domingo, 23 de julho de 2023

Gilda: Um beijo na Boca Maldita

 

Gilda: Um beijo na Boca Maldita


Vi gilda rindo
Chorando
Não sei onde
Não lembro quando

Gilda não é homem
E nem mulher
Gilda é gilda
Porque pode ser o que quiser

Bailarina
Rainha
Messalina
Mendiga boa de briga

Comam sua bunda
Chupem seu pau
Chutem sua cara
No carnaval

Gilda viva
Curitiba morta
Gilda é um pecado atrás da porta

Gilda mal falada
Gilda bendita
Ainda te mordem
Os dentes da boca maldita

E eu que nunca a amei
De verdade
Hoje sei o quanto dói uma saudade

Antonio Thadeu Wojciechowski

Curitiba é uma cidade cheia de personagens, há quem venha para cá só querendo tirar uma foto com o Oil Man ou passar na frente da casa do Dalton Trevisan, o nosso vampiro. Nós da Joaquim, que somos curitibanos de nascença ou apenas por opção, vamos começar a contar um pouco sobre a história desses personagens que tornam nossa cidade tão peculiar, como diria Rita Lee “quero ser normal em Curitiba”.

Não há turista que venha para Curitiba que não passe pela rua XV e pela Boca Maldita, ali entre o Bondinho e a Praça Osório já foi e é palco para muita coisa, desde manifestações fervorosas, lugar para se discutir política e vida curitibana, e claro, espaço para transitarem os incríveis personagens da cidade. Na segunda metade da década de 70 e inicio dos anos 80 ali foi ponto de Gilda, a rainha beijoqueira da Boca Maldita.

Considerado o primeiro travesti conhecido de Curitiba, Rubens Aparecido Rinke conseguiu muitas moedinhas, beijos e alegrias desfilando pela região central da cidade, usando seu batom e maquiagem, quebrando os tons de cinza da capital paranaense. Claro que não agradava a todos, mas não escapava do olhar de ninguém e ainda fazia muitos amigos que se divertiam com sua liberdade de transitar, fazer suas brincadeiras e viver do modo que lhe conviesse.

Não se sabe exatamente quando Gilda – uma provavel referência ao clássico filme com Rita Hayworth, a mulher fatal – desceu em terras curitibanas. O jornalista Ali Chaim diz que em 75, quando ainda estavam colocando as pedras petit pavé na região, ele estava estacionando perto da Praça Osório e um homem se aproximou dele pedindo um cigarro. O jornalista conta que logo de cara percebeu que o rapaz era irreverente, começou a conversar e soube que chegara há pouco na capital, estava cansado da família (segundo ele de Londrina) e viera viver outros ares por aqui.

O adjetivo de irreverência que Gilda ganhou, vinha do fato dela ser mesmo um personagem de Rubens Aparecido: um homem barbudo, cheio de pêlos, desfilando com vestidos e saias por cima da calça e maquiagem escandalosa. Não combinava com nenhum visual luxuoso de uma vedete travesti e sim um pastiche do que poderia ser feminino e glamuroso.

O Carnaval era o momento em que Gilda se soltava mais e inclusive muitas pessoas aguardavam a aparição da figura durante a festa. Claro que não agradando a todos, pois sendo esse o momento em que homens da alta sociedade podem se fantasiar de mulheres, ninguém quer competir com um morador de rua que se travestia por ousadia própria. Em um dos Carnavais, Gilda tentando fazer parte da famosa Banda Polaca, que por ironia trazia moças nuas sambando na avenida mas não aceitava travestis felizes, foi proibida de participar, aparecendo depois com hematomas.

Gilda era mais que um simples personagem de rua, era uma verdadeira pedra no sapato da sociedade curitibana da época, recatada e provinciana. Ela era a liberdade na rua e como conta Washington Cesar Takeuchi, do blog Circulando por Curitiba.

A melhor lembrança que tenho da Gilda aconteceu num dia de muita chuva. Naquela tarde, enquanto todas as pessoas surpreendidas pela chuva buscavam a proteção e se apertavam debaixo das marquises, lá no meio da XV, no coração da Boca Maldita, sozinha estava a Gilda de braços abertos, dançando e dando boas vindas a tempestade.


