sábado, 17 de abril de 2021

A história da construção do Palácio Rio Branco

 


A história da construção do Palácio Rio Branco

Uma das primeiras imagens do Palácio Rio Branco, o antigo “Palácio do Congresso”, inaugurado em junho de 1891, mas concluído apenas em 1895. As janelas ainda não haviam sido instaladas. Vê-se à direita, a antiga garagem de bondes tracionados por mulas (Fo

O Palácio Rio Branco, sede da Câmara Municipal de Curitiba desde 1963, foi construído logo após a proclamação da República com o objetivo de ser a sede da Assembleia Legislativa do Estado. Os fatos políticos em torno da construção do prédio (cuja reinauguração acontecerá nesta semana, no dia 27 de março) são o tema do texto publicado agora pela Assessoria de Comunicação do Legislativo, como parte da pesquisa que há seis anos divulga a história de Curitiba.

Três fatores determinaram a construção do Palácio Rio Branco no final do século XIX: um relativo à política nacional e dois relativos a questões locais. O regime republicano, em vigor a partir de novembro de 1889, precisava marcar presença com edificações que representassem visualmente a instituição de uma nova fonte de poder político no Brasil. Havia também a real necessidade de um novo prédio para a Assembleia Legislativa, haja vista que a casa do Comendador Manoel de Moraes Roseira, antiga sede do poder legislativo estadual na Rua da Assembleia (atual Doutor Muricy), encontrava-se em estado precário – a construção era anterior a 1854.

Além disso, é necessário lembrar a acirrada rivalidade que contrapôs as duas forças políticas mais em evidência no estado do Paraná naquele momento: Conservadores (que sob a liderança de Vicente Machado fundaram o Partido Republicano) e Liberais (adeptos do sistema monárquico que se adaptaram ao novo regime político fundando a União Republicana, sob a chefia de Generoso Marques dos Santos), conforme esclarece Mônica Goulart em sua pesquisa de doutorado chamada “Classe dominante e jogo político na Assembleia Legislativa Paranaense”.

O Paraná foi governado durante os primeiros meses da República por sete políticos nomeados pelo Marechal Deodoro. Foi justamente neste período transitório, mais precisamente no dia 18 de outubro de 1890, que o engenheiro italiano Ernesto Guaita (radicado em Curitiba desde 1875) recebeu o convite para a direção das obras de um novo mercado, de um novo matadouro público e de um novo prédio para a Assembleia, conforme se verifica na edição do jornal “A República”, de 20 de novembro daquele ano. Neste documento constava a necessidade de que o novo prédio do Congresso Estadual (como era conhecida a Assembleia) fosse concluído em cinco meses. O engenheiro aceitou apenas a obra do Congresso, assinando o contrato uma semana após o convite na sede da Câmara Municipal, conforme relatou o mesmo jornal no dia 25 de novembro.

Prédio elegante
O convite feito ao engenheiro estava vinculado à disputa política entre os grupos de Vicente Machado e Generoso Marques. Machado, advogado natural de Castro, estava à frente de uma Comissão Administrativa que fora criada para prestar auxílio aos governadores nomeados – além de também ocupar os cargos de chefe de polícia e chefe da instrução pública, mas em pouco tempo ele se indispôs com um daqueles governadores provisórios, e acabou por ser afastado, numa circunstância que fortaleceu o grupo de Generoso Marques. Como havia a perspectiva da criação de uma Assembleia Constituinte Estadual e também da Assembleia Legislativa propriamente dita, Generoso articulou para que o novo prédio fosse construído no menor tempo possível, com o intuito de que sua inauguração coincidisse com a instalação das referidas assembleias (cujas lideranças ele previu serem suas).

De fato, com apoio do governador provisório José Cerqueira de Aguiar Lima, Generoso Marques se tornou o primeiro governador eleito do Estado e deu início às atividades da Assembleia Constituinte no novo prédio, que ainda não estava concluído. De qualquer modo, a edificação foi inaugurada com festas por Generoso em 30 de maio de 1891, conforme relata o jornal “Diário do Comércio” do dia posterior (grafia original):

“(...) Em vários pontos da rua da Liberdade erguiam-se arcos enramalhados com várias inscripções. Estavam embandeirados todos os edifícios públicos. O edifício em que funcciona o congresso é um prédio elegante, apropriado, banhado de luz e de ar, e que faz honra aos conhecimentos technicos do senhor doutor Ernesto Guaita. Installados os senhores congressistas nas respectivas cadeiras, declarou installado o Congresso o senhor Generoso Marques, cahindo então de um dos pontos da galeria esquerda muitas pétalas de flores, o que novamente succedeu logo após a terminação da leitura da mensagem feita pelo senhor secretário de governo. Apezar da crescida concurrencia de povo, correu tudo na melhor ordem e harmonia”.

Viva o Dr. Generoso!
O pesquisador Ricardo Costa de Oliveira, autor do livro “O silêncio dos vencedores”, lembra que o governo de Generoso (que também ocupava uma cadeira no Senado) durou pouco. Com a dissolução do Congresso Nacional pelo adoentado Marechal Deodoro em 3 de novembro de 1891, e sua posterior renúncia no dia 23, ergue-se a figura de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”, que dissolve todas as Assembleias Legislativas Estaduais (menos a do Pará). Generoso ainda tentou inutilmente manter as rédeas da situação no Paraná, inclusive com o uso de forças policiais, mas tudo em vão.

De acordo com o relato do escritor e memorialista Túlio Vargas, Generoso e seus correligionários foram cercados no prédio do quartel-general que ficava na Praça Tiradentes por tropas do Exército. Prevendo a chacina, Generoso decide entregar o poder sem resistência, mas, já na praça, o então deputado estadual Telêmaco Borba (sertanista e chefe político da cidade de Tibagi) soltou um grito insolente: “Viva o doutor Generoso!”. Apesar da ousadia, ninguém teve a coragem de prender  Telêmaco, conhecido por seu temperamento explosivo. Esta junta governativa foi substituída posteriormente com a eleição de Francisco Xavier da Silva e Vicente Machado. Sob o direcionamento do grupo político de Machado, uma segunda Constituição Estadual foi aprovada por nova assembleia constituinte em 7 de abril de 1892, e permaneceu em vigor até 1927.

Não fui eu, disse Vicente Machado
O prédio passaria por uma série de reformas e melhoramentos nos anos seguintes, sendo que tais obras foram brevemente interrompidas quando eclodiu a Revolução Federalista. Curitiba foi invadida por tropas revolucionárias gaúchas lideradas pelo coronel Gumercindo Saraiva, nos primeiros meses de 1894. Vicente Machado já não estava mais na cidade, cuja segurança teria sido garantida por Ildefonso Correia, o Barão do Serro Azul, que negociou com os invasores para que eles não ferissem os moradores ou depredassem os patrimônios públicos e privados. Esta atitude lhe custaria a vida por ocasião do retorno de Vicente Machado ao poder, em maio daquele ano. Generoso teve a oportunidade de assumir o governo do Estado, mas declinou em favor de Menezes Dória, inimigo histórico de Vicente Machado.

Segundo o escritor Rocha Pombo em seu livro “Para a História”, Curitiba ingressou em um período de “caça às bruxas” e, durante muito tempo, a população evitava sair às ruas com medo dos fuzilamentos e degolas promovidos pela polícia contra os supostos simpatizantes da Revolução Federalista. A degola era uma prática comum no período: basta lembrar o notório caso da jovem Maria Bueno, assassinada pelo amante um ano antes da invasão de Curitiba.

