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sábado, 17 de abril de 2021
Carnaval: o dia em que a Câmara ajudou o Lorde Kananga
por João Cândido Martins — publicado 13/02/2015 13h20, última modificação 03/09/2020 17h09
O desfile do corso em 5 de março de 1912. Destaque para a grande quantidade de pessoas nas sacadas das construções laterais. (Foto – Acervo FCC/Casa da Memória. Imagem extraída da pesquisa “Samba Quente, Asfalto Frio: uma etnografia entre as escolas de sa
A Câmara Municipal destinou, neste ano, R$ 100 mil para o carnaval curitibano por emenda parlamentar proposta, no ano passado, pela vereadora Dona Lourdes (PSB). Essa preocupação já havia sido manifestada pela Casa anteriormente – não só financeira, mas também cultural, artística e participativa. Em alguns momentos da história do Carnaval em Curitiba, o Legislativo participou ativamente na realização dos festejos. A última intervenção da Câmara foi a incorporação da festa ao calendário de eventos do município, em 2009.
Entrudo
O carnaval era comemorado em Curitiba antes mesmo da emancipação política da província, em 1853. Até aquele momento, o Carnaval era conhecido como “entrudo”, e os participantes se limitavam a molhar uns aos outros. “As pessoas não se organizavam em blocos nem usavam fantasias: apenas passavam o carnaval atirando todo o tipo de líquido uns nos outros durante os dias de festa”, escreveu Felipe Ferreira no “Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro” (Rio de Janeiro: Ediouro, 2004).
Em 1868, ainda inspirado pelo entrudo, surge em Curitiba o Bando Carnavalesco do Mahomet e, em 1875, Os Títeres do Diabo e Os Bohêmios. O espírito selvagem que caracterizava as brincadeiras do entrudo desapareceu gradativamente. Colaborou para isso o fato de que as autoridades passaram a policiar comportamentos excessivos como comprova a declaração assinada em 14 de fevereiro de 1868 pelo secretário de polícia João Ricardo Guimarães e que foi publicada no jornal 19 de Dezembro. O texto recomendava aos foliões a fiel observância do art. 86 da lei nº 79 de 11 de junho de 1861, que proibia a venda de “limão de cheiro” pelo Entrudo, assim como os mais jogos destes, declarando que os contraventores seriam punidos com as penas do mesmo artigo e nas mais que porventura incorressem.
O jornalista Jorge Narozniak escreveu sobre a festa em Curitiba: “imperava o entrudo desabrido, entrando em cena os limões, os baldes e até as pipas de água. Assim foram as farras enaltecedoras de Momo aqui realizadas de 1853 a 1862”. Apesar disso, no dia 27 de fevereiro de 1854 (Sábado de Aleluia) foi realizado o primeiro baile de máscaras de Curitiba, que contou com a presença de membros da elite local. “O evento aconteceu no Teatro de Curitiba na rua Direita, ou rua dos Alemães – a atual rua 13 de Maio. De acordo com o jornal O Dia, o baile foi alegrado por uma boa orquestra, pondo termo às danças um vertiginoso Galope Infernal”. Galope Infernal era o nome de um tema musical-performático do maestro Philippe Musard, que eletrizou o público parisiense em 1839, e foi um dos primeiros modismos musicais franceses a ser copiado em outros países. Quase trinta anos depois, a moda foi celebrada em Curitiba.
Mas até 1894 ainda era possível encontrar referências ao entrudo na imprensa local, como foi o caso de uma nota lançada no 19 de Dezembro. “Seguindo a mesma norma do ano precedente, o tríduo carnavalesco e folgazão aboliu o uso da água, dos pés, das seringas e das laranjinhas. Também foi acrescido o número de pessoas travestidas e mascaradas nas ruas. O animador dos festejos foi o doutor Tertuliano Teixeira de Freitas. Destaque para os blocos Beduínos e Zuaces, que distribuíam máximas e pensamentos impressos. Queriam ser úteis até mesmo brincando”, destacou o jornalista e pesquisador Jorge Narozniak.
Independente disso, os bailes carnavalescos ganhavam forças nos clubes, inclusive os formados por imigrantes. Bailes de carnaval se tornaram obrigatórios “no Clube Curitibano, na Sociedade Verein Thalia, no 14 de Janeiro, no Clube dos Democráticos, no Cassino Curitibano, no Vítor Emanuel III, no Elite Clube, no Clube XV de Novembro e no Teatro Hauer”. O repertório musical dessas tertúlias consistia em valsas, polcas e modinhas.
Corso
O corso era um desfile alegórico de veículos caracterizados com temas carnavalescos. Neles desfilavam os foliões. A tradição teve início no final do século XIX e atingiu seu auge nos anos 20 e 30 do século XX. O local escolhido para o desfile foi a rua XV de Novembro. Segundo Vanessa Maria Rodrigues Viacava em seu estudo “Samba Quente, Asfalto Frio: uma etnografia entre as escolas de samba de Curitiba”, as janelas e sacadas dos prédios laterais eram alugadas para famílias inteiras que assistiam os desfiles. A procura era tanta que a prefeitura chegou a cobrar uma taxa por esses aluguéis. Um bom exemplo visual desse período pode ser visto no filme O Carnaval em Curityba, de 1910, de Aníbal Requião. O tema seria retomado em 1926 por João Baptista Groff (A Cinemateca de Curitiba exibirá o filme neste sábado, dia 14).
