CASINO AHÚ: O GRANDE PALCO DA ELEGÂNCIA, DA ARTE E DA VIDA SOCIAL – CURITIBA, AGOSTO DE 1940
CASINO AHÚ: O GRANDE PALCO DA ELEGÂNCIA, DA ARTE E DA VIDA SOCIAL – CURITIBA, AGOSTO DE 1940
Um retrato completo e fiel de uma era, onde o entretenimento, a cultura, o comércio e os costumes se entrelaçaram no coração da capital paranaense
INTRODUÇÃO: O “GRAN-FINA” E O TEMPO DE OURO DO CASINO AHÚ
Agosto de 1940 marca um capítulo inesquecível na história de Curitiba. Nas páginas da publicação oficial Gran-Fina, distribuída como publicidade do Casino Ahú, o espaço surge não apenas como uma casa de jogos e diversões, mas como o verdadeiro centro gravitacional da vida social, artística e econômica da cidade. A frase que abre a primeira edição — “Onde se realiza o ‘Big-Parade’ das Elegâncias” — define sua essência: um lugar onde o requinte, a arte e o encontro entre pessoas transformaram-se em símbolo de uma Curitiba que crescia, se modernizava e abria-se ao mundo.
Este artigo reúne todos os detalhes presentes nas edições apresentadas, sem omissões, traçando um painel amplo e fiel de um período em que o Ahú foi o palco principal de tudo o que acontecia de mais importante na capital paranaense.
1. O EMPREENDIMENTO: PROJETO, ESTRUTURA E PROPÓSITO
A criação e administração do Casino Ahú coube à Empresa Desportiva Serrate & Cia Ltda., que concebeu o complexo com um propósito claro: oferecer ao público curitibano um espaço que combinasse conforto, segurança, qualidade técnica e excelência no entretenimento.
A publicação detalha que a construção utilizou materiais de primeira linha: estrutura em madeira de lei, alvenaria sólida, acabamentos cuidadosos e instalações projetadas para receber grandes plateias. O projeto foi pensado para ser versátil: abrigar orquestras, espetáculos de dança, eventos de gala, jogos e encontros sociais, mantendo sempre o padrão que o tornou referência em todo o Sul do Brasil.
Além disso, a administração adotou princípios de seriedade: a programação era renovada quase semanalmente, com contratos firmados diretamente com artistas e empresas, e os preços das mesas eram mantidos “ao preço comum”, garantindo acessibilidade sem perder a qualidade. A casa funcionava todos os domingos, com premiações que chegavam a 3.000$000 réis, além de serviço de bar e restaurante.
2. O ELENCO ARTÍSTICO: UMA VITÓRIA PARA A CULTURA CURITIBANA
Como destaca a manchete “O Elenco do Casino – Já constitui uma vitória artística”, a curadoria do Ahú reuniu nomes que jamais haviam passado por Curitiba, elevando a cena cultural local a um patamar nacional e internacional.
As atrações e os detalhes de cada apresentação
- Dança e espetáculo: As bailarinas Mary e Alba eram destaque de público e crítica, com coreografias que misturavam dança clássica e números populares. Já Tio Schipa tinha suas apresentações classificadas como “ansiosamente esperadas”, com uma trajetória consolidada nas artes cênicas.
- A grande temporada de Francisco Canaro: O evento mais impactante de todo o período foi a vinda do maestro argentino Francisco Canaro, lenda do tango mundial. Ele se apresentou nos dias 26, 27 e 28 de agosto, acompanhado de sua orquestra completa e dos cantores Ernesto Famá e Francisco Amôr. A reportagem “O Êxito Formidável de Canaro na Cidade Sorriso” registra salas absolutamente lotadas, plateias que se emocionaram do início ao fim e elogios unânimes da imprensa — o espetáculo foi considerado um marco histórico para a música em Curitiba.
- Talentos locais e nacionais: O espaço também deu espaço a nomes que construíram a identidade cultural brasileira: o humorista Juan Daniel, o compositor e cantor Bady Bassit, o artista e escritor Aristeu Mendes, além de textos literários como “A Arte de Ser Feliz”, que traziam reflexões sobre valores e comportamento.
- Samba e cultura popular: A programação contou ainda com “Duas Estrelas do Samba”, trazidas diretamente do Rio de Janeiro, com apresentações que misturavam ritmo e alegria, mostrando que o Casino Ahú unia elegância e brasilidade.