Maria José Correia, a Baronesa do Serro Azul, acusou Vicente Machado de ser o responsável pela morte de seu marido, executado com cinco companheiros no quilômetro 65 da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá em maio de 1894. Alguns dos primeiros discursos proferidos por Machado no Palácio do Congresso (que passou a funcionar sem uma reinauguração oficial) foram no sentido de negar tais acusações. Machado morreria de câncer em 1907. No ano seguinte, uma coalizão entre os dois grupos políticos (Conservadores e Liberais) garantiu a Generoso Marques uma sobrevida política que só veio a terminar dois anos antes de sua morte, em 1928.

O prédio construído pelo engenheiro Guaita foi sede da Assembleia até 1957, quando ela foi transferida para o Centro Cívico. Seis anos depois, a construção foi rebatizada Palácio Rio Branco, e passou a comportar as atividades da Câmara Municipal de Curitiba.

Facebook da Câmara Municipal
Em comemoração aos 321 anos da cidade, o Legislativo lançou nesta semana mais duas ferramentas de comunicação da Câmara de Curitiba. Visite a nossa nova página oficial no Facebook (www.facebook.com/CamaraCuritiba) e confira também fotos novas e antigas do Palácio Rio Branco no Flickr (www.flickr.com/photos/camaracuritiba). Lembrando que todo o conteúdo está na internet, em www.cmc.pr.gov.br, e no Twitter, www.twitter.com/camaracuritiba. 

Referências Bibliográficas:


Castro, Elizabeth Amorim de. Edifícios Públicos de Curitiba – Ecletismo e Modernismo na Arquitetura Oficial. Edição do Autor. Curitiba, 2011. (impresso)

Corção, Izabel; Carneiro, Newton e Lyra, Cyro Corrêa de Oliveira. O Palácio do Congresso – Câmara Municipal de Curitiba – Histórico e Restauração. Boletim da Casa Romário Martins, n. 23, ano 4. Fundação Cultural de Curitiba (FCC). Curitiba, 1978. (impresso)

Diário do Comércio, 30 de maio de 1891. Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional. Disponívem em http://hemerotecadigital.bn.br/

Goulart, Monica Helena Harrich Silva. Classe dominante e jogo político na Assembléia Legislativa Paranaense (1889-1930). Tese apresentada para o doutorado em Sociologia da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008. Link aqui.

Oliveira, Ricardo Costa de. O Silêncio dos vencedores – Genealogia, classe dominante e Estado no Paraná. Editora Moinho do Verbo, 20ª Edição. Curitiba, 2001. (impresso)

Pombo, Rocha. Para a Historia – notas sobre a invasão federalista no estado do Paraná. Fundação Cultural de Curitiba (FCC), 1ª edição. Curitiba, 1980. (impresso)

Sutil, Marcelo. O Espelho e a Miragem. Editora: Travessa dos Editores, 1ª edição. Curitiba, 2009. (impresso)

Vargas, Túlio e Carneiro, David. História biográfica da república no Paraná. Edição: Banestado. Curitiba 1994. (impresso)

Órfão pobre se torna grande líder. Sobre Generoso Marques. Site O Paraná, 7 de julho de 2013.Link aqui.

Jornal Diário do Comércio, 30 de maio de 1891. Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/


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1913: A explosão que deixou Curitiba de luto

 


1913: A explosão que deixou Curitiba de luto

Diário da Tarde, edição do dia 2 de julho de 1913. Exemplar disponível para consulta em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná. (Reprodução – Foto Chico Camargo/CMC)

Em 1913, às 14 horas do dia 1º de julho, uma grande explosão nos armazéns da antiga estação da estrada de ferro Curitiba/Paranaguá atingiu o Palácio Rio Branco – onde hoje são realizadas as sessões plenárias da Câmara de Curitiba – fazendo com que o prédio passasse por uma reforma. O estrondo se fez ouvir na cidade inteira, assim como pôde ser vista uma grande nuvem de fumaça. Quatorze pessoas morreram e outras inúmeras ficaram feridas.

O Diário da Tarde – periódico que circulava na cidade à época –, naquele mesmo dia, anunciou: “Às duas horas da tarde de hoje, mais ou menos, enorme estampido ensurdecedor echoou pela cidade, dando o alarme de um sinistro acontecimento. Por toda a cidade houve a princípio um instante de estupor e depois de verdadeiro pânico e desespero. Que seria?”

Três carroças, carregadas com aproximadamente 730 quilos de pólvora negra, foram pelos ares, em frente ao armazém de Paranaguá – que, segundo informações do Museu Ferroviário, ficava na avenida 7 de Setembro com a Marechal Floriano e onde hoje há um shopping. O explosivo estava sendo carregado por praças (patente militar inferior à de segundo-tenente) até a estação. O carregamento havia sido vendido pelo Ministério da Guerra ao sr. Alexandre Gutierrez, que tinha o objetivo de utilizá-lo em pedreiras na Serra do Mar.

Os danos atingiram todas as casas próximas, ao ponto de caírem as vidraças com os caixilhos. Um eixo de carroça atravessou o muro do Congresso (Palácio Rio Branco) de lado a lado. “Foi objecto da nossa atenção a fachada do edificio do Congresso que lança para a Praça Euphrasio Correia, até os prejuízos foram importantes pela ruptura de todas as vidraças e dos móveis internos”, informou o jornal Commercio do Paraná, no dia seguinte.

“No palácio do governo (na rua Barão do Rio Branco, hoje Museu da Imagem e do Som em reforma) caiu o estuque de uma das salas”, descreveu o Diário, no dia seguinte. Também nas ruas Silva Jardim, “Ratcliff” (atualmente Dr. Westphalen), Visconde de Guarapuava, Floriano Peixoto e praça Eufrásio Correia os prédios ficaram com as vidraças quebradas.

Bondes, linhas telegráficas e telefônicas pararam de funcionar. “Pontos negros se destacaram, como si corvos esvoaçando desordenadamente: eram destroços da explosão – fragmentos de carroças, de animaes, frangalhos de corpos humanos, telhas etc”, informou o Diário da Tarde. Segundo o mesmo, houve estragos desde o Batel até os fins da rua XV de Novembro.

Em poucos minutos, moradores de diversas regiões vieram conferir o ocorrido. Quase toda a população da capital paranaense correu até lá. “Pelas imediações da estação jaziam os destroços da explosão. Aqui, vísceras, cabeças separadas dos corpos; ali, cavalos mortos, outros fragmentos, enfim, uma infinidade de destroços, atestando a violência inaudita da explosão” (Diário da Tarde, 1/7/1913).

A tragédia, à época, pelo número de habitantes da cidade (cerca de 50 mil)², foi considerada uma verdadeira “hecatombe”. “Nos annaes das grandes desgraças humanas, raramente se registrará tão emocionante tragédia”, lamentou o Diário no dia seguinte.

De fato, até hoje em Curitiba não se viu explosão de tamanho alcance. Ressalte-se que, em 1976, um caminhão que transportava aproximadamente 1.500 quilos de dinamite explodiu no Cabral, divisa com Juvevê. Três pessoas morreram. No asfalto, ficou uma cratera com quase três metros e muitos estragos, como relata Anna Carolina Azevedo, autora do livro “Dinamite” – publicação que conta a história. “De fato, o impacto na estação de trem foi muito maior, pensando nas pessoas mortas, mas a dinamite em 1976 acabou com boa parte de um bairro”, relembra.

Já em 1990, uma loja de fogos de artifício na rua Visconde de Guarapuava com a Westphalen explodiu, matando três pessoas da mesma família. Mas os estragos, ainda assim, foram em menor escala.

Em 1913, a estação de trem era bastante movimentada, pois levava diariamente pessoas para Paranaguá, interior do Estado, São Paulo e Rio de Janeiro. “Muitos dos moradores dos hoteis e imediações da estação, grandemente surpresos com o terrível choque, em gritos alucinantes pediam socorro como que se estivessem sob o peso de um grande terror”, Diário da Tarde, 2 de julho de 1913.