Viacava lembra que em 1919 um folião contou as alegorias, que passaram pela rua XV: foram 623, ao todo, sendo 573 automóveis, 39 caminhões e 11 carrocinhas. Dez anos depois, isso inspirou a Câmara Municipal a sugerir a cobrança de uma taxa sobre os veículos que participassem do evento, com o objetivo de destinar a renda auferida ao Asilo São Luz, mas a possibilidade foi rechaçada pelo então prefeito Eurides Cunha, que classificou a proposta como antipática e odiosa. Segundo ele, além da cobrança configurar uma bitributação, o asilo já recebia donativos oficiais.
“O corso em Curitiba teve seus períodos áureos. Os carros desfilavam num circuito entre a Praça Ozório, a rua XV e a praça Santos Andrade, onde as batalhas de confete e serpentina eram tão violentas que, por vezes, era necessária uma trégua provisória para que os garis da prefeitura limpassem o campo de batalha”, lembrou José Cadilhe de Oliveira, fundador da escola de samba Embaixadores da Alegria.
Uma personagem que marcou o carnaval curitibano foi o jornalista e ilustrador Alceu Chichorro, autor das personagens Fumaça, Marcelina e Totó. Chichorro tinha o costume de desenhar figuras públicas caracterizadas com trajes carnavalescos e sempre em companhia dos três personagens que alcançaram sucesso inclusive em jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Lorde Kananga
Figuras típicas que se dedicaram à tradição do corso ficaram marcadas na memória da população de Curitiba, como o caso da família Reis, composta pelo patriarca João e pelos filhos Cláudio, Moacir, Raul, Dionéia e Iná, que montavam carros alegóricos em um barracão na Cândido de Abreu que eles denominavam “A Caverna”. Segundo o jornalista Cid Destefani, muitas alegorias foram montadas neste local. João Reis planejava os carros no Londres Bar, que ficava na esquina das ruas XV com Barão do Rio Branco. Os trabalhos contavam com a ajuda dos integrantes da Associação dos Cronistas Policiais, e os encontros eram marcados por lautas refeições. João pertencia à sociedade carnavalesca Kananga do Japão, o que lhe rendeu o apelido de “Lorde Kananga” (uma espécie de Rei Momo daquela época).
Em 1936, a Câmara Municipal auxiliou financeiramente, por meio de dois decretos, o clube Kananga do Japão com três contos de réis para a confecção de corsos e também os Vassourinhas da Água Verde, com quinhentos mil réis (além do jornal O Dia). Era o reconhecimento público da importância da festa popular que, desde o começo do século, promovia suas críticas políticas. Basta lembrar que em 1915 o chamado “Corso Maldito” propôs severas piadas contra o então prefeito Cândido de Abreu.
Em 1946, Curitiba presenciou o último desfile de um corso, naquele que ficou conhecido como o “Carnaval da Vitória”. Dois anos depois surgia a primeira escola de samba de Curitiba – a Colorado, fundada por Maé da Cuíca. Nesse ano ainda, a Rua XV passa a ser ocupada pelo desfile de grupos organizados.
Não há como negar que o Carnaval em Curitiba já vivenciou momentos de fervor extremo, como nos conta Euclides Bandeira em uma crônica de 1925 (citada no Boletim da Casa Romário Martins nº. 70, de 1983): “Os Títeres do Diabo, de camiseta vermelha e os Bohemios, de casaca foram talvez nossas primeiras sociedades carnavalescas. Rivais, acabaram num entrevero funesto. Na praça onde hoje se localiza o Paço Municipal, estava sendo construída a casa do Mourinha. Havia pilhas de pedras e tijolos. A pugna, em lugar tão propício, foi renhida e contundente, enquanto as respectivas bandas musicais regidas pelos mestres Décio Mesquita e Generoso dos Santos furiosamente resfolegavam marchas guerreiras, concitando os lutadores à vitória”.
No ano passado, o Carnaval de Curitiba recebeu R$ 20 mil em emendas parlamentares destinadas pelos vereadores Pedro Paulo (PT) e Geovane Fernandes (PTB). Neste ano, além da emenda parlamentar de R$ 100 mil, a Câmara Municipal de Curitiba sedia, sem seu estacionamento, o Curitiba Rock Carnival, pelo segunda ano consecutivo. Serão 14 atrações musicais em dois dias de evento.
Agradecimento:
Divisão de Informação Legislativa e Biblioteca da Câmara Municipal de Curitiba
Referências Bibliográficas:
Curitiba - leis, decretos e resoluções, 1923. Resolução não sancionada. Página 60.
Curitiba - leis, decretos e resoluções, 1936.
http://www.cmc.pr.gov.br/down/NOSSA_MEMORIA/LEIS_ATOS_E_DECRETOS_CURITIBA_1902-1945/1936/LEIS_ATOS_E_DECRETOS_CURITIBA_ANO_1936.pdf
Viacava, Vanessa Maria Rodrigues. Samba quente, asfalto frio: uma etnografia entre as escolas de samba de Curitiba. Dissertação apresentada ao Curso de Pós-
Graduação em Antropologia Social. Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, como requisito parcial à obtenção do titulo de mestre em Antropologia. Curitiba, 2010.
http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/handle/1884/25512/dissertacao_vanessaviacava_sambaquente.pdf?sequence=1
Boletim infoirmativo da casa romário martins, nº. 70, fevereiro de 1983. fansaia circense. Pesquisa e texto: Maí Nascimento, Rafael Greca de Macedo e Rosângela Stringari. Curitiba, FCC, 1983.