Morreu aos 32 anos,e representava a liberdade num período de preconceito, repressão e costumes provincianos. Mas, não foi esquecida e como tinha paixão pelo Carnaval, foi tema de escolas de sambas, documentários e inclusive de estudo acadêmico. A morte de Gilda é envolta em mistério, fruto do preconceito de uma sociedade que ignora tudo que está à margem. Foi enterrada no Cemitério das Flores com mais outros 18 travestis e virou mais um mito da cidade repleta de vampiros, minotauros, Oil Men e claro, Gilda beijoqueira.

Abaixo um minidocumentário, dirigido por Yanko del Pino, entrevistando pessoas da época. Uma breve homenagem à beijoqueira.

O lado oeste da PRAÇA TIRADENTES em 1890 e 1905. Assinalado, o TEATRO SÃO TEODORO/GUAÍRA.

 O lado oeste da PRAÇA TIRADENTES em 1890 e 1905. Assinalado, o TEATRO SÃO TEODORO/GUAÍRA.


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A Rua São Francisco vista da Torre da Catedral em 1900.

 A Rua São Francisco vista da Torre da Catedral em 1900.


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Parte do Largo da Ordem e a Rua José Bonifácio de 1935

 Parte do Largo da Ordem e a Rua José Bonifácio de 1935


Pode ser uma imagem em preto e branco de o Rio Arno e rua

Relembrando, uma linda vista da Praça Tiradentes e adjacências, do ano de 1946

 Relembrando, uma linda vista da Praça Tiradentes e adjacências, do ano de 1946


Pode ser uma imagem em preto e branco

CONHECENDO UM POUCO DA ERVATEIRA AMERICANA

 CONHECENDO UM POUCO DA ERVATEIRA AMERICANA


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Caminhões carregados com barricas de madeira para acondicionamento de erva mate, aguardam descarga em frente a ervateira Americana.


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Fachada da Ervateira Americana, década de 1920.


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Foto de meados da década de 1910, mostra o conjunto de Caldeira e eixo volante que transmitia a força motriz para funcionamento das diversas maquinas da indústria, era chamado de "locomovel". Foi desenvolvido e fabricado na Mueller & Irmãos.
Foto: Acervo Paulo Jose Costa.


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Foto de 1916, mostrando o escritório e arquivos contábeis da Hervateira Americana.
Foto: Acervo Paulo José Costa.


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David Carneiro e funcionários do escritório da Hervateira Americana, em foto década de 1910.
Foto: Acervo Paulo José Costa.


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David da Silva Carneiro, em sua escrivaninha, proprietário da Hervateira Americana.
Foto: Acervo Paulo José Costa.


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Imponente fachada da Hervateira Americana, na esquina da rua Comendador Araujo com Brigadeiro Franco, Curitiba, em foto de 1916.
Foto: Acervo Cid Destefani.


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Barricas de pinho sendo descarregadas na Hervateira Americana, em 1916.
Foto: Acervo Cid Destefani.m

CONHECENDO UM POUCO DA ERVATEIRA AMERICANA
A obra "Impressões do Brazil no Século Vinte", editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd., apresentou a empresa "Hervateira Americana", de Curitiba, a qual localizava-se na rua Comendador Araujo esquina com Brigadeiro Franco, com a seguinte descrição:
" David Carneiro & Cia. - Esta firma, fundada em 1876, tem atualmente como sócios solidários os srs. David A. da Silva Carneiro, David Carneiro Junior e dr. Raul da Costa Carneiro. O seu capital é de Rs. 400:000$000, além dos fundos de reserva, que montam a uma soma aproximadamente igual.
A firma possui uma fábrica para o preparo de erva-mate, provida de maquinismo moderno e aperfeiçoado, acionado por um motor de 100 hp. As barricas para o acondicionamento de erva-mate são fabricadas na serraria anexa à fábrica. O pessoal operário sobe a 100 pessoas, distribuídas pelas várias seções do estabelecimento, que é dirigido por dois gerentes. A produção anual da fábrica vai a 4.000.000 de quilos, esperando a firma, com as reformas ultimamente introduzidas, elevá-la a 6.000.000 de quilos.
Os produtos desta fábrica têm obtido elevadas distinções em várias exposições, tais como as de São Luiz em 1904, Rio de Janeiro em 1908, Milão em 1908, Londres em 1909, e muitas outras. Para bem salientar a excelência dos produtos da firma David Carneiro & Cia., basta dizer que eles obtiveram nessas exposições, além de medalhas de ouro, prata e cobre, nada menos de 10 Grandes Prêmios."
Apesar da pouca menção dela nas publicações sobre a indústria da erva-mate na história de Curitiba, o texto acima, publicado em 1912, alem da grande importância histórica, nos apresenta a grande dimensão do empreendimento, permitindo situá-la ao lado das maiores hervateiras curitibanas da época.
As fotos de suas instalações, adiante apresentadas, complementam essa breve descrição e nos ajudam a perceber sua grandeza.
Paulo Grani

INCÊNDIO, INCÊNDIO, INCÊNDIO ! ... " Era o que anunciava o toque do sino da igreja, em 1897.