Foi assim, em detalhes, que o jornal descreveu como a população recebeu o susto. “A exma. Sra. d. Francisca Munhoz Cavalcanti, esposa do dr. Carlos Cavalcanti (presidente da província à época e que hoje dá nome a uma rua no bairro São Francisco), ouvindo o ruído da explosão, emocionou-se grandemente, sendo victima de ligeira syncope. A exma. Senhora julgou que tivessem arremessado uma bomba de dynamite no palácio presidencial”. (Diário da Tarde, 1/7/1913)

Muitos acreditavam que estar no ano de 1913 era um sinal de azar, como se pode perceber em um trecho de texto publicado na revista humorística e literária A Bomba, do dia dez daquele mês:

“- Sou supersticioso, confesso. E o diabo do 13: estamos em 1913.

Concordei. Mas concordei de um modo diverso: estendei mais a superstição. Achamos que a fatalidade não se enclausura em um número qualquer, nem no 10 nem no 13. Tanto assim, que muitas pessoas até consideraram o 13 um número feliz! Ella, a fatalidade, deve ser cega, e por isso cai sobre qualquer número, infallivelmente. Cái e passa e deixa silêncios enigmáticos à nossa perturbadora compreensão”.

As causas da explosão
De acordo com o Diário da Tarde, a pólvora fora recentemente arrematada em concorrência pública aberta pela intendência da 11ª região militar, com sede na capital. Foi vendida por ser considerada “inaproveitável” para o serviço de  artilharia. Foi levada até a estação por militares, a pedido do próprio comprador.

Conforme o mesmo periódico, antes do acidente, por volta das 13 horas, praças saíram com a pólvora do 2º esquadrão de trem, do depósito de inflamáveis da intendência da 11ª região militar, que ficava junto a uma chácara no Água Verde. (Diário da Tarde, 2/7/1913)

O Commercio do Paraná informou que eram três carroças contendo 39 tambores do explosivo, num total aproximado de 730 quilos. Nelas estavam nove praças do Esquadrão de Trem e da Bateria de Obuzeiros (canhões). Enquanto os soldados descarregavam, um deles entrou no armazém com um cunhete de munição (caixote feito para abrigar este tipo de material), que teria como destino a Intendência da Guerra, no Rio de Janeiro.

Em depoimento à polícia, o pesador João Walter, que sobreviveu à tragédia, disse que não quis receber a carga, visto que era terça-feira e o dia dos explosivos era somente na quarta-feira. “Insistindo o pesador em não receber a carga, após pequena discussão, o soldado apanhou o cunhete e voltando para a porta exasperadamente gritou: 'Pois eu é que não volto mais com esta droga'. E acto contiuno atirou o cunhete de cartuchos contra as pedras da calçada, com toda a violência” (Commercio do Paraná, 2/7/1913).

A consequência foi imediata. Uma das carroças que estava perto foi atingida pelo fogo, explodindo todas as outras, como contam os dois periódicos.

Nos dias subsequentes surgiram outras versões nos noticiários. Uma delas apontava para um eventual contato com um fio elétrico da rede de bondes da cidade, que passava em frente à estação. Outra dizia que um dos praças deixou cair um fósforo aceso sobre um tambor de pólvora, detonando os demais.

“Cremos, portanto, prevalecer a 1ª (versão), aliás, confirmada pelo testemunho do pesador João Walter que vio o soldado jogar o perigoso cylindro ao solo”, opinou o Commercio do Paraná no dia três.

Palavra de especialista
Em uma análise atual do contexto, o especialista em explosivos da Delegacia de Explosivos, Armas e Munições da Polícia Civil (DEAM), Lourival Prehs, mais conhecido como “Bombinha”, diz que a primeira versão é perfeitamente possível.  “Antigamente essas munições tinham fulminato de mercúrio, um composto químico bem sensível à fricção e ao impacto. Não eram como as de hoje”, explicou.

Ele, que é químico e trabalha há 40 anos com estes artefatos, disse que, atualmente, além de maior segurança no fabrico destes materiais, há mais cautela no transporte e armazenamento dentro da cidade. “Para movimentar qualquer tipo de explosivo ou fogos de artifício dentro de Curitiba é necessário conseguir uma licença da DEAM. Primeiro analisamos o que será transportado e as condições de armazenamento, antes de liberar”, explicou Prehs.

No seu entendimento, lembrar do passado faz com que os erros não se repitam no futuro e, vale a máxima, de que todo o cuidado é pouco. “Com explosivo você só erra uma vez, não tem chance de errar a segunda”, alertou.

“Vem de molde que se registre a irregularidade de sinão, pelo menos a imprudência, de se entregar a condução de carga tão perigosa a soldados arrebatados e inconscientes da missão de que lhes investiram. Sirva de exemplo para que no futuro se destaque um oficial que, com a responsabilidade de seu cargo e preparo technico, saiba conduzir soldados portadores de valores da nação cujo sacrifício acarretará a vida de operosos cidadãos”, Commercio do Paraná, 2 de julho de 1913.


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Uma princesa nos trilhos da nossa história

 


Uma princesa nos trilhos da nossa história

A princesa Isabel veio a Curitiba em 1884 para a primeira viagem oficial da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Não foram encontrados registros fotográficos da família imperial na capital paranaense, portanto, tentamos reproduzir a cena. (Foto das crianç

Nesta semana, comemora-se o aniversário da princesa Isabel (29 de julho de 1846). Pouca gente sabe, mas quando a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá estava para ser inaugurada, a capital recebeu a visita dela, com o marido, Conde d'Eu, e os filhos Pedro, Luis e Antônio, em 1884. Juntos, eles fariam a primeira viagem oficial da ferrovia – mas a grande inauguração seria feita somente no dia 1º de fevereiro de 1885. Para esperá-la, a cidade estava em festa, com as casas iluminadas e as ruas enfeitadas com bandeiras e arcos. Uma série de reportagens, que começa com esta, vai contar como foi a visita e como era a “Curityba” do século XIX.

“A commissão de festejos roga a todos os dignos commerciantes desta praça o obsequi de fecharem os estabelecimentos, hoje das 2 horas da tarde em diante e, outrossim, pede aos habitantes da capital, que se dignem de illuminar a frente de suas casas durante as noites em que aqui permanecerem SS. Altezas.” Assim anunciou o jornal O Dezenove de Dezembro, que noticiou cada passo da família nestas terras de muito pinhão. Um boletim do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense (IHGPR), publicado em 1972, transcreve a carta diário que a princesa escreveu a seus pais, D. Pedro II e Dª Tereza Cristina.

Mas é o relato de um repórter da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, que acompanhou toda a visita, que chama a atenção pela riqueza de detalhes e impressões pessoais. Ele descreve não só o passeio, mas também a cidade da época. As visitas à Santa Casa, às fábricas de mate, às colônias do Abranches e Taboão, à Câmara Municipal e ao Palácio do Governo, além dos contratempos do final do assentamento da estrada de ferro, são os fatos narrados de forma pitoresca pelo jornal.

Saindo de Paranaguá às seis horas da manhã, suas altezas chegariam a Curitiba de trem, naquela que seria a primeira viagem oficial pela via-férrea, no dia 29 de novembro de 1884. Faltavam 20 dias para as comemorações da Emancipação Política do Paraná, e a inauguração do trajeto era um presente à cidade, em alusão à data.

A linha ainda não havia sido concluída até a estação da Praça Eufrásio Correia, e a família imperial teve de descer na altura do bairro Cajuru e terminar o trajeto em carruagens. A expectativa, de acordo com a Gazeta de Notícias, era de que, talvez, durante os dias que ficassem em Curitiba e arredores, a estrada desse por concluída e a despedida (13 de dezembro) já fosse na estação. No entanto, ocorreram alguns contratempos, que serão contados mais adiante, em outra reportagem da série.