Bahls, Aparecida Vaz da Silva. A sociedade em destaque. Sobre Alceu Chichorro Págs. 167 a 195 http://www.revistascuritibanas.ufpr.br/artigos.php
BAHLS, Aparecida Vaz da Silva; BUSO, Mariane Cristina. Factos da actualidade: charges e caricaturas em Curitiba, 1900-1950. Boletim Casa Romário Martins, v.33, n.42. Curitiba: FCC, 2009.
Sobre Alceu Chichorro:
http://www.zebeto.com.br/o-homem-triste-que-fazia-graca/#.VN3oekrRsgk
Imagens Cid/Casa da Memória
http://associacaoparanaensedeimprensa.org/2014/03/04/carnavais-de-curitiba/
Carnaval de Curitiba em 1910 – filme de Aníbal Requião dia 14 na cinemateca ou online
https://www.youtube.com/watch?v=oM2G_wLQODk
Stecz, Solange Straube. Cinema paranaense (1900-1930) Dissertação apresentada ao curso de PósGraduação em História, da Universidade Federal do Paraná concentração em História Social, Curitiba, 1988.
http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/handle/1884/24608
A antropóloga Carolina Blum fala sobre o Carnaval de Curitiba
Parte 2 https://www.youtube.com/watch?v=tqYYQqxzPaY
Parte 3 https://www.youtube.com/watch?v=DAiETj2j2Ok
Citado por Viacava NAROZNIAK, Jorge. Nem que me mordas: pequena história do carnaval de Curitiba. Curitiba: Edições Paiol, 1974
Destefani, Cid. Oh! Os bons carnavais. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia. 21 de fevereiro de 1993.
1933 – O ano em que as curitibanas foram às urnas
por Fernanda Foggiato — publicado 06/03/2015 14h10, última modificação 03/09/2020 17h06
A Rua XV de Novembro na década de 1930. (Foto – Acervo Casa da Memória/Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Cultural de Curitiba)
Outro grupo, porém, comemorava a vitória, como mostrou uma série de entrevistas publicada pelo jornal “Correio do Paraná” entre os dias 9 de fevereiro e 10 de março de 1933. As enquetes tinham em vista o pleito de 3 de maio – data em que o voto feminino foi efetivado. Assim como os homens com mais de 60 anos de idade, elas puderam optar se iriam se alistar para retirar o título de eleitora e votar nos representantes do Paraná à Assembleia Nacional Constituinte.
O balanço do “Correio do Paraná” foi incisivo: “Pudemos observar que a maioria das senhoras e senhoritas da nossa sociedade, obedecendo a uma tradição da sociedade brasileira, são contrárias ao voto feminino. A missão da mulher é no lar, preparando o Brasil de amanhã. E é essa missão que santifica o sexo formoso”. Das 20 enquetes, apenas quatro foram explicitamente favoráveis ao direito conquistado, prestes a ser colocado em prática.
Definida como “uma das figuras brilhantes da geração de moças do Paraná”, a acadêmica de direito Rosy Pinheiro Lima estreou as enquetes. Questionada se a mulher deveria votar, a jovem não disse sim, nem não. Declarou que as damas deveriam reunir as “predicações” necessárias, como cultura, capacidade e independência. No entanto, afirmou que “infelizmente” não havia se alistado, por não possuir a idade mínima de 21 anos (os 18 anos só começaram a valer com a Constituição de 1934, elaborada pelos deputados constituintes).
Nas duas próximas enquetes, o jornal ouviu cidadãs favoráveis ao voto feminino. “Vou alistar-me e espero que todas as minhas conterrâneas o façam”, declarou a senhora Ophelia de Menezes Piza, na edição de 10 de fevereiro. “Como não? Aliás, pela conquista desse direito venho há mais de dez annos ao lado de outras companheiras”, defendeu Martha Silva Gomes, estudante de direito e escritora, na coluna seguinte. Aquilo, para ela, era uma questão de equilíbrio social e reciprocidade de direitos. “Se as leis se fazem para todos, porque só a uma parcella conferir o direito de elabora-las?”, completou.
No dia 15, porém, surgiu a primeira de diversas entrevistas com resistência à ideia. “Sempre fui contraria a intromissão da mulher na política e no jury. Na minha opinião, a mulher deve estar no lar, cuidando dos filhos e de tudo o que exige sua presença”, opinou a artista Fernandina Marques. Na edição de 16 de fevereiro, o “Correio do Paraná” trouxe a avaliação negativa da senhora Yaya Junqueira França: “No Brasil, é muito cedo para a mulher votar”. “Espírito formoso” no meio intelectual feminino, ela argumentou que a “arena de retaliações” da política partidária e outros problemas eram “avessos aos sentimentos delicados”. “A mulher, no Brasil, é a flôr do lar”, justificou.
Na enquete seguinte, publicada em 18 de fevereiro, nova negativa, da violinista Ivette Dias. No dia 21, o jornal se disse surpreso com o andamento das enquetes, já que o “bello sexo”, em sua maioria, não seria favorável ao voto feminino. A entrevistada da vez, senhorita Gilvaneta Machado Lima, “figura de destaque no meio social”, declarou ser “irreconciliavelmente contra”.
