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domingo, 6 de setembro de 2026

Pedro Vaz de Barros: O Patriarca dos Sertanistas e a Dinastia dos "Barros" no Brasil Colonial

 

Pedro Vaz de Barros
Nascimento1581
Algarve Portugal
Morte1644
Progenitores
  • Jerónimo Pedroso
  • Joana Vaz de Barros
Filho(a)(s)Luzia Leme de Barros
Irmão(ã)(s)Antonio Vaz de Barros
ReligiãoJudaica

Pedro Vaz de Barros (Algarve, 15811644) foi um destacado bandeirante português do início do século XVII, que se notabilizou como um dos maiores sertanistas de sua época. Nascido em 1581 no Algarve, Portugal. Proveniente de uma família judaica, ele era filho de Jerónimo Pedroso e Joana Vaz de Barros, e irmão de Antônio Vaz de Barros. Em 18 de agosto de 1603, Pedro foi nomeado capitão-mor governador da capitania de São Vicente. Retornou a Portugal em 1605, mas logo voltou ao Brasil, onde se casou com Luzia Leme, filha de Fernando Dias Pais e Lucrécia Leme. Estabeleceu-se com uma fazenda em Pinheiros e possuía também o sítio de Itacoatiara, além de um grande número de escravos índios.[1] Em 1605 voltou para Portugal, mas retornaria ao Brasil.

Fez nova bandeira em agosto de 1611 com autorização de D. Luís de Sousa à região do Guairá, assaltando no final do ano a redução jesuítica de Paranambaré, ou Paranambu, e apresando 500 índios. Trazia os índios para São Paulo quando foi atacado pelo militar espanhol D. Antonio de Añasco, que lhe retomou a presa.

Em 1615 voltou outra vez à região do rio Paraná e Guairá e de novo em 1623. Sebastião Preto, ali morto, e seu irmão Manuel Preto, haviam descoberto a vantagem de prender índios aldeados, já com hábitos de trabalho rural. Além do rio Tietê e do rio Paraná surgiam como outras vias as Sete Quedas, o «caminho do Piabiru« ou das cabeceiras do rio Paranapanema às do rio Ivaí e por este ao Piquiri e ao Paraná.

Era irmão de Antônio Pedroso de Barros. Foi vereador em 1619, capitão da vila em 1624, grande bandeirante (com famosa bandeira desde 1603), pois socorrera Santos quando de ataques corsários em 1614 e 1626, dono da Fazenda de criar gado do rio Pequeno desde 1640.

Sua descendência é descrita por Luís Gonzaga da Silva Leme no volume III de sua «Genealogia Paulistana», pg. 442. Diz este autor:

« Pedro Vaz de Barros e seu irmão Antônio Pedroso de Barros foram pessoas de qualificada nobreza e vieram ao Brasil providos, Antonio em capitão-mor da capitania de São Vicente e São Paulo, e o irmão Pedro Vaz de Barros em ouvidor da mesma capitania, com cláusula que, falecendo Antônio Pedroso, fosse capitão-mor governador e também ouvidor o irmão Pedro Vaz, e falecendo este acumulasse Antônio Pedroso os dois cargos, como se vê da carta patente passada em Lisboa em 1605, pela qual tomou posse Antônio Pedroso na câmara de São Vicente em 1607, que está registrada no arquivo da câmara de S. Paulo.

Porém, Pedro Vaz de Barros já tinha vindo a São Paulo muito antes daquelas épocas, pois consta que era capitão-mor governador da dita capitania pelos anos de 1602 (Cart. da provedoria da fazenda real, e arquivo da câmara de S. Paulo). Neste arquivo da câmara de S. Paulo se vê que para se tomar um assento em câmara sobre a vinda de quatro soldados espanhóis de Vila Rica do Espirito Santo da província do Paraguai, foi neste ato presidente Pedro Vaz de Barros, como capitão-mor governador de S. Paulo. Caderno de vereanças tit. 1601).