A edição 348 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro traz o relato da viagem, que incluiu um café da manhã em Morretes e um almoço na estação do Cadeado, ambos oferecidos pelo engenheiro da estrada, João Teixeira Soares. No Cadeado, um pavilhão foi montado especialmente para a ocasião, “e de onde se descortina um vista esplêndida, baía de Paranaguá ao longe. A serra do Marumbi à direita. Que magnífica serra! E como estava banhada de luz!”, descreve a princesa em sua carta a D. Pedro II.

“Cheios de saudades, estou certo, deixaram hoje pela manhã a cidade de Paranaguá Suas Altezas Imperiaes e a sua comitiva, que levou d'esta cidade a mais grata recordação. A's 6 horas da manhã, prompto o comboio, seguiram os augustos viajantes pela estrada de ferro do Paraná, em companhia do engenheiro chefe e dos outros empregados da linha e grande numero de pessoas”, relata o jornal carioca, que complementa: “na frende da machina collocaram-se dous carros abertos, em um dos quaes iam Suas Altezas, e no outro os engenheiros da estrada, o estado maior do Sr. conde d'Eu e os representantes da imprensa e da côrte, para poderem ver a via-ferrea e as suas bellas obras d'arte. A' proporção que se sobe, vão se descortinando panoramas esplendidos, e do alto da serra do Marumby, que se acha a 1800 metros acima do nível do mar, e a mais de 80 kilometros de Paranaguá, avista-se a entrada da barra desta cidade, como em toda a subida em differentes pontos e posições o mar, de lado de Paranaguá”, documenta o periódico.

“Que viagem! Nunca vi, creio eu, estada de ferro mais bela, com mais pontos de vista esplêndidos, seguidos dos famosos campos do Paraná, verdadeiros parques ingleses, com seus grandes gramados, com muita florzinha bonita, e os massiffs [bosque espesso, segundo o boletim do IHGPR] formados pelos belos pinheiros”, escreve a herdeira, aos pais.

O trem parou em Piraquara, “indo Suas Altezas a pequena distancia apanhar parasitas, flores, e ver a herva matte denominada chimarrão e o cipó que figurou na exposição de Philadelphia em 1876” (Gazeta do Rio de Janeiro). Mais adiante, em uma localidade chamada Atauba (km 100) – hoje identifica-se o local de parada como sendo no bairro Cajuru –, ponto até onde iam os trilhos do trem, às 3h40 da tarde, foram recebidos pelo comendador Ildefonso Corrêa e “grande numero de pessoas importantes de Curitiba, e muitos carros [carruagens] que conduziram os augustos viajantes e sua comitiva á capital do Paraná, onde chegaram ás 5 horas da tarde, fazendo-se viagem pelo leito da estrada”, relata o jornal.  

Foram recepcionados na porta do palácio de Ildefonso Corrêa por “colonos polacos” e moças que carregavam bandeiras, e homens com galhardetes e ramos. “O Sr. conde d'Eu, da sacada do palacio, agradeceu a manifestação, proferindo um discurso, no qual pediu aos colonos que alliados aos brazileiros fizessem prosperar o Brazil, cujo solo lhes daria a recompensa dos seus esforços. Terminou levando vivas aos colonos e ao Brazil.” Segundo o relato do periódico carioca, o conde começou seu discurso em allemão e terminou-o em “polaco”, “por lhe terem dito que os colonos eram d'esta nacionalidade”.

“De noite, os alemães vieram com lanternas de cores e com cânticos nos cumprimentar. Há muitos alemães e polacos por aqui, e muita carinha de criança tenho visto que me faz lembrar as de Petrópolis. Curitiba é uma bonita cidadezinha: Ruas alinhadas, casas muito limpinhas, alguns edifícios bonitos...”, constatou Isabel.

No dia seguinte, percorreram a cidade e assistiram uma missa celebrada na Igreja Matriz. “A' 1 hora da tarde houve cortejo, ao qual compareceram todos os officiaes e commandantes dos corpos actualmente em Curityba. SA, a princesa imperial, os principes e seus preceptores percorreram a cidade e arrabaldes, voltando a palacio quasi ao anoitecer.” (Gazeta do Rio de Janeiro)

Nos relatos que se seguem nas reportagens do correspondente carioca, nota-se um grande interesse de Conde d'Eu pelos quartéis da cidade, enquanto a princesa Isabel preferiu os passeios no campo e as paisagens.

No dia 7 de dezembro, as altezas imperiais seguiram para o interior da província, indo a princesa Isabel até Palmeira acompanhar Conde D'Eu e assistir à festa de Nossa Senhora da Conceição. Dali, ela voltaria a Curitiba. Ele, junto ao seu estado-maior e os representantes da imprensa da côrte, por terra, visitariam a província de Santa Catarina, “onde deveriam encontrar-se com S. A. a princeza imperial, que vai por mar”, conforme deu a Gazeta do Rio de Janeiro.


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Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

 


Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

Quando a princesa Isabel visitou a Santa Casa não foram poupadas críticas ao prédio, por parte do jornal carioca. (Foto: Acervo Cid Destefani, em exposição no Palácio Rio Branco da Câmara/Reprodução: Michelle Stival)

“Se por fóra elle é bonito, por dentro é horroroso, só tendo de bom a capella em estylo gothico e o necroterio no mesmo gosto. Para este edificio póde empregar-se o ditado – por fora cordas de viola, por dentro pão bolorento.” Foi exatamente assim que a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, no dia 3 de dezembro de 1884, reportou sobre as dependências da Santa Casa de Misericórdia, por ocasião da visita da família imperial a Curitiba. Era um espaço praticamente recém-criado, inaugurado em 1880 pelo próprio imperador, Dom Pedro II, e que por muitos anos foi o único hospital da cidade.  

Embora seja possível notar o expressivo mau humor com que o repórter carioca – enviado especialmente para cobrir a comitiva da princesa Isabel – abordou certos assuntos da capital paranaense, por meio de seus relatos é possível delinear alguns traços de Curitiba que não estão nos livros, tampouco em fotografias. Não é de se estranhar seu descontentamento, acostumado que estava a viver na cidade que recebera todos os mimos e investimentos por ser sede do Império do Brasil.

“Dividido em muitas salas, algumas acanhadas e sem ar, na maior parte vazias e infectas, taes são as enfermarias onde se encontram actualmente 31 doentes, sendo 10 loucos, 7 mulheres e tres homens, um dos quaes estava nú. As camas e os colchões (se é que o são) não abonam muito o estabelecimento, nem a irmandade, que é o provedor e medico do hospital, o Sr. Dr. Albuquerque... Tem o hospital uma boa pharmacia e um excellente enfermeiro”, continuou.

“O hospital, por fóra é de bonita apparencia, e, construido n'um estylo que nem é gothico, nem dorico, é uma melange de architecturas, mas que mostra o gosto de quem o desenhou e de quem executou as obras”, descreveu. A casa de saúde fora fundada pelo Dr. José Candido da Silva Murici, que dá nome à alameda Dr. Muricy.

Diferente foi o relato da princesa Isabel, que, em uma carta diário destinada a seus pais D. Pedro II e Dª Tereza Cristina, reconheceu a falta de recursos, mas foi suave ao retratar o cenário. “Depois do almoço visita ao hospital de Caridade, com poucos recursos, mas bem arranjado. Capelinha muito bonita, feita com madeiras do Paraná. O Dr. Pires [Atonio Carlos Pires de Carvalho e Albuquerque], provedor da irmandade e médico daí, agradou-me. Dizem ser muito boa pessoa e muito caridosa. O estilo arquitetônico do hospital é inglês, do tempo da Rainha Isabel, bonito. Só é pena que tivessem caiado todo o edifício. Dessa forma não lhe terão deixado todo o seu cunho.”  