No entanto, o “Correio do Paraná” alardeava que as enquetes vinham empolgando as damas da sociedade curitibana, curiosas para saber quem era a próxima entrevistada. “O sexo formoso, quando apanha o nosso jornal, procura logo esta pagina, antes de correr os olhos pela vida social”, publicou. No dia 22 de fevereiro, o jornal trouxe a opinião da violinista Helena Colle: “E´ uma cousa desconcertante e que não comprehendo bem, a mulher metida em politica, com titulos de eleitora ou nos conselhos de sentença”.
Na edição de 24 de fevereiro, a senhora Lorencinha Suplicy e Vidal defendeu que uma dona de casa não tinha tempo para política. “Prefiro ficar em casa, dirigindo o meu lar, cuidando do futuro dos meus filhos”, avaliou. As três entrevistadas seguintes compartilharam a argumentação. No dia 2 de março, a senhora Alcina Alves de Camargo disse que a brasileira ainda não estava à altura do voto e que se sentiria desnorteada.
“Mas essa regalia de votar e ser votada nos foi concedida e, portanto, acho que a mulher deve votar, julgar reus, enfim, usar dos direitos que a lei lhe conferiu”, ponderou Alcina. “Votar, ao meu ver, em nada diminue a nobresa da missão da mulher no lar”, defendeu a senhora Walquiria Chaves Motta, na edição de 3 de março. No dia seguinte, o “Correio do Paraná” publicou a última das entrevistas favoráveis ao voto feminino, da senhorita Nahyr Cruz. Para a jovem, a brasileira tinha inteligência e visão para ingressar na política, votar e ser votada, “e até para assumir cargos administrativos”.
Nas últimas três enquetes, publicadas entre 7 e 10 de março de 1933, repetiram-se opiniões de que à mulher competia a administração do lar. “Ainda não estamos preparadas para estas conquistas”, disse, relutante para expor a opinião, a viúva Maria Joaquina Marçallo. “A politica, entre os homens mesmo, é causa de innumeros dissabores (...) Desde que o mundo é mundo compete aos homens a administração publica”, avaliou a senhorita Estella Ferreira do Amaral. Para a última entrevistada, Leonor Motta, a mulher seria mais útil para a política “educando os filhos, preparando o caracter dos homens”.
O toque feminino às seções eleitorais
As eleições para a Constituinte foram realizadas no dia 3 de maio de 1933, uma quarta-feira em que Getúlio Vargas decretou feriado nacional. No Paraná, segundo informações do jornal “Diário da Tarde”, alistaram-se 34.435 eleitores. Desses, 7.068 em Curitiba, sendo que 5.688 compareceram às urnas, sob “ordem absoluta”. Não há estatísticas, entretanto, de quantas mulheres fizeram o título ou votaram.
“O grande pleito de maio”, como era anunciado, representou também o início do voto secreto – conquista que, na cobertura das eleições, dominou os comentários da imprensa local. Na capa da “Gazeta do Povo” de 3 de maio, saudava-se o “espetáculo inédito” trazido pelo “Código Eleitoral que a Revolução deu ao Brasil”. Apenas na edição do dia 5, na coluna de Frederico Faria de Oliveira, houve uma menção à presença feminina nas eleições.
Sob o título “Voto Secreto”, o jornalista disse que em sua seção eleitoral “transbordava gente de todos os naipes, inclusive senhoras graves e senhorinhas vaporosas”. A coluna relatava que as “silhuetas atraentes de mulher” conversavam, animadas, sobre as eleições, com perguntas de em quem votariam. Outra nota, de 7 de maio, comentava o caso de uma “senhorita” impedida de votar na 7ª seção eleitoral. Ela não havia reparado que o título trazia, em vez de sua fotografia, o retrato de um “carão barbado”.
No “Diário da Tarde” também imperaram os comentários ao voto secreto, além de críticas à morosidade da apuração. Na capa da edição de 5 de maio, a matéria intitulada “O saldo da Revolução de 1930” saudava: “Por toda parte, no Brasil, os cidadãos de ambos os sexos votaram em quem livremente escolheram”. Mas foi na “Coluna Morretense” que o voto feminino ganhou espaço na cobertura do pleito. “O bello sexo com sua presença deu-nos a confiança na ordem e esperança de melhores dias pela expontaneidade e decisão com que fez uso do direito conquistado de intervir nos negocios publicos”, dizia.
No dia 12 de maio, o assunto de capa ainda era a eleição da Constituinte: “É indiscutivel que o pleito de 3 de maio constituio um acontecimento cívico de rara beleza. (...) Votou todo mundo, sem constrangimento. Votaram também as mulheres”. Na cobertura do “Correio do Paraná”, o destaque foi, na mesma linha, ao voto secreto.
O resultado do pleito saiu no dia 17 de maio de 1933. Foram eleitos, pelos homens e mulheres do estado, os deputados constituintes coronel Plinio Tourinho (Partido Liberal), general Raul Munhóz (Liga Católica), Lacerda Pinto (Liga Católica) e Antonio Jorge Machado Lima (Partido Social-Democrático), que ajudariam a elaborar a Constituição de 1934.
* As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fiéis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.
