainda primitivo, que não resolveu o problema por inteiro. [...]"