A história da inauguração da Santa Casa, que contou com a presença do imperador D. Pedro II, é contada pelo jornalista da Câmara Municipal João Cândido Martins, em outra matéria publicada na seção do Nossa Memória (leia na íntegra). Ocorreu no dia 22 de maio de 1880 e foi um marco da influência alemã na engenharia curitibana. O prédio foi decisivo para a urbanização do Campo do Olho d'Água, local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa.

Hoje a instituição é mantida pelo Grupo Marista e atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), convênios e particular. Possui uma estrutura com 278 leitos, sendo 37 de UTIs e nove salas cirúrgicas, conforme seu site. Realiza entre 600 e 800 cirurgias mensais e interna uma média de 1.350 pacientes por mês. Atende diversas especialidades, como cirurgia vascular, otorrinolaringologia, cardiologia, cirurgia vascular, bariátrica, transplantes, dentre outras.

A Câmara e a Assembleia
No dia 5 de dezembro, a família imperial visitou a Câmara Municipal, que funcionava em cima da cadeia pública. Desta vez, foi a princesa Isabel quem não poupou críticas: “muito acanhada, e Gaston [Gastão de Orleans, o Conde d’Eu] desceu à prisão que achou muito suja, muito desordenada, os presos muito acumulados. Dizem que pouca fiscalização tem havido, e que até súcias¹ e jantares se têm dado na prisão, entre presos e gente de fora. O presidente (Brasílio Machado) e o Chefe de polícia (Dr. Leão Veloso) dizem que vão tomar providências. Eles há pouco chegaram, e por isso nada fizeram”.

Na Gazeta de Notícias, inicialmente uma simples menção à visita. “O edifício da municipalidade é pequeno e fica ao lado da cadêa, havendo no pavimento terreo uma prisão.” No entanto, posteriormente, o mesmo jornal, sem dó, publicaria: “não podemos deixar de declarar, que não ha em todo o imperio peior cadeia que a d'esta capital. Os presos aqui passam um vidão, passeiam quando querem, visitam a família e os amigos, dão banquetes e fazem negocio nas prisões, cujas grades têm o aspecto de vitrina de casa de quinquilharias”. Esse prédio ao qual se referiram foi demolido e ficava onde hoje é o Mercado das Flores, na Praça Generoso Marques.

No mesmo dia, os príncipes foram visitar a Assembleia Provincial: “Foram Suas Altezas, acompanhadas do Sr. marechal Miranda Reis e baroneza de Suruhy, visitar a assembléia provincial, onde foram recebidas pelos srs. Conselheiro Alves de Araujo, Dr. Generoso Marques e outros Srs. Deputados. O edificio da assembléia foi mandado construir pelo finado conselheiro Zacarias e pode-se dizer que é um dos melhores edificios da provincia: espaçoso, com uma grande galeria para o povo, muito arejada e perfeitamente collocada”, noticiou o periódico.

O prédio ficava na Dr. Muricy, esquina com a rua Cândido Lopes, onde permaneceu até o início da década de 50, conforme informa o site da Assembleia Legislativa do Paraná. O prédio não existe mais e no lugar está a Biblioteca Pública do Paraná.

O palácio da Assembleia Provincial, a Santa Casa, a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e o Passeio Público, citados nesta série de reportagens sobre a visita da princesa Isabel e sua família a Curitiba, são os primeiros sinais do progresso que se avolumava após a Emancipação Política do Paraná, cujo território antes de 1853 era subordinado à província de São Paulo. No entanto, percebe-se que ainda havia pouco recurso para geri-lo, o que ficou evidente aos augustos viajantes na visita. Curitiba e o Paraná estavam crescendo e demandavam investimentos.

Na próxima reportagem, saiba como foi a visita da família imperial à Colônia Abranches, hoje um bairro de Curitiba.


https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/princesa-isabel-e-um-retrato-dos-predios-de-curitiba-em-1884

A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

 


A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

A Mansão das Rosas, em 1880, propriedade do industrial do mate Francisco Fasce Fontana. Na foto, não está a Princesa Isabel. (Foto: Acervo Casa da Memória)

“Depois de visitada à chácara, dirigiram-se para uma das ilhas, a maior, onde tomaram Suas Altezas e comitiva matte sob differentes fórmas, em chá, em folha, queimado e por último à moda da terra, em cuia, havendo entre estas uma que conta mais de cincoenta annos.” A cena, narrada pela Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, passa-se em Curitiba, em 1º de dezembro de 1884: Princesa Isabel, Conde d'Eu e dois dos filhos do casal, em visita à cidade (leia mais), foram conhecer a fábrica de erva mate dos senhores Silva, Irmão & Fontana. Considerado o ciclo de “ouro” de Curitiba, o mate enriqueceu muitas famílias e trouxe progresso à capital – e era este o principal motivo de se construir a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, que estava sendo concluída naquele final de ano, e por onde chegou a princesa a Curitiba na primeira viagem da ferrovia.

“Todos juntos, menos Antônio, partimos às 4 horas para a fábrica de mate do Fontana, oriental [como chamavam as pessoas vindas da Banda Oriental do Uruguai], filho de italianos e casado com uma filha do Dr. Ermelino. É bem inteligente, seu mate muito bem beneficiado. Tem convertido em verdadeiras plantações de flores e de bonitas árvores (muitas delas frutíferas) um verdadeiro brejo que rodeava a antiga fábrica de mate que Papai conheceu neste lugar”, assim contou a Redentora a seus pais, D. Pedro II e Tereza Cristina, em uma carta-diário.

A fábrica ficava onde hoje é a avenida João Gualberto. O local descrito no início do texto é bem próximo do Passeio Público, inaugurado e aberto ao público somente dois anos depois, em 1886 (Foto 2). Fontana aplicou uma técnica de redução de banhados em seu território e logo após fez o mesmo no terreno onde seria o parque, às suas próprias custas, por ser amigo do presidente da província, Visconde de Taunay (saiba mais). Da Mansão das Rosas, residência do industrial (Foto 1), sobrou somente o portal, que hoje é entrada de um conjunto de edifícios em frente ao Colégio Estadual do Paraná. A demolição da propriedade ocorreu em 1974¹.
 
A Gazeta do Rio de Janeiro descreveu com detalhes como era feito o processamento do mate. “Estes senhores possuem dous estabelecimentos juntos um do outro, organizados e construídos pelo laborioso industrial o Sr. Francisco Fasce Fontana, ha seguramente tres anos e meio. Um dos estabelecimentos é movido a vapor por um motor da força de 42 cavallos, e outro por motor hydraulico. E' grande o desenvolvimento do primeiro, que, trabalhando dez horas, prepara diariamente mais de mil arrobas de matte, prompto para a exportação. O segundo, em vista do motor, que, como já se sabe, é hidráulico, apenas póde beneficiar de 300 a 400 arrobas diarias, não sendo tão perfeito como o primeiro.” A máquina a vapor seria uma invenção do próprio Fontana.

Suas altezas percorreram a “esplendida chacara que rodeia as fabricas, cortadas por innumeros rios, divididos de proposito, alem de magnificos jardins nas ilhas pitorescas, que tornam agradavel e aprazivel aquella parte da cidade. N'esta chacara encontram-se flôres e arbustos rarissimos, e que só se conhecem na Europa e nas repúblicas do Prata, pela excellencia do clima. O do Paraná nada fica devendo áquelle”, relata o jornal.

Fontana teria oferecido licor de mate aos augustos viajantes, preparado na própria fábrica, “e que é excellente”, elogia o correspondente. “O Sr. conde d'Eu significou ao intelligente industrial o Sr. Fontana o contentamento e a satisfação com que se retirava, declarando que não esperava encontrar alli um tão importante estabelecimento”, continua. Após esta visita, com autorização de Dom Pedro II, o engenho foi batizado de Fábricas Imperiais Fontana.  