No cartório do tabelião da vila de São Vicente se acham autos de justificação de nobilitate probanda, titulo, o capitão Valentim de Barros, nascido em 1643, e escrivão deles o tabelião Antonio Madeira Salvadores. E também os autos de justificação do capitão Fernão Pais de Barros, ano de 1678, escrivão deles o mesmo tabelião Salvadores. Destes dois autos consta que Pedro Vaz de Barros viera à capitania de São Vicente em serviços da coroa, e que, voltando ao reino, tornara à mesma capitania, provido em capitão-mor governador dela. Que seu irmão Antônio Pedroso viera à vila de São Vicente, onde chegara com o tratamento de homem nobre, trazendo criados brancos que o serviam, e casara na dita vila com uma filha de Jerônimo Leitão que tinha sido capitão-mor governador da capitania de São Vicente, em cuja vila ficara sendo morador dito Antônio Pedroso de Barros. Deste matrimonio há descendência na vila de São Vicente, conhecida nos Pedrosos Barros.

Estes dois irmãos Antonio Pedroso e Pedro Vaz (pelos autos referidos) eram naturais do reino do Algarve, de onde passaram a ser moradores de Lisboa. Nesta corte tiveram um primo direito, que foi o licenciado Antônio de Barros, presbítero secular e capelão que foi de el-rei. Este Padre Antônio de Barros teve duas irmãs: Helena de Mendonça e Maria de Mendonça, casadas com pessoas cavalheiras; elas fundaram na vila de Almada o convento de Nosssa Senhora da Piedade, onde se recolheram ditas fundadoras, que também foram irmãs de Jerônimo Lobo e de Antônio Lobo, que, seguindo o real serviço na milícia, foram ambos despachados para a Índia. Destes mesmos foi irmão frei José de Jesus Maria, religioso da Cartuxa, como consta dos referidos autos, de que se deu instrumento a Fernão Pais de Barros, registrados em 1762 na câmara de S. Paulo."

Casamento e posteridade

O capitão-mor governador Pedro Vaz de Barros faleceu com testamento em 1644 e foi casado com Luzia Leme, falecida em 1655, filha de Fernão Dias Paes e de Lucrécia Leme. Filhos:

«Nesta sua capela teve sua maior assistência. Foi a sua casa e fazenda uma povoação tal que bem podia ser vila, e ainda hoje as casas que foram de sua residência servem de padrão que lhe acusam a maior magnificência, como obra daquele tempo. Teve muito grande tratamento, correspondente aos grossos cabedais que possuía, entre cujos móveis teve uma copa de prata de muitas arrobas. A sua casa era diariamente freqüentada de grande concurso de hóspedes, parentes, amigos e estranhos, que todos concorriam gostosos a fazer-lhe uma obsequiosa assistência. Todos eram agasalhados com grandeza daquela mesa, na qual com muita profusão havia pão e vinho da própria lavoura, e as iguarias eram vitelas, carneiros e porcos, além das caças terrestres e voláteis, das quais os seus caçadores atualmente conduziam com fartura, e por isso de tudo havia com abundância, e com tanta prevenção que, a qualquer hora da tarde que chegavam novos hospedes, estava a mesa pronta, como se para estes fora conservada. Foi cognominado - Grande - chamando-se-lhe assim pelo idioma brasílico: - Pedro Vaz Guaçu.»
A ele dirigiu o rei uma carta pedindo seu auxilio a frei Pedro de Sousa que em 1682 fora incumbido de examinar as minas de ouro, prata e cobre no termo da vila de Sorocaba. Continua Taques: « O seu nome foi respeitado em todo o Brasil com veneração. Governando a cidade da Bahia Alexandre de Sousa Freire, escreveu este a Pedro Vaz de Barros em 1669, expondo-lhe os danos e hostilidades que experimentavam os moradores do recôncavo da Bahia dos bárbaros índios que, em repetidos assaltos, iam acabando aos ditos moradores, pedindo-lhe quisesse ir de socorro para conquistar os reinos dos ditos bárbaros, e fazer nisto particular serviço a S. Majestade, e resgatar a Bahia da infecção destes índios. Teve efeito este socorro no mês de Maio de 1671, em que na vila de Santos se embarcou a recruta desta gente que, chegando à salvamento à Bahia, penetraram o sertão, onde conseguiram tão feliz vitória contra os bárbaros que o governador geral se antecipou a dar conta dela em 1673 aos oficiais da câmara de S. Paulo, para que aplaudissem a glória dos seus naturais, que inteiramente tinham destruído os principais reinos e aldeias, que havia muitos anos, infeccionavam aquele estado. Destruídos os inimigos, morreram dos prisioneiros acima de 800 homens no mesmo sertão de uma quase peste, e só chegaram a cidade 1.500, os quais foram repartidos pelos soldados e cabos de guerra, (da qual tinha sido encarregado com caráter de governador Estêvão Ribeiro Baião Parente) na forma do assento que antes desta guerra se havia tomado sobre o cativeiro destes inimigos, com presidência do Governador geral do mesmo Estado, depois de ouvidos os teólogos que na matéria deram o seu voto.»
Comenta Taques: Tal era a moral e direito das gentes daquele tempo. Mas sem o interesse do serviço dos índios não teriam feito os paulistas tão dilatadas e pasmosas jornadas pelo sertão, que ocasionaram os descobrimentos que hoje estão povoados. «Pedro Vaz de Barros tinha mais de 1.200 índios e índias, alem da sua família, na sua fazenda de São Roque.»
Morreu em São Paulo em 1695. Deixou 15 telas no espólio, que totalizava 3.319$986; três quadros, cujos assuntos não se descrevem, foram avaliados em 4$800, e 12 «painéis de madamas» avaliados em 2 cruzados cada. Seriam composições de moda, abrejeiradas, figurinos franceses do fim do século XVII?
Não foi casado mas deixou nove filhos bastardos que seguem, de diversas mulheres, como consta do seu inventário em 1676. Foram eles:
(1) Brás Leme de Barros, filho da mameluca Justina;
(2) Joana Vaz de Barros, filha da mameluca Justina;
(3) Maria Vaz de Barros (filha da mameluca Justina;
(4) Isabel, filha de Catarina;
(5) Lourença, filha de Teresa;
(6) Margarida, filha de Rufina;
(7) Mariana, filha de Maria;
(8) Páscoa de Barros (filha de Bárbara do Amaral) e
(9) Leonor, idem.
Brás Leme de Barros foi instituído herdeiro do grande cabedal de seu pai, e casou com sua prima irmã Iñácia Pais de Barros filha bastarda de Fernão Pais de Barros e de uma crioula de Pernambuco; Inácia casou, ao enviuvar, com o sargento-mor João Martins Claro.