Referências Bibliográficas:
Cabral, João C. da Rocha. Código Eleitoral da República dos Estados Unidos do Brasil. Secretaria de Documentação e Informação. Brasília, 2004. Disponível em: http://www.tse.jus.br/hotSites/CatalogoPublicacoes/pdf/codigo_eleitoral_1932.pdf
Código Eleitoral de 1932. Disponível em:
http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=33626
Glossário eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Termo “Voto da Mulher”. Disponível em: http://www.tse.jus.br/eleitor/glossario/termos/voto-da-mulher
Jornal “Correio do Paraná”. Edições de 16 de janeiro; 9, 10, 11, 15, 16, 18, 20, 21, 22, 23, 24 e 25 de fevereiro; 1º, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 10 de março; e 17 de maio de 1933. Disponíveis em: http://hemerotecadigital.bn.br/
Jornal “Diário da Tarde”. Edições dos dias 3, 5 e 12 de maio de 1933. Disponíveis para consulta em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná.
Jornal “Gazeta do Povo”. Edições de 3, 5 e 7 de maio de 1933. Disponíveis para consulta em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná.
A história da Guarda Civil do Paraná (1911-1970)
por João Cândido Martins — publicado 09/10/2015 13h10, última modificação 03/09/2020 16h38
Integrantes da 1ª turma da Guarda Civil desfilam pela avenida Luiz Xavier no dia 25 de novembro de 1911. (Foto: Acervo Cid Destefani, Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia, 15 de novembro de 1992)
Em 1831 a segurança pública no Brasil passou por uma grande reforma. Seu autor foi Diogo Antônio Feijó, um dos regentes que governaram o país após o retorno de Dom Pedro I a Portugal. O sucessor natural, Dom Pedro II, não tinha idade para assumir o trono, o que determinou esse hiato regencial durante o Brasil Império. Padre Feijó, quando ainda era ministro da justiça, extinguiu as antigas Forças Armadas das Capitanias, que eram compostas pela Tropas de Linha das Milícias e pelos Corpos de Ordenanças, criando em substituição a Guarda Nacional (lei de 18 de agosto de 1831) que deveria ter representações em todos os municípios do país.
Outra lei, de 10 de outubro do mesmo ano, altera o nome das recém-criadas corporações locais para “Guardas Municipais”. A regulamentação dessa lei foi estabelecida 12 dias depois, por meio de um decreto. Conforme esclarece Alci Romero em sua pesquisa “A Gênese da Polícia Militar no Estado do Paraná (1831-1874)”, esta regulamentação das Guardas Municipais estipulava características genéricas e disciplinares que a nova corporação deveria assumir nas cidades em que fosse adotada. Seu molde foi a Guarda Municipal de São Paulo, que se tornou o núcleo fundador da futura Polícia Militar daquele estado.
Curitiba, que era a 5ª Comarca da Província de São Paulo, só foi contemplada com um destacamento em 25 de junho de 1834. O inspetor Cláudio Frederico, atual comandante da Guarda Municipal de Curitiba, aponta o fato de que entre os livros pertencentes ao acervo histórico da Câmara Municipal, de fato encontra-se a “Qualificação dos Guardas Municipais 1835-1846”, o que demonstraria a existência dessa corporação militar.
Alci Romero, entretanto, lembra que dois anos depois seria criada, novamente por meio de lei provincial (10 de março de 1836), outra entidade para a defesa de Curitiba: a “Companhia de Municipais Permanentes”. De acordo com o pesquisador, a atuação dos permanentes também se mostrou irregular, esporádica e essa situação se prolongou até a Emancipação do Paraná, em 1853.
Este evento possibilitou que o primeiro presidente da província, Zacarias de Góes e Vasconcellos, assinasse a criação da “Companhia de Força Policial” (lei nº. 7/1854), embrião da atual Polícia Militar do Paraná. O regimento era constituído inicialmente por 67 homens e 33 armas de fogo. A entidade, de acordo com Romero, “não desempenhou uma atividade ativa junto à população, exatamente porque os presidentes provinciais aos quais estava subordinada preferiram deixá-la nos quartéis”.
A Guerra do Paraguai acentuou essa ausência, mas ao término do conflito, em 1870, a corporação contava com 140 integrantes e, em 1874, seu efetivo havia aumentado para 202 praças. Nesse mesmo ano seu nome foi substituído para “Corpo Policial da Província do Paraná”.
Polícia Científica
Conforme o pesquisador Clóvis Gruner em sua tese de doutorado “Paixões torpes, ambições sórdidas...” a Proclamação da República trouxe novidades em todas as áreas da sociedade, sendo que uma delas foi a da segurança pública, com a aprovação do “Código Penal Brazileiro”, em 1890. A nova legislação possibilitou a adoção de metodologias e inovações científicas que estavam revolucionando as forças policiais em países da Europa e na América.
Exames dactiloscópicos (impressões digitais) passaram a ser praticados no Gabinete de Identificação e Estatística (inaugurado em Curitiba no ano de 1895). Cinco anos depois, a Polícia do Paraná passou a usar a fotografia para a identificação de presos e também para o registro de cenas de crimes. Em 1914, foi inaugurado o Laboratório de Análises que realizava exames de sangue e de esperma, entre outros. Este órgão se somou ao Serviço Médico Legal (necrotério) para conferir à atividade policial um caráter mais científico, em acordo com as aspirações positivistas da época.
Nesse contexto de renovação, havia, também, a necessidade de uma melhor convivência entre a polícia e a população, o que só seria possível com patrulheiros de rua cordatos e gentis. Essa necessidade gerou, em 1904, a criação da primeira Guarda Civil de uma cidade brasileira [Rio de Janeiro, então Distrito Federal].