 INCÊNDIO, INCÊNDIO, INCÊNDIO ! ...
" Era o que anunciava o toque do sino da igreja, em 1897.


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Histórica foto da primeira década de 1900, apresenta os Bombeiros Voluntários de Curitiba a postos sobre as viaturas adaptadas sobre carroças tracionadas por dois pares de mulas. Erven menciona em sua obra que "haviam exercícios diários (no início da Saldanha Marinho) e escala de prontidão para fogo, próximo a Catedral Metropolitana de Curitiba. Foi possível, com as doações espontâneas feitas, dotar de materiais e uniformes os voluntários do combate a incêndios. Tinham carros com tração executada pelos próprios bombeiros na falta de animais com escadas de madeira, mangueiras e uma pequena bomba."

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Emíl Verwiebe – Comandante Superior; Frederico Seegmüller – Primeiro Comandante; Ferdinando Poppe – Segundo Comandante; Antonio Pospissil – Comandante dos Auxiliares; Rodolfo Schmidt – Mestre Bomba; Rodolfo Rossenau – Contra-mestre; João Schmidt – Mestre de Material; Alberto Shoneweg – Primeiro Porta-mangueiras; João Rotlek e Wenceslau Glaser – Ajudantes.

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Neste close da foto do incêndio da Cadeia Pública de Curitiba, de 1897, vê-se os Bombeiros Voluntários da Sociedade Teuto-brasileira, vestidos com os uniformes adotados, bem como seus requintados capacetes. Nas carroças eram adaptadas grandes barricas para transportar a água até o local de incêndio e, ao lado, a bomba de recalque era acionada por uma equipe de seis bombeiros, três em cada lado da gangorra, uma mangueira e as escadas de madeira eram os precários equipamentos possíveis juntados pela valorosa corporação.
INCÊNDIO, INCÊNDIO, INCÊNDIO ! ...
" Era o que anunciava o toque do sino da igreja, em 1897.
Dotados de materiais e uniformes, sem quartel, fazendo exercícios na Rua Saldanha Marinho, Emílio Verwiebe, Frederico Seegmuller, Ferdinando Poppe, Alberto Schoneweg, João e Rodolfo Schmidt, Rodolfo Rossenau, João Rotlek, Antônio Pospissil e Venceslau Glaser, fundaram a Sociedade Teuto-Brasileira de Bombeiros Voluntários, objetivando com seus recursos a extinção de incêndios e outras calamidades. Pessoal inexperiente e heterogêneo, mas que com bravura e abnegação cumpriu os deveres do ofício.
Ao sinal dos sinos, acorriam de diferentes pontos da cidade, arrastando suas bombas ou as tracionando por muares para o local sinistro. Brandindo suas machadinhas golpeavam as vigas carbonizadas, rompendo a muralha de fumaça com jatos d'água dentro de uma chuva de madeira em combustão, indiferentes às chamas que chamuscavam as mãos e faces.
Balançando, pendurados numa escada de corda, travavam com as labaredas uma luta sobre-humana.
Esses voluntários do dever, heróis anônimos, após relevantes serviços prestados à comunidade curitibana, dissolveram em 1901 a prestativa sociedade, por falta de recursos.
Em 23/03/1912, foi sancionada a Lei 1.133, que criou na Capital do Estado do Paraná o Corpo de Bombeiros. Somente em 14 de julho daquele ano, foi inaugurado o quartel, na esquina das Ruas Cândido Lopes e Ébano Pereira. Foi seu primeiro comandante o Major Fabriciano do Rego Barros.
Em 04/06/1951, realizou-se a mudança para a Av. Visconde de Guarapuava, esquina da Rua Nunes Machado. Antigo alojamento do 14° Regimento de Cavalaria e 5° Batalhão de Engenharia do Exército Nacional e, pr último, sede da Guarda Civil do Estado.
Quem é da época não esquece as figuras carismáticas do saudoso tenente João Alexandre da Silva, dirigindo a "bomba a vapor", apelidada de Maria Bufante, e do tenente José Theóphilo da Silva, dirigindo a auto-bomba Merryweather, ainda em condições de prestar bons serviços.
Por quase três lustros fui bombeiro. Agora, lembro que vi de perto a carreira de sacrifícios imposta aos soldados do fogo e o espírito desprendido que os anima nessa luta. Dessas missões, por exemplo, ainda estão bem vivos, em nossa memória, os incêndios florestais ocorridos em setembro de 1963.
A operação "Paraná em Flagelo" contou além de praças e oficiais do Corpo de Bombeiros, da PMER do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, com técnicos vindos de toda parte do Brasil, de Mr. Lownder, Chefe dos Serviços de Combate a Incêndios Florestais dos EE.UU e sua equipe, da população civil das localidades mais antigas, de elementos do Centro de Adestramento Marques de Leão da Marinha de Guerra do Brasil, e dois helicópteros do Porta Aviões Minas Gerais.
Uma verdadeira operação de guerra. Atuando com todas as condições operacionais desfavoráveis, os bombeiros deixaram um exemplo marcante no socorro aos flagelados e no combate sem trégua ao fogo que, mesmo assim, fez vítimas e causou danos.
Nunca esquecerei tanta dedicação e tanto empenho na proteção dos valores fundamentais da pessoa e do meio ambiente.
(Texto do engenheiro Alide Zenedin, coronel da Polícia Militar do Paraná, na reserva / Foto: Arquivo Público do Paraná)
Paulo Grani