Referências

  1. «Governadores de São Paulo». Biblioteca Virtual. Consultado em 13 de Janeiro de 2013. Arquivado do original em 10 de novembro de 2012

Pedro Vaz de Barros: O Patriarca dos Sertanistas e a Dinastia dos "Barros" no Brasil Colonial

Pedro Vaz de Barros (Algarve, 1581 — São Paulo, 1644) consolidou-se como uma das figuras mais influentes e complexas do início do século XVII na capitania de São Vicente e São Paulo. Sertanista de projeção, capitão-mor e rico proprietário de terras, sua trajetória mistura-se com a própria expansão territorial da colônia, a dinâmica das bandeiras de aprisionamento indígena e a formação de uma poderosa rede nobiliárquica paulista de origem cristã-nova.

Origens e Chegada ao Brasil

Nascido em 1581 na província portuguesa do Algarve, Pedro Vaz de Barros era filho de Jerónimo Pedroso e Joana Vaz de Barros, além de irmão de Antônio Pedroso de Barros. A família possuía raízes judaicas, inserindo-se na ampla teia de cristãos-novos que migraram para o ultramar português em busca de novas oportunidades e refúgio contra as perseguições da Inquisição europeia.

Documentos históricos e registros genealógicos — como os compilados por Luís Gonzaga da Silva Leme em sua Genealogia Paulistana e por Pedro Taques de Almeida Pais Leme na Nobiliarquia Paulistana — detalham que os irmãos chegaram ao Brasil providos de cargos oficiais da Coroa:

  • Antônio Pedroso de Barros assumiu como capitão-mor e governador da capitania de São Vicente e São Paulo.

  • Pedro Vaz de Barros atuou inicialmente em missões administrativas e militares, sendo nomeado capitão-mor governador da capitania em 18 de agosto de 1603 (e exercendo funções similares em períodos subsequentes, como atestam registros da câmara de São Paulo de 1601 e 1602).

Após idas e vindas a Portugal — incluindo um retorno ao reino em 1605 —, Pedro fixou residência definitiva no planalto paulista. Casou-se com Luzia Leme, filha do bandeirante Fernão Dias Pais e de Lucrécia Leme, estabelecendo uma sólida aliança com as principais estirpes locais. Com o casamento, passou a administrar extensas propriedades, como a fazenda em Pinheiros e o sítio de Itacoatiara, contando com a força de trabalho de centenas de escravizados indígenas.