No Paraná, o artigo 8º da lei estadual 1041/1911 autorizou o presidente do estado [Francisco Xavier da Silva] a criar a Guarda Civil. Ela foi instituída pelo decreto estadual 262 de 17 de junho de 1911 e passou a atuar com sede num dos prédios do entorno da Praça Zacarias. A inauguração deste local se deu em 25 de novembro daquele ano e foi descrita pelo jornal “A República” daquele mesmo dia.
Conforme o periódico, as instalações da Guarda Civil estavam ornamentadas por buquês de flores naturais e, nas paredes, quadros com máximas morais. O evento inaugural contou com a presença de autoridades civis e militares, representantes da imprensa e outros convidados que puderam ouvir as palavras do doutor Stanislau Cardoso, Chefe de Polícia. Ele lembrou como a corporação foi criada e enalteceu seus objetivos. Outros discursos foram proferidos. Os 60 guardas-civis (confira abaixo o anexo “pdf 1”) que compunham aquele primeiro regimento permaneceram enfileirados na entrada do prédio e, após a inauguração, desfilaram pelas ruas da cidade recebendo muitos aplausos. “Eram os novos agentes da lei que o povo saudava em nome da própria segurança”, observou o jornalista Cid Destefani em matéria sobre a Guarda Civil publicada pela Gazeta do Povo em 1992.
Progresso
A criação da Guarda Civil também estava em consonância com a ideia de modernidade e progresso que Curitiba almejava desde que se tornou capital da Província. Países da Europa, sobretudo a França, exportavam tendências que eram adotadas (com maior ou menor grau de adesão) pelo resto do mundo, então não seria de todo equivocado encontrar elementos de “gendarmerie” na apresentação e na conduta daqueles novos policiais curitibanos. “Gens d’armes” (Homens de Armas) eram os integrantes das milícias surgidas em Paris durante a Revolução Francesa (1789) com a finalidade de tentar preservar a segurança da cidade. Com o tempo, a expressão ganhou outros contornos e se expandiu pelo mundo como sinônimo de polícia de elite.
Os uniformes cor azul-marinho utilizados pelos guardas-civis de Curitiba inspiravam confiança, sentimento que o povo não nutria, naquele momento, em relação ao Regimento de Segurança. A instituição, desde 1908 sofria os reflexos de uma tentativa de insurreição interna que resultou na morte de um dos revoltosos.
A definição da Guarda Civil como uma guarda de elite já estava presente na imprensa ( confira abaixo o anexo “pdf 2”) e nas discussões parlamentares que antecederam sua criação, como se pode depreender do debate havido entre os deputados estaduais Benjamim Pessoa e Jayme Reis [registrado no jornal “A República” de 27 de junho de 1911]. Reis defendia que a medida seria desnecessária, pois a solução do problema da criminalidade em Curitiba consistiria em aumentar o efetivo do Regimento de Segurança.
Pessoa rebateu com a seguinte argumentação: “a Guarda Civil tem uma significação moral mais elevada, effectivamente, porque este é um projeto de cidades grandes, de cidades prósperas, de cidades ricas, é até mesmo um adorno, um enfeite; a cidade servida por Guarda Civil composta de moços limpos, educados, bem instruídos, capazes de raciocínio, de lógica, aptos para distinguir bem a razão entre dois litigantes. Ella tem um ponto de vista mais lato, um horizonte mais vasto; uma cousa bonita, que dá nome a uma cidade, a um estado, a um governo; tem esta significação bela”.
A exigência de boa conduta por parte dos novos guardas-civis estava explícita no texto do decreto que criou a instituição [e que veio a embasar seu regulamento]. O decreto 262 de 15 de março de 1911, publicado pelo jornal “A República” em 24 de junho diz em seu artigo 28 que o guarda deve dirigir-se ao superior com inteira obediência e tratar com os companheiros e o público com a maior cortesia e seriedade. O artigo seguinte determinava que o guarda não deveria provocar ou alimentar discussões, e no cumprimento de suas funções deveria agir com prudência, calma e energia, tratando os delinquentes com respeito e humanidade. O texto vai além, estipulando restrições comportamentais aos agentes: o artigo 34 estabelecia que o guarda durante o serviço [que durava seis horas] não deveria fumar, conversar ou se sentar.
A reação popular
A estreia da nova corporação foi vista com desconfiança pela população, conforme se verifica numa crônica publicada em “A República” uma semana depois da implantação do serviço. O autor, que se intitula singelamente “Solidônio”, diz que num lugar onde o patrulhamento policial era até então praticamente nenhum, seria de se esperar que a população reagisse com estranhamento. “Era de supor, portanto, que aqui ou ali a intervenção do Guarda causasse contrariedade porque, se alguns, por prudência ou julgando justa qualquer admoestação, a ellas se submettiam, outros poderiam insurgir-se colocando acima dos princípios de tolerância os estos da vaidade, do orgulho, do sentimento de rebeldia que todo povo livre possue em maior ou menor somma”.
A crônica sugere que os guardas pareciam levar excessivamente ao “pé-da-letra” as normas e instruções municipais, como foi o caso da lei que proibia o trânsito pelas calçadas portando cargas (sem definir o porte dessas cargas). O cronista reclama que, após uma longa preleção moral, foi instado pelo guarda a andar pelo leito da rua XV por estar carregando um pequeno pacote que continha meras empadas (A República, 2 de dezembro de 1911).