A família também visitou os engenhos de Tibagi e Iguaçu (foto 3), no Batel, de propriedade de Ildefonso Pereira Correia – onde hoje está a pracinha do Batel. Ele ficaria mais conhecido posteriormente pelo nome de Barão do Serro Azul. Recebeu este título da própria princesa Isabel, em 1888.

O repórter carioca manifestou claramente sua preferência pela fábrica dos Fontana: “Também o Sr. commendador Ildefonso Corrêa tem uma bem montada fabrica de preparar herva matte; porém um pouco inferior á dos Srs. Silva, Irmão & Fontana, em aparelhos e modo de preparar a materia prima”.

Já a princesa Isabel, dias depois em seu diário, escreveria diferente aos pais. “Fábrica de beneficiar mate do Comendador Ildefonso Pereira Correia: Pareceu-me ainda melhor instalada do que a do Fontana. Esta fábrica está um pouco fora da cidade [o Batel era considerado rocio, lugar afastado do centro], e aí perto há um altozinho aonde fomos para gozar a vista. Não se podia ver nada de mais lindo e aprazível. Ao longe, S. José dos Pinhais, campos, copas de pinheiros. Mais perto, casinhas pitorescas, culturas, Curitiba.”

Por Michelle Stival da Rocha – Jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba
 
Leia as outras reportagens da série sobre a visita da princesa a Curitiba:
 
 
Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

2) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

3) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências:
Edição 351 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – terça-feira, 16 de dezembro de 1884. pg. 2. (Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).
 
(1) Romanel, Maria Cecília; Scherner, Maria Luiza. Álbum de Memórias: A trajetória das indústrias do Paraná, Curitiba: Editora Univer Cidade, 2007.

https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/a-familia-imperial-pelas-fabricas-de-erva-mate-de-curitiba

Vila Nossa Senhora da Luz foi criada para “desfavelar” Curitiba

 


ESPECIAL: Vila Nossa Senhora da Luz foi criada para “desfavelar” Curitiba

A inauguração da Vila reuniu, além do prefeito Ivo Arzua e do governador Paulo Pimentel, o presidente Castelo Branco e uma comitiva de militares. (Foto: Acervo Casa da Memória)

“A presença de favelas em Curitiba torna transfigurada sua beleza natural. A remoção dará a nossa cidade o privilégio de ser a primeira completamente desfavelada em todo o país.” Com frases assim, a imprensa paranaense comemorava, em 1966, a implantação da Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, que levava o nome da padroeira da capital.

Primeiro conjunto habitacional da cidade e um dos pioneiros do Brasil, inaugurado em novembro daquele ano, pela Operação Desfavelamento Cohab-CT, ele pretendia realocar famílias das cerca de 25 ocupações irregulares da capital – de locais como o Rio Belém, o Santa Quitéria e a Favela do Ahú.


A movimentação começou um ano antes, com a desapropriação do terreno que receberia o empreendimento. A CIC, que atualmente ocupa 10% do território da cidade, naquela época era o Barigui do Portão, um vazio verde com algumas chácaras e colônias – o nome atual foi oficializado só em 1975. Durante a “lua de mel” da imprensa com o projeto, a Vila era definida como “fascinante experiência social”, “de inestimável valia, sob o ponto de vista social e urbano”, “grandiosa obra realizada pela atual administração em favor da reintegração na sociedade da população marginalizada”, “exemplo nacional”, “primeira desapropriação de área em Curitiba por interesse social”, “com dimensões de uma cidade” e “início da campanha de erradicação das favelas de Curitiba”.

Na Câmara Municipal, os vereadores destacavam que o nome da Vila “por virtuosa inspiração do senhor prefeito municipal [Ivo Arzua]” era “louvável”. “Oxalá Nossa Senhora da Luz dos Pinhais asperja suas luzes e bênçãos sobre os governantes e governados de nossa capital, minorado o sofrimento de todos”, cita o parecer da Comissão de Legislação e Justiça, em 1965, à mensagem do Executivo para denominar o empreendimento popular. “Esperamos que seja um modelo de urbanização e de amparo assistencial aos menos favorecidos”, acrescentou o colegiado de Viação, Obras e Serviços Públicos, dentre outros pareceres antes da análise da matéria em plenário.

A construção das primeiras 2.150 casas financiadas da Vila – 1.750 do “tipo A” e 400 do “tipo E” - foi iniciada em dezembro 1965. A ideia era que o local fosse uma “cidade autônoma”: antes das administrações regionais, espécie de subprefeituras criadas na década de 1980, a Nossa Senhora da Luz contou com uma superintendência. Denominada Suviluz, a autarquia foi aprovada pela Câmara de Curitiba e criada pela lei municipal 2922/1966, mas acabou extinta três anos depois. Na mensagem aos vereadores, Arzua destacava a “fascinante experiência social” no campo da habitação popular. Justificava, também, que essa estrutura administrativa era necessária, “sob pena de regressão ao estágio infra-humano de vida para seus habitantes”.

Na inauguração oficial, dia 11 de novembro de 1966, o palanque reuniu, além do prefeito Ivo Arzua e do governador Paulo Pimentel, o presidente Castelo Branco e uma comitiva de militares. Arzua, no final de seu discurso, saudou as “milhares de famílias de nossos irmãos, brasileiros, que viviam em condições subumanas”. Castelo Branco finalizou: “A grande obra mais pertence à Revolução que a qualquer governo”.

Triagem
A “Gazeta do Povo” noticiou, na edição de 10 de novembro de 1966: “Famílias faveladas ganham alegres casas no Barigui”. As primeiras delas, relatou o jornal, haviam sido transferidas dois dias antes, de “barracos” da cidade. “Alguns acham que a casa é pequena, mas admitem francamente que é melhor do que o lugar onde viviam. […] As possibilidades de ampliação [dos imóveis] são boas, porque há área de terreno e inclusive base para um modesto primeiro andar.”

Segundo a reportagem, a mercearia em funcionamento, à época a única em quilômetros, “não fornece bebida alguma, para ninguém”, por orientação oficial. “E o mais curioso é que apesar de serem favelados, em sua maioria, os que ali vão residir, ninguém reclamou contra isso”, completou. A “Gazeta” ainda relatou que os moradores foram “escolhidos a dedo” e “passaram por diversos programas de orientação de curto prazo. A maioria deles é religiosa (católica), não são dados a vícios e têm princípios de higiene naturais ou adquiridos”.

Em janeiro de 1967, antes da remoção de mais pessoas para o local, o “Diário do Paraná” estampou a reportagem: “Educar para depois desfavelar”. Segundo a publicação, a prefeitura havia anunciado que as 500 famílias que seriam transferidas para a Vila, após um estudo de assistentes sociais detectar que elas não apresentavam “condições de hábitos para formar a nova comunidade”, precisariam passar por um “estágio de educação para posterior remoção”. A recomendação, inclusive, seria do Banco Nacional de Habitação (BNH), financiador do projeto. “Essas quinhentas famílias seriam removidas para um Centro de Triagem, a ser instalado nas proximidades da Vila”, acrescentou o jornal. A Suviluz coordenaria a atividade, com a ajuda da Fundação de Recuperação do Indigente.

Segundo o arquiteto Alfred Willer, um dos autores do projeto da Vila Nossa Senhora da Luz e o primeiro diretor-técnico da Cohab-CT, de 1965 a 1968, “a triagem existia”, sob a responsabilidade de assistentes sociais do órgão público, criado anos antes. “O levantamento, realizado a partir de 1966, serviu para estimar a população favelada de Curitiba e os questionários forneceram valioso material de pesquisa. O número de casas decorreu desse levantamento”, conta. Mas para poder financiar uma casa na Vila, ele lembra que o BNH “somente aceitou famílias com carteira assinada, o que resultou na eliminação de algumas delas”.