CONHECENDO OS PRIMÓRDIOS DO HOSPITAL GERAL DE CURITIBA

 CONHECENDO OS PRIMÓRDIOS DO HOSPITAL GERAL DE CURITIBA


CONHECENDO OS PRIMÓRDIOS DO HOSPITAL GERAL DE CURITIBA
Em 01/07/1862, foi criada a “Enfermaria Militar do Corpo de Guarnição do Paraná”, para atender ao aumento expressivo dos soldados efetivos locais oriundos da reestruturação do Exército em distritos militares.
Instalada na antiga Rua Aquidaban, atual Rua Emiliano Perneta, a Enfermaria Militar perdurou até 1890 quando foi criado o Hospital Militar de 2ª classe do 5º Distrito Militar do Paraná e consequente transferência para um prédio na antiga Praça da República, hoje Praça Rui Barbosa, lá permanecendo por mais de 30 anos. Naquela época o Hospital desenvolveu intensa atividade e relevante participação na vida da comunidade, ao ponto de o local ficar conhecido como “Praça do Hospital”.
O Hospital Militar, nesse período, participou ativamente no atendimento às vítimas dos conflitos ocorridos na região, como a Revolta da Armada (1894), a Guerra do Contestado (1912-1916) e o Movimento Tenentista (1930-1932), destacando-se, ainda, no atendimento à população civil durante as epidemias de cólera e gripe espanhola de 1918.
O crescente aumento dos efetivos na guarnição levaria à aquisição de um novo terreno e a construção de uma edificação mais moderna, em estrutura pavilhonar, conforme a orientação arquitetônica da época. Assim surgia em 02 de junho de 1924, com a nova reestruturação do Serviço de Saúde do Exército, o Hospital Militar de Curitiba, construído num terreno de aproximadamente 24.000 m², limitado pelas ruas Vicente Machado, Francisco Rocha, Teixeira Coelho e Gutemberg, no bairro do Batel, cuja localização permanece até os dias de hoje.
Na foto de 1929, suas instalações em forma pavilhonar. Em 1956, em uma reforma foi construído o pavilhão principal e, em 1982 houve a construção do edifício de cinco andares, onde hoje funcionam o pronto atendimento e os ambulatórios médico e odontológico.
(Fonte: hgec.eb.mil.br

O ESQUECIDO REPENTISTA JOÃO DA TAPITANGA Em 1893, aos 22 anos, João China nascido em Natal, veio viver em Curitiba,

 O ESQUECIDO REPENTISTA JOÃO DA TAPITANGA
Em 1893, aos 22 anos, João China nascido em Natal, veio viver em Curitiba,


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Publicação em periódicos de Curitiba, por ocasião do seu falecimento.