Após este impacto inicial, a imprensa acabou por se acostumar com a novidade e a Guarda Civil passou a ser citada quase diariamente. Chama atenção, nesses primeiros tempos da corporação, a quantidade de eventos prosaicos, como o registrado pelo jornal “A República” em 31 de janeiro de 1912. Anunciava-se o fato de que um Guarda Civil havia encontrado um guarda-chuva perdido na Praça Osório e que o objeto estava na sede da Guarda à disposição do proprietário. Outras notícias destes primeiros anos descrevem cuidados da Guarda Civil em relação a moradores de rua, alcoolizados violentos, animais abandonados e também o combate ao tráfico de carne irregular [não abatida no Matadouro Municipal].
Mas não tardou para que os guardas-civis atuassem em episódios mais violentos, como o que é descrito por Ediméri Stadler Vasco em sua pesquisa “A cultura do trabalho na Curitiba de 1890 a 1920”. Ele menciona a situação que envolveu dois padeiros [Procópio Cléves e Francisco Fallavela] que trabalhavam na padaria de Paulo Dalle, na rua Conselheiro Barradas [antiga Rua do Serrito e futura Presidente Carlos Cavalcanti], no ano de 1914. Houve uma discussão entre os dois a respeito de 200 réis que uma criada havia passado a Francisco para que ele remetesse uma carta pelo correio, ação não levada a efeito, segundo Procópio. Ambos se feriram com objetos perfurantes contundentes [uma faca e uma ripa de madeira]. Um Guarda Civil que passava à rua naquele momento foi acionado pela esposa de Paulo Dalle e separou os contendores já gravemente feridos.
Em 1922, mesmo ano em que a Guarda obteve equiparação salarial com a Polícia Militar, o tenente Aristóteles Xavier publicou o manual “Gyria dos Delinquentes (Dialecto dos Malandros)” - republicado em 1978 pela Revista da Polícia Civil do Paraná. De acordo com o pesquisador Clóvis Gruner, o manual, hoje raro, foi feito aos moldes de outra pesquisa da mesma natureza lançada alguns anos antes pelo alagoano Elysio de Carvalho, um dos maiores entusiastas da ideia de “polícia científica”. Aristóteles Xavier, que à época exercia a função de instrutor na escola da Guarda Cívica [nome da Guarda Civil durante alguns anos] encerrava seu manual com um breve diálogo (confira abaixo o anexo “pdf 3”) construído por meio do emprego de algumas das expressões coletadas.
Outros fatos
Na virada dos anos 20 para os anos 30, os jornais “A República” e “A Gazeta do Povo” entraram numa polêmica a respeito dos salários pagos aos agentes da Guarda Civil [naquele momento conhecida como Guarda Cívica]. A “Gazeta” defendia que os agentes eram mal remunerados e que isso influenciava na qualidade da sua atuação. “A República” refutava as acusações, publicando em 17 de setembro de 1929 inclusive uma carta resposta do comandante da corporação capitão Francisco da Fontana Barreto que convidava os críticos para uma visita às “recém-hygienizadas” instalações da Guarda. A polêmica atingiu seu ápice quando a tentativa de suicídio da esposa de um Guarda Cívico foi atribuída pela “Gazeta” aos baixos salários pagos, de acordo com a edição de A República de 27 de abril de 1930.
Possivelmente tais fatos contribuíram para que em 11 de junho daquele mesmo ano, uma decisão judicial da “Corte de Apellação” conferisse o status de servidor público aos integrantes da guarda. A sentença proferia que o Guarda Cívico (ou Civil) “é um agente da autoridade pública, subordinado ao Chefe de Polícia, cujas funções auxilia por delegação, [portanto] deve ser considerado funcionário público para efeitos legais”.
Entre os meses de agosto e outubro de 1932, os integrantes da Guarda Civil foram incorporados ao Exército para atuarem junto às tropas federais na insurgência conhecida como “Revolução Constitucionalista”, conta o guarda-civil Miroslau Santchuck em texto publicado em 1969, na revista da Guarda Civil. Em 31 de janeiro de 1937, o chefe de polícia Roberto Barroso emitiu uma nota de pesar pelo falecimento do guarda Sebastião Siqueira, que foi publicada pelo jornal “O Estado”. Siqueira era o último guarda remanescente das primeiras turmas da Guarda Civil (ingressou em 18 de novembro de 1913), tendo permanecido na corporação durante 23 anos sem uma nódoa em sua ficha.
“Contar toda a história da Guarda Civil requer um livro bem volumoso”, disse Cid Destefani em sua coluna Nostalgia publicada pelo jornal Gazeta do Povo em 15 de novembro de 1992. “Com a implantação do regime militar em 1964, a Guarda Civil foi extinta em todo o Brasil sob a alegação de que não poderiam existir organizações paramilitares além da Polícia Militar, que é uma tropa auxiliar do próprio Exército. Foi uma pena. Os guardas-civis deixaram saudades”, lamentou o jornalista, falecido em setembro deste ano.
Galeria dos Heróis
O inspetor Cláudio Frederico, atual diretor da Guarda Municipal, é detentor de uma preciosa raridade: uma revista publicada pelo governo do estado em 1969, por ocasião do encerramento das atividades da Guarda Civil. A publicação contém as biografias de Paulo Pimentel (governador do estado), do coronel Julio Werner Hackradt (secretário de segurança) e do major Benur Augusto Muniz, ex-expedicionário que ocupava a direção da Guarda Civil do Paraná naquele momento. Fotos mostram o cotidiano da Guarda, os integrantes da corporação em seus locais de atividade, treinamentos físicos etc.