No livro “Cidade Industrial”, da coleção “Bairros de Curitiba”, o jornalista e urbenauta Eduardo Fenianos afirma que a Vila foi formada ali já com a intenção de prover mão de obra às indústrias que seriam instaladas. Em agosto de 1967, reportagem do “Diário do Paraná” celebrava a desapropriação de terreno para a instalação do Distrito Industrial, próximo à Vila. Lá havia “farta disponibilização de mão de obra”, e não haveria os “distúrbios” causados por indústrias em zonas residenciais, apontava o jornal.

Já Willer diz que a área foi escolhida pelas “condições favoráveis do terreno, firme e seco”, “declive suave para facilitar o escoamento de água pluvial, dispensando terraplanagem”, pela “proximidade de indústrias madeireiras, local de trabalho [para os futuros moradores]” e “fácil acesso por rodovia, ônibus e trem”.

“Uma Vila com sede”
Só que para os habitantes da Vila Nossa Senhora da Luz irem à cidade, no início, o jeito era apelar para o trem, já que a primeira linha de ônibus, até a praça Rui Barbosa, foi implantada em fevereiro de 1967. A população, mesmo assim, queixava-se que os veículos eram insuficientes. De acordo com uma carta do morador Deusdet Palmeira Silva, publicada no dia 29 de março pelo “Diário do Paraná”, apenas três ônibus serviam uma população de 3 mil pessoas. “Além disso os veículos são velhos e há falta de higiene em seu interior”, acrescentou.

Em março, foram abertas as matrículas para a escola da Vila - conhecida como “Grupão” e premiada, depois, pelo projeto arquitetônico. As obras estariam na fase final, mas as primeiras turmas só começaram a funcionar em 1º de junho de 1967. Segundo Willer, que nega ter faltado infraestrutura para a transferência das famílias, as crianças estudavam em um estabelecimento do bairro Fazendinha.

Cinco meses depois da pomposa inauguração, os problemas que afligiam os moradores, principalmente a falta de água, estamparam a capa da edição de 15 de abril de 1967 do “Diário do Paraná”: “Uma Vila com sede”. De acordo com a matéria, faltava luz e a água havia acabado. A matéria enumerava outros problemas denunciados pelos moradores: dois meses depois do início do ano letivo, o grupo escolar da vila não estava em atividades. As crianças haviam sido matriculadas, um dos três pavilhões estava pronto e havia professores mas, de acordo com a publicação, faltavam as carteiras. “E a gurizada fica o dia inteiro na rua.” Quanto aos ônibus, a população também questionava a parada dos veículos na entrada da comunidade, sem que trafegassem por suas ruas. Havia casas cuja energia elétrica não havia sido ligada à rede. Sobre as ruas sem pavimentação, o comentário era: “Quando chove há lama, quando não chove pó”.

No dia seguinte, o jornal publicou o editorial “Vila em crise”: “Construíram-se as casas e lá foram jogadas, despreparadas para a vivência comunitária, famílias de favelados, famílias de pequenos servidores do município e de trabalhadores de baixo nível de ingressos”. A comunidade foi chamada de “empreendimento político”. E a imprensa continuou noticiando os problemas na Vila, com destaque à falta de água: “Os moradores, principalmente as crianças, vão e voltam carregando baldes e latões”.

“Antes de ser atendida pela Sanepar, a Vila foi equipada com uma estação de tratamento”, explica Willer. Mas a falta de água, em agosto de 1968, virou caso de polícia. “Um caminhão foi impedido de distribuir água na Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais pela administração da Suviluz, sob a alegação de que o líquido estava contaminado.” A acusação era que um candidato à Câmara Municipal de Curitiba pretendia trocar a água por votos.

Os moradores reclamavam, ainda, que o posto policial não tinha viatura, da falta de empregos nos arredores, da distância do Centro, de preços superiores aos praticados no restante do comércio da cidade e da ausência da coleta de lixo. Em agosto de 1968, a rede de esgoto apresentou problemas: “As manilhas foram rompidas, formando-se um banhado negro e fétido, que é uma ameaça constante de epidemia a preocupar os moradores da região”.

Essas situações chamavam a atenção dos vereadores. Vinham deles demandas para a instalação de colégio de ensino médio, centro profissionalizante e a coleta regular do lixo, por exemplo. Em outubro de 1968, a Cohab-CT respondeu denúncias publicadas sobre a Vila. Segundo um funcionário do jurídico da companhia, haveria “intrusos” no local: “Além de não pagarem qualquer taxa, recusaram-se a aceitar todas as propostas feitas para a regularização da ocupação ilícita das moradias. Essas famílias simplesmente instalaram-se nas casas”.

Em janeiro de 1969, moradores denunciaram à imprensa que a desidratação estaria causando “elevado número de vítimas” na Vila. “Adiantaram que a causa da grande incidência é a promiscuidade em que vivem as crianças, já que quando atacadas pela doença as mães não possuem o esclarecimento devido, além da falta de recursos para combater a desidratação.” Para resolver o problema das torneiras secas e, consequentemente, dos riscos à saúde gerados pelo consumo de água inadequada, a prefeitura anunciou, em abril de 1969, que “em breve” começaria as obras para a implantação de uma estação de captação e tratamento das águas do rio Barigui.

https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/especial-vila-nossa-senhora-da-luz-foi-criada-para-201cdesfavelar201d-curitiba

Carroceiros da estação ferroviária em meados de 1940. (Foto: Acervo Cid Destefani)

 


Conflitos do transporte II: a pau e pedras, a revolta dos carroceiros

Espanhola: A pandemia das pandemias que atingiu Curitiba

 


Espanhola: A pandemia das pandemias que atingiu Curitiba

Ao mesmo tempo em que Curitiba comemorava o final da Primeira Guerra Mundial, noticiava os primeiros casos da gripe espanhola no Brasil. Jornal . (Reprodução do jornal Diário da Tarde, Hemeroteca Digital)

“Deus queira que esse caso de ‘grippe hespanhola’ seja como o ruído do tambor, vazio por dentro.” A frase, pinçada de uma notícia do jornal curitibano A República, de 28 de setembro de 1918, delatava o começo dos casos de gripe espanhola em Curitiba. A “mãe de todas as pandemias” – como foi batizada mais tarde – tem características parecidas com as da atual pandemia de covid-19, causada pelo novo coronavírus, mas a humanidade perdeu muito naquele momento por não procurar o isolamento social, contabilizando 20, 30, 100 milhões de mortos, não se sabe ao certo.

Em setembro de 1918, a gripe espanhola estava apenas começando na capital paranaense, trazida num rastro fúnebre do Rio de Janeiro, considerado o epicentro da moléstia no Brasil. Lá, chegou-se a registrar mil mortos num só dia, e os cadáveres se amontoavam em frente às casas. Notícia de outro jornal curitibano, o Diário da Tarde, de 19 de outubro daquele ano, com a manchete “A Gripe Hespanhola por toda parte”, detalhou a situação que se alastrava naquele momento por todo Brasil, especialmente na capital carioca: “a molestia se manifestou com uma intensidade nunca verificada em outras epidemias. 500 mil pessoas no Rio sentem o mesmo mal. O commercio fechou, paralysou se o trânsito...”. Relatou ainda casos inciais em Curitiba: “Em Coritiba ha influenza hespanhola”, citanto “pessoas recemvindas do Rio de Janeiro” que “enfermaram e guardam o leito”.