A Atividade Sertanista e as Bandeiras ao Guairá

Como capitão-mor e sertanista, Pedro Vaz de Barros liderou expedições de grande impacto estratégico e humano. Em agosto de 1611, munido de autorização oficial de D. Luís de Sousa, organizou uma bandeira rumo à região do Guairá (atual território paranaense e fronteiriço com o Paraguai).

No final daquele ano, sua tropa atacou a redução jesuítica de Paranambaré (ou Paranambu), aprisionando cerca de 500 índios. Contudo, o retorno a São Paulo foi marcado por conflitos geopolíticos locais: o bandeirante foi interceptado pelo militar espanhol D. Antonio de Añasco, que conseguiu retomar a presa indígena.

Apesar dos reveses, as rotinas de penetração no sertão intensificaram-se nas décadas seguintes, com novas incursões à bacia dos rios Paraná e Tietê em 1615 e 1623. Os paulistas logo perceberam as vantagens econômicas de capturar índios aldeados que já possuíam hábitos de trabalho agrícola — uma estratégia mortal para as missões jesuíticas da região e devastadora para as populações nativas. Essas expedições utilizavam rotas históricas como:

  • O sistema fluvial dos rios Paranapanema, Ivaí, Piquiri e Paraná.

  • O célebre Caminho do Peabiru, antiga rota transcontinental que ligava a costa atlântica ao interior sul-americano.

Atuação Política e Defesa da Costa

Além de suas jornadas pelo interior, Pedro Vaz de Barros desempenhou papéis de relevo na administração civil e na defesa militar da costa vicentina:

  • Atuou como vereador em 1619 e capitão da vila em 1624.

  • Destacou-se no socorro à vila de Santos durante os ataques de corsários estrangeiros que ameaçavam a costa nos anos de 1614 e 1626.

  • Consolidou seu patrimônio rural, tornando-se proprietário da Fazenda de criação de gado do Rio Pequeno a partir de 1640.

Faleceu em 1644, deixando testamento e uma vasta descendência legítima e ilegítima que moldaria a aristocracia rural paulista.

Posteridade e o Legado de Pedro Vaz de Barros, o "Grande"

Do matrimônio com Luzia Leme nasceram vários filhos, com destaque para o homônimo Pedro Vaz de Barros, alcunhado de "O Grande" (ou Pedro Vaz Guaçu, em referência ao idioma tupi), cuja relevância histórica e econômica superou a de seu pai.

Pedro Vaz de Barros, o "Grande" (Guaçu)

Fixado na região entre Parnaíba e Sorocaba, este opulento fazendeiro foi o fundador e padroeiro da capela de São Roque, núcleo que daria origem ao atual município homônimo de São Roque, além de influenciar o surgimento do povoado de Cotia.

Segundo Pedro Taques, a residência de Pedro Vaz "o Grande" funcionava como um centro de vastíssima hospitalidade, ostentando cabedais colossais, pratarias pesadas e uma força de trabalho estimada em mais de 1.200 índios e índias em sua fazenda. Sua influência militar e política ultrapassou os limites de São Paulo:

  • Em 1669, o governador da Bahia, Alexandre de Sousa Freire, enviou-lhe uma carta solicitando socorro urgente para conter revoltas e ataques de indígenas hostis que dizimavam os moradores do Recôncavo Baiano.

  • Em maio de 1671, partiu de Santos uma recruta comandada por paulistas (com Estêvão Ribeiro Baião Parente encarregado da chefia militar) que penetrou o sertão baiano, subjugando os grupos nativos em uma campanha de drásticas consequências demográficas e humanas.

Pedro Vaz "o Grande" faleceu em São Paulo em 1695, deixando um espólio valioso — que incluía telas e quadros de feição europeia — e nove filhos bastardos reconhecidos em testamento (fruto de relações com mulheres nativas e mamelucas), entre os quais Brás Leme de Barros, instituído herdeiro de seu grande patrimônio.

Outros Ramos e Descendentes

A prole legítima e os irmãos de Pedro Vaz de Barros garantiram a perpetuação do sobrenome e das alianças familiares entre os magnatas da terra (os chamados "homens bons" de São Paulo), mantendo forte presença em cartórios, câmaras municipais e frentes de desbravamento territorial até o final do século XVII e o alvorecer do ciclo do ouro.