Um dos textos que compõem esta revista é o relatório de Durval Simões, Diretor da Subdivisão de Rádio Patrulha. Ele informa que “no decorrer desses anos de luta contra a delinquência de toda natureza, tombaram no cumprimento do dever os seguintes patrulheiros: em 16 de setembro de 1961, Waldomiro Ry; em 22 de junho de 1964, José Alcides de Lima; em 21 de dezembro de 1964, José Pereira de Araújo; em 15 de janeiro de 1967, Izidoro Siedelinski e em 29 de setembro de 1969, João Vieira. (...) Esses nomes, como não poderia deixar de ser, fazem parte da Galeria dos Heróis da Guarda Civil do Paraná, que, mesmo com sua extinção, jamais serão esquecidos”.,
Para o inspetor Frederico, a existência dessa revista realça ainda mais a necessidade de preservação das memórias tanto da Guarda Civil quanto da Municipal. “Um tributo a todos que doaram um pouco de suas vidas em favor da segurança pública de Curitiba”, afirma o policial. Ele ainda esclarece que doações particulares para o acervo da Guarda Municipal de Curitiba são bem-vindas.
Referências Bibliográficas
Destefani, Cid. Guarda Civil. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (15 de novembro de 1992) - impresso
Destefani, Cid. A polícia na velha Curitiba. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (23/11/2013)
Destefani, Cid. Imagens perdidas. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (24/10/2009)
Garcia, Alex Ferreira. De Zacarias aos dias de hoje: a segurança pública em Curitiba. Revista Vernáculo, n. 17 e 18, 2006.
Gruner, Clóvis. Em torno à “boa ciência”: debates jurídicos e a questão penitenciária na imprensa curitibana. Revista de história Regional 8 (1): 67-94, Verão, 2003.
Gruner, Clóvis. Um bom estímulo à regeneração”: a Penitenciária do Estado e as novas estratégias da ordem na Curitiba da Primeira República. Revista História. São Paulo, 28 (2). Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Campus de Franca, 2009.
Gruner, Clóvis. Paixões torpes, ambições sórdidas: transgressão, controle social, cultura e sensibilidade moderna em Curitiba, fins do século XIX e início do XX. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em História. Curitiba, 2012.
Hemeroteca Digital Brasileira (coleção de jornais antigos)
Romero, Alci Fonseca. A gênese da Polícia Militar no estado do Paraná (1831-1874). Monografia apresentada ao Curso de Bacharelado e Licenciatura em História da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2000.
Souza, Camila Castro de. Casas e monstros em Curitiba, 1890-1920. Monografia apresentada para obtenção da graduação no curso de História da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2000.
Vasco, Ediméri Stadler. A cultura do trabalho na Curitiba de 1890 a 1920. Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, como quesito parcial à obtenção do título de Mestre em História. Curitiba, 2006.
https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/a-historia-da-guarda-civil-do-parana-1911-1970
Praça Zacarias: de Largo do Ivo aos tempos atuais
Registro nas atas, de 1855, revela quando a Câmara resolveu construir um chafariz no “Largo do Ivo”.
A praça sofreu diversas mudanças ao longo dos anos, até chegar ao que é hoje. Um registro nas atas do Legislativo de 31 de janeiro de 1855 revela quando a Câmara resolveu construir um chafariz no “Largo do Ivo”. Foi encaminhada ao presidente da Província, Zacarias de Góes e Vasconcelos, a solicitação de um engenheiro para fazer o projeto, por meio do qual o fiscal faria o orçamento para a obra. O pedido para se fazer um chafariz na praça já estava sendo ensaiado desde 1849. No dia 12 de abril daquele ano, o vereador Silva Carrão pedia orçamento para a construção de “hum chafariz no largo além da ponte do Ivo”, como registra a ata.Em 1860, a fonte já precisava de consertos. A ata, de 10 de julho daquele ano, conta que havia sido aprovado pela Câmara o conserto da carioca. Um fiscal também ficava incumbido de proibir a lavagem de roupas na fonte, o que era praxe desde o início da colonização. Porém, era um costume difícil de se abandonar, já que água encanada não era algo nada popular.
Sempre foi rodeada por construções famosas, como o antigo Cine Luz, inaugurado em 1939 e destruído por um incêndio em 1961, e o Museu Paranaense, de 1876 (hoje no palácio São Francisco).
O primeiro Mercado Municipal de Curitiba também ficava na Zacarias. Registros revelam que, em 1856, a Câmara discutia a construção de um mercado. Foi lida uma portaria do presidente da província ordenando à Casa que encaminhasse uma remessa da planta e do orçamento aproximado da Praça de Mercado da capital para a Assembléia Provincial.
Em agosto de 1858, a Câmara lia outra portaria do governo da província avisando ter ordenado à tesouraria que pusesse à disposição da Casa a quantia de dois mil réis para a continuação das obras da Praça do Mercado.
Com o passar dos anos, a praça foi se transformando, devido às várias reformas que sofreu. Em 1915, foi toda reformada e batizada pela última vez, tendo recebido o monumento de Zacarias de Góes e Vasconcelos, em homenagem ao primeiro presidente da província do Paraná. Em 1960, outra reforma. Em 1976, foi totalmente repaginada, com ares modernistas que deram a ela a aparência que conserva até hoje.