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Decreto do prefeito João Antônio Xavier suspendendo o funcionamento dos “cinemas e outras casas de diversões desta capital”. (Reprodução do livro Leis, Decretos e Actos da Câmara Municipal de Coritiba de 1915 a 1916)

A epidemia se espalhou no país por causa de um navio inglês chamado Demerara, vindo de Portugal, que parou em Recife, Salvador e Rio de Janeiro em setembro, com marinheiros que desembarcaram doentes. O nome de batismo não delata a verdadeira origem da doença – a informação mais divulgada hoje é de que surgiu em campos de treinamento militar no Kansas,  Estados Unidos. O mundo enfrentava a 1ª Guerra Mundial e a Espanha, por não estar entre os combatentes, foi o único país a noticiar inicialmente os casos (embora já estivessem espalhados por vários países), enquanto os jornais das nações em guerra foram proibidos de dissipar a notícia da doença para não causar pânico nas tropas.

Em Curitiba, o Diário da Tarde de 29 de outubro destacou comunicado do Ministério da Justiça e Negócios Interiores: “É impossível evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capaz de evitar a infecção.” No entanto, pedia “tranquilidade”, “não fazer visitas”, além de “evitar toda fadiga” e “tomar um laxante a cada 4 dias afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado.”

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O Dr. Trajano Reis, da Diretoria Geral do Serviço Sanitário publicava quase que diariamente recomendações aos curitibanos sobre como cuidar da saúde na pandemia. (Reprodução do jornal A República, Hemeroteca Digital)  

“Não frequentem locais onde haja aglomeração de pessoas. Mantenham o mais escrupuloso asseio pessoal, lavem a boca, garganta e fossas nasais com um desinfetante, diversas vezes ao dia e principalmente antes das refeições, que nunca devem fazê-las nos ambientes infectados. Lavem frequentemente as mãos, sobretudo antes de usar qualquer alimento”, aconselhou o Dr. Trajano Reis, da Diretoria Geral do Serviço Sanitário, no jornal A República de 21 de outubro – seus comunicados nos jornais eram quase que diários e ele ficou famoso pelo trabalho de combate e prevenção na capital.

No livro Leis, Decretos e Actos da Câmara Municipal de Coritiba de 1915 a 1923 constam três decretos de 1918 assinados pelo prefeito da época, João Antonio Xavier, sobre as restrições impostas na cidade. O primeiro foi no dia 24 de outubro, suspendendo o funcionamento dos “cinemas e outras casas de diversões desta capital”. Também aconselhava “insistentemente” que se evitasse aglomerações, principalmente à noite.

O decreto seguinte, de 9 de novembro, autorizou, aos domingos e feriados, o comércio de “seccos e molhados e pharmacias a permanecerem com seus estabelecimentos abertos enquanto perdurar a epidemia de grippe ora reinante”. Um ato do prefeito, de 11 de novembro daquele mesmo ano reforçava a determinação do fechamento das casas de diversões até o dia 30 do mesmo mês, a despeito de “petições apresentadas pelos proprietários” dos referidos estabelecimentos.

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Anúncios prometiam soluções milagrosas: “Para evitar efficazmente as fataes recahidas de grippe recomenda-se aos convalescentes as afamadas bolachas Lucinda.” (Reprodução do jornal Diário da Tarde, Hemeroteca Digital).

Em novembro, ao mesmo em tempo que o Mundo comemorava o fim da Primeira Guerra Mundial, também chorava seus mortos da pandemia. “A cessação da guerra com a Alemanha foi firmada. O regozijo pela terminação da guerra é enorme em todas as grandes cidades do mundo”, noticiou o Diário da Tarde numa sexta-feira, 8 de novembro, assim como relatou casos de gripe espanhola por todo o estado do Paraná e o que estava sendo feito para combatê-la.

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No dia 7 de abril deste ano, no meio da pandemia do novo coronavírus, o prefeito Rafael Greca publicou em seu perfil pessoal do Instagram esta foto: “Não é a primeira vez que nossa amada Cidade enfrenta um virus. Em 1918 lutamos contra a Gripe Espanhola. Perdemos 384 pessoas.”

No dia 19 do mesmo mês,  trazia “uma estatística desconsoladora”, comparando o número de mortos com o número de nascimentos: “de 22 a 29 de setembro nasceram 31 pessoas e morreram 22;  de 30 de setembro a 6 de outubro, nasceram 36 e morreram 21”; “… de 4 a 10 do mez corrente já temos 86 nascimentos e 62 óbitos”. Mas os dados misturavam os falecimentos por outras razões. Em 18 de dezembro, denunciou: “A Colonia Umbará, distante três léguas da capital, está assolada pela terrível peste hespanhola. Esta, de dia para dia vae dizimando uma grante parte dos colonos e caboclos dessa cidade.”

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Curitiba da década de 1910. Na foto, a Praça Osório em 1916, dois anos antes da pior pandemia que o mundo já conheceu. (Foto: Acervo Casa da Memória)

Remédios milagrosos
“Não há remédio específico. Todos são bons e nenhum presta. Sobretudo nos casos leves. Quer dizer que a grippe é como um tufão. Passa logo, quando não mata, o que tem se verificado nas epidemias brasileiras, em geral benignas”, escreveu Dr. Espindola em um artigo publicado no A República de 18 de outubro de 1918.

Não havia remédio específico? Logo apareceram no comércio fórmulas milagrosas apresentando soluções: “Cuidado com a Hespanhola! Use o poderoso ‘antiputrido’ Balsamo Santa Helena, desinfectante analgésico, inimigo do máu cheiro!”. “Influenza Hespanhola. É indispensável lavar-se seguidamente as fossas nasaes com espuma de sabonete de Creol.”

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“A Colonia Umbará, distante três léguas da capital, está assolada pela terrível peste hespanhola. (Diário da Tarde, 18 de dezembro de 1918/acervo Hemeroteca Digital)

Que tal os comprimidos Oxyform: “oxygenio solidificado, o melhor medicamento profilatico e curativo, contra todas as moléstias infecciosas adquiríveis por via boccal, taes como Ilfluenza hespanhola, grippe, coqueluche, peste pulmonar e cholera. Experimente, exclusivo no Paraná.”

Parece brincadeira, mas houve também uma fábrica de bolachas prometendo cura: “Para evitar efficazmente as fataes recahidas de grippe recomenda-se aos convalescentes as afamadas bolachas Lucinda.” Propaganda publicada no jornal Diário da Tarde de 20 de novembro de 1918.

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No Rio de Janeiro, epicentro da epidemia no Brasil, o povo foi às ruas e, aglomerado aos milhares, comemorou o fim da 1ª Guerra Mundial e a vitória dos Aliados. (Revista Careta, Rio de Janeiro n.544, 23 de novembro de 1918 / acervo Hemeroteca Digital)

Depois de dezembro, as notícias e propagandas nos jornais curitibanos a respeito passaram a ser cada vez mais escassas, dando a entender que, em Curitiba, teria voltado ao normal. Conta-se que na cidade foi 384 o número de vítimas fatais da gripe espanhola. Como afirmou Dr. Espindola, foi mesmo “como um tufão”.

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A mesma edição da revista carioca que publicou fotos dos festejos do final da guerra, publicou também fotos de doentes sendo tratados da influenza espanhola no hospital carioca do Méier. (Revista Careta, Rio de Janeiro n.544, 23 de novembro de 1918 / acervo Hemeroteca Digital)

Referências Bibliográficas:
A República, 28 de setembro de 1918, 18 de outubro de 1918, 21 de outubro de 1918, Hemeroteca Digital.

Diário da Tarde, 18 de outubro de 1918, 29 de outubro de 1918, 8 de novembro de 1918, 19 de novembro de 1918, 20 de novembro de 1918, 21 de novembro de 1918, 18 de dezembro de 1918. Hemeroteca Digital.

Histórias da Gente Brasileira, volume 3, Mary Del Priore.

Leis, Decretos e Actos da Câmara Municipal de Coritiba de 1915 a 1923. Acervo digital da Câmara Municipal de Curitiba, seção Nossa Memória.
https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/espanhola-a-pandemia-das-pandemias-que-atingiu-curitiba