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O ESQUECIDO REPENTISTA JOÃO DA TAPITANGA
Em 1893, aos 22 anos, João China nascido em Natal, veio viver em Curitiba, a bela capital paranaense, aonde chegou transferido pela repartição pública que trabalhava.
Naquela época Curitiba era uma cidade com cerca de 11.500 habitantes. Muitos dos que ali moravam eram imigrantes alemães, italianos, poloneses e ucranianos, que influenciavam a sociedade, a cultura e a economia da capital paranaense. Mesmo convivendo entre pessoas com maneiras de falar tão distintas e aspectos bastante diferenciados aos encontrados em Natal, João China não sentiu muitas dificuldades em se adaptar a nova localidade e logo começou a fazer várias amizades entre os curitibanos, apresentando-se com o codinome de João da Tapitanga.
Ativo politicamente, se colocou ao lado do marechal Floriano Vieira Peixoto, presidente do Brasil durante a chamada Revolução Federalista. Prontamente, ingressou na nova unidade militar denominada Batalhão Patriótico 23 de outubro que foi criada para combater os federalistas, ingressando com a patente de tenente.
No meio dessas movimentações militares, segundo os jornais da época, o tenente, depois promovido a capitão fiscal, João da Tapitanga esteve em ação em fins de 1893, na região de Villa Tamandaré e esteve no Cerco da Lapa, mas não teve a cabeça cortada.
O Repentista Curitibano
Aparentemente a participação militar de João da Tapitanga na Revolução Federalista o colocou em um patamar extremamente positivo junto a sociedade curitibana. Este patamar se ampliou com a sua arte, seu jeito tranquilo, carisma e sua boêmia.
Um dos paranaenses de renome que conviveram com o potiguar foi Francisco Ribeiro de Azevedo Macedo, então Procurador-Geral do Estado, escritor, um dos fundadores e professores da Universidade do Paraná (atual UFPR). Azevedo Macedo e sua esposa Clotilde Portugal Macedo, comentaram em 1913 que João da Tapitanga era considerado um jovem poeta talentoso, que versejava com uma espontaneidade extraordinária e era tido como um homem de maneiras simples e honesta.
Era conhecido simplesmente e carinhosamente pelos amigos curitibanos como “Tapi”. Boêmio, tinha no álcool um grande amigo e o seu maior inimigo, que inclusive o levou a demissão dos Correios e Telégrafos. Não era difícil encontrá-lo na Confeitaria Bube, verdadeiro areópago e centro da boemia curitibana, localizado na antiga Rua das Flores, depois Rua 15 de novembro, cujo proprietário, Roberto Bube, lhe havia presenteado com uma cadeira cativa, pois atraia os clientes.
Gostava de participar de reuniões politicas, sempre se colocando como republicano fiel e seguidor ardoroso do marechal Floriano Peixoto. Não era raro nestas reuniões que Tapitinga proferisse discursos arrebatadores com seu forte sotaque nordestino repletos de entusiasmo, recebendo aplausos dos presentes e destaque na imprensa curitibana.
Para Azevedo Macedo, o poeta João da Tapitanga chegou ao Paraná já homem feito, com seu espirito já formado e havia estudado longe de Curitiba, mas o que ele trouxe de sua terra natal, a sua arte do repente, impressionou os curitibanos. Chamava atenção quando alguém pedia a Tapitanga um verso, ou lhe davam um mote, que ele respondia sem pestanejar com uma grande quantidade de versos “cheio de imagens arrojadas, em redondilha menor”, como registrou Azevedo Macedo.
Outro contemporâneo de João da Tapitanga, pessoa de renome em Curitiba, foi Euclides da Mota Bandeira e Silva, jornalista, poeta e membro da Academia Paranaense de Letras. Este considerava os repentes do potiguar algo que pelo sul era pouco conhecido e chamava atenção. João da Tapitanga deixou em Bandeira o registo de ser um “incorrigível boêmio, perdulário de rimas e de verves, o qual foi durante alguns anos o bardo popular da cidade”. Comentou também que ele era totalmente autêntico, que “não se prestava a digressões acadêmicas, recheadas de complexidades psicológicas e coisas campanudas sobre escolas literárias” e que “escrevia para gente simples”.