- Outras atrações: Foram mencionados ainda nomes como Leda Lopes, dançarina que encantou o público com sua técnica, e o pianista Francisco Casal, além de espetáculos com Hugo Guedes e outros artistas consagrados.
3. VIDA SOCIAL, MODA E COSTUMES: O QUE ERA SER ELEGANTE EM 1940
As páginas de Gran-Fina revelam com riqueza de detalhes como vivia, se vestia e se relacionava a sociedade curitibana da época.
Moda e consumo
A coluna “Da Elegância – Seja Bem Arranjada” reforça que a vestimenta era reflexo de educação e bom gosto. Para atender a essa demanda, o Empório Louvre, localizado em ponto nobre da cidade, se apresentava como “o maior e mais sensacional empório de sedas e lãs do Sul do Brasil”, com tecidos nacionais e importados. Outros estabelecimentos aparecem com valores exatos da época:
- Chapéus: de 4$000 a 20$000 réis;
- Camisas: de 5$000 a 12$000 réis;
- Calçados: de 9$000 a 39$000 réis.
Reflexões sobre comportamento
- “A Dama Esguia”: Texto que reflete sobre a postura da mulher nos eventos, a discrição e a elegância como valores centrais.
- “A Arte de Ser Feliz”: Coluna que discute que a felicidade não vem da ostentação, mas da sabedoria e do equilíbrio — com a frase marcante: “Não tem balanço mas tem sabedoria”.
- “Nasceu perto do Vesúvio”: Perfil de um artista que levou a tradição italiana para os palcos curitibanos.
Bebidas e gastronomia
As noites no Ahú eram acompanhadas por marcas que faziam parte da identidade brasileira:
- Brahma Rainha: Com o slogan icônico “Beber… logo se adivinha, sómente Brahma Rainha!”;
- Cerveja Atlântica: Com a frase “Toda cerveja é bôa… se trouxer no rotulo a ancora encarnada da Atlântica”;
- Hotel dos Viajantes: Oferecia jantares e serviço noturno, com atendimento dirigido por profissionais experientes.
4. O COMÉRCIO, OS SERVIÇOS E A GEOGRAFIA DE CURITIBA EM 1940
Os anúncios e notas espalhados pelas páginas formam um mapa detalhado da cidade, com endereços e atividades que revelam seu desenvolvimento:
- Botelho de Souza: Oficina Eletro-Mecânica, instalações elétricas em geral, localizada na Rua São Francisco, 185;
- 2º Tabelião: Situado na Praça Tiradentes, 500;
- Casa São Paulo: Comércio de vestuário e acessórios, na Rua XV de Novembro, 160;
- Hotel dos Viajantes: Rua Elizeu Pereira, 64, com telefone 3599;
- Frivola-City: Espaço de diversões e entretenimento complementar, mencionado ao lado do sucesso de Francisco Canaro.
Todos esses negócios prosperaram graças ao fluxo de pessoas atraídas pelo Casino Ahú, transformando o espaço em um verdadeiro motor econômico da região.
5. CONCLUSÃO: O LEGADO DO CASINO AHÚ
Mais de 85 anos depois, esses registros nos permitem reconstruir um tempo em que o Casino Ahú foi muito mais do que uma casa de jogos. Ele foi:
✅ O palco da maior expressão artística internacional e nacional já vista na região até então;
✅ O ponto de encontro da alta sociedade, mas também espaço de valorização da cultura popular;
✅ Um símbolo do progresso e da modernização de Curitiba — a “Cidade Sorriso”;
✅ Um agente de desenvolvimento econômico, que movimentou comércio, hotelaria e serviços;
✅ O guardião de costumes, valores e da identidade de uma cidade que sabia receber e brilhar.
As páginas amareladas de Gran-Fina não guardam apenas anúncios e notícias: elas preservam a memória de um lugar que fez história, de artistas que marcaram gerações e de uma Curitiba que, mesmo em meio a um mundo em transformação, soube cultivar a elegância, a alegria e o amor pela arte. O Casino Ahú vive, hoje, na história da capital paranaense — como um marco de um tempo em que o espetáculo e a vida se encontravam a cada noite, sob as luzes que iluminaram o coração da cidade.
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