Euclides Bandeira, em outra ocasião, disse que o repentista natalense trabalhava, ou como ele mesmo dizia, “ganhava dinheiro quando este lhe faltava”, em jornais curitibanos, ou passando um tempo como um barnabé que não se preocupava muito com a folha de ponto na Secretária do Interior do Paraná e ganhando uns cobres produzindo folhetins com versos de sua lavra. Um deles, intitulado “Alzira”, fez sucesso e chamou atenção dos curitibanos em 1896, cujo um dos trechos foi assim escrito;
“Alzira, fitando o espaço
Cheios de pontos de luz,
E as mãos unidas em cruz
Sobre o pequeno regaço,
Pede ao azul transparente,
Onde os astros ascendem,
Que guarde a alma inocente
Das flores que já morreram…”
Em 1897, o 39° Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro partiu de trem de Curitiba em direção ao porto de Paranaguá, seguindo depois para a Bahia de barco, com a missão de participar da Campanha de Canudos. Em meio à multidão delirante que assistia à partida dos militares, Tapitanga, com seu sotaque forte nordestino (algo que nunca perdeu e nem escondia), proferiu um inflamado discurso em prol dos soldados e foi intensamente ovacionado.
O repentista natalense casou com uma jovem prendada e humilde chamada Jesuína Silva da Cunha e tiveram um filho e duas filhas, cujos nomes na época não eram nada convencionais; Jesoão, Joina e Transvalina. Morava em uma casa alugada na Rua da Assembleia, atual Alameda Dr. Muricy, centro de Curitiba.
Ainda em 1896, Tapitanga criou uma escola na Colônia Agua Verde, hoje um bairro de Curitiba. Esta área, então periférica, era pouco assistida pelas autoridades e os que ali viviam recorriam ao uso de abaixo-assinados para reclamarem, denunciarem e suplicarem pelas mais diversas melhorias na sua região. Um destes abaixo-assinados, produzido em 27 de fevereiro de 1896, foi enviado ao então govenador paranaense, José Pereira Santos Andrade, solicitando a subvenção para uma escola particular que era mantida pelo professor João da Tapitanga desde o mês de janeiro daquele ano:
“Neste sentido, Nós abaixo assignados, moradores na Colônia Água Verde, a qual não tem actualmente escola nem subvencionada pelo Estado nem pública ou contractada pelo mesmo, mas onde há um ellevadissimo número de meninos de ambos os sexos, vimos confiadamente pedir a VEª para que seja subvencionado o estabelecimento de ensino n’esta colônia dirigido pelo cidadão João da Tapitanga desde o princípio de Janeiro último a contento de todos, e onde já se vê o ellevado numero de alumnos que se verifica dos mappas junctos fornecidos pelo mesmo cidadão.”
João da Tapitanga faleceu de uma febre, provavelmente adquirida indiretamente das mazelas advindas do álcool, na noite de 28 de setembro de 1901, aos 31 anos de idade. Foi enterrado no cemitério municipal de Curitiba e sua morte foi extensamente noticiada na imprensa local. Na edição de 30 de setembro do jornal “A República” de Curitiba a um extenso necrológico na 1ª página sobre a vida deste repentista potiguar. Vale ressaltar que sua esposa Jesuína ficou em uma situação de extrema pobreza, que foram socorridos pelos amigos que levantaram fundos para a compra de uma casa. Seu nome foi sendo aos poucos esquecido em Curitiba.
Sua obra ficou dispersa, não foi reunida pelos amigos e parentes. João da Tapitanga jamais retornou ao Rio Grande do Norte e, aparentemente, não voltou a manter contato com a sua família em Natal. Em uma correspondência datada de 23 de março de 1932, a pedido da família de Tapitanga em Natal, o poeta potiguar Henrique Castriciano solicita ao critico literário e ficcionista curitibano José Cândido de Andrade Muricy, alguma informação do repentista potiguar. À qual não sabe-se se houve alguma resposta."
(Extraído de tokdehistoria.com.br)
Paulo Grani.

Na esquina da Rua Cruz Machado com Rua Dr. Muricy, a construção do edifício mais estreito de Curitiba, em 1940. (Foto: Acervo de Ceslau Makovski) Paulo Grani

 Na esquina da Rua Cruz Machado com Rua Dr. Muricy, a construção do edifício mais estreito de Curitiba, em 1940.
(Foto: Acervo de Ceslau Makovski)
Paulo Grani